Edição 225 | 25 Junho 2007

“A busca por profissionais da área do design de moda resultou em um amadurecimento do setor”

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IHU Online

A crise que abalou o setor calçadista entre os anos 1990 e 1998, segundo Francine Pujol, graduada em Moda pelo Centro Universitário Feevale, serviu como alerta aos empresários do Vale do Sinos. Francine acabou de apresentar o trabalho de conclusão de curso, intitulado A moda e crise calçadista gaúcha dos anos 90: a revista Lançamentos, no qual constatou que “a crise influenciou muito na criação de sapatos no País, pois fez com que os fabricantes vissem que seus produtos podiam ser vendidos de maneira diferente, e que poderiam ter maior rentabilidade com isso, uma vez que o Brasil não concorria mais por preço de moeda, e sim por valor agregado”.

Segundo Francine, “a crise acabou gerando uma lacuna no mercado, onde as empresas tiveram de buscar uma alternativa para se manterem concorrendo nele fora do quesito preço”, explica. Ao agregar valor nos produtos, ressalta Francine, fez com que “intencionalmente o calçado brasileiro fosse visto de maneira diferenciada”. Para ela, o problema do setor, desde aquela época, não foi solucionado, e sim “apenas amenizado”. E rebate que “atualmente, a crise está muito mais relacionada à questão econômica, o que na década de 1990 era apenas mais um fator ao lado de outros, como a falta de tecnologia e a falta de mão-de-obra especializada”.

Francine é graduada em Moda, pelo Centro Universitário Feevale e, atualmente, trabalha na revista Lançamentos, do Grupo Sinos, de Novo Hamburgo. Confira a entrevista, concedida à IHU On-Line, por e-mail.

IHU On-Line – Qual é o interesse em estudar a crise do setor calçadista, relacionando com a moda?
Francine Pujol -
Desde o início, queria fazer meu trabalho sobre um assunto relacionado ao setor calçadista. Então, acabei realizando uma pesquisa e verifiquei a existência da crise nas exportações calçadistas dos anos 1990. Então, segui e constatei que havia a possibilidade de relacionar tal fato à moda, que é minha área de estudo. Percebi que, daquela idéia inicial, poderia sair um trabalho bastante interessante e inédito. Outro fator que foi de extrema importância para a escolha da temática foi o fato de trabalhar há três anos na Divisão de Veículos Segmento do Grupo Sinos, do qual fazem parte os veículos: Jornal Exclusivo, a revista Lançamentos e o site Exclusivo On-Line, referências em mídias especializadas para o setor calçadista. Assim, aproveitei que já atuava na área de produção de moda da revista e a escolhi para ser a fonte principal e base meu trabalho, o qual, por fim, intitulei “A moda e crise calçadista gaúcha dos anos 90: a revista Lançamentos”.

IHU On-Line - A partir da sua pesquisa, quais foram os fatores que originaram a crise no setor coureiro-calçadista nos anos 1990? Por quantas crises o setor passou nesses 10 anos?
Francine Pujol -
É difícil apontar os fatores que levaram à crise calçadista, até porque a crise se deu tanto nas exportações quanto no mercado interno. Então, na realidade, eram duas crises. Mas, de acordo com minha pesquisa, constatei alguns aspectos que as geraram.

No caso das exportações, os fatores foram a falta de incentivo por parte do governo com relação à isenção ou diminuição dos impostos, além da entrada dos concorrentes asiáticos no mercado americano – até mesmo no brasileiro, o principal comprador de nossa produção.

Já no mercado interno, a crise se instaurou durante o Plano Collor , com a abertura para as importações, pois as empresas estrangeiras tinham a entrada de seus produtos facilitada no País.

IHU On-Line - Quais foram os principais problemas sociais causados na região, decorrente da crise no setor, nos anos 1990? Nessa época, ocorreu o mesmo que está acontecendo hoje: pessoas voltando para a terra natal por falta de emprego na região, demissões em massa? Quais são as comparações possíveis?
Francine Pujol -
O foco de meu trabalho não era esse, mas enquanto fazia a análise das edições dos anos 1990, 1994/1995 e 1998 da revista Lançamentos, percebi que o desemprego aumentou por conta da diminuição das exportações, como, também, pela migração de muitas fábricas aqui do Vale para o Nordeste, em busca de incentivos fiscais e mão-de-obra mais barata. Acredito, por isso, que tenha ocorrido, sim, um êxodo, pois, no auge do setor calçadista, muitas pessoas de diversas partes do estado vieram trabalhar no Vale do Sinos, em busca de uma vida melhor, e, com as dificuldades nas empresas e a mudanças de suas unidades para o Nordeste, acabaram voltando para sua terra natal.

