Edição 418 | 13 Mai 2013

O legado filosófico de Kierkegaard

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Márcia Junges e Gabriel Ferreira | Tradução de Luís Marcos Sander

No mínimo duas preocupações teológicas kierkegaardianas deveriam ser objeto de estudo da teologia moderna, assevera Poul Lübcke. O confronto entre a igreja dinamarquesa e o pensador não foi muito significativo, considera

“Desde Sartre, nenhum filósofo verdadeiramente importante parece ter sido essencialmente inspirado por Kierkegaard. É claro que a maioria dos filósofos ouviu falar dele e alguns provavelmente também leram algumas partes de suas obras, mas as principais questões discutidas na filosofia da Europa continental (para não mencionar a filosofia britânica e americana) não vêm mais de Kierkegaard. Embora haja uma enorme produção de artigos sobre Kierkegaard, eles têm uma orientação histórica ou então não exercem influência sobre a corrente principal da filosofia”. A afirmação é do filósofo dinamarquês Poul Lübcke, na entrevista que concedeu por e-mail à IHU On-Line. Heidegger e Sartre figuram entre os pensadores mais recentes que tiveram influência destacada de Kierkegaard.

Poul Lübcke leciona na Universidade de Copenhague, na Dinamarca. De sua produção bibliográfica citamos Politikens filosofi leksikon, Tidsbegrebet: Et metafysisk essay e Metafysik.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Raras vezes o aspecto metafísico e ontológico do pensamento de Kierkegaard é colocado em primeiro plano em sua obra. Contudo, esses são temas recorrentes em sua produção. Como você avalia a importância da ontologia de Kierkegaard para a compreensão de sua obra?

Poul Lübcke – Concordo que as considerações ontológicas de Kierkegaard não são suas principais contribuições para a filosofia. Mas, visto que sua ontologia representa os limites do que ele crê ser existencial e metafisicamente possível, tento sustentar que os pressupostos ontológicos de Kierkegaard constituem um conjunto de condições necessárias – e frequentemente não percebidas – para seu pensamento existencial. Só para mencionar três exemplos: 1) Climacus afirma que não podemos ter um sistema existencial, ao passo que um sistema lógico é possível. Qual é o conteúdo desse “sistema lógico”? 2) Como esse “sistema lógico” influencia, p. ex., a famosa definição do ser humano de Anti-Climacus no início de Doença para a morte? 3) Como o “sistema lógico” define o que é possível entender a partir da perspectiva humana e o que deve ser descrito como “um paradoxo”, e como esse “paradoxo” deve ser interpretado? Esses temas farão parte de minha palestra no Congresso Kierkegaard 200 anos depois.

IHU On-Line – Quais as matrizes da ontologia de Kierkegaard e quais seus desdobramentos na filosofia posterior?

Poul Lübcke – As matrizes são muitas, mas Platão, Aristóteles, Kant, Hegel e mais tarde Trendelenburg certamente são fontes importantes da ontologia de Kierkegaard. À parte desses filósofos conhecidos internacionalmente, entretanto, também é preciso mencionar o dinamarquês Poul Martin Møller , que desempenhou um papel muito importante no desenvolvimento inicial de Kierkegaard e a quem ele também dedicou O conceito de angústia. Vou apresentar o nexo e a diferença entre Møller e Kierkegaard em minha palestra no congresso sobre Kierkegaard na Unisinos. Entre os filósofos posteriores que foram influenciados pela ontologia de Kierkegaard, dever-se-ia mencionar o filósofo dinamarquês Hans Bröchner. Em nível internacional, é óbvio que Heidegger, em particular, foi inspirado por Kierkegaard na obra Ser e tempo, embora aí sua preocupação seja muito diferente.

IHU On-Line – Passados 200 anos do nascimento de Kierkegaard, qual é a importância do seu legado filosófico?

Poul Lübcke – A pergunta deve ser respondida de maneiras diferentes dependendo de se ela deve ser entendida em termos factuais ou normativos. De um ponto de vista factual, é preciso admitir que a influência de Kierkegaard sobre a filosofia presente é muito limitada. Desde Sartre, nenhum filósofo verdadeiramente importante parece ter sido essencialmente inspirado por Kierkegaard. É claro que a maioria dos filósofos ouviu falar dele e alguns provavelmente também leram algumas partes de suas obras, mas as principais questões discutidas na filosofia da Europa continental (para não mencionar a filosofia britânica e americana) não vêm mais de Kierkegaard. Embora haja uma enorme produção de artigos sobre Kierkegaard, eles têm uma orientação histórica ou então não exercem influência sobre a corrente principal da filosofia. Isso quanto à questão factual. 

