Edição 225 | 25 Junho 2007

“Não basta fazer políticas liberalizantes”

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

IHU Online

Para o professor e economista Adayr da Silva Ilha, “de nada adianta crescermos a altas taxas, se esse crescimento não servir para o resgate da dívida social do País”. Sobre o baixo crescimento da economia brasileira, ele ressalta que isso ocorre em resposta à “política macroeconômica praticada no País desde o início da década de 1990, com juros altos e câmbio valorizado”. Ilha lembra que a economia gaúcha é muito importante para a economia brasileira. “Ela foi por muito tempo o ‘celeiro’ da economia brasileira, quando tinha sua base assentada no setor primário”. No entanto, atualmente, explica o professor, a política de juros altos e o câmbio valorizado têm afetado a economia do Vale do Sinos. Ilha é graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Federal de Santa Maria, mestre em Economia Agrícola pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e doutor em Economia Aplicada pela Universidade Federal de Viçosa. Atualmente, é professor adjunto do Departamento de Ciências Econômicas e do Curso de Mestrado em Integração Latino-Americana da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

Confira a entrevista concedida à IHU On-Line, por e-mail.

IHU On-Line - A que o senhor atribui as desigualdades econômicas regionais no Rio Grande do Sul?
Adayr da Silva Ilha -
A resposta deve ser buscada na formação histórica do Rio Grande do Sul, e de como a economia gaúcha se articula com a economia do restante do País e com a economia internacional. A economia do Rio Grande do Sul pode ser subdividida em três grandes regiões: Norte, Nordeste e Sul. A região Sul, embora tenha sido aquela que experimentou maiores níveis de desenvolvimento no início da formação da economia do Estado, com a indústria do charque e do couro, que lhe possibilitava articular-se com a economia do centro do País, não conseguiu diversificar-se com linhas de produção de maior rentabilidade. A indústria do charque entra em crise devido à concorrência de países do Rio da Prata, mas insiste na atividade pecuária extensiva e, só bem mais tarde, volta-se para atividades agrícolas, quase que exclusivamente com a cultura do arroz. Essas atividades não atraíram contingentes populacionais, o que, entre outros fatores, dificultou a atração de investimentos industriais. Já as regiões Norte e Nordeste, que compõem a chamada Metade Norte, voltam-se, desde o início, para atividades agrícolas em pequenas propriedades, e para a agricultura colonial, com os imigrantes alemães e, mais tarde, italianos. A maior densidade demográfica e o conhecimento de artesanato e de atividades industriais dos imigrantes favoreceram o surgimento da indústria nessa região, que traz, com isso, um progresso e desenvolvimento maior a ela, em relação à Metade Sul. A partir daí, poderíamos apontar muitos outros fatores que preservam e acentuam essas diferenças, como o poder político pela maior representatividade nas casas legislativas, etc.

IHU On-Line - Comparada com outros países da América Latina, a economia desenvolvida em nosso País é positiva? Lula disse nessa semana que o País conseguiu combinar estabilidade econômica com crescimento. Ele acredita que o País terá mais crescimento econômico, mais geração de emprego, mais distribuição de renda, mais exportação. O senhor concorda com essa posição? A crise do Vale não tem afetado a economia brasileira?
Adayr da Silva Ilha -
Não gosto de fazer comparações da economia brasileira com outras economias, seja da América Latina ou de outros continentes. A economia brasileira é diferente de qualquer outra economia. É verdade que o cenário externo é o mesmo, ou seja, se esse cenário é favorável para o Brasil, é também para a Argentina, para a Índia, etc. No entanto, a economia brasileira tem determinadas características que são próprias. Constata-se que o Brasil tem crescido menos do que qualquer país da América do Sul, menos até mesmo que a economia da União Européia, que é muito pouco dinâmica em termos de crescimento. Entendo que o presidente tem razão ao ressaltar a estabilidade economia, os bons indicadores macroeconômicos e alguns avanços, no que diz respeito à distribuição de renda. De nada adianta crescermos a altas taxas, se esse crescimento não servir para o resgate da dívida social do País. O crescimento tem que levar ao desenvolvimento, caso contrário não vale de nada. A falta de crescimento ou do pouco crescimento da economia brasileira tem resposta na política macroeconômica praticada no País desde o início da década de 1990, juros altos e câmbio valorizado. Não basta fazer políticas liberalizantes, abertura de mercados, e reformas estruturais achando que tudo vai funcionar. Cabe ao Estado ditar normas, apontar caminhos, cuidar da infra-estrutura física e social e das políticas setoriais, como a industrial, por exemplo. Se o Estado não fizer, não se pode esperar que o mercado faça. Quanto ao último item da pergunta, eu digo que é o contrário: que a economia brasileira, com sua política de juros altos e câmbio sobrevalorizado (apreciado, baixo), é o que tem afetado a economia do Vale do Sinos.

