Edição 418 | 13 Mai 2013

Por uma nova modelagem acadêmica e social

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Graziela Wolfart e Ricardo Machado

“O Brasil precisa se industrializar no sentido do século XXI. Estou fazendo constante apelo às universidades e é preciso que as comunidades universitárias se mobilizem, pois isso é casa, comida e trabalho para o povo”, destacou o professor doutor em filosofia e reitor da Unisinos Pe. Marcelo Fernandes de Aquino, SJ, durante o evento de lançamento oficial do XIV Simpósio Internacional IHU – Revoluções tecnocientíficas, culturas, indivíduos e sociedades - A modelagem da vida, do conhecimento e dos processos produtivos na tecnociência contemporânea. A palestra Os arranjos colaborativos e complementares de ensino, pesquisa e extensão na educação superior brasileira e sua contribuição para um projeto de sociedade sustentável no Brasil ocorreu na tarde da quarta-feira, 08-05-2013, na sala Ignacio Ellacuría e Companheiros, no IHU.
Crédito da foto: Rodrigo Blum

A transformação acadêmica e, portanto, social da qual Pe. Marcelo defende como o sentido do século XXI passa por uma reestruturação da racionalidade contemporânea, abandonando o paradigma newtoniano da lógica matemática e buscando uma perspectiva mais alinhada à física quântica. Para tentar compreender o que isso significa, em uma linguagem mais simples, o que o reitor defendeu é que precisamos deixar de lado a ideia de que as soluções para o avanço da sociedade estão relacionadas a alternativas do tipo “ou” fazemos uma coisa “ou” fazemos outra coisa – a lógica matemática de Newton. “A sociedade não funciona mais com uma parte para cada lado. É por isso que a multidisciplinariedade faz sentido”, sustenta o jesuíta, ao explicar que a forma de pensamento na nossa contemporaneidade e das universidades deve se basear na lógica da relação “e” “e”. 

Visão holística

Para Pe. Marcelo, o desafio de nossas comunidades – universidades, empresas e sociedades – é construir uma visão holística. “Como temos boa vontade uns com os outros de significar a discussão humanística da ciência, não estou convencido do esforço que estamos fazendo. Temos que suscitar o debate entre as humanidades e a tecnociência”, provocou. Para ele, tais questões são mais que emergentes, pois o futuro não está porvir, ele já está posto e isso passa por uma reflexão de nossa posição na sociedade. “Estamos falando de um futuro que já começou e, nesse sentido, temos que pensar: qual é a imagem de mundo, de ser humano e de humanidade que os netos e os bisnetos de vocês terão?”, complementou.

Entre o público de mais de 60 pessoas estavam professores de diversas áreas da Unisinos, que, a convite do palestrante, puderam experimentar um pouco do que é realizar um debate e uma reflexão verdadeiramente multidisciplinar.

Confira abaixo as reflexões.

Filosofia

Para Sofia Stein, professora de Filosofia na Unisinos, o futuro é um desafio para toda a humanidade. O futuro e a cooperação entre os saberes. A partir disso, a contribuição das Humanidades e da Filosofia da Ciência seria a de fazer a apropriação dos diferentes saberes, concretizando uma reflexão sobre o nosso tempo. “Vivemos em um século muito rápido, com diversas ferramentas e instrumentos possíveis”, disse ela, que também destacou a questão da utopia em nossos dias: “Ainda não sabemos o que queremos ser”, concluiu.

Quem também refletiu sobre o tema foi o professor Adriano Naves de Britto, coordenador do PPG em Filosofia da universidade. Ele considera que é importante para as Humanidades pensar o que é o mundo contemporâneo a partir da técnica. “Os cientistas sociais, em geral, costumam ser avessos às ferramentas que a ciência oferece para a compreensão do mundo. Não podemos fazer isso. Não há como justificar nossa ausência nesse debate”, pontuou. 

Para o professor de Filosofia, Castor Bartolomé Ruiz, a universidade como instituição, desde seu surgimento, tem como proposta construir o conhecimento com autonomia. E como conciliar essa característica num campo de forças onde se quer instrumentalizar o saber a partir da tecnologia? Na visão de Castor, é preciso redescobrir a autossustentabilidade, sem perder o foco. “Precisamos de um projeto próprio para oferecer uma contribuição original à sociedade, a partir da tecnologia, com a construção de saberes. Tudo isso, claro, sem perder a visão crítica”. 

Gestão e Negócios

O próximo a falar foi o professor Alsones Balestrin, professor na área de Gestão e Negócios da Unisinos. O importante, segundo ele, é saber quais os mecanismos para colocar a universidade como um elemento propulsor, como a “cabeça do cometa” de todo o novo movimento que se configura no Brasil a partir do avanço das novas tecnologias. “A universidade tem uma contribuição importante no novo ciclo de desenvolvimento do Brasil, ciclo este baseado no conhecimento”, destacou. 