Mundo complexo

Quando perguntamos se Kierkegaard deveria ter uma influência sobre a filosofia moderna, as coisas mudam; neste caso, a pergunta tem de receber uma resposta afirmativa em (pelo menos) três níveis: 1) As diferentes explicações do desespero dadas por Kierkegaard deveriam servir de desafio para todo filósofo moderno que suponha que os agentes humanos são autotransparentes e capazes de realizar a “vida boa”. 2) Escolas diferentes de filósofos práticos diferem em sua compreensão do que o ser humano deveria fazer e de por que isso é assim. Essas são as questões de que se ocupam os filósofos práticos, sejam eles consequencialistas, deontologistas ou adeptos de alguma espécie de ética das virtudes. Mas nenhuma dessas escolas parece fazer a pergunta kierkegaardiana: O que faço quando sei o que devo fazer, mas deixo de fazê-lo? Como reajo à minha culpa? Como continuo sendo culpado? 3) Os filósofos modernos escrevem como se a tarefa interessante na filosofia prática consistisse principalmente em apresentar respostas positivas a questões normativas. Os melhores dentre eles até tentam propor um argumento conclusivo para sua posição. Kierkegaard, porém, oferece outra estratégia: ele apresenta diferentes posições, diferentes perspectivas, entre as quais o ser humano tem de optar no final, pois não há argumento conclusivo para a em oposição a b, c e d. Essa é uma estratégia que deveria ter influenciado os filósofos modernos, que vivem num mundo ainda mais complexo do que o de Kierkegaard.

IHU On-Line – Qual é a importância de seu pensamento para a teologia, especificamente?

Poul Lübcke – Mais uma vez, a pergunta pode ser respondida de duas maneiras: factual e normativa. Mais uma vez, não vejo uma grande influência de Kierkegaard sobre a teologia moderna. Embora ele tivesse uma enorme influência sobre Barth e Bultmann, por exemplo, ambos pertencem ao passado. A teologia moderna transcendeu esses teólogos, e Kierkegaard não parece fazer parte disso. A questão, então, é se ele deveria ter influência. Como não sou teólogo, não sei se sou a pessoa certa a quem dirigir a pergunta, mas vou responder mesmo assim. Não creio que a teologia pudesse aprender muito da teologia positiva de Kierkegaard – nem da parte paradoxal nem da parte mais pietista apresentada nos discursos edificantes. Mas ao menos duas de suas preocupações teológicas deveriam ser objeto de preocupação da teologia moderna: 1) seu foco na interpretação do desespero como pecado como o único acesso legítimo ao cristianismo; e 2) sua desconstrução dos conceitos clássicos de revelação, combinada com o fato de ele ter mantido a reivindicação de que a possibilidade da revelação é uma conditio sine qua non para que o cristianismo seja cristianismo.

IHU On-Line – Os últimos anos da vida de Kierkegaard foram dedicados a um embate mais direto com a Igreja dinamarquesa. Quais foram as principais críticas que formulou?

Poul Lübcke – Sua principal preocupação era a exigência de que os cristãos sigam a Cristo sendo pobres e enfrentando a parte pagã da igreja como legitimação do Estado nacional. Isso levanta um grande debate teológico que remonta ao cristianismo dos primórdios. Mas, de um ponto de vista filosófico, não acho a confrontação de Kierkegaard com a igreja dinamarquesa tão interessante.

IHU On-Line – Houve algum impacto na Igreja dinamarquesa após essas críticas? 

Poul Lübcke – Com exceção de um pequeno grupo de intelectuais chamado “Tidehverv” de 1930 a 1960, seu impacto sobre a igreja da Dinamarca foi entre pequeno e inexistente.

IHU On-Line – Como percebe a influência da filosofia desse pensador na cultura dinamarquesa?

Poul Lübcke – A resposta é a mesma: a influência de Kierkegaard sobre a cultura da Dinamarca foi entre pequena e inexistente.

IHU On-Line – Quais as atividades do The Søren Kierkegaard Research Centre, na Universidade de Copenhagen, e qual sua importância na pesquisa desse pensador?

Poul Lübcke – Até agora, o Centro esteve basicamente ocupado com a nova edição da obra de Kierkegaard. É cedo demais para dizer qualquer coisa sobre suas atividades no futuro. Embora a influência efetiva de Kierkegaard sobre a filosofia e a teologia atuais seja limitada, ele é um pensador importante com um enorme potencial em termos de influência futura – especialmente sobre a filosofia prática. Suas soluções não são a parte interessante de sua obra, mas suas perguntas a respeito do desespero e da culpa, particularmente, deveriam ser integradas na filosofia futura.

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