Edição 418 | 13 Mai 2013

A angústia e a aventura do tornar-se homem

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Márcia Junges e Gabriel Ferreira

Verdade e subjetividade são temáticas que ocasionariam um diálogo fecundo entre Kierkegaard e Levinas, desafia Jorge Miranda de Almeida. Intercâmbio entre pesquisadores brasileiros e de outros países do continente latino-americano deve ser incentivado

“A angústia extrapola a pretensão do idealismo em querer demonstrar racionalmente em que constitui a aventura do tornar-se homem. Ela revela ao mesmo tempo a grandeza e a miséria do ser humano. O homem em estado de incompletude está aberto à maior das ações humanas, como está aberto também à maior das monstruosidades, por isso ele se angustia e tem medo de concretizar a síntese”. A afirmação é do filósofo Jorge Miranda de Almeida, presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Kierkegaard – Sobreski, na entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Ele adverte que Kierkegaard não é “um pensador simples e o leitor não se deve deixar levar pela leveza da afirmação de que a verdade é a subjetividade”. Traduções, profusão de eventos e o incremento na redação de dissertações e teses sobre o autor dinamarquês demonstram que cresce no Brasil a pesquisa acadêmica kierkegaardiana.

Jorge Miranda de Almeida é graduado e mestre em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-Rio e doutor em Filosofia pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, com a tese Ética e sentido: Projeto de uma ética existencial a partir da superação da ontologia como filosofia primeira, partindo da análise do conceito de ética na filosofia de Kierkegaard. Cursou pós-doutorado pela Unisinos e leciona na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. É autor de, entre outros, Ética e existência em Kierkegaard e Levinas (Vitória da Conquista: Edições UESB, 2009) e Kierkegaard (Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2007), escrita em parceria com Álvaro Valls.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual é a relação entre subjetividade e verdade a partir das filosofias de Kierkegaard e Levinas ?

Jorge Miranda de Almeida – Em primeiro lugar, a subjetividade não é entendida na perspectiva da identidade e da representação conceitual, as pessoas encarnadas de carne e osso não são reduzidas ao Neutro da ideia, do ser, do conceito, como explicita Levinas em Totalidade e Infinito . Subjetividade é interioridade, é ética (segunda ética) e, em última instância, o filósofo dinamarquês afirma que a subjetividade é a própria singularidade após um longo percurso de interiorização para tornar-se subjetivo que é o tema do primeiro capítulo da segunda seção intitulada o Problema subjetivo, ou como tem que ser a subjetividade, para que o problema possa se apresentar a ela  e que tem no segundo capítulo a resposta para a pergunta proposta no que diz respeito a obra de Kierkegaard e à relação entre subjetividade e verdade. O capítulo II da segunda seção é intitulado A verdade subjetiva, a interioridade; a verdade é a subjetividade. Mas o que quer evidenciar com essa proposição?

Kierkegaard não é um pensador simples e o leitor não se deve deixar levar pela leveza da afirmação de que a verdade é a subjetividade. O caro leitor tem clareza que a verdade é a questão por excelência da filosofia ocidental em dois mil e quatrocentos anos. Ora, a tradição filosófica identifica a verdade como a identificação e adequação entre o ser e o pensamento. Pensar é ser, diria Parmênides , e o ser é a verdade apropriada pelo intelecto, por isso, a máxima que conhecer e ser são, no fundo, a mesma coisa, desde que a verdade seja demonstrada com o rigor da lógica através da exatidão e da certeza evidente da essência do ser na objetividade do conceito. Por isso Aristóteles em sua Metafísica (II, 993 a 30-993b 30)  a define a filosofia como a ciência da verdade, enquanto Hegel na Enciclopédia no parágrafo 438 afirma que “a verdade é em si e por si, que a razão é a simples identidade da subjetividade do conceito e da objetividade e universalidade.” 

