Edição 254 | 14 Abril 2008

As brechas da mídia livre na academia

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Greyce Vargas

A repórter Greyce Vargas ouviu o que pensam alguns alunos do curso de Jornalismo da Unisinos sobre o tema da mídia livre/alternativa/ independente. E constata que a maioria dos alunos não acompanha a discussão. Confira:

O debate sobre mídia livre não é de hoje, mas ganhou força nos últimos anos entre os profissionais de comunicação. Ainda assim, não adentrou uma importante área: as salas de aula das universidades. O debate sobre mídia livre ainda passa um tanto quanto longe desse espaço de formação, mesmo que seja através dele que o movimento possa ganhar força. Nós, da IHU On-Line, fomos, então, conversar com alguns alunos de comunicação social para tentar compreender o que eles entendem sobre mídia livre e se estão “por dentro” desta discussão. As respostas foram praticamente unânimes: não estão acompanhando a discussão acerca da mídia livre. Onde, então, deveria estar tal debate? Apenas entre os profissionais dessas mídias? Se a mídia independente preza pela qualidade da informação e, principalmente, pelo fato de esta informação estar livre de “planos comerciais”, por que não está sendo inserida na academia?

Para realizar a enquete qualitativa, conversamos com alguns alunos de diferentes tipos: engajados politicamente, participantes de iniciação científica e aqueles que são ligados à universidade apenas pelo vínculo do curso. Enquanto alguns nos dizem que nem sabiam que havia um debate acerca do desenvolvimento da mídia livre, outros sabem que ele existe, mas não acompanham. Para Rafael Tourinho Raymundo, por mais que as pessoas saibam que existe a mídia livre e que não é difícil ter acesso a ela “continuam a assistir ao Jornal Nacional para se manter informadas”. O que é uma grande verdade, pois o Ibope revela que o Jornal Nacional manteve, no último mês, uma média de 35 pontos.

Partimos, então, para o debate do que deveria, então, ser uma mídia livre. Produzida somente por jornalistas? “Se assim o fosse, acredito que não seria de fato livre”, afirma Bruno Alencastro. “Acho que o termo ‘livre’ implica que o discurso está aberto para qualquer pessoa que queira se manifestar. Considero válida a participação de outras pessoas, que não jornalistas, que tenham idéias interessantes e saibam se expressar. No entanto, mesmo assim, o jornalista tem conhecimentos técnicos e intelectuais adquiridos no curso, então, no fim das contas, mídias feitas por jornalistas acabam ganhando mais credibilidade”, opina Rafael. Marcelo Conti enfatiza que toda vez que um jornalista de uma grande mídia faz uma pergunta a um profissional acaba sendo reducionista e espera uma resposta com base num dualismo. “Acho importante reconhecermos o jornalismo sendo feito por jornalistas, mas sem ignorar o mundo de informações que outras pessoas podem nos passar através de blogs, vídeos youtubísticos, álbum do Orkut”, disse Matheus Beck.

Diploma de jornalismo

“O diploma de jornalismo garante o mínimo. Isto é, ensinamentos acerca da sociologia, antropologia, história, entre outros. Agora, o que os jornalistas irão fazer com esses ensinamentos, já é uma outra história”, pensa Bruno. Mas, hoje, esse pedaço de papel é obrigatório por lei para que o exercício do jornalismo seja feito apenas por profissionais. Mesmo que não seja isso o que aconteça. Marcelo acredita que a importância do diploma é nula. “Passar por 40 disciplinas e apresentar um trabalho de conclusão não forma um jornalista. É preciso exercer a função com qualidade, não com quantidade de certificados”, comentou. Quem também contribuiu com o debate foi André Ávila. Para ele, “a formação dos futuros jornalistas não é, fundamentalmente, muito superior a quem tem experiência e não um diploma”.

Afinal, então, o que falta nos cursos de comunicação? “Deixar de lado a tentativa (suicida) de concorrer com os cursos técnicos e assumir o seu verdadeiro compromisso crítico e social, estabelecidos pelo código de ética dos jornalistas”, discorre Bruno. Ângelo Hector diz que o que falta é incentivo, pois o mercado de trabalho apresentado, que é o das grandes mídias, muitas vezes desilude os alunos. “Falta mais aprofundamento teórico. Um médico estuda todas as partes do corpo, independente do que exercer. Um jornalista se forma às vezes sem saber organizar um texto apropriadamente, coletar as fontes adequadamente. Isso é inadmissível”, relata Marcelo. André diz que “a graduação deveria formar profissionais com capacidades intelectuais, não com a simples capacidade de redigir de forma distinta o que leram ontem”. E Rafael finaliza: “Ainda temos muitos professores sem conhecimento real de mercado e muitos profissionais que não levam a teoria a sério. Também falta uma preocupação maior com a formação intelectual do estudante. Disciplinas de filosofia, sociologia e história são essenciais para que o jornalista em formação aperfeiçoe seu senso crítico e sua capacidade de questionar.”

Encontram-se aí muitas brechas para inserção do debate e, até, em alguns casos, para que, além de reflexão, se apresente a mídia livre. Quem começará?

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