Edição 418 | 13 Maio 2013

O Sócrates do cristianismo?

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Márcia Junges e Gabriel Ferreira

Revelar o homem a si mesmo é a tarefa da ironia, observa Sílvia Saviano Sampaio. “Mentalidade de mercado público” é o diagnóstico kierkegaardiano sobre os males da sociedade dinamarquesa do século XIX

“Para um cristão, a ironia é muito pouco. Por isso, a tarefa de Kierkegaard, desse ‘Sócrates do cristianismo’, só pode ser essencialmente irônica”, acentua a filósofa Sílvia Saviano Sampaio na entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. “A ironia ensina a colocar a ênfase adequada na realidade. A realidade adquire a sua validade na ação”, completa. Atitude inicial e geral, a ironia “se concentra sobre o conhecimento e o aprofundamento do eu. Ela tem uma função antropológica: revelar o homem a si mesmo”. Sobre a sociedade da Dinamarca de seu tempo, o filósofo era enfático ao apontar a “mentalidade de mercado público”, que tinha como valores a prudência, a segurança econômica e o bem-estar.

Graduada em Filosofia e mestre em Filosofia da Educação pela PUC-SP, Sílvia Saviano Sampaio é doutora em Filosofia pela Universidade de São Paulo – USP com a tese A subjetividade da existência em Kierkegaard. É autora do artigo Kierkegaard e Girard: o desejo mimético (Kierkegaard no nosso tempo. São Leopoldo: Nova Harmonia, 2010), organizado por Álvaro Valls e Jasson da Silva Martins. Leciona na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP, no Departamento de Filosofia.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Que relações Kierkegaard estabelece entre política e ironia?

Sílvia Saviano Sampaio – A crítica de Kierkegaard, o “expert em maiêutica’, dirige-se aos professores e docentes de filosofia ou de teologia que fazem do cristianismo um objeto de saber “como ganha-pão” e “como ensinamento objetivo, como doutrina” (Jugez vous mêmes, OC XVIII p. 238). Porém, para um cristão, a ironia é muito pouco. Por isso, a tarefa de Kierkegaard, desse “Sócrates do cristianismo”, só pode ser essencialmente irônica. Tal posição vai contra um tempo que “não permite que a boca se feche obstinada, ou que o lábio superior trema com ar travesso, ele exige que a boca fique aberta; pois, como poderíamos imaginar um verdadeiro e autêntico patriota, senão discursando, o rosto dogmático de um pensador profundo, senão com uma boca que fosse capaz de engolir o mundo todo; como nos poderíamos representar um virtuose da copiosa palavra vivente, senão com a boca escancarada? (O conceito de ironia, OC p. 215). 

Diante do imenso distanciamento da cristandade do cristianismo do Novo Testamento, Kierkegaard não deve se proclamar cristão, sua tarefa é colocar o problema (Journal, XI 2 A 206). A “conaturalidade que une ironia e existência” significa que o que é dito ou mostrado deve ser sempre ouvido ou visto de duas maneiras, num percurso “que conduz do manifesto ao secreto, do visível ao invisível, do múltiplo ao indivisível, do finito ao insondável”. A ironia socrática é dupla, bifronte, exprimindo conjuntamente duas coisas contrárias, recusando toda adequação do exterior ao interior, do fenômeno à essência. A especificidade da ironia consiste em significar a negatividade irredutível. Nos discursos de Sócrates, assim como no quadro de Napoleão, “é esse espaço vazio, esse nada, que esconde o mais importante”.

