Edição 418 | 13 Mai 2013

“A ironia a serviço do trabalho de parteira espiritual”

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Márcia Junges e Gabriel Ferreira | Tradução de Luís Marcos Sander

Há uma verdadeira fascinação do filósofo dinamarquês pelo “mistério de Sócrates como indivíduo existente que se esquiva a modos familiares de compreensão”, pontua Jacob Howland. Para Kierkegaard, Sócrates foi o único ser humano a “explodir” com a existência

“O Sócrates de Kierkegaard flui da pena do Kierkegaard de Sócrates: os dois sempre já estão unidos no círculo de um relacionamento essencial”, assinala Jacob Howland na entrevista que concedeu por e-mail à IHU On-Line. “Como Sócrates, Kierkegaard emprega a ironia a serviço do trabalho de parteira espiritual. Também não devemos esquecer que personalidades profundas como Sócrates e Kierkegaard precisam lidar com o fenômeno da ironia não intencional. Como diz Sócrates no início do Sofista, de Platão, a ignorância dos muitos faz com que os filósofos apareçam às vezes como sofistas, às vezes como estadistas e às vezes como loucos”. Howland acentua que numa era “dominada pelo tecnicismo e pelo fenômeno do ‘homem de massa’”, o pensador dinamarquês “nos lembra que a filosofia é fundamentalmente um modo de existência individual, e não um empreendimento puramente teórico – e certamente não um empreendimento técnico. Sua ênfase na abertura erótica da alma para os mistérios da vida é um belo antídoto para a insolência do reducionismo científico”.

Jacob Howland leciona no departamento de Filosofia da Universidade de Tulsa, nos Estados Unidos, onde ministra cursos sobre filosofia grega antiga, sobre autores como Platão, Aristóteles, Xenofonte e Kierkegaard. Graduou-se com honra no Swarthmore College e é Ph.D em Filosofia pela Universidade do Estado da Pennsylvania. De sua produção bibliográfica, destacamos The Republic: The Odyssey of Philosophy (New York: Twayne Publishers, 1993) e Kierkegaard and Socrates: A Study in Philosophy and Faith (New. York: Cambridge University Press, 2006).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Sócrates  é uma figura emblemática na obra de Kierkegaard. Como a relação com a filosofia e a tragédia antiga influenciou seu pensamento?

Jacob Howland – Essa é uma pergunta muito interessante e para a qual não há uma resposta breve. Muitos dos principais temas e ênfases nos escritos de Kierkegaard – autoconhecimento, busca erótica, paradoxo, unidade de teoria e prática, o caráter irredutivelmente poético da filosofia – são explorados pela primeira vez pelos gregos da Antiguidade, e a figura de Sócrates é central para essa exploração. Ao mesmo tempo, Kierkegaard fica fascinado com o mistério de Sócrates como indivíduo existente que se esquiva a modos familiares de compreensão. Isso está relacionado com sua pergunta sobre a tragédia. Visto de um certo ângulo, por exemplo, o destino de Sócrates parece trágico. Seguindo a obra de Jean-Pierre Vernant  e René Girard , ele pode ser entendido como um herói/bode expiatório cuja morte é um sacrifício que, na intenção de seus acusadores, produz unanimidade cívica e purifica a cidade de Atenas. Entretanto, a explicação da tragédia dada por Aristóteles  na Poética não parece se aplicar a ele. Num registro feito em seu diário, Kierkegaard afirma que, “fora do cristianismo, Sócrates é o único homem sobre o qual se pode dizer: ele explode a existência, o que pode ser visto bem simplesmente no fato de ter eliminado a separação entre a poesia e a realidade”. A distinção entre poesia e realidade é central para a tragédia, a respeito da qual se pode dizer que gira em torno da descoberta de que nós não somos quem pensamos que somos – que nossos eus poetizados ou idealizados não correspondem à realidade, e que nossos eus efetivos não correspondem à idealidade. Mas Sócrates elimina a separação entre poesia e realidade; única entre as pessoas da Antiguidade, sua existência se caracteriza por uma integridade que explode as concepções incompletas ou parciais de virtude que são dramatizadas na tragédia e ocasionam o erro trágico.

IHU On-Line – Como podemos compreender a autoria platônica de Kierkegaard em vista de sua preferência, expressa em O conceito de ironia, por Aristófanes , e não Platão ou Xenofonte , como a melhor via para se compreender Sócrates?

Jacob Howland – A autoria de Kierkegaard é platônica primordialmente no sentido de que ele reproduz, à sua própria maneira, o relacionamento com Sócrates que Platão descreve em sua Segunda carta: “não há escritos de Platão, e nunca haverá, mas aqueles que agora se diz serem seus são de um Sócrates que ficou belo e jovem” (314c). Platão sugere claramente aqui que seus textos são escritos por um Sócrates rejuvenescido e enobrecido e também sobre ele. Poder-se-ia dizer que o espírito de Sócrates é, de alguma maneira, tanto o pano de fundo quanto o primeiro plano dos diálogos platônicos, originando a inspiração e o produto poético. De modo semelhante, o Sócrates de Kierkegaard flui da pena do Kierkegaard de Sócrates: os dois sempre já estão unidos no círculo de um relacionamento essencial. Quanto à brilhante caracterização da ironia de Sócrates em As nuvens de Aristófanes, a interpretação de Sócrates que Kierkegaard propõe em O conceito de ironia é decisivamente influenciado por Platão. Particularmente, Sócrates não é, em última análise, isolado e fechado em si mesmo, como sugere Aristófanes. Pelo contrário, Kierkegaard indica que a ironia é o modo pelo qual Sócrates se relaciona essencialmente com os outros, e que sua satisfação como ironista reflete a plenitude dessas relações éticas.

