Edição 225 | 25 Junho 2007

“O fenômeno das desigualdades regionais é próprio das economias capitalistas”

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IHU Online

Para o cientista político José Antônio Alonso, as exportações que iniciaram na década de 1960 permitiram “o grande salto da economia do Vale do Sinos”. Esse processo, segundo ele, consolidou “o mais sólido cluster de couro e calçados do País no Vale do Sinos”. No entanto, a aglomeração de atividades num único local, ressalta o professor, trouxe “consigo ganhos e perdas para a produção urbano-industrial e para a população”.



Em entrevista exclusiva, por e-mail, à IHU On-Line, ele afirmou que “no médio e no longo prazo, é possível que a cadeia couro/calçados ainda recupere algum espaço na produção industrial do Estado”. No entanto, destaca que “não podemos esperar que recupere o tamanho e a importância que alcançou no passado”. Alonso é pesquisador da Fundação de Economia e Estatística (FEE).
Cientista político e economista graduado pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), cursou especialização em Administração Municipal no Instituto Brasileiro de Administração Municipal (IBAM) e em Atualização em Economia Regional na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Fez o mestrado em Economia, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com a tese Evolução das desigualdades inter-regionais de renda interna no Rio Grande do Sul 1939-70. Escreveu o livro Evolução das desigualdades inter-regionais de renda interna no Rio Grande do Sul 1939-70 (2. ed. Porto Alegre: FEE, 1986) e é um dos autores de Áreas estatisticamente comparáveis do Rio Grande do Sul. 1940-80: renda interna (Porto Alegre: FEE, 1986) e Crescimento econômico da região sul no Rio Grande do Sul: causas e perspectivas (Porto Alegre, RS: Fundação de Economia e Estatística Siegfried Emanuel Heuser, 1994). A entrevista foi concedida à IHU On-Line, por e-mail.

IHU On-Line - Por que a concentração das fábricas de calçados acentuou-se na região nordeste do Rio Grande do Sul? A que fatores o senhor atribui essa aglomeração?
José Antônio Alonso -
A resposta a essa questão deve ser buscada nas origens da ocupação dessa parte do Estado. A ocupação pelos primeiros imigrantes de origem germânica deu-se a partir de São Leopoldo. Quase todos os municípios do Vale do Sinos, um dia, fizeram parte do território de São Leopoldo. Os grupos sociais aí estabelecidos contavam com pessoas habilitadas para trabalhar o couro, especialmente na produção de calçados, embora a região não fosse grande produtora da matéria-prima básica. Obviamente, não eram as fábricas de hoje. Tratava-se de produção artesanal que, com o passar do tempo, aumento da população e dos mercados, evoluiu para pequenas fábricas. Por muito tempo, o mercado para os produtos da cadeia couro/calçados foi a “grande Porto Alegre”, o Estado e outras regiões do País, particularmente o Sudeste brasileiro. Desenvolveu-se, nesse recorte territorial do Estado, uma aglomeração de produtores que acabou por moldar a formação de outras atividades vinculadas ao couro/calçados. Essa aglomeração, certamente, proporcionou ganhos, em termos de redução de custos, a todos os agentes econômicos ali estabelecidos, assegurando-lhes competitividade frente a potenciais concorrentes de outras regiões do Estado e do País. Por volta de 1967/1968, a política econômica da União voltou-se para as exportações. Essa política, combinada com a iniciativa de produtores calçadistas em expandir seus mercados, via mercado internacional, permitiu o grande salto da economia do Vale do Sinos. Os anos 1970 e 80 foram de grande expansão da produção calçadista para exportação. Esse movimento acabou por consolidar o mais sólido cluster de couro e calçados do País no Vale do Sinos, nos anos 1990 e no início desse século. Todavia, reservariam dificuldades para esse setor, assunto que iremos comentar no âmbito de outra questão colocada mais adiante.