Neutralidade armada

Kierkegaard emprega a expressão político-militar “neutralidade armada” para explicar sua missão frente à cristandade de seu tempo: tornar evidente para todos “o que significa o fato de ser cristão, ressaltar “a imagem de um cristão tal como ela aparece em toda sua idealidade”, esclarecendo-a justamente em função dos erros da época. O fato de a cristandade ser uma ordem estabelecida é um elemento de confusão, pois é impossível ser cristão em tais condições. A ordem estabelecida abre uma perspectiva conciliadora não cristã sobre o mundo finito. Mas a verdadeira perspectiva cristã é de ordem polêmica. A piedade do cristianismo é a piedade militante. O cristianismo não desapareceu, ele ainda existe na sua verdade, mas não como ensinamento, como doutrina. O que foi eliminado e esquecido é o significado de ser realmente cristão. Tratando-se de pagãos, Kierkegaard diz que não poderia permanecer neutro, ele teria que se afirmar cristão em oposição a eles. Mas ele vive na cristandade, entre homens que se dizem cristãos. Não cabe a um homem julgar os outros, dizendo-se cristão por oposição aos cristãos, cristão por excelência. É por isso que Kierkegaard diz que mantém o caráter de neutralidade, realizando sua tarefa: apresentar a imagem ideal de um cristão. Tanto ele como os outros cristãos devem ser julgados por esta imagem ideal. Esta tarefa é fortuita, pois poderia ser realizada por qualquer outro. Porém, esta neutralidade é duplamente “armada”: primeiramente, porque Kierkegaard quer denunciar os reformadores impacientes que “substituem a mediação pela agitação e se servem do cristianismo em vez de servi-lo”. Em segundo lugar, porque Kierkegaard não é um fiel passivo, desmobilizado, mas não se cansa de denunciar, de polemizar. O poeta-dialético opõe-se ao “professor”, no qual o pensamento domina o sentimento e a imaginação, a ironia e o humor.

Podemos dizer que o estilo de Kierkegaard, conjugando ironia e humor, é a “neutralidade armada”, pois Kierkegaard parte da ironia a fim de denunciar o caráter da época. Mas esta ironia não está só, mas sim conjugada com o humor. O “espaço vazio” da ironia é ocupado pela idealidade da mensagem cristã que o “poeta-dialético” traz e indica através da comunicação indireta, visando uma apropriação individual do existente, que no limite não pode ser comunicada. Isso porque, do ponto de vista daquele que comunica, a maneira indireta de comunicar justapõe contradições dialéticas, e nela o autor não diz nada do que ele mesmo compreende. A comunicação indireta se limita “a criar a tensão”, enquanto que na comunicação direta aquele que comunica experimenta uma necessidade de ser pessoalmente compreendido, um medo de ser mal compreendido. A “neutralidade armada” como estilo, seria esta combinação de ironia e humor, que não pode ser separada de um modo de existência. “A ironia é o caminho, não a verdade, mas o caminho”.

IHU On-Line – De que forma essa compreensão pode ajudar a repensar a política em nosso tempo?

Sílvia Saviano Sampaio – A ironia ensina a colocar a ênfase adequada na realidade. A realidade adquire a sua validade na ação. Isso não significa negar que haja em cada homem a nostalgia por algo mais perfeito e mais alto. Mas esta nostalgia não pode esvaziar a realidade, pois “a realidade é também, para o indivíduo, uma tarefa (Opgave) que quer ser realizada”. A ironia é uma atitude inicial e geral cujo interesse se concentra sobre o conhecimento e o aprofundamento do eu. Ela tem uma função antropológica: revelar o homem a si mesmo. “Assim como os homens da ciência afirmam que não é possível uma verdadeira ciência sem a dúvida, assim também se pode, com inteira razão, afirmar que nenhuma vida autenticamente humana é possível sem ironia. Quem não compreende a ironia carece, e o ipso daquilo que se poderia chamar o início absoluto da vida pessoal carece do banho de purificação que salva a alma de ter a sua vida na finitude” (O conceito de ironia p. 277).

IHU On-Line – Qual é a atualidade do diagnóstico de Kierkegaard sobre a “desagregação” de sua época?

