Edição 254 | 14 Abril 2008

Mídia livre e grande imprensa

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Patricia Fachin

Para o jornalista e blogueiro Ricardo Noblat, “jornalismo se faz em tempo integral e consome a maior parte da energia de quem o exerce”

“Não faço essa distinção entre o que você chama de mídia livre e grande imprensa. A maioria dos blogs de notícias, por exemplo, está a serviço de alguma causa, algum partido, uma ideologia.” A afirmação é de Ricardo Noblat, jornalista, em entrevista concedida à revista IHU On-Line. Ricardo Noblat, atualmente, mantém um blog no portal do jornal O Globo. Foi editor-chefe do Correio Braziliense e da sucursal do Jornal do Brasil, em Brasília. É formado em Jornalismo, pela Universidade Católica de Pernambuco. Trabalhou como repórter dos jornais Diário de Pernambuco, Jornal do Commercio e das sucursais do Jornal do Brasil e da revista Veja em Recife. Noblat também foi chefe de redação da sucursal da revista Manchete. Chefiou a sucursal da revista Veja durante dois anos, em Salvador. Depois foi editor-assistente da mesma revista em São Paulo. Em Brasília desde 1982, foi editor regional da sucursal do Jornal do Brasil. Trabalhou novamente como repórter da sucursal de O Globo, em 1989, de onde foi chefiar a sucursal da revista IstoÉ. Assumiu em 1994 a direção de redação do jornal Correio Braziliense, permanecendo no cargo até novembro de 2002. Em março de 2004 criou o Blog do Noblat, hospedado no site do jornal O Globo. Hoje, ele escreve às segundas-feiras para o jornal O Globo. Ricardo Noblat também é autor dos livros A arte de fazer um jornal diário (Rio de Janeiro Contexto, 2002) e O que é ser jornalista (Rio de Janeiro: Record, 2004). Eis a breve entrevista que o jornalista concedeu por e-mail para a IHU On-Line.

IHU On-Line - É possível um jornalista se manter na grande imprensa e defender um posicionamento pessoal, profissional e moral contrário ao da instituição? Quais são os limites do profissional nesse sentido?
Ricardo Noblat
- Possível é. E muitos conseguem. Mas não é fácil. Nem muito comum.

IHU On-Line - Os veículos da imprensa tradicional conseguem manter a independência proposta pelo Correio Braziliense entre a década de 1990 e 2002?
Ricardo Noblat
- Acho que alguns conseguem, sim. E não considero o Correio daquela fase muito mais independente do que alguns outros poucos jornais que temos hoje.

IHU On-Line - Muitos jornalistas que trabalharam na grande imprensa hoje mantêm blogs independentes. A que o senhor atribuiu essa migração? Os jornalistas encontraram na internet a possibilidade de dizer tudo que tinham vontade e não podiam fazer nos veículos tradicionais?
Ricardo Noblat
- Essa é uma hipótese. Mas existem outras. Por exemplo: a internet está se tornando um meio atraente para se fazer jornalismo.

IHU On-Line - Como o senhor avalia a atuação de seu blog? Ele consegue ser independente, mesmo hospedado no site Globo.com? Ele já precisou se adequar as opiniões da instituição?
Ricardo Noblat
- Não precisou se adequar nem sofreu censura. Ele passou incólume pelo IG e pelo Estadão, portais que também o hospedaram. Não tenho do que me queixar a esse respeito.

IHU On-Line - Como os blogs estão contribuindo para divulgar as irregularidades da sociedade, orientando o leitor? Esse tipo de mídia está contribuindo para o debate social ou em geral eles se detêm a discutir ideologias pessoais?
Ricardo Noblat
- Há blogs para tudo. Assim como a mídia tradicional, eles também espelham a ideologia dos seus titulares.

IHU On-Line - A mídia livre atua, principalmente através da internet, dos blogs. O mercado eletrônico cresceu entre os principais meios de comunicação, mas, nos últimos anos, percebe-se um aumento no número de blogs hospedados nesses veículos. O senhor percebe uma “concorrência” nesse sentido, entre mídia livre e grande imprensa? Os meios de comunicação tradicionais estão, de alguma maneira, tentando se precaver?
Ricardo Noblat
- Não faço essa distinção entre o que você chama de mídia livre e grande imprensa. A maioria dos blogs de notícias, por exemplo, está a serviço de alguma causa, algum partido, uma ideologia.

IHU On-Line - No seu livro O que é ser jornalista, o senhor diz que o profissional há de se tornar refém de suas leis universais e, até certo ponto, desumanas. Mas, antes de ser jornalista, o profissional não deve ser visto como ser humano, que também reivindica outros desejos?
Ricardo Noblat
- Sim. O que esse trecho citado por você quer dizer é o seguinte: jornalismo se faz em tempo integral. Notícia não tem hora para acontecer. O aspirante a jornalista deve entender isso. Assim como o aspirante a médico, por exemplo. Se feito com paixão, o jornalismo consome a maior parte da energia de quem o exerce.

IHU On-Line - Ainda no mesmo livro, o senhor diz que nada lhe deu mais prazer nos anos 1980 do que expor as falhas e defeitos da direita e da esquerda, do governo e da oposição, reconhecendo-lhes méritos vez por outra. O senhor recebe críticas da direita e da esquerda quando as critica. Esse deve ser o papel do jornalista? Ele deve ser apartidário?
Ricardo Noblat
- Deve se esforçar muito para ser. Não existe isenção absoluta - como não existe verdade absoluta. Mas o jornalista deve perseguir as duas utopias.

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