Edição 254 | 14 Abril 2008

Descentramento do lugar do jornalismo

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Patricia Fachin e Alessandra Barros

Para o professor Antônio Fausto Neto, não há produção de conhecimento desconectada de interesses, de modelos de anunciação e de modos de falar

“Todo o sistema de comunicação está situado em uma grande ambiência chamada de midiatização – uma nova ordem de tecnologias transformadas em meios, através de processos intensos e acelerados, que repercutem não só na esfera específica dos meios de comunicação, mas na relação destes com as instituições e com os atores sociais, produzindo uma espécie de nova ambiência”, afirma o professor Antônio Fausto Neto, em entrevista concedida pessoalmente à IHU On-Line. Segundo Fausto, essa nova ambiência interfere tanto nas mídias livres quanto nas convencionais. Para ele, não existe mídia livre, mas modalidades de produção um pouco mais autônomas em relação aos sistemas produtivos convencionais. Mas reconhece que as mídias livres destacam a questão da autoralidade, o fato de haver um protagonismo mais explícito dos trabalhadores, dos artistas, dos criadores e dos jornalistas.

Antônio Fausto Neto é professor no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Unisinos. Possui graduação em Jornalismo, pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), mestrado em Comunicação pela Universidade de Brasília (UnB), doutorado em Sciences de La Comunication et de L'information, pela École des Hautes Études en Sciences Sociales, da França, e pós-doutorado, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Atualmente, é também consultor da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e professor colaborador da Universidade de Santa Cruz do Sul. Fausto Neto concedeu entrevista à IHU On-Line, no dia 29-10-2006, sobre as relações entre mídia e política no espaço público.

IHU On-Line – Como o senhor define, atualmente, no meio jornalístico, a mídia livre e alternativa?  Que veículos, blogs, seguem esse perfil, hoje, no Brasil?
Antônio Fausto Neto
– Todo o sistema de comunicação está situado numa grande ambiência, chamada de midiatização. Trata-se de uma nova ordem de tecnologias transformadas em meios, através de processos intensos e acelerados, que repercutem não só na esfera específica dos meios de comunicação, mas na relação destes com as instituições e com os atores sociais, produzindo uma espécie de nova ambiência. A sociedade é atravessada por fluxos, dispositivos e estratégias midiáticas, permeadas por uma cultura midiática. Estamos, portanto, inseridos nessa ambiência, reunindo processos, produtos e operações de comunicação distintas. As mídias tradicionais integram, por sua vez, um sistema produtivo nos moldes de uma economia clássica. Em função da ascensão das convergências tecnológicas, ocorre a emergência de novos meios, estimulados pela existência de novos circuitos. Estamos situados em uma grande plataforma de comunicação, na qual os meios convencionais e os novos meios guardam características de autonomia ou de diferença. Mas isso não significa afirmar que os meios convencionais também não estão contaminados pela existência desses novos processos midiáticos de comunicação. Eles também são afetados pela presença dessas manifestações, dessas novas tecnologias. Portanto, o fato de estarmos nessa nova ambiência torna difícil estabelecer fronteiras entre os meios convencionais e livres.

Blogs e ombudsman

Entretanto, observa-se, dentro dessa plataforma ampla, braços midiáticos, mais ou menos autônomos, dessa grande economia e organização midiáticas, que são os blogs e outros sistemas não tão conectados e dependentes de uma lógica industrial comunicacional. Existe a crise do ombudsman, por exemplo, com a demissão do Mário Magalhães, da Folha de S. Paulo. O primeiro motivo que identifico da sua demissão é antológico, filosófico e conceitual. O ombudsman apresenta uma fala que intermedia o interesse empresarial do interesse do leitor. Ele é instituído pela empresa jornalística, mas está a serviço do leitor. Ora, no momento em que o Mário, assegurado pelos interesses da instituição e autorizado por ela, amplia o protocolo de trabalho do ombudsman, no sentido de fazer com que ele opere não somente pelo impresso, mas no âmbito da internet, plugada à economia produtiva da Folha, relatando, além disso, publicamente sua análise diária do jornal via internet, num certo momento, esse jornal reage. Essa reação ocorre em razão de esse pedaço das mídias livres ficar conectado à Folha e operar dentro de outra ambiência midiática. Então, passa a existir uma contradição. O ombudsman funciona bem num sistema de dispositivo fechado, quando a sua leitura reage a um sistema de jornal convencional. No entanto, quando isso se espalha através das novas mídias que estão enraizadas dentro de um modelo da empresa jornalística, no caso a Folha, esta é obrigada a recuar de seu contrato firmado com o ombudsman, à medida que uma determinada manifestação pode ser contrária ao seu interesse organizacional. A queda do Mário Magalhães talvez represente um dos acontecimentos mais importantes na história moderna e contemporânea do jornalismo brasileiro.

