Edição 254 | 14 Abril 2008

Independência do jornalista: uma possibilidade ou uma necessidade?

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Patricia Fachin

Para o jornalista Antonio Biondi, o compromisso com a verdade dos fatos deve estar acima de orientações políticas e ideológicas

Para Antonio Biondi, jornalista, a mídia livre deve demonstrar seu compromisso com a sociedade, com a democracia. Essa imprensa “precisa noticiar o que não está nos grandes jornais, no Jornal Nacional, dar voz aos sem-voz, mostrar aos cidadãos a situação real da sociedade.”
Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, ele critica os meios de comunicação tradicionais da América Latina. E argumenta que os veículos privados “se colocaram a favor dos governos que varreram o continente com o neoliberalismo na década de 1990”.
No debate sobre a regulamentação ou não da profissão de jornalista através do diploma, ele demonstra-se favorável. Entretanto, alega que a atividade pode ser feita também por outras pessoas que se sintam no direito de comunicar. Levando em consideração os ensinamentos de seu pai, o jornalista Aloysio Biondi, ele reitera a necessidade de independência do profissional. “O Biondi pagou caro por esta opção, perdeu muitos empregos, foi muitas vezes boicotado por veículos onde trabalhou, por buscar se manter independente. E este segue sendo um desafio a ser enfrentado pelos jornalistas hoje.”
Biondi é graduado em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo - ECA/USP. Atualmente, cursa Direito na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo - FD/USP, é editor da Revista Sem Terra e coordena o projeto “O Brasil de Aloysio Biondi”, em memória e homenagem à produção profissional do pai. O site O Brasil de Biondi (www.aloysiobiondi.com.br) disponibiliza mais de 700 textos sobre o jornalista.

IHU On-Line - O senhor criticou a vinda de Marcel Granier, dono da RCTV,  ao Brasil, para defender, a “liberdade de imprensa”. Como avalia os oligopólios na mídia latino americana? Os grupos que compõe a grande imprensa estão se unindo para permanecer no controle midiático?
Antonio Biondi
- Os grandes grupos de comunicação privada da América Latina se colocaram a favor dos governos que varreram o continente com o neoliberalismo na década de 1990, se mostraram inteiramente em sintonia com o Consenso de Washington, apoiaram as privatizações do patrimônio público, a Alca, a submissão aos interesses dos EUA. Com a chegada ao poder dos governos de orientação (mais ou menos) progressista na região, os oligopólios da mídia comercial têm se empenhado em combater e retardar toda sorte de reformas que melhorem as condições de vida do povo, especialmente da população mais pobre. Em nome de uma suposta defesa da liberdade de imprensa e da democracia, penso que estes grupos acabam por violar frontalmente os princípios democráticos.

O golpe de 2002 na Venezuela é exemplar neste sentido, contando com uma participação direta e intensa da grande imprensa. Em cada país, em cada ano de mandato dos governos com orientação progressista, este descompasso entre os interesses da população e da mídia comercial se reafirma. Outra situação exemplar neste sentido foi o Plebiscito sobre a reestatização da Vale do Rio Doce,  que contou com mais de 3 milhões de participantes, apontou, por ampla maioria, pela perspectiva popular, pela reestatização, mas pouco foi noticiado pela grande mídia brasileira – quando não ridicularizado por ela.
Não chego a ver um processo mais objetivo de união dos grandes grupos para ampliar ou manter seu controle sobre os governos e a sociedade. Na Venezuela, isto parece ocorrer de forma mais organizada. Na Bolívia, acredito que também. O que me parece certo é que cada grande grupo tem buscado ampliar seu alcance, seu faturamento, seus lucros, suas áreas de atuação, e, junto a isso, seu poder de influência. A orientação político-ideológica das empresas, contudo, acaba levando a uma coincidência de interesses e de pressões sobre os governos. E, nos momentos mais agudos, como as eleições ou plebiscitos, realmente os grupos se organizam de forma mais unificada e corporativa.