IHU On-Line - Como se desenvolveu a economia gaúcha ao longo dos anos?  Como o senhor avalia a economia do Rio Grande do Sul, e a produção industrial do estado, atualmente? Qual é a importância e a contribuição tanto da economia do estado quanto da produção industrial local para a economia brasileira?
Adayr da Silva Ilha -
A economia gaúcha embora tenha se desenvolvido-se, tanto vertical como horizontalmente, é ainda uma economia dependente. Depende em grande medida da atividade agropecuária do Estado, e também de como se comporta a economia brasileira como um todo. Uma indústria deve ser avaliada pelos seus setores produtivos e pela intensidade tecnológica desses setores. Há os setores tradicionais, indústrias de alimentação, vestuário etc. de baixa intensidade tecnológica e há aqueles mais dinâmicos como eletrônicos, químicos e mecânicos, de média e alta tecnologia. Não sou especialista em economia industrial, mas entendo que o Rio Grande do Sul tem, hoje, o segundo ou terceiro maior parque industrial do País, apesar dos maus governos que por aqui têm passado. Quanto ao último item da pergunta, diria que a economia gaúcha é muito importante para economia brasileira. Ela foi, por muito tempo, o “celeiro” da economia brasileira, quando tinha sua base assentada no setor primário. Atualmente, tem uma base industrial significante, que lhe possibilita exportar um percentual considerável dessa produção para os demais estados, e também para o exterior, gerando divisas.   

IHU On-Line - Para haver um equilíbrio na produção industrial do Vale do Sinos, seria necessário diversificar as atividades industriais, para que, quando um setor entrasse em crise, outro pudesse dar suporte, evitando assim, tantos desempregos numa única região?
Adayr da Silva Ilha -
Concordo sim. Embora o pólo calçadista gere economias de escala, a especialização industrial nesse setor constitui um problema, como estratégia de desenvolvimento para a região. As políticas macroeconômicas (juros e câmbio) do governo têm afetado negativamente a indústria calçadista e isso vem de bastante tempo. O problema se agrava à medida que essa indústria montou a estratégia de dirigir um grande percentual de sua produção para exportação. A diversificação industrial deve ser uma estratégia de desenvolvimento para o futuro na região, aproveitando-se das condições favoráveis que ela apresenta. 

IHU On-Line - Qual é a evolução da economia brasileira nos últimos anos, tomando em consideração que alguns especialistas dizem que o Brasil pode se tornar uma das futuras potências junto à Russa, Índia e China?
Adayr da Silva Ilha -
A economia brasileira passou por grandes dificuldades a partir do final dos anos 1970, início dos anos 80 com a crise da dívida externa e com o processo inflacionário. A partir de meados da década de 1990, conseguiu-se uma estabilidade de preços, que tem se mantido até os dias atuais. Isso foi conseguido com custos econômicos e sociais enormes. Hoje, a economia brasileira está apta a receber um projeto de desenvolvimento de médio e longo prazo, projeto esse que entendo não seja o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), mas algo muito mais ousado. O País tem condições geográficas, de riquezas naturais e de contingente humano que podem transformá-lo em uma das maiores nações do Mundo. Basta, para que se atinja tal objetivo, planejamento, investimento em infra-estrutura física e social (educação, principalmente), além de políticas redistributivas consistentes.

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição