Edição 254 | 14 Abril 2008

Informar liberta

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Patricia Fachin, Greyce Vargas e Graziela Wolfart

Leonardo Sakamoto defende a importância de criar alternativas à mídia tradicional e de formar leitores críticos

“A primeira ação para que se tenha uma mídia livre é ter leitores livres e produtores de informação livres.” A afirmação é do jornalista Leonardo Sakamoto, em entrevista concedida por telefone para à IHU On-Line. Ele acrescenta que “todas as mídias pequenas têm um potencial muito grande. E nisso o papel da internet é fundamental. A capacidade trazida pela internet, a gratuidade da informação, a velocidade com que atinge públicos diferentes e que os mobiliza, é muito forte”.
Leonardo Sakamoto é jornalista e doutor em Ciência Política, pela Universidade de São Paulo (USP). Cobriu a guerra pela independência em Timor Leste e a guerra civil angolana. Foi professor do curso de jornalismo da ECA-USP e trabalhou em vários veículos de comunicação, tendo recebido prêmios na área de jornalismo e direitos humanos, como o Vladimir Herzog e o Prêmio Combate ao Trabalho Escravo. É também coordenador da ONG Repórter Brasil (www.reporterbrasil.org.br) e seu representante na Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo (Conatrae). Sobre sua experiência na ONG Repórter Brasil, ele declara: “Nosso objetivo não é com a fama, ou a glória. Nosso objetivo é com a função social da informação. Quanto mais gente atingir melhor, não importa de quem é a notícia, ou quem vai ganhar o prêmio jornalístico por ter soltado aquele ‘furo’”.

IHU On-Line - Como o senhor define mídia livre ou alternativa?
Leonardo Sakamoto
– Quando o termo “mídia alternativa” foi cunhado, estava claramente se referindo a uma possibilidade de existência de um outro canal de comunicação que não fosse o principal, da chamada “grande mídia”. A mídia alternativa nasceu, portanto, como uma alternativa aos meios tradicionais e convencionais de comunicação. Porque quando falamos de status quo em comunicação, não estamos falando apenas de conteúdo, mas de forma também. A mídia alternativa abrange, historicamente, um grupo de veículos no sentido de dar a eles a alcunha de uma outra linha de fazer jornalismo e comunicação. É claro que há uma série de outros pontos de vista que também incidem sobre esse tema da mídia alternativa ou mídia livre, que seria a mídia independente, aberta, sem amarras econômicas e financeiras. No entanto, essa é uma concepção pessoal e profissional dentro da nossa esfera de atuação aqui na Repórter Brasil. Os veículos “de esquerda” (e aqui eu uso esquerda não no sentido simplesmente político-partidário, mas no sentido de contestação) aceitam a alcunha de alternativa, outros preferem a alcunha de independente, ou livre. Eu aceito todas elas, no que diz respeito ao veículo Repórter Brasil, do qual faço parte, e não fico contradito com nenhuma. Queremos passar a idéia de um veículo de comunicação que proponha algo diferente, idéias diferentes, um fazer jornalístico diferente, e de uma forma que não esteja vinculado a nenhum grupo, partido, empresa ou linha econômica, a ponto de tornar-se dela seu servo e seu subserviente. 

IHU On-Line - Para que esses veículos cumpram seu papel, é fundamental que eles sejam apartidários?
Leonardo Sakamoto
– Não tem importância nenhuma que eles sejam partidários. Desde que deixem clara essa opção ao leitor. Um veículo pode adotar não só um partido político, mas uma causa, uma idéia, pode apoiar várias iniciativas. A mídia sindical tem uma importância histórica e adota uma postura forte também. De forma mais ampla, penso que a mídia, em geral, precisa demonstrar opinião e adotar uma postura. Falar do contrário seria mentira. As pessoas que fazem a imprensa não são seres externos à sociedade, à comunidade e ao grupo social em que vivem. Elas têm interesses, medos, frustrações. Falar que uma matéria é imparcial é ridículo. Por exemplo, você escolhe um grupo de fontes que acha importante. Esse “achar importante” é, por si, bastante subjetivo e sujeito a uma carga de opinião. O leitor deve saber claramente o que está comprando, como uma embalagem, pois o jornal é um produto. É importante que a sociedade brasileira crie veículos de comunicação que sejam alternativos uns aos outros. Por exemplo, no jornalismo francês temos, de um lado, o Libération, e, de outro lado, o Le Monde e o Le Figaro. Então, há opções. Dentro delas, é preciso garantir ao leitor uma pluralidade de opiniões, e assim se faz democracia.  

IHU On-Line - Que ações são imprescindíveis na luta por uma mídia livre e democrática?
Leonardo Sakamoto
– Há muitas correntes que acham que o mais importante é que o Estado garanta uma mídia livre e democrática. Quando falamos de democratização da comunicação, de fazer com que a informação chegue a um maior número possível de pessoas, de forma o mais plural possível, e que um maior número de pessoas possa ser protagonista dessa difusão de informação, estamos falando de uma questão bastante anterior. A primeira ação para que se tenha uma mídia livre é ter leitores e produtores de informação livres. Tecnicamente, todo mundo é produtor de informação, de notícia. Não somos apenas nós, jornalistas, os capazes de fazer essa produção de notícias. É claro que cada um faz esse “meio de campo” dentro da sua esfera de atuação, dentro da sua limitação estrutural e financeira. Para se chegar a essa mídia livre, é preciso criar oportunidades no sentido de formar pessoas, tanto para poder produzir quando para poder criticar a mídia. Precisamos, cada vez mais, criar leitores críticos, e, ao mesmo tempo, fomentar veículos ou formas de comunicação que extrapolem a grande mídia convencional. Também é necessário capacitar e formar jovens para poderem desenvolver seus próprios veículos comunitários, que podem ser jornais, rádios, internet. Criando essas pequenas alternativas, estaremos democratizando as formas de espalhar a informação. A partir daí, toda e qualquer iniciativa é conseqüência.