IHU On-Line - Em artigo publicado no Jornal Extra Classe, o senhor afirma que tanto a Região Metropolitana de Porto Alegre (RMPA) e a Aglomeração Urbana do Nordeste (AUNE)  produziram em 2000, 64,5% de toda a produção industrial e ofertavam 53,4% dos serviços, tudo em apenas 5,5% do território Estadual. Partindo desse contexto, quais são as principais vantagens e desvantagens da aglomeração industrial nessas regiões?
José Antônio Alonso -
Esse artigo  foi escrito para chamar a atenção para a questão da concentração de atividades em determinados espaços do território e seus impactos sobre a localização de atividades e o bem-estar da população. A aglomeração de atividades é um fenômeno vinculado às necessidades do desenvolvimento capitalista. Esse movimento traz consigo ganhos e perdas para a produção urbano-industrial e para a população. A aglomeração de atividades e de população proporciona ganhos (desiguais) até determinado limite de tamanho, a partir do qual, ou antes disso, é necessário realizar correções de rumo, sem o que custos adicionais elevados são gerados e absorvidos por agentes econômicos e população. Esses custos decorrem de pressão excessiva sobre os recursos naturais (espaço urbano, recursos hídricos, áreas de preservação, destino final para esgotos e lixo industrial e domiciliar, espaços de circulação etc.). Além disso, há também os inevitáveis custos decorrentes do excesso de congestionamentos generalizados que se estabelece em áreas urbanas de escala e complexidade metropolitana. As vantagens da aglomeração são explicadas pela própria “prosperidade” assumida por essas áreas quando comparadas com outras regiões onde o crescimento sócio econômico revela-se menor. O tamanho e a complexidade urbana, até um certo limite, proporciona possibilidades de ganhos em termos de economias de escala e de escopo.

IHU On-Line - Por que há tantas desigualdades na economia regional do RS?
José Antônio Alonso -
O fenômeno das desigualdades regionais é próprio das economias capitalistas. O Rio Grande do Sul não detém o monopólio das desigualdades regionais. Elas existem também nos demais estados, em maior ou menor grau. O que tem sido destacado nos estudos dessa área é a persistência e o alargamento das mesmas no longo prazo. Esse problema pode estar contribuindo para o desempenho da economia gaúcha abaixo da sua capacidade potencial. Isso significa menos renda e emprego. É possível mitigar esse problema através de política econômica de combate às desigualdades.

IHU On-Line - O Rio Grande do Sul, principalmente a região do Vale do Sinos, está passando por um processo de desindustrialização?
José Antônio Alonso -
Não é possível, rigorosamente, falar sobre um processo de desindutrialização na região do Vale do Sinos como um todo. Sendo um segmento extremamente grande na região, a expansão ou encolhimento da cadeia couro/calçados na região é muito sentida, devido à queda na renda e no emprego. Esse setor passou a enfrentar dificuldades crescentes nos anos 1990, com a abertura da economia, a redução do apoio governamental (políticas de corte neoliberal), a emergência de concorrentes poderosos (China) em terceiros mercados e no mercado doméstico (estimulado também por câmbio apreciado) e também por busca de locais de custos mais baixos. Portanto, são muitos os fatores causadores do encolhimento do setor no Vale do Sinos. O movimento em direção aos Estados do Nordeste faz parte da mobilidade espacial de capitais industriais na busca de salários mais baixos, terrenos e infra-estrutura subsidiados, e possivelmente benefícios fiscais mais elevados do que os obtidos em seus locais de origem. O segmento couro/calçados não irá desaparecer do Vale do Sinos e sim diminuir de tamanho. Provavelmente, restarão aqueles agentes que adotarem inovações em produto, processo e gestão e que estabelecerem estratégias de atingir mercados, nos quais a concorrência seja mais favorável. Quanto à concorrência com produtos da China no mercado doméstico, a solução, não definitiva, mas eficaz, é a velha e boa proteção, seja através de tarifas, seja através das muitas formas não tarifárias. 

IHU On-Line - As empresas de calçados contribuem de maneira positiva para o estado? Com o fechamento em massa de várias indústrias, quais desvantagens e prejuízos no longo prazo?
José Antônio Alonso -
As empresas da cadeia couro/calçado sempre contribuíram positivamente para a economia do Estado. Trata-se de uma atividade que criou sólidas raízes na região do Vale do Sinos: difundiu toda uma cultura de trabalho com uma matéria-prima que é parte da base-econômica do Estado, o couro. No seu auge (décadas de 1970 e 1980), chegou a gerar l/3 dos empregos formais da Indústria de Transformação do Estado, tendo exercido importante papel como gerador de divisas através das exportações, quando as condições gerais e de câmbio eram mais favoráveis. No médio e no longo prazo, é possível que a cadeia couro/calçados ainda recupere algum espaço na produção industrial do Estado, mas não podemos esperar que recupere o tamanho e a importância que alcançou no passado. A Região do Vale do Sinos terá que reestruturar-se, partindo para um processo de diversificação industrial. Não será a primeira nem a última região a percorrer esse caminho.

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