Edição 225 | 25 Junho 2007

“O governo ainda não está sensibilizado com a gravidade do quadro”

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IHU Online

Em entrevista exclusiva à IHU On-Line, por telefone, o deputado federal Tarcísio Zimmermann (PT-RS) disse que as medidas adotadas pelo governo Lula ainda não são suficientes para solucionar a crise do setor calçadista. Para ele, o governo poderia “estimular novos investimentos em outras áreas que não fosse o calçado”. Com isso, ele explica, a região não ficaria tão dependente do setor.


Zimmermann lamenta a crise no setor e propõe medidas emergenciais, que possam ajudar também os trabalhadores. Segundo ele, é necessário retomar as medida de ampliação das parcelas do seguro desemprego. “Isso não resolve o problema, mas ajuda a reduzir o impacto da perda do emprego para o trabalhador”, explica o deputado. Ele destaca também que é fundamental “preparar esses trabalhadores, que não encontrarão mais empregos na área do calçado” e ressalta que é importante “qualificar e capacitar esses trabalhadores para que eles possam disputar oportunidades em outras áreas”.

Zimmermann diz que, nos próximos dias, os empresários e trabalhadores gaúchos tentarão reunir-se com o ministro Mantega para “apresentar lhe um conjunto de sugestões que possam efetivamente significar uma mudança importante na situação do setor coureiro-calçadista”. Zimmermann foi secretário do trabalho do governo Olívio. Confira a entrevista:

IHU On-Line – O Governo Lula não está preocupado com a crise do setor coureiro-calçadista no Rio Grande do Sul?
Tarcísio Zimmermann –
Eu diria que o governo ainda não está sensibilizado com a gravidade do quadro. Ele está preocupado, tem tomado algumas medidas, dentro do seu alcance, mas reconhece que tem limitações em relação ao que pode fazer.

Se pensarmos na crise, veremos que ela tem três origens importantes: a primeira e, talvez a mais importante, seja a produção chinesa. Em todo o mundo, há essa preocupação com a ameaça chinesa. E nós não temos controle sobre essa atuação dos chineses. A não ser cuidar o que está sendo feito, para que não haja uma invasão de sapatos chineses no Brasil. As medidas que o governo vem tomando ajudam nesse sentido. O segundo problema é o câmbio, mas, ao mesmo tempo, ele também é um problema mundial. E o terceiro problema é o do próprio Estado do Rio Grande do Sul, que não transfere e ressarcia os créditos de ICMS para as empresas. Isso acaba por descapitalizá-las, aumentando o custo da produção. Então, o governo federal precisaria, o que temos reivindicado, criar um fórum mais permanente, em que nós pudéssemos monitorar a crise e fôssemos construindo medidas mais permanentes na solução desse problema. Em Brasília, há uma preocupação, mas não existe, ainda, a noção da gravidade desse quadro na indústria coureiro-calçadista.

IHU On-Line – Por que o governo demorou tanto para anunciar o financiamento de R bilhões para os setores prejudicados pela baixa do dólar? Quais são as vantagens desses empréstimos? Eles serão úteis, uma vez que os importadores não estão dispostos a pagar um preço tão elevado pelo sapato brasileiro?
Tarcísio Zimmermann –
O financiamento mais barato ajuda aquelas empresas que necessitam recorrer ao financiamento para fazerem as suas operações. Mas, na verdade, esses financiamentos são uma continuidade da linha de crédito que já existia, e que já emprestou ao setor coureiro-calçadista quase R bilhão. Essas medidas de créditos ajudam, mas não bastam. Elas não resolvem ou devolvem a competitividade do calçado brasileiro. 
No entanto, o calçado brasileiro não acabará. Nós continuaremos tendo uma indústria de calçados importante, até porque nós temos um mercado consumidor doméstico, que é o principal mercado da nossa indústria de calçados. O Brasil exporta para uma pluralidade de países, e isso também é uma garantia de permanência de negócios. Nós não somos, hoje, dependentes das importações dos Estados Unidos, por exemplo. Exportamos calçados para muitos países do mundo. Nesse sentido, medidas que possam reduzir os custos ajudam, mas são insuficientes. Porém, certamente muitas empresas haverão de se beneficiar desses recursos, seja para investimentos ou para o próprio capital de giro. Então, percebo que estes investimentos são bem-vindos, pois melhor ter isso do que não ter nada. Mas, volto a dizer, não é o bastante.

