Edição 254 | 14 Abril 2008

Mardilê Fabre

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André Dick

Editoria de Poesia

A poeta Mardilê Friedrich Fabre nasceu em Cachoeira do Sul (RS), em 1938. Bacharel e licenciada em Letras Neolatinas, lecionou em várias instituições de ensino das redes pública e particular. Exerceu, no Instituto Humanitas Unisinos, a atividade de revisora e e participou de antologias de escritores. Escreveu Literatura gaúcha em síntese (São Leopoldo: Engenho,1994) e co-organizou, com Rosa Maria Serra Bavaresco e Águeda Bichels, o livro Palavras aos antigos alunos: reflexões do ser no agir (Porto Alegre: Renascença, 2006), do qual também é co-autora.

Mardilê também publica seus textos em sites, na internet, como Recanto das Letras (www.recantodasletras.uol.com.br), produzindo poemas de todos os tipos, transitando pelo verso livre, pelo soneto, até as formas orientais do haicai e do tanka. Aqui neste espaço, falaremos um pouco dessa influência oriental em sua poesia, mostrando uma qualidade de sua síntese e eficácia. O haicai é uma forma originalmente japonesa de três versos. Alguns escritos de Mardilê que seguem esse modelo lidam com rimas, como nos trabalhos de Millôr Fernandes, Guilherme de Almeida e Paulo Leminski. Isso confere, ao mesmo tempo, um sentido apurado de observação e um desfecho extremamente eficaz para alguns deles. Lemos, por exemplo, em alguns haicais de Mardilê imagens referentes à união entre sujeito e natureza. Vejamos, por exemplo: “Dia de neblina... / Não vejo o verde das árvores, / Tampouco a colina”. Ou “Límpida cascata, / Como um véu cai pela rocha / E faz a cantata”. A calmaria do sujeito também é buscada em versos que procuram certa luminosidade: “Hoje o mar acordou / afagado pelo sol. / E calmo ficou”. Também em “No sol que reluz, / a flor se curva e sorve água / do riacho em luz”. Há, também, a mudança de estações – típica do haicai – no belo “O inverno chegou. / Embranqueceram os campos. / E o verde apagou”. Ou no término dessa estação: “Começa o degelo. / As flores se abrem felizes. / Dispensam modelo”. E o início da primavera: “O jardim desperta, / primavera colorida. / Eis a descoberta”. Mardilê também sintetiza certas paisagens de verão, com a presença de pássaros e insetos: “Verão sem igual / Na tarde silenciosa, / ouve-se o pardal”, “Durante o verão, / ilumina o vaga-lume / toda a escuridão”. E lida com um bom-humor referente ao inverno: “No meio da neve / elegância de casaca. / Ao frio se deve”.  Mardilê utiliza também um trabalho de cores: “No tapete verde, / salpicado de vermelho, / brotam os valverdes”. Além do olhar minucioso, impactando com a aliteração em “SuSpeNSo No ar, / o COlibri multiCOr / da flor Suga o nÉCtar” (veja a sonoridade em maiúsculas). Como no haicai japonês, há uma união intrínseca entre sujeito e a natureza, sobretudo as flores.

Segundo Paulo Leminski, no texto “Click: zen e a arte da fotografia” (In: Anseios crípticos. Curitiba: Criar Edições, 1986), “o mundo que o haicai procura captar é um mundo objetivo, o mundo exterior. Um mundo de coisas onde o eu está quase sempre ausente, sujeito oculto, elidido. Mas não é um mundo morto, uma mera descrição. Por trás das objetividades do haicai, sempre pulsa (sem se anunciar) um Eu maior, aquele eu que deixa as coisas serem, não as sufoca com seus medos e desejo, um eu que quase se confunde com elas”. Isso porque, continua Leminski, o que o poeta faz por meio do haicai “é suspender os egoísmos da subjetividade para permitir que a realidade se transforme em significado”. Isso vai ao encontro do que Roland Barthes apresenta em A preparação do romance I – Da vida à obra (São Paulo: Martins Fontes, 2005): “[...] o haicai é o próprio sujeito, uma quintessência da subjetividade, mas não é o ‘autor’”, pois este se liberta da necessidade de autoria. Ou seja, trata-se, como ainda diz Leminski, de um “eclipse da retórica”, “uma unidade de informação quase pura, valorizando o “fragmentário e o ‘insignificante’, o aparentemente banal e o casual, sempre tentando extrair o máximo de significado do mínimo de material, em ultra-segundos de hiperinformação”.

Além de haicais inéditos, Mardilê enviou, especialmente à IHU On-Line, alguns tankas, que possuem, desde a origem japonesa, cinco versos: um terceto e um dístico. O terceto deu origem do haicai, ou seja, o tanka é o pai deste. Ambas as formas dispensam título. No Brasil, um livro de tankas conhecido é Pequeno tratado de brinquedos (São Paulo: Iluminuras, 1996), de Wilson Bueno. Trata-se de um poema menos descritivo do que o haicai, ou seja, trabalha mais diretamente com a emoção do sujeito.

Cada outono tinge
de amarelo todo o chão,
que não o ver finge.

Tanka 12

Vivo intensamente.
Uno energia e coragem
e afasto os obstáculos.
 Um a um gotejam os dias
 no meu tempo permanente...

 

Árvores de outono
olham as águas do rio.
Acordam do sono.

 

O outono apontou.
As folhas são testemunhas.
O rio esfriou.

 

Tanka 14

Pinto em arabescos,
na grande tela da vida,
cenas de emoção.
 Meu pincel rasteja cores
   e teu rosto emerge tímido.

Atrás da montanha,
silencioso põe-se o sol...
Divina façanha.


Ergue-se altaneira,
no árido e quente deserto,
singular palmeira.

 
No azul infinito,
pássaros voam sem rumo.
Procuram seus ninhos.

 
Cai em véu branca água.
Flui sobre verde tapete,
canta sobre as pedras.

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