Edição 225 | 25 Junho 2007

Batismo de sangue

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IHU Online

Os filmes comentados nessa editoria estão em exibição em Porto Alegre e foram vistos por algum(a) colega do IHU.




Ficha Técnica
Nome:
Batismo de sangue
Nome original: Batismo de sangue
Cor filmagem: Colorida
Origem: Brasil
Ano produção: 2006
Gênero: Drama - Político
Duração: 110 min
Classificação: livre
Direção: Helvécio Ratton
Elenco: Daniel de Oliveira, Caio Blat, Ângelo Antônio 

Entre a fé e a ação revolucionária

Luiz Carlos Merten comenta o filme para o jornal Estado de S. Paulo do dia 19-04-2007.

Helvécio Ratton fez filmes sobre (e para) crianças, como A festa dos bonecos e O menino maluquinho. Depois, vieram Uma onda no ar, sobre os jovens de Belo Horizonte que criam uma rádio comunitária, uma rádio pirata, e agora Batismo de sangue, sobre a memória da repressão durante o regime militar. Batismo de sangue se baseia no livro de Frei Betto. O grande personagem é Frei Tito, interpretado por Caio Blat, o dominicano que apoiou Marighella, foi preso e torturado. Algo se quebrou em Frei Tito e ele introjetou de tal forma a figura do torturador que terminou por se matar. É uma história muito forte, mas não foi o desejo de testemunho que levou Helvécio Ratton, de 56 anos, ao projeto.

Ele próprio, quando jovem, viveu no olho do furacão. Exilou-se no Chile e lá começou a fazer cinema. No fundo, lá no inconsciente, Ratton sempre teve o desejo de contar a história de sua geração. Era um desejo meio difuso, até que, em 2002, Frei Betto relançou Batismo de sangue e lhe enviou um exemplar do livro com uma dedicatória com teor de provocação – “Coragem!” Ratton releu o livro e descobriu que tinha tudo. Política, uma juventude utópica, violência, tortura, ação. Batismo de sangue dava, imaginou o diretor, um grande thriller de cinema. E foi com este olho que ele fez o filme.

Batismo de sangue começa pelo fim, quando Frei Tito avança por uma floresta, visivelmente perturbado. O espectador abre os olhos para uma tragédia iminente. Ele se mata (enforca-se). Por meio de flash-backs desenvolve as idéias dos frades dominicanos que embarcam na utopia revolucionária dos anos 60 e, atraídos pela promessa de Marighella de um Brasil mais justo, dos pobres e da liberdade, dão apoio à guerrilha urbana. O horror da repressão é encarnada pelo delegado Sérgio Fernando Paranhos Fleury, o torturador. Ratton fez pesquisas que poderiam revelar um Fleury íntimo e ainda mais brutal. Ele quis recriar na tela o Fleury que aflige a memória de Frei Betto e Frei Tito. O personagem, interpretado por Cássio Gabus Mendes, vira um estereótipo da banalização do mal. Ratton não concorda – “Ele é visto pelo ângulo de quem sofreu. Não poderia ser diferente”, disse o diretor numa entrevista realizada na semana passada, em São Paulo. Frei Betto, com quem o repórter também conversou, vem em seu socorro – “Se Fleury é esse estereótipo que você diz, Frei Tito é o antiestereótipo.”

Como filmar um homem que introjeta, dentro de si, a brutalidade deste outro que o torturou até quebrar alguma coisa dentro de si? “Tem uma cena em que Frei Tito diz que não acredita em mais nada. Nem Freud, nem Marx, nem Cristo. Ele antecipa uma descrença que se generalizou”, diz o diretor. Mas Frei Tito nunca desistiu de sua utopia. “Ele se mata para não ficar louco. A loucura seria pior que a morte. Seria a vitória do torturador”, explica o diretor. É um filme brutal. As cenas de tortura são de um realismo próximo ao de Mel Gibson em A paixão de Cristo. Ratton não teve medo de pesar a mão. Queria fazer um filme para o público jovem. Ficou gratificado quando um jovem, num debate, lhe agradeceu por haver mostrado um Brasil que ele não conhecia. “Achava que aqui tinha sido mais light, que a violência tinha sido no Chile, na Argentina”, disse o garoto.

Batismo de sangue estréia na cola de outros filmes recentes que também trataram dos anos de chumbo. Cabra cega, Zuzu Angel. É todo um período da história brasileira que vai sendo retraçado. A juventude utópica é colocada em discussão para outra juventude que, agora, é considerada consumista e alienada. Frei Betto não concorda. A juventude é o que é por conta das mudanças que ocorreram no mundo, não porque escolheu ser assim. E ele compara. “Os comunistas socializavam os bens de produção e privatizavam o sonho. As economias neoliberais privatizam os bens de consumo e socializam o sonho. Hoje, qualquer jovem de periferia ou de favela tem os mesmos desejos consumistas de quem tem dinheiro, mas ele não tem. Isso produz a violência na qual estamos imersos.”

Frei Betto havia ficado impressionado com o trabalho do ator Daniel de Oliveira em Cazuza, de Sandra Werneck e Walter Carvalho. Tomou um susto quando se viu na tela, na interpretação de Daniel. “Tivemos um encontro, ele ficou uns dois dias me observando. Captou coisas minhas, muito íntimas. Se transformou, fisicamente. Amigos me confessaram que também me viram na tela.” Daniel de Oliveira acredita em pesquisa, em informação. Leu sobre a época, absorveu tudo o que podia no contato direto com Frei Betto. Não dizia que ia fazer assim nem assado. Olhava para introjetar. “O trabalho para Frei Betto foi muito particular. Senti que teria de me aproximar dele pela palavra. Ela foi a porta para que eu entrasse nesse mundo de dor e, apesar de tudo, de esperança.”

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