IHU On-Line - O senhor diz que os meios de comunicação devem cumprir regras. Quais são elas? Elas devem ser padronizadas tanto para a mídia livre quanto para a grande mídia?
Antonio Biondi
- Se os meios de comunicação respeitassem a Constituição Federal, a legislação de seus respectivos países, os direitos humanos, o seu leitor, já estaria ótimo. E isso vale tanto para a grande imprensa quanto para a mídia livre. Padrões éticos, de valorização da democracia e de uma sociedade mais justa e menos desigual deveriam orientar o trabalho de cada jornalista, de cada comunicador.
A comunicação é um dos setores da América Latina ao qual a democracia ainda não chegou. E a democratização da comunicação é ponto fundamental para aprofundar as melhorias nas demais áreas. Não estou aqui defendendo a extinção da mídia privada. Mas que, seguindo-se o que determina nossa Constituição, tenhamos no país um sistema público de comunicação, um sistema estatal e um sistema privado, em lugar de continuarmos a conviver com o oligopólio das empresas privadas, controlando a informação e os debates públicos no Brasil.

IHU On-Line – Qual é o papel da mídia livre? Ela deve lutar para combater os monopólios midiáticos ou sua preocupação deve restringir-se a veicular o que a grande imprensa não informa?
Antonio Biondi
- A mídia livre deve ser plural, diversa, democrática, colaborar para construir uma sociedade melhor. Nesta empreitada, ela acabará por se chocar com os monopólios midiáticos. Não se trata simplesmente de um papel a cumprir, mas uma conseqüência de seu compromisso com a sociedade e com a democracia. A mídia livre precisa noticiar o que não está nos grandes jornais, no Jornal Nacional, dar voz aos sem-voz, mostrar aos cidadãos a situação real da sociedade. O direito à informação é um dos pilares do direito à comunicação, uma bandeira que diversas entidades e movimentos, entre elas o Intervozes,  lutam para que seja efetivado e respeitado no Brasil. Para responder a esta situação, é preciso noticiar tanto as pautas centrais do trabalho da grande imprensa quanto as histórias que esta mídia comercial omite ou distorce, por interesses privados. As lutas dos movimentos sociais servem para as duas situações. Uma outra visão dos fatos é tão importante para o cidadão quanto a visão dos fatos que não estão na agenda da mídia comercial – por interesse deliberado, ou mesmo por incapacidade e incompetência.

IHU On-Line - Que novos rumos devem cercar a atividade da imprensa alternativa? O movimento por uma mídia livre, independente, mostra que a imprensa brasileira pode seguir outro caminho no decorrer dos anos?
Antonio Biondi
- Creio que a mídia livre deva orientar seu trabalho sempre com foco no interesse público, na construção de um mundo mais justo e menos desigual. Para isso, ela precisa buscar sempre sua independência. O compromisso com a verdade dos fatos deve estar acima de orientações políticas ou ideológicas – não vale repetir o modo de fazer comunicação dos grandes grupos com sinal trocado. Ela também deve buscar fortalecer seu trabalho de reportagem, de obter e construir suas informações por pernas próprias – especialmente indo à rua, ao lugar onde as coisas acontecem. Fazer sempre igual, repetir bordões e palavras de ordem muitas vezes não ajuda a resolver os problemas, a superar os desafios que a sociedade enfrenta.

Creio ser necessário, também, o respeito aos direitos trabalhistas, muitas vezes uma utopia nas redações dos veículos da mídia livre. Para responder a todos esses desafios, evidentemente os veículos precisam se estruturar, e isso depende de políticas públicas e recursos voltados a democratizar a comunicação, o acesso à informação, a diversidade e a pluralidade neste tema. E por isso é muito bem-vinda a iniciativa de debates e ações conjuntas dos veículos de mídia livre e dos movimentos comprometidos com a luta pela democratização da comunicação e pela efetivação do direito à comunicação. Caso os primeiros passos desenhados por esta articulação (sobretudo, mas não somente via os encontros do Fórum de Mídia Livre em vários estados do país) se consolidem, será muito positivo para o Brasil.