Em síntese, não acredito na idéia de mídia livre. No meu entendimento, existem modalidades de produção um pouco mais autônomas em relação aos sistemas produtivos convencionais. Há, igualmente, incidências de presenças institucionais ou de atores individuais sobre o funcionamento dessas mídias autônomas ou chamadas livres. Elas podem ser livres em relação a um modelo convencional de produção, mas não são livres dos interesses que os engendra, que os faz funcionar. Rigorosamente, não há mídia livre, pois não há produção de conhecimento desconectada de interesses, de modelos de anunciação e de modos de falar.

IHU On-Line – Que diferenças o senhor percebe na cobertura midiática da grande imprensa e da chamada mídia livre ou alternativa? Como essas diferenças são apresentadas? De que maneira ambas procuram influenciar na opinião pública?
Antônio Fausto Neto
– Temos uma plataforma, na qual estão esses dois sistemas: as mídias convencionais e as mídias livres. As suas características os impedem de funcionar, segundo diferentes sistemas produtivos. A mídia convencional está organizada segundo cânones clássicos do jornalismo, mas já afetada por uma lógica de tecnologias que repercutem sobre as suas temporalidades, sobre a organização do trabalho, sobre o perfil do jornalista, sobre a presença do receptor no seu mundo produtivo e sobre o manejo das fontes. Por um lado, as grandes instituições jornalísticas são instituições clássicas, no sentido de empresas, mas se abrem aos modelos produtivos contemporâneos, de ordem digital. Por outro lado, em relação às mídias livres, as diferenças estão no processo produtivo, entregue a um mecanismo de protagonismo autorizado, isto é, nas mãos dos indivíduos, dos blogueiros e de alguns sites, com maior autonomia para manejar o processo de apuração, de monitoração e de edição.

IHU On-Line – Os blogs de empresas jornalísticas são livres ou seguem um padrão editorial?
Antônio Fausto Neto
- Existem blogs permeados pela lógica de uma cultura e uma rotina produtiva dos jornais, que seguem essa economia e lógica da mídia convencional. Existe um outro modelo que aponta para a autonomia. O campo da produção jornalística controla o seu sistema de produção, mas, na hora que isso é colocado na rede, o campo midiático perde o controle. É preciso ver como se estabelece o vínculo entre as mídias convencionais e seus sistemas de produção em relação aos sistemas de produção autônomos, onde parece haver jornalistas operando como lugares de produção de sentido, mas também como lugares que se conectam com esse sistema de produção clássico.

IHU On-Line – A mídia livre tem atuado principalmente através da internet e dos blogs. No mesmo sentido, veículos da grande imprensa ampliaram a participação de jornalistas em blogs. O senhor percebe uma “concorrência” nesse sentido? Os meios de comunicação tradicionais estão, de alguma maneira, tentando se precaver?
Antônio Fausto Neto
– Por estarmos nessa ambiência de que já falei, as mídias convencionais não podem ignorá-la: precisam integrar o jogo, seja ampliando a natureza da sua plataforma de circulação de bens e sentido, seja ampliando os modelos de interação com os leitores e receptores, ou reformulando as suas relações com os autores da criação jornalística. Cada vez mais, em função da convergência digital, os leitores são chamados a jogar o contrato, mandando seus materiais que passam por processos de edições e de filtragem. Por outro lado, o que os jornalistas não estão refletindo são as incidências que isso terá. A questão identitária do lugar do autor, do jornalista, no processo de produção da atualidade, sofrerá uma reformulação profunda. Há um descentramento do lugar do jornalismo.

IHU On-Line – O senhor disse, em outra entrevista à IHU On-Line,  que os “manuais de jornalismo estão defasados, pois são produzidos em realidades culturais e deontológicas que traduzem especificidades de contextos distantes, distintas, portanto das vidas das instituições nacionais”. Tendo em vista esse posicionamento, como o senhor avalia as parcerias realizadas entre as universidades e a grande imprensa? Essa posição contribui para que jornalistas recém-formados encontrem dificuldades de trabalhar com outros veículos, os alternativos, por exemplo?
Antônio Fausto Neto
- Os manuais refletem os ideais das instituições jornalísticas. São espécies de projeções dos seus egos. A realidade é aquilo que se define neles. Então, as rotinas da cultura jornalística começam aí. Quem produz os manuais? Trata-se de uma cultura com hábitos que necessariamente não levam em conta uma situação de polifonia em que as mídias estão imersas. Então, existe uma defasagem entre as regras que o manual contém e o seu uso. Cada jornalista faz o uso do manual de acordo com situações muito específicas de sua cultura, de sua biografia, da necessidade circunstancial trazida pelo manual. Quanto ao papel dos cursos, não sou contra o sistema de treinamento que as mídias fazem para adaptar os egressos das escolas de comunicação. As empresas precisam fazer esforços para que novos jornalistas entendam seu processo produtivo. Adotamos o manual de redação de um jornal como um manual teórico, que ensinará o processo de comunicação jornalística, como se as grandes teorias jornalísticas, midiáticas, lingüísticas, fossem descritas por ele. Parece que o problema está nas universidades. É desolador ver, nas bibliografias dos cursos de jornalismo, os manuais de redação, às vezes de uma única empresa, serem os livros que orientarão a formação técnica, expressiva e ética, de um jovem jornalista.