IHU On-Line - Nessa época, quais soluções foram encontradas para solucionar o problema? Como o Vale do Sinos se recuperou?
Francine Pujol -
Na realidade, solucionar o problema não é expressão mais correta, pois a crise no setor não foi resolvida. Ela foi apenas amenizada e acredito que uma das soluções mais acertadas na época foi a das empresas voltarem suas produções para o mercado interno. Ainda, os investimentos em design, em profissionais capacitados e em moda também podem ser apontados como fatores responsáveis pela melhora, tanto no mercado interno quanto no mercado externo.

IHU On-Line - De que maneira a crise influenciou nas exportações? Como as empresas gaúchas encararam esse momento? Como elas conseguiram retomar espaço no mercado, e competir novamente?
Francine Pujol -
A crise atingiu as exportações e, no setor exportador de calçado, na década de 1990, foi a mais sentida, sem dúvida. Até porque muitas das empresas que não quiseram se voltar para o mercado interno acabaram fechando. Sobre a retomada do espaço, creio que ela tenha vindo depois de 1998, principalmente nos anos 2000. Isso está extremamente relacionado à questão de os países terem ganho uma notoriedade internacional no âmbito da moda, como, por exemplo, com a participação de estilistas brasileiros em semanas internacionais de moda e também das nossas modelos.

IHU On-Line - Qual influência a crise calçadista causou na moda brasileira?
Francine Pujol -
Após concluir meu estudo, vejo que a influência da crise na moda em calçado é de ela ter aberto os olhos de muitos fabricantes com relação à criação própria, do investimento em marca, bem como a busca por profissionais da área do design de moda, que resultou em um amadurecimento do setor. Para a moda brasileira em geral, vejo que junto à crise, na década de 1990, houve o “boom” da moda brasileira, até mesmo no exterior. De modo que a moda brasileira passou a ser valorizada por seu caráter inovador e diferenciado. Porém, também observo que vendemos uma moda, principalmente nos calçados, intitulada “by Brazil”, mas isso somente no nome, pois não são produtos que foram feitos para o brasileiro e são vendidos lá fora; pelo contrário: são peças que são confeccionadas somente (e especialmente) para o público internacional.

IHU On-Line - Como a crise influenciou a criação de novos sapatos no Brasil e no exterior?
Francine Pujol -
A crise acabou gerando uma lacuna no mercado. Foi quando as empresas tiveram de buscar uma alternativa para se manterem concorrendo no mercado fora do quesito “preço”. Para isso, passaram a agregar valor ao produto, que, conseqüentemente, ficou mais caro. Mas, intencionalmente, o calçado brasileiro passou a ser visto de maneira diferenciada, e este preço mais alto se tornou um diferencial, pois se tinha um valor mais elevado também era porque havia investimento para desenvolver aquele produto. Outro fator importante é o de que, com a crise, muitas entidades e empresas envolvidas com o setor calçadista começaram a desenvolver projetos para incentivar a participação das empresas e designer de calçados brasileiros em feiras internacionais. Acho que a crise influenciou muito na criação de sapatos no País, pois fez com que os fabricantes vissem que seus produtos podiam ser vendidos de maneira diferente e que poderiam ter maior rentabilidade com isso, pois o Brasil não concorria mais por preço de moeda e sim por valor agregado. Conseqüentemente, se as vendas fossem boas, o retorno seria inda melhor.

IHU On-Line – Nesse sentido, você acha que a crise dos anos 1990 foi positiva?
Francine Pujol -
Creio que, para o desenvolvimento do setor e para alertar os fabricantes, sobre a produção de novos produtos, foi positiva. Porém, é nítido que economicamente ela não foi tão positiva e trouxe muito desemprego para região do Vale do Sinos. O que precisa ser percebido é que, desde o final dos anos 1960, as exportações vinham sendo feitas de maneira rentável e “fácil” para os produtores brasileiros. Então, com a crise, eles foram forçados a modificar uma cultura que já tinha quase trinta anos, e que até então sempre tinha dado certo. Vejo, também, que os momentos de crise trazem muitas mudanças para uma sociedade, no caso, por exemplo, da moda. As duas grandes guerras mundiais são exemplo disso, pois, durante a ocorrência de ambas, os costumes relacionados à moda tiveram de ser revistos, devido aos racionamentos e às dificuldades financeiras da época. Para isso, as pessoas se utilizaram da criatividade. As mulheres, por exemplo, não conseguiam lavar os cabelos, muito menos mantê-los escovados e com cortes da moda, por isso adotaram turbantes. Na área do calçado não foi diferente, já que não podíamos mais concorrer pelo preço. Naquele momento, o “turbante” foi investir em desenvolvimento de produto e marca, a fim de podermos concorrer por valor agregado e atender a uma fatia de mercado que antes era atendida pela Europa. Creio também que, para que os calçadistas se mantenham no 0mercado durante as crises que acontecem, e continuarão acontecendo devido às oscilações econômicas, seria bom que eles já estivessem se preparando com “novos turbantes”, ou acabarão fora do mercado internacional.

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