IHU On-Line - Quando o senhor trata da liberdade de expressão para todos, quer dizer que o exercício da profissão de jornalista pode e deve ser feita até mesmo por pessoas que não dispõe do diploma?
Antonio Biondi
- A regulamentação da profissão de jornalista é de suma importância, tanto quanto a luta pelo direito à comunicação para todos os cidadãos. Esta é uma visão pessoal, que construí ao longo da minha militância no Intervozes, no aprendizado com os companheiros da entidade e de outros movimentos sociais, na convivência com comunicadores populares. Creio ser um equívoco a defesa da idéia de que só aqueles que dispõem de um diploma possam trabalhar em veículos de comunicação. Esta é uma visão que dialoga essencialmente apenas com a realidade dos grandes veículos, das redações dos grandes grupos. Como fica a situação nas rádios comunitárias? Nos jornais dos movimentos? Isso sem falar nos blogs, na infinidade de novas possibilidades de comunicação trazidas pelas novas tecnologias. Somente jornalistas diplomados podem trabalhar, fazer a comunicação nestes espaços? Esta defesa não só é um ataque à avaliação de que a comunicação é um direito humano fundamental, como também não possui lastro na vida real. As entidades que colocam o diploma acima deste direito realmente acreditam que os jornalistas queiram trabalhar nas rádios comunitárias, nos veículos dos movimentos sociais? Acredito que, se o diploma fosse ser efetivamente exigido nestes espaços, as entidades comunitárias e os movimentos simplesmente ficariam sem ter meios de se comunicar.

Quanto à regulamentação da profissão, à luta pelos direitos dos jornalistas, o que me parece central é enfrentar a crescente precarização do trabalho do jornalista. Em diversas situações, o diploma pode ajudar nisso, mas não creio que possa ser visto como algo maior do que esta luta contra a precarização. Hoje, não estamos vivendo o problema de haver mais profissionais sem diploma do que com diploma nas redações – mas certamente estamos vivendo o problema de crescer cada vez mais o número de pessoas sem registro na carteira de trabalho ou, pior, trabalhando como se fossem pessoas jurídicas que prestam serviço às empresas de comunicação.

IHU On-Line - Seu pai, Aloysio Biondi,  sempre se manteve ideologicamente independente dos meios em que trabalhava. O senhor acha que isso ainda é possível? Para manter o emprego, muitos jornalistas se submetem a manter posicionamentos contrários aos seus princípios? É possível resolver esse impasse entre veículos e jornalistas?
Antonio Biondi
- A independência do jornalista não deve ser vista como uma possibilidade, mas como uma opção, uma necessidade. E isso era assim ontem, é assim hoje. O Biondi pagou caro por esta opção, perdeu muitos empregos, foi muitas vezes boicotado por veículos onde trabalhou, por buscar se manter independente. E este desafio, que ele enfrentou ao longo de 44 anos de jornalismo, entre as décadas de 1950 e 1990, segue sendo um desafio a ser enfrentado pelos jornalistas hoje. Não tenho uma fórmula para resolver esta questão, cada veículo possui sua orientação, seus interesses, cada pessoa também. Mas certamente isso pode ser mediado. Certamente, há graus diferentes de contradição entre o que uma pessoa acredita e o que ela escreve em seu trabalho. Uma coisa é o jornalista simpatizar com um partido e ter de noticiar que um integrante da sigla é corrupto. Outra é o jornalista ser obrigado a mentir a fim de atender a uma ordem do editor ou aos interesses do veículo. Isso é inaceitável. Penso que o jornalista pode tanto defender seu direito de se recusar a escrever sobre determinado assunto, por exemplo, por conflito de interesses, quanto pode pedir demissão quando se vir obrigado a faltar com o público, com a verdade, com a ética.
Um caminho importante para diminuir a solidão do jornalista nestas situações é a democratização dos veículos, a democratização da comunicação. Quanto mais transparente for o veículo, quanto mais a sociedade souber como aquele espaço – assim como a área em geral funciona –, menos oprimido o profissional se verá, e mais fidedignas serão as informações. Por outro lado, a democratização interna dos veículos, com diálogo, abertura, construção coletiva da informação, pode ajudar muito também. E, para quem acha que isso é impossível na grande mídia, ou na mídia livre, eu digo que é, sim, possível. E sugiro a leitura do livro Vozes da democracia,  lançado em 2006 pelo Intervozes. No livro, uma das histórias contadas sobre o papel da comunicação na redemocratização do país relata a trajetória do jornal Diário da Manhã, de Goiânia, nos idos de 1983. A reportagem, feita por dois grandes amigos comunicadores, Aloisio Milani  e Rodrigo Savazoni,  demonstra como a democratização do jornal, interna e externamente, provocou uma verdadeira revolução no veículo, nos jornalistas que o faziam, na cidade. A iniciativa foi capitaneada pelo notável jornalista Washington Novaes,  contando também com a participação do Biondi, do Marco Antonio Coelho,  do Lauro Veiga Filho.  Durou pouco, mas fica para sempre como um exemplo a ser estudado, aperfeiçoado, seguido. 

