Edição 254 | 14 Abril 2008

Não-fatos: notícias invisíveis

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Patricia Fachin

Para o jornalista Sergio Gomes, a pauta da imprensa brasileira está recheada de notícias dispensáveis

“Jornalistas devem estar atentos aos fatos relevantes e trabalhar para que cheguem ao conhecimento da sociedade.” A opinião é do jornalista Sergio Gomes. Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, ao avaliar as informações divulgadas pela grande imprensa, ele comenta que a mídia está repleta de “não-fatos”. Para ilustrar, lembra exemplos como a não divulgação de vitórias das organizações populares no âmbito do Poder Legislativo, que “dependem na seqüência da sanção do Executivo.”
Jornalista formado pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), em 1973, Sergio Gomes foi professor das disciplinas de Jornalismo Sindical, Comunitário e Popular mesma instituição de 1986 a 1992. Um dos fundadores da Oboré Editorial e seu diretor de 1978 a 1994, com atuação na área da imprensa sindical, é também coordenador de oficinas, cursos e seminários de jornalismo comunitário.

IHU On-Line - O senhor diz que a grande imprensa trata de “não-fatos”. Pode nos explicar melhor essa idéia?
Sergio Gomes
- Digo que a grande imprensa considera uma série de eventos, manifestações, situações, acontecimentos como não-fatos. Não os registra, não os considera como relevantes, não lhes dá nenhuma atenção. É como se não existissem. E isso tem constituído um padrão de conduta, pois tem sido assim, sistematicamente.
 
IHU On-Line - E que notícias a grande imprensa esconde? Por quê?
Sergio Gomes
- Não noticiam o que se passa nos ambientes de trabalho mesmo quando milhares de trabalhadores, todos os anos, venham a morrer devido às condições oferecidas pelos proprietários desses ambientes de trabalho. Não noticiam as políticas públicas voltadas para essa questão e para outras que estão inscritas na alma e na letra da Constituição de 88.
Não divulgam quando entidades e organizações populares conseguem alguma vitória no âmbito do Poder Legislativo (Câmaras de Vereadores, Assembléias Legislativas, Câmara dos Deputados, Senado) e que dependem na seqüência, como é natural, da sanção do Executivo.

Não informam as iniciativas que envolvam movimentos populares e universidades públicas.

Não noticiam fatos que possam estabelecer o nexo entre a luta sindical (maiores salários), as políticas públicas na área social e a recuperação do poder de compra da população que explica, por sua vez, a retomada do crescimento.
 
IHU On-Line - A mídia está perdendo sua responsabilidade social? Qual deve ser o comprometimento e a responsabilidade do jornalista com a sociedade, enquanto comunicador?
Sergio Gomes
- O jornalista deve estar atento aos fatos, aos fatos relevantes e trabalhar para que cheguem ao conhecimento da sociedade. Quanto ao fato de a mídia estar perdendo sua responsabilidade social, uma resposta precisa teria que dispor de algum termo de comparação (hoje e 10 ou 20 anos atrás; como as coisas vêm funcionando por aqui e como se dão em outros países). Para avaliação criteriosa, precisaríamos comparar estado por estado, região por região.
 
IHU On-Line - Muitos jornalistas que atuam na grande imprensa são taxados como irresponsáveis, manipuladores. Essas características devem ser atribuídas a eles ou aos veículos? É correto transferir a culpa para o profissional, mesmo que ele atue em determinado veiculo por questões não ideológicas?
Sergio Gomes
- Há jornalistas e jornalistas. Hemingway  dizia que coragem é a dignidade sob pressão. Paulo Pontes  (o teatrólogo que escreveu Gota d’água com Chico Buarque) afirmava que, quanto maior o número de opções, mais fiel é a pessoa a seus princípios; quanto menos opções, mais elásticos serão seus princípios. Cada jornalista deve avaliar quanto da sua dignidade está disposto a entregar às circunstâncias. E sentar no banco dos réus para ser julgado pela opinião dos outros ao longo do tempo. Como todos, aliás.
 
IHU On-Line - Como o senhor avalia as iniciativas da grande imprensa de criar blogs para os jornalistas? Essa iniciativa pode ser vista como uma atitude para concorrer com a mídia alternativa, já que essa consegue se disseminar muito mais através da internet?
Sergio Gomes
- Acompanhar o que o Luis Nassif  vem escrevendo sobre a Veja  talvez seja a melhor resposta que eu poderia dar a quem quer entender em profundidade o sentido dessa pergunta.
 
IHU On-Line – Quais são as maiores dificuldade para criar e manter mídias alternativas? Que medidas são fundamentais para democratizar os meios de comunicação?
Sergio Gomes
- Para criar, contar com um grupo de pessoas competentes e leais entre si.

Para manter, contar com recursos de fontes legítimas, gestão profissional e não perder de vista o interesse público. Para democratizar, é fundamental que o assunto seja tratado, pelo menos, em todos os meios que dizem estar ao lado da democratização da comunicação.

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