O feedback da professora Cláudia Bitencourt, da área de Gestão e Negócios da Unisinos, à fala de Pe. Marcelo Aquino envolveu a dificuldade das pessoas de se olharem umas às outras. “Encurtamos os ciclos, não há mais tempo de processarmos as informações. Estamos na era dos atropelamentos”, definiu. Para ela, nossa geração está presenciando o futuro acontecer diante de nossos olhos. E continua: “Vivemos constantes programas de mudança, e essa correria preocupa. O que precisamos é descobrir uma maneira de viver essas mudanças e não somente passarmos por elas”. 

Graduação

Em seguida, tomou a palavra o professor Gustavo Severo de Borba, diretor da Unidade de Graduação da Unisinos. Ele apontou que os diferentes cenários que se apresentam lançam diversas possibilidades novas. No entanto, não reduzem as incertezas humanas. E, ao relembrar a importância do papel da universidade, ele destacou a figura do professor enquanto um elemento que dá dinâmica ao processo. “A dificuldade é falar sobre o tema em uma sociedade que não valoriza o professor”, lamentou. 

Saúde Coletiva

O reitor da Unisinos convidou, então, o professor e também padre jesuíta José Roque Junges, professor no PPG em Saúde Coletiva da Unisinos, para fazer sua reflexão a partir da contribuição da Companhia de Jesus inserida no universo acadêmico. Roque abordou com os presentes os conceitos de transversalidades e atravessamentos, utilizado na área da saúde, mas que se aplica no debate em questão, porque fala do “antigo que se atravessa no novo”. Ele explica: “É necessária muita clarividência para perceber que muitas vezes o velho se atravessa no novo, com cara de novo”, exemplificando com a revolução genética e quântica que continuam se baseando na compreensão newtoniana de mundo. Para Junges, o papel das humanidades na revolução tecnocientífica é justamente mostrar o velho que se atravessa no novo, travestido de novidade.

Educação

Enquanto isso, a professora Edla Eggert, do PPG em Educação da Unisinos, defendeu que a universidade precisa ter mais espaços de conflito, que propiciem o debate e a argumentação, favorecendo a formação crítica. “A universidade brasileira nada mais é do que uma cópia do modelo universitário vindo do norte. Precisamos olhar para a América Latina”. Em seguida, retomou o debate sobre a marca do consumo entre os indivíduos do século XXI, fazendo a reflexão sobre consumo e cidadania. “Será mesmo que o consumo dá condições para pensarmos que somos mais humanos?”, questionou. 

Com um clima mais leve e até provocador, a professora Beatriz Daudt Fischer, também docente do PPG em Educação da Unisinos, estava realizada com o debate: “isso aqui que fizemos hoje é o que pode ser chamado de universidade”. Beatriz lembrou que durante anos os profissionais da área da Educação e da Pedagogia eram considerados “enlouquecidos”, porque apresentavam apenas sonhos e utopias. “Hoje temos pesquisa, somos considerados, legitimados. Aprendemos a substituir o “ou-ou” pelo “e”. A professora frisou que todos precisam entender que o caos não é algo caótico e que é necessário suportar o caos momentâneo e partir dele para a ação. “Ainda vivemos em uma estrutura linear, onde o rei é o sistema”, provocou.

Comunicação

Convidado a se pronunciar também, o professor do PPG em Comunicação da Unisinos e pró-reitor acadêmico da instituição, Pe. Pedro Gilberto Gomes, dividiu com os presentes uma questão que lhe surgiu durante o debate: “Que tipo de pessoa se estrutura a partir do desenvolvimento tecnológico?”. Para ele, é papel da universidade questionar isso e perceber que perguntas estão sendo suscitadas a partir deste debate. “Precisamos pensar em como a academia pode oferecer possíveis processos de resposta. O que tínhamos não serve mais”. 

Administração da Unisinos

Por fim, o último a se pronunciar foi o professor João Zani, pró-reitor de Administração da Unisinos, que apontou a dificuldade da decisão colegiada em nosso tempo. “A sociedade busca o holístico, mas pratica sempre o individualismo. Todos querem decidir individualmente”, lamentou. 

Pe. Marcelo Aquino encerrou o debate colocando que o projeto de universidade é algo em permanente construção, tendo seus altos e baixos, além das concessões inteligentes. “Os jesuítas têm orgulho da comunidade Unisinos. O que precisamos é contribuir com a sociedade sem abrir mão da excelência acadêmica”, concluiu.

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