Edição 225 | 25 Junho 2007

Perfil Popular - Eva Elísia de Moura

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Natural de Santa Cruz do Sul, interior do Rio Grande do Sul, Eva Elísia de Moura amadureceu cedo. Deixou os estudos na quinta série do Ensino Fundamental para trabalhar como doméstica. Aos 17 anos, casou-se e logo teve seu primeiro filho. Junto com a família, veio para São Leopoldo, na região metropolitana de Porto Alegre, onde encontrou trabalho e seu novo lar. Elisa, como gosta de ser chamada, hoje com 54 anos, desenvolve um trabalho importante como agente pastoral e é membro do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher (COMDIM), de São Leopoldo. Ela ainda planeja ser Promotora Legal Popular e trabalhar dentro dos presídios. Conheça um pouco mais de Elisa na entrevista a seguir.

Origens
No interior do município de Santa Cruz do Sul, Elisa deu seus primeiros passos. Perdeu o pai antes de completar dois anos e a família, composta por mais dois irmãos, mudou-se para Santa Cruz. “Viemos muito cedo para Santa Cruz, porque meu irmão estava doente. Ali eu cresci.” A mãe de Elisa criou a família com dificuldades, lavando roupas para fora. “Minha família era muito unida, sem brigas entre os filhos.” A família ainda contava com a ajuda dos vizinhos. “Tínhamos os vizinhos bem chegados, nos criamos como irmãos, muito na casa deles. Eles nos acolhiam.”

Estudos
Elisa estudou somente até a quinta série, na escola Professor Luiz Dourado, quando parou. “Parei porque tinha a necessidade de trabalhar. Não era o que minha mãe queria, mas era o que eu queria.” Elisa estava crescendo e sentia a necessidade de ajudar a família. “Minha mãe não conseguia dar conta.”

Trabalho
A primeira experiência de Elisa foi como babá. Logo estranhou, pois ficava longe da família ao dormir no emprego. “Tinha muitas saudades da minha família.” Elisa chegou a fugir do serviço no meio da noite. “Saí à noite e fui correndo até a minha casa. Cheguei a desfazer a bainha do meu vestido de tanto correr.” Depois de quatro anos, Elisa foi para outra casa, onde não tinha a necessidade de passar a noite. “Terminava o serviço e ia embora. Fiquei ali até me casar.”

Família
Elisa conheceu o marido a caminho do trabalho. “Eu passava sempre pela frente do quartel onde ele trabalhava.” Numa tarde, Elisa encontrou o então amigo no centro da cidade. “Na época ele era noivo, e, após uns meses, começamos a namorar.” Casados, eles têm três filhos. Cristina tem 39 anos. Formada no magistério, trabalha em uma farmácia. O segundo, Ronaldo, tem hoje 35 anos. “Ficamos felizes, pois queríamos ter um casal.” Ronaldo está concluindo o supletivo e pretende cursar Enfermagem. Aos 28 anos, teve seu terceiro filho, Evelise, com 26 anos hoje. Ela se forma em Educação Física em 2008 e trabalha como professora.

Mudança
A família veio para São Leopoldo, logo após o nascimento do primeiro filho. “Viemos em função da profissão de meu marido: torneiro mecânico. Em Santa Cruz do Sul, a indústria que predomina é a do fumo e achamos melhor vir embora. Aqui já tinha muitas firmas reconhecidas.” Elisa conta que o início foi difícil. “Ficava sozinha à noite, quando meu marido trabalhava. Tinha sempre muito medo.” A família se estabeleceu no lugar onde moram atualmente, em São Leopoldo. “Estávamos em um lugar nosso, que era o que mais queríamos.”

Agente pastoral
Elisa tem uma grande caminhada dentro de sua comunidade. Começou como professora de Catequese e se envolveu cada vez mais com o trabalho da Igreja. Hoje, participa como coordenadora paroquial em uma Comunidade Eclesial de Base (CEB). “A CEB reúne diversas pastorais, e nela me envolvo em diversos trabalhos, como grupo de mulheres e agente pastoral. Eu atendo a diversas pastorais dentro da minha paróquia, Beato José de Anchieta, na Vila Duque, em São Leopoldo, e também atendo na pastoral da sobriedade. Temos também um grupo de canto que anima as missas da igreja.” Elisa considera o trabalho uma grande alegria. “Já fui a encontros de comunidades de base em diversos lugares do Brasil. Estou organizando o encontro estadual, que acontecerá em Pelotas.”

COMDIM
Elisa ainda faz parte do COMDIM (Conselho Municipal dos Direitos da Mulher), de São Leopoldo, como representante das mulheres da Zona Sul da cidade. “Já participava do grupo da minha paróquia, o Violeta, há quatro anos.” Como membro, Elisa leva as informações sobre os grupos de mulheres que existem na região para o conselho. “Também trago notícias para os grupos locais. No final deste ano termina a minha gestão.”

Dificuldade
Com um lugar de destaque dentro de sua paróquia, Elisa enfrentou dificuldades. “Ocorreu uma perseguição por parte de alguns membros da comunidade, em razão de eu ter me destacado no meu trabalho pastoral. Começaram com fofocas e se chegou à discriminação racial. Vi que um negro, ainda mais mulher, não pode estar à frente de nada sem passar por isso.” Elisa travou uma batalha. Procurou a Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Segurança Urbana de Porto Alegre, onde uma advogada a ajudou na questão. “Eu acabei parando com o trabalho na Igreja. Entreguei os pontos.” Ao longo dos quatro anos em que ficou afastada, Elisa sempre foi convidada a voltar. “Comecei a ir aos poucos, tocava na missa e conheci um grande amigo, que hoje é padre, e que adotou a mim e meu marido como pai e mãe. Fomos assistir a ordenação dele no Paraná. Assim, voltei ao trabalho.”

Alegria
Elisa considera sua maior alegria o dia em que foi empossada como membro do COMDIM. “O dia da posse eu nunca vou esquecer. Fui convidada e sou o único membro da Igreja Católica. A posse ocorreu na Câmara de Vereadores de São Leopoldo. Jamais pensei que isso iria acontecer.”

Plano
Elisa ainda sonha em fazer o curso de Promotora Legal Popular . “Quero trabalhar dentro dos presídios.”

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