Edição 254 | 14 Abril 2008

Quatro meses, três semanas e dois dias

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Stela Nazareth Meneghel

Publicamos, a seguir, uma resenha de autoria da professora Stela Nazareth Meneghel, sobre o filme destacado na edição desta semana, Quatro meses, três semanas e dois dias, que trata do tema do aborto. Professora no PPG em Saúde Coletiva da Unisinos, Stela Meneghel é graduada em Medicina, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, mestre e doutora em Medicina, pela mesma instituição, e pós-doutora em Psicologia Social, pela Universidade Autônoma, de Barcelona. Foi médica de Saúde Pública da Secretaria Estadual de Saúde do Rio Grande do Sul por mais de vinte anos, atuando em vigilância epidemiológica e coordenando as atividades de ensino e pesquisa em epidemiologia junto à Escola de Saúde Pública da Secretaria Estadual de Saúde do Rio Grande do Sul, no período 1980 a 1998. Confira o artigo escrito gentilmente pela professora à IHU On-Line:

O diretor Cristian Mungiu, ganhador da Palma de Ouro no Festival de Cannes, faz cinema de qualidade com um orçamento modestíssimo. Quatro meses, três semanas e dois dias é uma narrativa densa e tocante que se traduz em um filme sério, limpo sem deixar de dizer o que se propõe, sem retoques e efeitos especiais.

A história central: duas moças que vivem em um alojamento universitário, uma delas grávida (Gabita) pede ajuda à companheira de quarto (Otília) para realizar um aborto. Otília se vê às voltas com todos os detalhes do problema, desde o empréstimo de dinheiro com o namorado (o dela porque o de Gabi não aparece), arranjar uma vaga em um hotel de segunda categoria que deveria ter sido reservado pela amiga, encontrar o aborteiro, até, finalmente, livrar-se do feto morto.

Lendo algumas críticas sobre o filme, percebi que alguns consideraram “o aborto” como uma metáfora da decadência do comunismo. Porém, o aborto, antes de ser uma metáfora disto ou daquilo, é um evento concreto, cruento, que pode marcar para sempre o corpo de uma mulher, trazendo a possibilidade de complicações de ordem física (infecção, hemorragias, morte) e jurídica (prisão) para os autores. O filme se passa nos últimos anos da ditadura de Ceaucescu,  quando o aborto era proibido e criminalizado.

Na realidade, considero que o filme diz mais sobre o sistema patriarcal de dominação/subordinação das mulheres, presente tanto em regimes de direita quanto de esquerda. A experiência pessoal do aborto vivida pelas duas moças denuncia uma sociedade moralista e deixa claro que o regime comunista não conseguiu eliminar a desigualdade de gênero. O patriarcado é um sistema de poder em que os homens ou o Estado, representando a ordem androcêntrica, possuem o direito de propriedade dos corpos das mulheres. No filme, as mulheres escapam à violência da prisão para cair na violência do estupro, evitam a sanção pública para mergulhar no infortúnio privado.

Como Gabita na Romênia de Ceaucescu, milhares de adolescentes, ao realizarem as primeiras explorações da sexualidade, se deparam com uma gravidez indesejada. E essas moças/adolescentes/meninas, ao decidirem abortar, enfrentam situações de adversidade, risco e morte. Situações, às vezes, mais precárias que as vividas pela personagem do filme. Seus corpos são manipulados grosseiramente, e isso se acentua quando elas não têm dinheiro como Mungiu nos esfrega na cara sem eufemismos. E isso ocorre no Brasil, na África, na Europa e na Romênia. Em qualquer local onde a ordem patriarcal dita as regras do jogo, por meio do pacote heteronormativo que objetiva normalizar e controlar as mulheres.

É a partir do corpo e da sexualidade feminina que se expressam a opressão e a dominação do gênero masculino, diz a teóloga Ivone Gebara.  A sexualidade feminina é o lugar onde se marca a posse masculina sobre as mulheres. Essa dominação se expressa através de uma divisão injusta do trabalho social e doméstico, através de uma legislação que acaba mantendo os privilégios de gênero e manifesta-se, igualmente, nas questões de descriminalização e legalização do aborto, como se os homens, ou a sociedade que representam, tivessem a última palavra sobre nossas decisões e escolhas (Gebara, 2006).
No Brasil, o aborto representa um grave problema de saúde pública e de justiça social. A prática do aborto é crime, sendo permitido pela lei penal somente em duas circunstâncias: no caso de violência sexual (estupro) ou riscos à vida da mulher. No entanto, o aborto é amplamente praticado, através de meios inadequados que podem causar danos e provocar a morte da mulher. Estimativas para 2005 apontam um total de 1.054.243 de abortos realizados. As mulheres em situação de aborto incompleto ou com complicações, geralmente, sentem constrangimento e/ou medo em declarar seus abortamentos nos serviços de saúde, resultando em grande subnotificação do fenômeno. A distribuição geográfica de abortos entre as adolescentes de 15 a 19 anos aponta para as Regiões Norte e Nordeste como as que apresentam maiores riscos de aborto induzido (http://www.ipas.org.br/arquivos/pesquisas/factsh.PDF).