Verdade existencial

O filósofo dinamarquês opera com uma subversão do conceito de verdade ao estudá-la a partir do paradoxo da encarnação, conforme analisa Vergote (1982, v. II, p. 68) . A verdade não é mais identificada como um conceito, uma definição objetiva e universal, para tornar-se uma vida. Não é suficiente conhecer a verdade, é preciso tornar-se a própria verdade. Em outro momento, ele afirma que não pode haver um intervalo entre conhecer a verdade e concretizá-la. Kierkegaard no Pós-escrito analisa a verdade do ponto de vista histórico, filosófico e do cristianismo e estabelece que o sujeito que pergunta sobre a verdade, mas não se coloca no interior da verdade como apropriação, da verdade subjetiva, não conhece efetivamente o que é a verdade. O que isso quer dizer? Que a verdade não é prioritariamente uma suma de proposições e demonstrações lógicas; ela consiste, isto sim, em um movimento que esteja voltado para o interior da própria subjetividade, pois, em última instância a verdade é a transformação do sujeito em si mesmo. Nesse sentido, a verdade adquire a dimensão e o estatuto de testemunho, temática essa que será desenvolvida e aprofundada por Levinas (1906-1995) e Franz Rosenzweig  (1886-1929) entre outros. Por isso, em seu Diário de 1835 pode ser constatada a sua crítica à verdade do conceito e anunciada, o que se poderia denominar de uma verdade existencial, pois “se trata de encontrar uma verdade que seja uma verdade para mim, de encontrar uma ideia que eu queira viver e morrer. 

E qual vantagem teria em descobrir uma daquelas consideradas verdades objetivas, de engolfar-me nos sistemas filosóficos? Qual vantagem em desenvolver uma teoria do Estado e construir uma teoria onde não conseguirei viver limitando-me a mostrar aos outros? [...] qual a vantagem eu teria em uma verdade que se erguesse nua e fria, indiferente se eu a reconheça ou não, que me causa um calafrio de angústia do que um confiante abandono? (KIERKEGAARD, 1980, v. II, p. 41, I A 75).

Verdade ética e ética da alteridade

A subjetividade é o tema central na obra de Levinas. Ele a desenvolve com maestria nas obras Totalidade e infinito e Autrement qu’être ou au-delà de l’essence, (estranhamente, ainda sem tradução para língua portuguesa). A radicalidade da concepção levinasiana da subjetividade como substituição adquire uma dimensão ética de primeira grandeza. A substituição é a concretização da responsabilidade radical como é tematizado no capítulo IV de Autrement qu’être. Nesse sentido, a subjetividade enquanto responsabilidade é anterior à liberdade e à própria questão do ser, uma vez que remonta a uma imemorialidade, isto é, a uma pré-origem, que não pode ser tematizada, mas acolhida como mistério. A conferência Existência e ética, sintetiza muito bem o que ele entende por subjetividade: “a subjetividade está na responsabilidade (de mim para com o outro) e somente uma subjetividade irredutível pode assumir uma responsabilidade. A ética é propriamente isto” (LEVINAS, 1984, p. 87) .