Diploma

Eu defendo totalmente o fim da necessidade do diploma jornalístico, e aí está uma grande sacada. Não defendo o fim da faculdade de jornalismo, de maneira alguma. Considero importantíssima. No entanto, mais importante ainda é tirar a necessidade, porque é uma forma simbólica de dizer claramente que é importante que se estude isso em uma universidade, mas não somos apenas nós, os doutores, que temos a capacidade de fazer essa intermediação. Se a sociedade conseguir perceber que ela pode ser emissora de informação e que ela pode mudar os veículos que estão aí através da sua crítica, teremos uma mídia livre.  
 
IHU On-Line – Como é, para você, estar à frente de um veículo que é dito pequeno, ou alternativo, que luta contra o trabalho escravo? Como você sente que uma mídia considerada pequena tenha uma luta tão forte?
Leonardo Sakamoto
– A Repórter Brasil trabalha muito com a questão do trabalho escravo, mas também com meio ambiente e a questão agrária. São temas muitas vezes periféricos. Nós e todas as mídias pequenas temos um potencial muito grande. E nisso o papel da internet é fundamental. A capacidade trazida pela internet, a gratuidade da informação, a velocidade com que atinge públicos diferentes e que os mobiliza, é muito forte. Conseguimos influir em políticas públicas, pressionar em aprovação de leis, pela condenação de culpados, pela libertação de trabalhadores, pela articulação entre setores. E conseguimos grandes soluções, porque temos a internet como parceira e instrumento de difusão. Ao mesmo tempo, temos grandes parceiros na grande mídia. A Repórter Brasil, em nenhum momento, teve algum tipo de conflito com a mídia convencional. Ela tem um comportamento de parceria muitas vezes. São pontos que se completam. Eles têm talvez alguma ação que podemos criticar, mas nos completamos, no sentido de que fazemos algo e eles se pautam muito pelo que fazemos, reproduzem o que fazemos. E nós fornecemos tudo o que nos pedem. Nosso objetivo não é com a fama, ou a glória. Nosso objetivo é com a função social da informação. Quanto mais gente atingir melhor, não importa de quem é a notícia, ou quem vai ganhar o prêmio jornalístico por ter soltado aquele “furo”. Acreditamos que a informação não tem apenas uma função social; ela tem uma função redentora. Informar liberta.    

IHU On-Line - Como as instituições de ensino podem contribuir para a formação de profissionais engajados na prática de comunicação comunitária, alternativa?
Leonardo Sakamoto
– A universidade tem o papel fundamental de fazer a ponte com a comunidade. Todo jornalista formado por uma universidade não é apenas um jornalista. Ele tem um potencial muito grande para discutir a mídia junto à comunidade. As universidades brasileiras abordam pouco o tema da comunicação comunitária. Muitas vezes, a universidade forma para o mercado, pensando na grande mídia, mas não pensando na função social do jornalista, na sua capacidade de ser um multiplicador, de formar os leitores para serem críticos da mídia que consomem e, ao mesmo tempo, de formar pessoas que sejam capazes de criar seus próprios veículos de comunicação. Muitas vezes, a universidade está voltada a produzir simplesmente soldados para o mercado e não pessoas interessadas em mudar, em democratizar a comunicação. Essa preocupação com o mercado se dá pela cobrança dos alunos, mas também pela preguiça dos professores ou pela incapacidade de alguns mestres e doutores em observar a comunicação como algo mais amplo e não como uma ação institucionalizada. É muito difícil mostrar para os professores que não é só jornalista que faz comunicação. As pessoas consideram jornalista quem tem diploma, quem domina a técnica, sendo que a técnica da fala, da interlocução, é tão antiga quanto a humanidade.

IHU On-Line - Qual é o principal desafio para as mídias alternativas no Brasil?
Leonardo Sakamoto
– As mídias alternativas já existentes enfrentam falta de recursos, falta de capacidade de distribuição e um certo preconceito de quem acha que, por ser uma mídia pequena, é uma mídia ruim, o que não é verdade. Elas também enfrentam, muitas vezes, má gestão. Freqüentemente, as pessoas colocam a culpa na falta de dinheiro e recursos, mas, na verdade, não são criativas e gerem muito mal. Há muitas mídias alternativas que têm problema de remuneração. Por ter pouco dinheiro, as pessoas tratam mal quem trabalha nelas. Alguns falam que as os profissionais não precisam receber salário porque estão fazendo isso pela causa. Isso é ridículo. A mídia alternativa poderia ser muito mais unida, ter muito mais interlocução entre seus integrantes, trocar mais informação do que acontece.

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