IHU On-Line - Biondi dizia ainda que a grande imprensa tinha um pacto fechado com o governo. O senhor concorda com esse posicionamento? Que pacto seria esse?
Antonio Biondi
- Se a fala a que você se refere diz respeito ao período dos governos Fernando Henrique Cardoso, realmente a avaliação do Biondi me parece correta. Difícil termos visto – e espero que seja difícil que vejamos – outros períodos em que os interesses das grandes empresas de comunicação tenham se ajustado tanto às políticas implantadas pelo governo FHC. A agenda neoliberal, os ataques ao Estado, aos servidores públicos, aos movimentos sociais, as privatizações, o achaque aos mais pobres, o favorecimento aos amigos do rei. Tudo foi feito de forma impiedosa pelo governo tucano, e o resultado foi desastroso. O país ficou mais pobre, nossa moeda quebrou, a sociedade perdeu esperanças, o sonho de um grande Brasil foi ficando para trás. E a complacência dos veículos da grande imprensa foi tamanha que fica difícil olharmos para o período e não vermos um trabalho conjunto entre governo e veículos, uma ação orquestrada de defesa de uma agenda política comum. Para isso, os veículos não se furtaram a omitir informações, a deturpar os fatos, a mentir. O livro O Brasil privatizado (São Paulo: Perseu Abramo, 1999), de Aloysio Biondi, traz casos exemplares neste sentido, demonstrando como imprensa e governo atuaram em total sintonia.

IHU On-Line - Qual é a maior dificuldade de fazer um jornalismo sério e preocupado com questões relevantes para o debate social, no Brasil? A mídia brasileira se tornou corporativa ou ela sempre foi assim, desde os anos da conquista da “liberdade de imprensa”?
Antonio Biondi
- As dificuldades são muitas e os desafios, enormes. Penso que a grande mídia privada sempre defendeu seus interesses e os da classe que ela representa, mas o interessante do período mais recente é que a população começou a se colocar de forma mais efetiva contrária a uma imprensa manipuladora. Isso se deve tanto ao aumento da circulação das informações, à conquista da democracia fortalecida pelas novas tecnologias, quanto ao avanço da conscientização dos cidadãos. Deve-se, também, aos movimentos que lutam para transformar este campo. Agora, cada grupo de mídia sempre terá seus interesses. Isso é até legítimo, mas é preciso e correto que eles fiquem claros para a população. A relação entre governo e empresas de comunicação, muitas vezes de dependência mútua, precisa ser norteada pelos interesses públicos, não pelos interesses de ocasião. O atual governo não enfrentou efetivamente esta questão ainda, de democratizar o setor em seus recursos, em sua legislação, ao que parece temendo a reação dos grandes grupos de comunicação. Houve alguns avanços importantes, como a criação da TV Pública (a Empresa Brasil de Comunicação) e na linha de trabalho adotada pela Radiobrás, especialmente na Agência Brasil. Também tivemos retrocessos, como no caso da criminalização crescente às rádios comunitárias. Ou seja, a democratização das comunicações é um desafio ainda completamente presente, e em tempo de ser enfrentado. Quem sabe, a realização em 2008 ou 2009 da 1a Conferência Nacional de Comunicação, defendida pela sociedade civil, possa nos ajudar neste sentido.

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