Agora, como se desdobra a relação da verdade com a subjetividade em Kierkegaard e Levinas? Em primeiro lugar, a verdade não é uma proposição que precisa ser demonstrada logicamente para ter validade; também não é uma verdade que se desvela nua e crua e indiferente aos dramas e conflitos humanos; a verdade é o testemunho da própria existência . Nos dois autores, embora se reconheça a validade da verdade epistemológica e gnosiológica, o que eles propõem é a verdade no interior do que denomino em Kierkegaard da segunda ética, e que em Levinas é a ética da alteridade. Enquanto verdade ética, ela não pode ser representada, não pode ser conceituada, mas concretizada na pessoa da singularidade que assume a responsabilidade de evidenciar a verdade com a própria vida. Por isso a contundente afirmação de Kierkegaard de que “só a verdade que edifica é verdade para ti. Esse é um predicado essencial em relação à verdade enquanto interioridade, com o que sua determinação decisiva como edificante para ti, ou seja, para o sujeito, é sua diferença essencial em relação a todo saber objetivo, com o que a própria subjetividade se torna sinal da verdade” (KIEREKGAARD, 1993, p. 396, grifos do autor). Em Totalidade e infinito é possível compreender o movimento da subjetividade enquanto interioridade (edificada diria Kierkegaard) responsável e ética. Segundo Levinas (2000, p. 223), “Sou (…) necessário à justiça como responsável para além de todo o limite fixado por uma lei objetiva. O eu é um privilégio ou uma eleição. A única possibilidade no ser de atravessar a linha reta da lei, ou seja, de encontrar um lugar para além do universal – é ser eu. (...) a verdade não pode estar na tirania, tal como não pode estar no subjetivo. A verdade só pode ser se uma subjetividade for chamada a dizê-la no sentido em que o salmista exclama: ‘o pó agradecer-te-á, dirá a tua verdade’. O apelo à responsabilidade infinita confirma a subjetividade na sua posição apologética. A dimensão da sua interioridade reconduz-se na categoria do subjetivo à do ser. O julgamento já não aliena a subjetividade, porque não a faz entrar e dissolver-se na ordem de uma moralidade objetiva, mas deixa-lhe uma dimensão de aprofundamento em si. Proferir ‘eu’ – afirmar a singularidade irredutível em que prossegue a apologia – significa possuir um lugar privilegiado em relação às responsabilidades, para as quais ninguém pode substituir-me e das quais ninguém me pode desligar. Não poder esquivar-se – eis o eu.”

Diálogo

Esse extrato da obra demonstra a presença de Kierkegaard no pensamento de Levinas, mais do que o filósofo lituano admite e que seus seguidores gostariam de admitir. A crítica que o autor de Autrement qu’être  atribui a Kierkegaard quanto aos limites da compreensão, do alcance da subjetividade, de mantê-la na ordem do mesmo, de pensar uma subjetividade solipsista é uma leitura atravessada pela ótica de Heidegger que ele utiliza. Embora não chegue à substituição, que é uma categoria eminentemente levinasiana, o pensador dinamarquês em As obras do amor já havia estabelecido a alteridade  de forma contundente ao estabelecer a abnegação disposta ao sacrifício pela promoção do próximo. Portanto, existe uma proximidade muito grande que as lentes da vaidade ainda não permitiram estabelecer. O em-face em Levinas já foi suficientemente tematizado na perspectiva do próximo, como estabelece Kierkegaard na referida obra, pois a subjetividade do si não seria nada se não se torna eminentemente um para tu e na mesma obra a tese maior da segunda ética, pois amar o próximo é a tarefa de todas as tarefas e a chave de volta por onde se liga o eterno e o temporal. A interioridade edificada que se traduz em subjetividade ética como Kierkegaard desenvolve em Post-scriptum é analisada por Levinas nos mesmos termos como consta em Totalidade e infinito “a interioridade está essencialmente ligada à primeira pessoa do eu. 

A separação só é radical se cada ser tiver o seu tempo, isto é, a sua interioridade. Graças à dimensão da interioridade, “o ser recusa-se ao conceito e resiste à totalidade” (LEVINAS, 2000, p. 45). Seria importante um diálogo com os estudiosos em Levinas para aprofundar a herança de Kierkegaard em seu pensamento e em sua produção, como faz David Brezis no ponderado artigo L'intériorité en question. Regards croisés sur kierkegaard et levinas . Espero que em algum momento haja possibilidade de um diálogo fecundo realizado por estudiosos de Kierkegaard e Levinas em torno das obras As obras do Amor e Autrement qu’être ou au-delà de l’essence e que terá como fruto, seguramente, uma resposta muito contundente À pergunta formulada sobre a relação entre verdade e subjetividade nos dois pensadores.

IHU On-Line – Em que consiste a psicologia kierkegaardiana e qual é o lugar do conceito de angústia dentro dela?