Em uma pesquisa encomendada pelo Ministério da Saúde para delinear o perfil do abortamento no Brasil, os autores (Adesse, Monteiro e Levin, 2008) pontuaram que o abortamento inseguro cria um ambiente ameaçador, de violência psicológica e de culpabilidade que leva muitas mulheres a apresentarem sintomas de depressão e ansiedade. Além disso, recomendam o enfrentamento da gravidez não desejada com políticas públicas que reconheçam os direitos humanos reprodutivos das mulheres, que incluam os homens nessas políticas e criem, nos municípios brasileiros, ações de saúde reprodutiva, educação sexual e atenção à anticoncepção.

Voltando ao filme, Gabita esconde a idade gestacional real (mais de quatro meses, de onde o nome do filme), o que a faz procurar um aborteiro que, além de embolsar o dinheiro das jovens, engloba no “pagamento” o abuso sexual das duas moças.

“Por que você escondeu a data real da gravidez? Quem te indicou este homem?”, ou seja, por que se expor a esse acréscimo de violência, é o questionamento que Otilia faz à Gabi, buscando entender o que está se passando, embora Gabi proponha “não tocar mais no assunto”. Ou seja, se o conhecimento ocorre por meio da linguagem e do discurso, Gabita recusa esta possibilidade.
Otilia, sem dúvida, é a heroína do filme de Mungiu, construída a partir do compromisso, do comprometimento e da solidariedade. O aniversário da mãe do namorado acentua a diferença entre a moça preocupada com a amiga e o grupo de comensais, no qual as conversas giram em torno de temas banais, podendo-se perceber neles a futilidade, o arrivismo e os papéis convencionais de gênero. “Não existe um mundo dividido entre personagens bons e maus – o que há em Quatro meses são pessoas tentando sobreviver a adversidades, em especial àquelas advindas do Estado. Se Otília será uma pessoa melhor ao final de sua trajetória não podemos saber”, nos diz o crítico de cinema Alysson Oliveira (http://cineweb.oi.com.br/index.html).

Acredito que sim, que Otilia se torna uma pessoa melhor ao longo do trajeto representado no filme. A trama narrativa baseada na retidão e na capacidade de Otília de olhar os fatos de frente, sem tergiversar, faz com que por meio dela questionemos uma série de valores da sociedade romena/da nossa sociedade: as hipocrisias sociais, os papéis estereotipados de gênero presentes nos comportamentos de Gabi (passiva e infantil) e da sogra (preconceituosa e esnobe), o individualismo exacerbado, o tráfico de influências e regalias (expresso nas propinas, no mercado negro, no autoritarismo das pequenas autoridades), as hierarquias de gênero (o aborto criminalizado, a conduta truculenta, agressiva e sexista do aborteiro, a tradicional cena de casamento no hotel).

Bem, mais do que uma estória de época, o filme é uma narrativa marcada pelo viés de gênero, abordando um tema capaz de nos mobilizar tão intensamente que nem todos conseguimos perceber o quanto ele constitui um dos pilares da dominação patriarcal em relação às mulheres.

Ficha técnica

Nome original: 4 luni, 3 saptamani si 2 zile / 4 Months, 3 Weeks and 2 Days
Cor filmagem: Colorida
Origem: Romênia
Ano produção: 2007
Gênero: Drama
Duração: 113 min
Classificação: 14 anos
Direção: Cristian Mungiu
Elenco: Anamaria Marinca, Laura Vasiliu, Vlad Ivanov
Sinopse: Romênia, 1987. O país passa por uma crise, enfrentando racionamento de comida, entre outras coisas. Em meio a esse cenário, a jovem Gabita (Laura Vasiliu) tenta fazer um aborto ilegal. Ela só pode contar com a ajuda de sua amiga Otília (Anamaria Marinca), que irá fazer grandes sacrifícios por ela.

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