IHU On-Line – O senhor afirma que o setor precisa, agora, de medidas de maior profundidade que reduzam os custos da produção no País. Que medidas seriam essas?
Tarcísio Zimmermann –
Nós precisamos de medidas na área tributária, que são possíveis de serem tomadas. Conversei com o ministro Guido Mantega , no dia 20 de junho, e disse a ele que é importante e necessário que ele receba os empresários e os trabalhadores do calçado, além de nós, parlamentares, para que possamos debater medidas na área tributária. Além disso, é necessário pensar em outras medidas mais localizadas, que também possam ajudar ao setor, por exemplo em medidas de apoio na gestão das empresas. Durante o governo Olívio , tivemos experiências muito importantes, na área da extensão empresarial, medidas de apoio do governo no desenvolvimento.

Se nós quisermos ter uma posição mais segura no mercado mundial de calçados, devemos ter calçados mais brasileiros e incorporar mais o Brasil ao calçado que nós queremos vender para o mundo. O caso de sucesso dos chinelos Havaianas, produzido no Brasil e vendido nas lojas do mundo inteiro, mostra que tem espaço para algo que surge aqui, num clima tropical, num ambiente que é bem brasileiro.
Além disso, nós poderíamos ter, de parte do governo federal, medidas especiais, estimulando novos investimentos em outras áreas que não fosse o calçado, principalmente nas regiões prejudicadas por esta situação de crise atual. Isso não é algo inusitado. Nós poderíamos ter, por exemplo, crédito mais barato, para que empresas pudessem se instalar no Vale do Sinos, nos municípios que estão sendo atingidos por índices de desemprego muito altos, em função da crise na indústria do calçado. Poderiam ser empresas de outras áreas produtivas, inclusive nas áreas de serviço, de mecânica e de química. Assim, diversificaria o desenvolvimento da região. Nós temos propostas, e o que precisamos é conseguir um ambiente em que os governos tenham essa sensibilidade para o tema.
Há uma iniciativa muito interessante ocorrendo no Vale do Sinos, que é a mobilização das prefeituras. Isso talvez seja inclusive um prenúncio de uma mudança de atitude dos governos em relação à situação do Vale do Sinos, no setor calçadista.

IHU On-Line – Medidas emergenciais ainda são alternativas para o setor? No próximo mês, a Reichert Calçados termina de demitir os funcionários, em Campo Bom. O que fazer para reverter essa situação? Essas alternativas que o senhor apontou serão suficientes?
Tarcísio Zimmermann –
Felizmente, nós vivemos um contexto em que o País cresce, a economia cresce e tem gerado mais empregos do que em outros tempos. Infelizmente, isso não acontece em todos os setores. Mas há uma geração líquida de empregos importante. Acredito que uma parte dos trabalhadores que serão demitidos pela Reichert  poderão ser aproveitados em outras atividades, em outras oportunidades. Mas eu tenho defendido, em Brasília, junto ao ministro do Trabalho, Carlos Luppi, que nós tenhamos, nesse campo das medidas emergenciais, duas iniciativas que são muito importantes. A primeira é retomar aquela medida de ampliação das parcelas do seguro desemprego para os trabalhadores demitidos pela crise do calçado. Isso não resolve o problema, mas ajuda a reduzir o impacto da perda do emprego para o trabalhador, mantendo a renda da sua família e uma expectativa de que ele possa não ser afetado tão gravemente, no curto prazo. A segunda, que julgo fundamental, e que está associada à ampliação das parcelas do seguro desemprego, são recursos para programas de qualificação profissional. É necessário preparar esses trabalhadores, que não encontrarão mais empregos na área do calçado, na medida em que nós não teremos uma retomada imediata desse setor, pelo menos não nos níveis que nós já tivemos. Por isso, precisamos qualificar e capacitar esses trabalhadores para que eles possam disputar oportunidades em outras áreas. Eu creio que as medidas emergenciais são muito importantes. É importante conseguir, junto com as medidas de apoio ao calçado, esta outra área de estimulo de investimentos na região do Vale do Sinos. Isso poderá trazer uma economia mais diversificada, e ser um instrumento para que não sintamos tanto os sobressaltos permanentes da indústria do calçado, já que essa não é a primeira crise que o setor enfrenta.