Jorge Miranda de Almeida – Em primeiro lugar, Kierkegaard não se declarou psicólogo. Ele não elaborou nenhum tratado de psicologia para responder adequadamente em que consiste a psicologia kierkegaardiana. Porém, ironicamente é considerado como um dos mais profundos psicólogos do século XIX e ousaria dizer que até hoje. Georges Brandes numa carta datada de 11 de janeiro de 1888 endereçada a Nietzsche afirmou: “existe um escritor escandinavo cujas obras muito lhe interessariam se pudesse lê-las em alguma tradução: penso em Soren Kierkegaard que é, segundo o conceito que dele faço, um dos mais profundos psicólogos do mundo. Um pequeno livro que escrevi sobre ele não dá a margem de sua genial personalidade” (BRANDES apud REICHMANN, 1963, p. 26) . Nietzsche responde em 19 de fevereiro de 1988: “penso, ao chegar a Alemanha, começar a trabalhar o problema psicológico Kierkegaard” (BRANDES apud REICHMANN, 1963, p. 27). Reinhold Niebhur qualificou Kierkegaard como o “mais profundo mestre da psicologia religiosa desde Santo Agostinho ” (apud HOUSTON, 2003, p. 102) .

Lacan no Seminário X, intitulado A angústia, a respeito da dimensão da angústia na construção da personalidade humana, retoma Kierkegaard e explica aos seus ouvintes que “não sei se todos se dão conta da audácia exibida por Kierkegaard com esse termo” (LACAN, 2005, p. 362), E continua: “Kierkegaard, que devia ter algo da natureza de Tirésias, provavelmente mais do que eu” (p. 209) e ainda: “a angústia em que podemos introduzir-nos, em seguida a uma dada meditação guiada por Kierkegaard” (p. 27). Essas três citações são suficientes, penso eu, para que o leitor possa refletir sobre a importância de Kierkegaard “como psicólogo” em Lacan, embora tenham objetivos (?) e métodos diferentes. Com essa relação respondo em parte à pergunta sobre o lugar da angústia na psicologia e, acrescentaria, na antropologia kierkegaardiana. A angústia é o que mede a maturidade e a qualidade existencial do indivíduo singular, pois “quanto mais original é um homem, tanto mais profunda será sua angústia” (KIERKEGAARD, 2010, p 57) .

Grandeza e miséria humanas

Assumindo o homem como um ser de carne e osso e sua tarefa de concretizar-se a si mesmo no temor e no tremor, a angústia é possivelmente o que melhor condiz com a condição humana. É por isso que ela é a medida da maturidade existencial, como o filósofo afirma: “pode-se dizer, ao contrário, que quanto mais original é um homem, tanto mais profunda será sua angústia” (KIERKEGAARD, 2010, 57). A angústia extrapola a pretensão do idealismo em querer demonstrar racionalmente em que constitui a aventura do tornar-se homem. Ela revela ao mesmo tempo a grandeza e a miséria do ser humano. O homem em estado de incompletude está aberto (o que mais tarde discípulos diretos e indiretos do filósofo dinamarquês iriam denominar como projeto, abertura, ser-aí, possibilidade, dasein, etc.) à maior das ações humanas, como está aberto também à maior das monstruosidades. Por isso ele se angustia e tem medo de concretizar a síntese, como Vigilius afirma: “deste modo, a angústia é a vertigem da liberdade, que surge quando o espírito quer estabelecer a síntese, e a liberdade olha para baixo, para sua própria possibilidade, e então agarra a finitude para nela firmar-se” (KIERKEGAARD, 2010, p. 66).

Kierkegaard pode ser compreendido e estudado como psicólogo porque seus pseudônimos têm personalidades fortes e os personagens que ele analisa encarnam muitas das características mais frequentes da psique humana em seu estado de equilíbrio e em seu estado de desequilíbrio. Para tanto é suficiente examinar no interior da obra Enten-eller (“Ou isso ou aquilo”, em francês foi traduzido por Ou bien... Ou bien) na parte intitulada Silhouettes as personagens de Maria Beaumarchais, Dona Elvira e Margarida para se ter ideia da profundidade do conhecimento e da análise da personalidade e do desespero que toma conta do indivíduo quando ele coloca o sentido da sua existência em outro ser (no caso específico D. Giovanni), pois o mais infeliz é aquele que “tem o seu ideal, o conteúdo de sua vida, a plenitude da sua consciência, a sua verdadeira e própria essência, de qualquer forma, fora de si. O infeliz é sempre ausente de si mesmo, ele nunca está presente em si mesmo” (KIERKEGAARD, 2001, v. II, p. 116) .

