Edição 225 | 25 Junho 2007

O Brasil está mudando de modelo de negócio, e não se desindustrializando

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Para o coordenador do PPG de Engenharia da Produção da Unisinos Giancarlo Medeiros Pereira, as maiores mudanças entre as empresas calçadistas gaúchas voltadas à exportação, entre 2001 e 2007, foram “o aumento da competitividade dos asiáticos, a entrada do leste europeu e do México no rol dos grandes fornecedores de calçados de maior valor agregado, a mudança do perfil dos produtos manufaturados no estado e a queda nos lotes de produção”. Questionado a respeito de uma possível desindustrialização no Brasil, Pereira é direto: “Não. Estamos sim vivendo uma mudança de modelo de negócio, apenas isso. Falando francamente, eu acho que a competitividade é um campeonato muito dinâmico, e, a despeito de tudo, nós ainda estamos no páreo. Perdemos alguns jogos e estamos ganhando outros. Todavia, ainda não perdemos o campeonato. É cedo para jogarmos a toalha”.

Pereira é graduado em Engenharia Mecânica pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos, mestre em Engenharia de Produção pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e doutor em Engenharia de Produção pela Universidade de São Paulo, com a tese Avaliação do impacto das mudanças mercadológicas sobre o perfil de competências gerenciais nas empresas calçadistas gaúchas voltadas à exportação, produzida em 2001. Ele concedeu entrevista à IHU On-Line, por e-mail, na semana passada. Confira.

IHU On-Line - Qual é a conclusão a que o senhor chegou com a pesquisa “Avaliação do impacto das mudanças mercadológicas sobre o perfil de competências gerenciais nas empresas calçadistas gaúchas voltadas à exportação”? Quais foram as principais mudanças desse cenário de 2001 para cá?
José Giancarlo Medeiros Pereira -
A conclusão foi a de que o Vale precisava, urgentemente, alterar a forma de qualificar e gerenciar os profissionais do setor com vistas ao enfrentamento da redução dos lotes, que então se apresentava. Na época, os lotes médios estavam caindo de 10.000 pares/modelo para 5.000 pares/modelo, número esse que não era comportado pela estrutura produtiva de então. Hoje em dia, um lote de 5.000 pares é tido como uma quantidade utópica. Pedidos de 1.000 pares/modelo são motivo de comemoração, sendo que algumas unidades expostas a uma maior concorrência já trabalham com lotes de 48 pares/modelo.
No que tange à segunda parte de sua pergunta, mais especificamente sobre as mudanças que ocorreram entre 2001 e 2007, eu diria que algumas merecem destaque, a saber: o aumento da competitividade dos asiáticos, a entrada do leste europeu e do México no rol dos grandes fornecedores de calçados de maior valor agregado, a mudança do perfil dos produtos manufaturados no estado e a queda nos lotes de produção.

IHU On-Line - Que alternativas apontaria para amenizar a crise do setor calçadista do RS?
José Giancarlo Medeiros Pereira -
No plano das ações governamentais, eu diria que precisamos encontrar soluções para que o País possa prover melhores condições de infra-estrutura e menores impostos sobre os produtos a serem exportados. Para referendar minha posição, reproduzo, aqui, as palavras do Diretor de Assuntos Estratégicos da GM do Brasil, Luiz Moan, com quem conversei na FIERGS por esses dias. Ele questionou: “Como podemos competir com a China no mercado internacional se eles estão criando nove zonas de exportação com infra-estrutura européia (portos, estradas, comunicações etc.), zero tributos e financiamento negativo para as empresas que lá se instalarem?”.

Você pode argumentar que a China é a China. Concordo. Tomemos, então, como exemplo a Argentina. Segundo o proprietário de uma grande empresa calçadista, com quem conversei, instalar uma fábrica lá reduz significativamente a carga de impostos, que é repassada ao produto final, especialmente se o mesmo for exportado. E, note, a Argentina é logo ali.