Sílvia Saviano Sampaio – O “diagnóstico” de Kierkegaard a respeito dos males da sociedade dinamarquesa no século XIX inclui a denúncia de uma “mentalidade de mercado público”, que tinha como valores a prudência, a segurança econômica e o bem-estar, valores estes que, naturalmente, não permitiam sequer imaginar qualquer alternativa a tal modo de vida e pensamento. Porém, “apesar da autossatisfação autoassegurada por esta mentalidade de mercado público, a vida interior do dinamarquês do século XIX estava atribulada pelos sofrimentos do conforto burguês, o tédio e a inveja” (J. Elrod, Paixão, reflexão e individualidade).

Toda a obra de Kierkegaard, e não apenas a dissertação de 1841 sobre O conceito de ironia constantemente referido a Sócrates, é marcada pela ironia. Vergote adverte para que tenhamos cuidado em não nos enganarmos sobre a atmosfera da obra kierkegaardiana na qual deve ser compreendido o recurso a Sócrates. A compreensão puramente pedagógica da maiêutica viria de encontro à própria concepção cristã da verdade como oposta à reminiscência grega, tal como ele a desenvolveu nas Migalhas Filosóficas.

O surgimento do indivíduo essencialmente político-econômico alinhava-se à força niveladora da nova ordem, que suprimia o respeito do indivíduo por si mesmo. De acordo com Kierkegaard, no Estado moderno o indivíduo seria essencialmente motivado pelo desejo de dinheiro, que ele identificava como uma abstração. Em Two Ages, Kierkegaard lamenta que “um jovem homem jamais invejaria outro por suas capacidades ou talentos, ou o amor de uma linda jovem ou sua fama, mas o invejaria por seu dinheiro. Dê-me dinheiro, o jovem diria, e eu estarei completamente bem” (Two Ages, 75).

Rebanho

Kierkegaard considerava a liberalização da economia dinamarquesa, das instituições e da cultura não como eventos neutros, mas a partir de sua influência sobre a autoconsciência dos indivíduos. Não podiam ser considerados eventos “neutros”, na medida em que a autoconsciência do indivíduo era permeada pelos processos políticos e econômicos da modernização. Seu impacto não está limitado apenas à reforma institucional, mas penetra fundo no espírito humano, transformando o entendimento do indivíduo sobre si mesmo.

Quanto à atualidade do diagnóstico de Kierkegaard, devemos ser cautelosos para não tentar aproximá-lo tão “apressadamente” da nossa época. Acredito, porém, que tal “aproximação”, em espaço tão limitado, poderia ser tentada através do genial filme de Bernardo Bertolucci, “O Conformista”, adaptado do romance homônimo de Alberto Moravia e analisado por Luiz Zanin Oricchio. 

A “atmosfera” do filme é composta pelo fascismo. Marcello Clerici e Giulia casam-se na Itália de Mussolini. Clerice tem como propósito “ser como todo mundo”, ou seja, tornar-se membro do Partido Fascista. Sua “prova iniciática” consiste em assassinar Quadri, dissidente que fora seu professor de filosofia. A questão que se coloca é: como foi possível que, sob determinadas condições históricas, um “homem comum” se transformasse num assassino sob o domínio de Mussolini? Segundo Oricchio, esta é a pergunta pela natureza e pela condição de possibilidade do fascismo, questão que atravessa a história italiana ao longo do século XX. Questão que ressurge viva e premente no século XXI. Clerici é descrito, analisado e dissecado como o protótipo do “homem comum”, no espírito do “qualunquismo” italiano, isto é, desconfiado dos outros e da política, isolado e facilmente manipulável. Ou seja, um conformado. Mas como esse conformista, homem do medo e da obediência, que deseja desaparecer no anonimato, se presta a qualquer ato, mesmo um crime ignóbil em nome de um regime que, no fundo, nada significa para ele? Esse é o enigma maior do personagem. Porque Clerici não é um verdadeiro fascista. Ele será fascista enquanto o fascismo estiver no poder. Quando cair, será antifascista e, depois, indiferente. Poderá aderir ao novo governo, e sem qualquer convicção, já que não as tem. De acordo com Oricchio, o que O Conformista sugere é “que o problema não é o líder fascista nem os verdadeiros fascistas que a ele aderem, mas os que o fazem por medo, indiferença, fraqueza ou simplesmente porque são parte da massa amorfa, bovina, que se move para onde vai o rebanho”. 