Delírio da interioridade

Contudo, é com o autor do Pós-escrito, Johannes Climacus que gostaria de exprimir a grande penetração kierkegaardiana no campo da psique humana, mesmo que Climacus não tivesse essa pretensão. Dom Quixote, sendo o modelo da loucura subjetiva, desenvolve uma paixão fixa, um fetiche e nega-se a si mesmo para viver em um mundo à parte. Ora, não reside nesse ato a origem de quase todas as patologias mentais? O que seria a demência se não a falta da elaboração da personalidade equilibrada e edificada?

Dom Quixote é o modelo da loucura subjetiva na qual a paixão da interioridade envolve uma representação particular finita e fixa. Mas quando, por outro lado, a interioridade está ausente, aparece a loucura da lenga-lenga, que ainda é cômica, e que seria de desejar que um psicólogo experimentador a encenasse, tomando um punhado de tais filósofos e colocando-os juntos. Quando a demência é um delírio da interioridade, o trágico e o cômico consistem em que algo que é infinitamente importante para o infeliz seja um detalhe fixado que não tem importância para ninguém mais. Quando, pelo contrário, a demência consiste na ausência de interioridade (KIERKEGAARD, 1993, p. 364).

A citação extraída do Pós-escrito conclusivo não científico é uma síntese do conhecimento das possibilidades da constituição do caráter e da personalidade humanas. O desequilíbrio da personalidade acontece quando se rompe o elo entre o absoluto do homem e o Absoluto de Deus. A angústia de Deus (LACAN, 2005, p. 182) é, segundo entendo a partir da leitura de O conceito de angústia, é a nostalgia engendrada na e da angústia, pois na angústia se anuncia o estado do qual o indivíduo singular pretende sair, mas sozinho não conseguirá; somente com o auxílio da fé é que o indivíduo retornará à fonte que jorra para a vida eterna, porque “sendo o indivíduo formado pela angústia para a fé, a angústia há de erradicar justamente o que ela mesma produz” (KIERKEGAARD, 2010, p. 168).

IHU On-Line – Como presidente no biênio 2006-2007 da Sociedade Brasileira de Estudos Kierkegaardianos, qual é sua percepção sobre os estudos de Kierkegaard no Brasil?

Jorge Miranda de Almeida – Nos últimos vinte anos houve considerável interesse dos estudos de Kierkegaard no Brasil. Hoje contamos com um número razoável de teses e dissertações sobre temas kierkegaardianos e sobre o próprio Kierkegaard. No ano do bicentenário de seu nascimento, muitos eventos estão sendo organizados e significa o reconhecimento da importância de Kierkegaard na filosofia, na literatura, na psicologia, na teologia. Os livros Kierkegaard de autoria minha e de Álvaro Valls; Kierkegaard no nosso tempo organizado por Álvaro Valls e Jasson da Silva Martins  e Soren Kierkegaard no Brasil – Festschrift em homenagem a Álvaro Valls, organizado por Deyve Redyson , Jorge Miranda de Almeida de Almeida e Marcio Gimenses de Paula ; Paixão pelo paradoxo e A palavra e o silêncio de Ricardo Quadros Gouvêa; Socratismo e cristianismo em Kierkegaard de Marcio Gimenes de Paula; Don Juan, Fausto e o Judeu errante de Guiomar de Grammont; Ética e existência em Kierkegaard e Levinas e Educação e ética em Kierkegaard e Paulo Freire (este último no prelo) de Jorge Miranda de Almeida de Almeida, são algumas das publicações sobre Kierkegaard no Brasil na última década, o que demonstra, que estamos pensando e produzindo com qualidade sem doutrinar e sem petrificar o pensamento de Kierkegaard.