No plano industrial, eu diria que nossas empresas precisam buscar nichos de mercado nos quais possam utilizar sua competência de produção em pequenos lotes de produtos diferenciados. Uma vez identificados os nichos, algumas organizações precisarão ainda rearranjar suas unidades produtivas com vistas à produção por demanda. Apesar da simplicidade dessas definições, a mudança em foco não é fácil de ser implementada na prática, seja por motivos culturais, seja pelas dificuldades operacionais advindas da travessia. Porém, é preciso fazê-las. Eis que nem tudo depende do governo.

IHU On-Line - O que é necessário para o setor calçadista gaúcho competir com os orientais?
Giancarlo Medeiros Pereira -
Precisamos ser mais eficientes em várias dimensões, por exemplo: em marketing industrial, design, tecnologia e governamental. No que tange ao marketing industrial, precisamos melhorar nossa forma de abordar os nichos de mercado, especialmente naqueles que requerem um design diferenciado. No plano tecnológico, precisamos continuar avançando, tanto em serviços laboratoriais quanto em pesquisa de novas soluções. Essas ações no plano privado, quando combinadas com o adequado apoio governamental, nos permitirão explorar as oportunidades de negócio nas quais efetivamente podemos atuar.

E, em se tratando de oportunidades de negócio nas quais efetivamente podemos atuar, o setor precisa ser mais realista e menos saudosista. Certos tipos de calçado não mais serão exportados pelo Vale. Falo especialmente dos Dock Siders masculinos, os quais foram orçados por empresas brasileiras a US$ 11,25/par e, atualmente, estão sendo produzidos na China por US$ 6,50 o par (preço fábrica). Para esse tipo de produto, não há como competir, mesmo considerando que somente a Sears americana encomendou 150.000 pares a um importador que conheci. Com efeito, esse não é um negócio para o Brasil. Precisamos nos focar no mercado acima de US$ 20,00/par, preferencialmente nos nichos acima de US$ 30,00 (preço fábrica).

IHU On-Line - Em termos tecnológicos, qual é o seu diagnóstico do setor, comparativamente ao mercado asiático?
José Giancarlo Medeiros Pereira -
Em 2001, eu diria que estávamos à frente. Contudo, hoje, após duas semanas analisando produtos orientais oferecidos no mercado americano, eu lhe digo: temos pouca diferença. Pior, em alguns itens eles têm até melhores soluções.

Ao refletir sobre essa questão, sou forçado a concordar com outros tantos que, ao longo das décadas, reclamam do secular hábito brasileiro de explorar um dado negócio sem preocupar-se em avançar a tecnologia do mesmo. Trata-se de uma cultura meramente extrativista. No caso específico do calçado, existem algumas tecnologias de produto que nós deveríamos estar desenvolvendo aqui, mas que, infelizmente, estão sendo desenvolvidas na Coréia do Sul, em Taiwan e na China.

IHU On-Line - O senhor relacionaria a crise do setor a uma desindustrialização em curso no Brasil? Por quê?
José Giancarlo Medeiros Pereira -
Não. Estamos sim vivendo uma mudança de modelo de negócio, apenas isso. Falando francamente, eu acho que a competitividade é um campeonato muito dinâmico, e, a despeito de tudo, nós ainda estamos no páreo. Perdemos alguns jogos e estamos ganhando outros. Todavia, ainda não perdemos o campeonato. É cedo para jogarmos a toalha.
Percepções à parte, entendo que, para continuarmos nesse jogo, precisaremos usar mais eficientemente nossos trunfos enquanto empresa e nação. Precisaremos também mudar mais rápido e melhor do que até agora o fizemos, bem como separar declarações “dirigidas” de fatos e dados que efetivamente possam orientar a tomada de decisões eficazes.

Com efeito, esse sentimento de desindustrialização já ocorreu no Vale na década passada, quando tivemos uma grande crise. Contudo, se analisarmos os números do setor, após a penúltima grande depressão, veremos que nossa receita advinda da exportação de calçados cresceu algo em torno de 16 % (base US$). E note que não estou considerando a evolução do mercado interno do País, a qual felizmente foi muito maior. Apesar de animadores, os números citados escondem um importante fato, a saber: nós poderíamos ter crescido mais ainda. Para referendar minha posição, cito o crescimento de alguns países com custo elevado de mão-de-obra no mesmo período: a Itália cresceu 22% e a Espanha, 32%.

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