IHU On-Line – De que forma podemos compreender categorias kierkegaardianas tais como desespero e paixão numa perspectiva mais ampla, aplicada à sociedade, por exemplo? 

Sílvia Saviano Sampaio – Kierkegaard criticava a “insensibilidade espiritual” burguesa da Dinamarca, marcada pela ausência de paixão. Porém, em 1848 não acreditava na paixão daqueles que agiam, embora aparentassem imenso entusiasmo, pois, segundo ele, não se tratava de paixão, mas de histeria.

Talvez, consigamos entender melhor sua posição se considerarmos certas anotações a respeito das revoluções francesa e dinamarquesa. Eis uma nota que resulta da distinção estabelecida entre “a ação” que exige uma reflexão anterior, uma decisão, uma responsabilidade e o “acontecimento” que deixa as coisas acontecerem, já que os homens contribuem apenas de modo insignificante, medíocre (Pap. VIII 1 A 606): 

“Ao final, toda a história universal diz respeito apenas a ‘bobagens’. Elimina-se totalmente a ação; alguma coisa acontece? É o acontecimento, puro e simples. A força que o carrega não age, não sabe com certeza o que deseja, não o diz claramente – e se houvesse ainda um homem à frente de tudo, um herói! Não! Mas qual uma abstração, força-se, in abstracto, o mais fraco a fazer algo: Ele se submete, ele sofre – eis como nasce o acontecimento. Para que o falar seja realmente humano é preciso determinar dois pontos: um é o falar, a linguagem, e o outro é a situação. É a situação que determina se o falante endossa ou não aquilo que diz ou se é um falante que não se localiza, desprovido de situação.”

E é esta falta de situação que caracteriza negativamente toda a cristandade e faz de toda sua profissão de fé cristã uma ilusão, uma ventriloquia. É comum o homem dizer o que deve ser dito, mas esquivar-se depois da situação concreta. E Kierkegaard exemplifica: “Conheci uma pessoa que participava da vida pública, era membro de assembleias populares, mas quase nunca tomava a palavra. Ele resolvia a questão dizendo a seu vizinho o que deveria ser dito na assembleia. Eis uma falta de caráter por falta de situação. O mesmo pode ser dito da cristandade. Uma imagem. Há uma palavra determinada, dizer ao tirano é perigo de morte. Então, o que se faz? Joga-se o jogo de dizê-lo, como é preciso? Mas não ao tirano. Assim jogam as crianças? E é do mesmo modo que as pessoas sérias são cristãs. A verdadeira novidade reside no “como” (hvorledes) se diz alguma coisa (Journal XI 2 A 106). De acordo com Kierkegaard, a reflexão não pode ignorar a paixão. Caso contrário, a reflexão não só perde o compromisso que a paixão envolve, mas serve para que o homem se defenda contra a necessidade de compromisso e paixão (Kierkegaard, Journal, XI 2 A 147).

Leia mais...

>> Sílvia Saviano Sampaio já concedeu outra entrevista à IHU On-Line. Confira.

* Desejo mimético e violência: a superação através do cristianismo. Edição 345, de 27-09-2010, disponível em http://bit.ly/aSwiy7 

Últimas edições

  • Edição 541

    Planos de saúde e o SUS. Uma relação predatória

    Ver edição
  • Edição 540

    Hans Jonas. 40 anos de O princípio responsabilidade

    Ver edição
  • Edição 539

    Do ethos ao business em tempos de “Future-se”

    Ver edição