Os estudos de Kierkegaard no Brasil, particularmente em função da data comemorativa, estão em franca abertura. Durante todo o mês de Março a Academia Brasileira de Letras dedicou uma série de conferências em torno da Existência e alternativas: um olhar sobre Kierkegaard, coordenado por Marco Lucchesi . As conferências foram intituladas Kierkegaard, a reconstrução da existência, proferida pelo professor e ensaísta Eduardo Portella; Kierkegaard e Adorno, com o acadêmico Sergio Paulo Rouanet ; Kierkegaard, apóstolo da existência, com o professor Emmanuel Carneiro Leão e Kierkegaard, Unamuno e Ortega y Gasset, com o professor Vamireh Chacon. É admirável a iniciativa, sobretudo, porque não houve nenhum membro da Sobreski participando como estudioso e pesquisador das obras kierkegaardianas, o que enobrece e abre outras perspectivas de pensar Kierkegaard no Brasil. Realmente fiquei muito satisfeito com a iniciativa do evento e pela qualidade com que ele foi desenvolvido.

Eventos

Nos dias 23 e 24 de maio será realizado no Rio de Janeiro, através do Programa de Pós-graduação em Psicologia, organizado por Myriam Moreira Protasio, um seminário intitulado Kierkegaard e Lacan, do qual alguns membros da Sobreski estarão presentes; nos dias 27 a 29 de maio acontecerá na Unisinos o congresso Kierkegaard 200 anos depois – Comemoração do bicentenário de nascimento, organizado por Álvaro Valls, com convidados renomados no estudo da obra de Kierkegaard como os estrangeiros: Bruce Kirmmse , Poul Lübcke , Hélène Politis , Nuno Ferro , Jacob Howland  e Richard Purkarthofer e, certamente, um bom números de estudiosos e aprendentes do filósofo dinamarquês. Na PUC-Rio será realizado, nos dias 11 e 12 de setembro, o seminário Comemorativo Kierkegaard 200 anos, coordenado por Karl Erik Schollhammer (Depto. de Letras/PUC-Rio) e Thiago Costa Faria (Depto. de Filosofia/PUC-Rio) com a participação de Pia Søltoft (Centro Kierkegaard e Departamento de Teologia, Universidade de Copenhague) e de vários estudiosos de Kierkegaard da Sobreski. Ainda no Rio de Janeiro, nos dias 17 a 19 de setembro acontecerá na UFRJ-RJ, organizado por Eduardo Campos, Fernando Santoro e Gilvan Fogel do Programa de Pós-graduação em Filosofia, um minicurso introdutório ao pensamento de Kierkegaard e que será ministrado por Jorge Miranda de Almeida de Almeida.

Nos dias 9 a 12 de novembro será realizada, na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – UESB, a XIII Jornadas Internacionais de Estudos de Kierkegaard – Sobreski. Este evento reúne alguns dos estudiosos de Kierkegaard há 13 anos para troca de ideias, artigos, livros, perspectivas, convivências e que, no último encontro realizado na Universidade Federal do Piauí, decidiu-se que a realização seria na Bahia, não mais anualmente e sim a cada dois anos. A organização está sob a responsabilidade de Jasson da Silva Martins e Jorge Miranda de Almeida de Almeida. Evidentemente que há outros estudiosos de Kierkegaard que não participam da Sobreski, e aproveito este espaço para convidá-los, caso tenham acesso à leitura do IHU – revista semanal do Instituo Humanistas Unisinos – IHU.