IHU On-Line – Na sua conversa com o ministro Guido Mantega, o que ele disse sobre receber os empresários e trabalhadores gaúchos?
Tarcísio Zimmermann –
Ele me encaminhou para o seu secretário. No dia 20 de junho, já iniciamos a tratativa de realizar uma audiência. Consideramos importante essa audiência com o ministro. Aliás, o governo tem conversado muito conosco. Nós temos conversado com o ministro do Desenvolvimento, da Indústria e Comércio, e temos tido sensibilidade, mas acho que o símbolo do ministro Mantega nos receber, e não os seus secretários, é muito importante. Eu acredito que, nos próximos dias, nós teremos essa reunião com ele, tendo, então, a possibilidade de apresentar-lhe um conjunto de sugestões que possam efetivamente significar uma mudança importante na situação do setor coureiro-calçadista.
  
IHU On-Line – Se o Ministério da Fazenda recebeu relatórios que comprovam o alto aumento da carga de PIS e COFINS nos últimos anos, por que ainda não se manifestou de maneira mais objetiva sobre a crise, sugerindo soluções?
Tarcísio Zimmermann –
Nós tivemos uma audiência em março deste ano, com o ex-secretário executivo do ministério da fazenda. Tivemos, recentemente, uma nova audiência com o novo secretário executivo, que é o ex-ministro da Previdência Nelson Machado . Nas duas vezes, apresentamos esses dados, e a Abicalçados  fez um estudo muito detalhado, que permite, inclusive, ser auditado pela secretaria da fazenda. Mas o que o governo nos alega é que esse tipo de medida tem impacto na arrecadação do governo. E essas medidas não poderiam ser tomadas apenas para um setor, e sim para mais setores. Na verdade, sempre que se busca uma redução tributária, existem dificuldades. Nós tivemos vários setores beneficiados com isenções, mas nos casos do PIS e COFINS ainda não. Então, vamos ter que continuar pressionando, insistindo, até que nós possamos obter uma posição mais favorável de parte do governo.

IHU On-Line – O senhor diz que é preciso unir todos os setores industriais intensivos em mão-de-obra para pressionar o governo a efetivar rapidamente a anunciada redução dos encargos sobre o trabalho. Se ainda não existem soluções concretas para concertar a crise, isso quer dizer que as pressões não foram suficientes? O setor não está tão unido quanto deveria?
Tarcísio Zimmermann –
Eu diria que sim. Ainda falta maior capacidade da nossa parte, de unir todos os setores, e de definir pautas de longo prazo para as negociações que temos feito com o governo. Nós tivemos, em 2005, uma audiência com o presidente Lula, em que foi apresentada uma pauta que foi praticamente integralmente atendida. Mas ela não foi o bastante. Para o governo, também é importante que as reivindicações que lhe sejam apresentadas possam apresentar soluções de longo prazo. Do contrário, o governo também fica desestimulado a conceder benefícios, se eles se evaporam, como no caso dos benefícios  das medidas reivindicadas em 2005. Então, ainda nos falta um pouco de capacidade para isso. Agora, eu defendo que nós devamos continuar avançando num processo de mobilização e de negociação com o governo, inclusive se for necessário que tenhamos uma atitude mais forte, como realizar manifestações públicas, de forma que nós tenhamos a possibilidade de avançar com novas medidas. O processo de negociação é importante, mas, às vezes, ele precisa de um empurrão, que é exatamente aquele que vem da mobilização da sociedade, da pressão da opinião pública. Talvez teremos que ter isso logo mais.

IHU On-Line – O que a Comissão de Desenvolvimento Econômico, Indústria e Comércio – CDEIC tem feito pelo setor calçadista? Quais são as próximas reivindicações que serão feitas ao governo federal?
Tarcísio Zimmermann –
O que nós queremos é que haja um processo de negociação mais intenso, que tenhamos cada vez mais canais melhores de negociação com o governo, e que as pautas de reivindicação possam avançar. Estamos nos mobilizando e insistindo em torno dessas questões do crédito, da redução de tributos, de medidas de emergência de apoio aos trabalhadores e ao desenvolvimento regional. Neste caso, vale aquele ditado: “Água mole em pedra dura tanto dá até que fura”. Quer dizer, temos que ter persistência, e ficar permanentemente mobilizados, lutando em defesa dos nossos empregos e em defesa das empresas do setor calçadista.  

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