IHU On-Line – Há um nexo entre a ironia kierkegaardiana e a socrática?

Jacob Howland – Certamente. Como Sócrates, Kierkegaard emprega a ironia a serviço do trabalho de parteira espiritual. Também não devemos esquecer que personalidades profundas como Sócrates e Kierkegaard precisam lidar com o fenômeno da ironia não intencional. Como diz Sócrates no início do Sofista de Platão, a ignorância dos muitos faz com que os filósofos apareçam às vezes como sofistas, às vezes como estadistas e às vezes como loucos. Há também um nexo significativo entre a ironia de Kierkegaard e a de Platão. Ao passo que Sócrates não escreveu nada, Kierkegaard, assim como Platão, emprega formas complexas de ironia literária. Por exemplo, ele fala a seus leitores passando por cima de seus autores pseudonímicos, assim como Platão fala passando por cima de personagens como Euclides e Terpsião, que narram o Teeteto, ou Apolodoro, que narra o Simpósio.

IHU On-Line – Passados 200 anos do nascimento de Kierkegaard, qual é a importância de seu legado filosófico?

Jacob Howland – Numa era dominada pelo tecnicismo e pelo fenômeno do “homem da massa” que Ortega y Gasset  descreve tão bem em A rebelião das massas, Kierkegaard nos lembra de que a filosofia é fundamentalmente um modo de existência individual, e não um empreendimento puramente teórico – e certamente não um empreendimento técnico. Sua ênfase na abertura erótica da alma para os mistérios da vida é um belo antídoto para a insolência do reducionismo científico.

IHU On-Line – Qual é a importância de seu pensamento para a teologia, especificamente?

Jacob Howland – Esta é uma pergunta enorme, que temo não ser inteiramente competente para responder. Direi apenas que Kierkegaard chama a atenção para os elementos mais paradoxais da Bíblia hebraica e do Novo Testamento e, assim, nos ajuda a abordar esses textos com olhos e ouvidos novos. Mas não creio que Kierkegaard tenha uma “teologia” em sentido estrito – um logos de theos, ou uma explicação filosófica de Deus. Certamente em seus escritos pseudonímicos, seu pensamento se centra mais na dificuldade e maravilha da fé.

IHU On-Line – Qual é a sua análise sobre a percepção de Kierkegaard, expressa no Pós-escrito, sobre Lessing, apontando-o como uma espécie de Sócrates no interior do cristianismo?

Jacob Howland – A concepção socrática da filosofia como busca erótica vitalícia de sabedoria se reflete na adoção da “busca permanente da verdade” por parte de Lessing , que é inclusive preferível à posse da verdade em si. Além disso, os escritos de Lessing são socráticos na medida em que estão estruturados de modo a forçar os leitores a pensar por si mesmos e a se abster de tentar agarrar o rabo da saia do autor na questão da verdade religiosa. Diferentemente de Sócrates, entretanto, Lessing teve o privilégio de refletir sobre a revelação em geral e o cristianismo em particular. Assim, ele é um modelo para a atividade autoral do próprio Climacus.

IHU On-Line – Qual a sua avaliação sobre a recepção da obra de Kierkegaard nos EUA?

Jacob Howland – Kierkegaard recebe pouquíssima atenção nos Estados Unidos. Nietzsche, é claro, é muito mais amplamente estudado, embora seja, em minha opinião, inferior a Kierkegaard. Parte do problema é que Kierkegaard não escreveu em alemão! Entretanto, a comunidade de pesquisadores de Kierkegaard nos EUA é altamente dedicada e está se expandindo rapidamente. Por exemplo, a Conferência Internacional sobre Kierkegaard de 2010, realizada no St. Olaf College, em Northfield, Minnesota, teve o dobro de participantes da conferência de 2005.

IHU On-Line – Qual é o papel da Howard & Edna Hong Kierkegaard Library na pesquisa americana desse filósofo?

Jacob Howland – A biblioteca e as conferências associadas a ela são excelentes subsídios para os pesquisadores de Kierkegaard. Gordon Marino, o curador da biblioteca, é uma pessoa maravilhosa que faz um grande esforço para promover Kierkegaard junto ao público e para ir ao encontro de pesquisadores em áreas afins. Minha formação foi em filosofia grega, e ele me recebeu de braços abertos na família Kierkegaard. Casualmente, Gordon é um especialista em boxe, um assunto sobre o qual escreve regularmente no Wall Street Journal, o maior jornal dos EUA. Por exemplo, ele escreveu um belo obituário do grande pugilista alemão Max Schmeling. Seria interessante perguntar a ele qual é a conexão entre o boxe e Kierkegaard.

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