Portanto, a percepção sobre os estudos de Kierkegaard no Brasil é muito boa. Temos estudiosos em Instituições em quase todas as regiões do Brasil. Muitos jovens estudiosos estão sedentos por bibliografia de Kierkegaard e por orientações, e isso nos anima muito. Desde 1991 temos algumas obras traduzidas com qualidade diretamente do dinamarquês sem atravessar tantas dificuldades quando se traduz de uma tradução, como era anteriormente. Nesse sentido, temos que agradecer a dedicação de Álvaro Valls por ter nos presenteado com as traduções de O conceito de ironia, Migalhas filosóficas, O conceito de angústia, As obras do amor e, para 2013, o primeiro volume do Pós-escrito conclusivo não científico às Migalhas Filosóficas. Esperamos também que Jonas Roos publique a tradução ainda em 2013 de A doença mortal também diretamente do dinamarquês, bem como desejamos em breve a tradução de Enten eller (“ou isso ou aquilo?, a alternativa? Ou...ou...?”). É importante ainda salientar que Henri Nicolay Levinspuhl nos brindou com ótimas traduções de alguns dos Discursos edificantes. Esperamos que dê continuidade a esse trabalho, que é uma das variáveis mais significativas do crescimento com seriedade do pensador dinamarquês em nosso país.

IHU On-Line – Como avalia as atividades da Sobreski nos últimos anos?

Jorge Miranda de Almeida – Quando a Sobreski se reunia e éramos um número pequeno não havia necessidade de uma organização e de uma sociedade com todas as suas instâncias. Anualmente nos reuníamos, tínhamos prazer em celebrar cada encontro e a alegria com a chegada de cada novo membro. Era uma verdadeira festa cada defesa de dissertação de mestrado e de tese de doutorado... o tempo foi passando e a Sobreski cresceu. O fato marcante é esse. Ela cresceu e precisamos nos organizar mais e melhor para não nos fragmentarmos e não nos perdermos. Espero que na jornada desse ano tenhamos condições de criar mecanismos que atendam às novas demandas.

Avaliar as atividades da Sobreski é algo que não tenho competência e não tenho autoridade para fazer. Portanto, prefiro usar este espaço para dizer como me sinto em relação à Sobreski e como ultimamente estou estudando a categoria do testemunho como ferramenta filosófica. Mesmo que não atinja o testemunho da verdade, é mais salutar testemunhar do que avaliar, emitir um juízo de valor. Esta ação, penso, não se coaduna com quem estuda Kierkegaard. Nos encontros da Sobreski é muito satisfatório participar de comunicações tão diversas sobre Kierkegaard sem que alguém se sinta reprovado. Penso que até hoje a maturidade existente é uma das principais razões do crescimento desse grupo. Ninguém é dono de Kierkegaard ou tem mais legitimidade para abordar esse ou aquele tema. Aborda-se com seriedade, após a investigação análise e estudo fecundo sobre determinada área do caleidoscópio kierkegaardiano. Assim temos membros que abordam seu pensamento a partir do elemento religioso, outros preferem estudá-lo comparativamente com Adorno , Benjamin , Guimarães Rosa , Kracauer, Levinas, Schopenhauer, Hannah Arendt , Tillich , Jaspers ; outros ainda preferem cotejá-lo com a teologia na esfera católica, na esfera protestante e na esfera judaica; outros ainda estabelecem relação com Kierkegaard e o cinema, Kierkegaard e a psicologia, Kierkegaard e a literatura. 

Penso que a Sobreski deve incentivar e promover o intercâmbio cada vez maior com nossos vizinhos argentinos, mexicanos e outros latinos que se interessam pelo estudo da obra de Kierkegaard. É salutar e merece os maiores incentivos e esforços a realização do estágio na Kierkegaard-Library, de Minnesota, bem como a possibilidade de um ano de estágio do Centro de Estudos de Kierkegaard em Copenhague para o estudo da língua dinamarquesa e o acesso às obras do Centro.

Como as XIII Jornadas acontecem num momento especial, a data comemorativa aos 200 anos de nascimento de Kierkegaard, gostaria de convidar a cada membro que já esteve em alguma das jornadas anteriores, e que por motivos e razões que não precisam ser justificadas não compareceram às outras, que compareça agora, que se faça presente, que nos dê esse presente. Gostaria também de convidar os estudiosos de Kierkegaard – que não são poucos – e que não se fizeram presentes nos encontros da Sobreski, para que neste ano compareçam, façam-nos uma visita e partilhem conosco momentos em que a discussão da obra e do pensamento são apenas ocasiões para celebramos a gratuidade da existência.

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