IHU On-Line - Os novos jornalistas estão preparados para trabalhar em veículos alternativos?
Antônio Fausto Neto
- Uma vez que as mídias convencionais têm as suas gramáticas, elas impõem aos jovens candidatos o aprendizado dessas gramáticas. Por outro lado, se as novas tecnologias permitem a expansão de novos protocolos de comunicação, podemos constatar que essa expansão significa a existência de muitas gramáticas, de modos de codificar, de construir realidades. Então, é preciso estimular a existência de múltiplos modos, de múltiplas gramáticas, porque isso também forma um jornalista. Como professor universitário de comunicação social, posso dizer que não estamos no único ambiente que sofre com o impacto de novas tecnologias. Talvez sejamos aquele que sofra a peculiaridade da inserção das tecnologias sobre as mídias. Entretanto, a ambiência da midiatização atinge a universidade, o que é irreversível. As universidades, nas suas escolas de comunicação, deveriam efetivamente se constituir em ambiente de experimentação. Isso significa saber lidar com a diversidade de protocolo, de modelos, de protótipos, de experiências, e não conectar-se com aquilo que a motivação mercadológica aponta como mais moderno da experiência da mídia e fazer disso referência da experiência formativa. As universidades precisam reconfigurar os seus processos informativos, levando em consideração exigências dessa sociedade complexa, que é a sociedade do conhecimento, da informação, da midiatização.

IHU On-Line - O movimento por uma mídia livre alega que, uma vez que a informação é livre, todos os cidadãos podem atuar como jornalistas. O senhor concorda com essa idéia? A obrigatoriedade do diploma é fundamental?
Antônio Fausto Neto
- O tema da obrigatoriedade do diploma deve ser discutido no contexto da reserva de mercado, das concorrências e das regulagens que implicam o respeito pela profissionalização. Mas discutir o diploma esvaziado dessa complexidade histórica, cultural e técnica, e dessa nova realidade de sociedade do conhecimento que vivemos, não tem sentido. Não tenho dúvidas de que a série de operações que um jovem jornalista faz na redação não está mais na sua mão, mas da sociedade. Alguns princípios são universais e fazem parte da cognição humana. Mas existem outros que marcam a autoralidade, a identidade, a especificidade. Todas as profissões codificam a realidade. Todos os profissionais que passam por formações passam a aprender a transformar aquilo que é da ordem do mistério em significados. Esse processo de codificação não é apenas um processo mecânico, rotineiro e repetitivo. Mas algo persiste como singularidade desse “ato” que os indivíduos, ainda que dispondo de um arsenal de tecnologia, talvez não saibam desempenhar. A criação, a singularidade do ato da interpretação, o manejo de lidar com adversidade e a organização de processos de discurso ainda são singulares no trabalho desse analista da jornada que é o jornalista.

IHU On-Line – O senhor afirma que não existe mais a imprensa partidária. Mas é correto dizer que a mídia é apartidária? Interesses corporativos cercam ou manipulam a informação?  
Antônio Fausto Neto
- É preciso contextualizar o que eu disse. Entendo imprensa partidária no sentido de uma imprensa filiada a instituições políticas, partidos, agremiações políticas etc. Nesse sentido, no Brasil, parece que não existe imprensa partidária nesses moldes. Não temos uma imprensa partidária que represente interesses de instituições tão fortes, conforme outros países, como os da tradição européia, na qual o estado é tão forte que as mídias significam porta vozes de pensamentos dessas grandes agremiações e instituições. No entanto, evidentemente, toda mídia toma partido, seja dos ideais daqueles que são seus dirigentes, seja das relações com que trava na sociedade civil. Não há mídia apartidária. A mídia manifesta o seu partidarismo naquilo que lhe é mais intrínseco, no seu modo de dizer as coisas. Cada mídia possui um sistema de produção, no qual estão o miolo das suas ideologias, as crenças e convicções, acerca da sua relação com o mundo.

IHU On-Line – O senhor percebe a influência ou participação de uma mídia livre, alternativa, no Rio Grande do Sul?
Antônio Fausto Neto
- Percebo um conjunto de manifestações desencadeadas por diferentes atores sociais, instituições, grupos de interesse, grupos emergentes, que apontam para novos modelos de anunciação, que podem afetar os dispositivos formais midiáticos em funcionamento. Nesse contexto, existem diversas iniciativas, como a do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) e dos sindicatos, apesar de estarem conectadas e atravessadas por conflitos e relações de dependência com as mídias convencionais. O importante é a diversidade da enunciação. A sociedade precisa compreender a lógica da comunicação, seja aquela que está estratificada ou regulada nos sistemas formais, seja aquela que pode ascender. Na medida em que a sociedade compreende que tem o poder de desenvolver formas de enunciação, ela pode dar curso a uma energia comunicativa, que produz adversidade e autoridade. É preciso pensar a comunicação como manifestação da autoridade, dentro do universo da midiatização.

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