Edição 225 | 25 Junho 2007

Vattimo e Rorty, filósofos do pensamento “fraco”

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Para o filósofo italiano Gianni Vattimo, “não se pode compreender a filosofia contemporânea sem passar por Rorty”. Questionado sobre seu diálogo intelectual com o filósofo canadense recém-falecido, Vattimo afirmou que, no plano religioso, suas “idéias são semelhantes”, porque ambos crêem “no fim da metafísica, no fim daquela religião como fundamento último, além do qual não se pode andar, quando, ao invés, ela é apenas uma das tantas formas para interpretar a nossa existência”. Além de um amigo, Rorty era companheiro de pensamento de Vattimo, haja vista que Rorty chegou mesmo a se definir como “pensador fraco”. As declarações podem ser lidas a seguir, na íntegra, e foram concedidas na entrevista exclusiva que Vattimo concedeu, por e-mail, à IHU On-Line.

Essa é a quinta entrevista exclusiva que Vattimo concede à IHU On-Line. A primeira foi publicada na 88ª edição, de 15-12-2003, sob o título O cristianismo é a religião do pós-moderno; a segunda na 128ª edição, de 20-12-2004, sob o título “Deus é projeto, e nós o encontramos quando temos a força para projetar...”; e a terceira saiu na edição 161, de 24-10-2005, quando recebeu pessoalmente a IHU On-Line, em Porto Alegre, no dia 18 de outubro daquele ano. Nessa oportunidade, ele falou sobre “O pós-moderno é uma reivindicação de multiplicidade de visão de mundo”. Sua contribuição mais recente foi à edição 187 da IHU On-Line, de 03-07-2006, com a entrevista O nazismo e o “erro” filosófico de Heidegger.

Dele publicamos também outros textos que podem ser consultados no sítio www.unisinos.br/ihu. De sua produção intelectual, destacamos, Acreditar em acreditar (Lisboa: Relógio D’Água, 1998); Depois da cristandade. Por um cristianismo não religioso (São Paulo: Record, 2004); e O fim da modernidade: niilismo e hermenêutica na cultura pós-moderna (São Paulo: Martins Fontes, 1996). Sobre Rorty, confira a editoria Memória, publicada na edição 223 da IHU On-Line, de 11-06-2007, de autoria do filósofo Manuel Cruz e a entrevista exclusiva com o Prof. Dr. Paulo Ghiraldelli Jr., publicada na edição 224, de 18-06-2007, “O amor pela democracia é o legado de Rorty”.

IHU On-Line - Como foi sua convivência com Rorty? Como era o ser humano Rorty?
Gianni Vattimo -
Rorty  era uma pessoa muito cordial e sincera. Um amigo. Cada vez que nos víamos, falávamos de nossas vidas. Não tínhamos sequer necessidade de falar de filosofia. Foi gentilíssimo também com todos os meus alunos que estudaram com ele. Conhecemo-nos no longínquo 1979, numa conferência em Milwaukee. Após ter escutado minha conferência, presenteou-me com uma cópia de Philosophy and the mirror of nature (Filosofia e o espelho da natureza. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1994) e nos demos conta que estávamos nas mesmas posições. Alguns anos mais tarde, numa conferência em Londres, ele se autodefiniu como “pensador fraco”. Além de ser um amigo, era também um companheiro de pensamento.

IHU On-Line - Como se deu o diálogo intelectual entre vocês dois, tomando em consideração a concepção religiosa?
Gianni Vattimo -
No plano religioso, as nossas idéias são semelhantes, porque ambos cremos no fim da metafísica, no fim daquela religião como fundamento último além do qual não se pode andar, quando, ao invés, ela é apenas uma das tantas formas para interpretar a nossa existência.

IHU On-Line - Que idéias destacaria como mais importantes do legado filosófico de Rorty?
Gianni Vattimo -
Antes de tudo, como eu já disse: o fim da metafísica. Segundo: as conseqüências que comporta este fim: o desmantelamento dos conceitos de verdade, de razão e de representação.

IHU On-Line - Como percebe a influência desse pensador na Filosofia contemporânea?
Gianni Vattimo -
Absolutamente decisiva. Não se pode compreender a filosofia contemporânea sem passar por Rorty. Os quatro volumes da coletânea de Cambridge “Philosophical Papers” são essenciais para compreender não só a divisão entre filósofos analíticos e continentais, mas também para superar esta mesma divisão.

IHU On-Line - Como Rorty compreendia a afirmação que o senhor faz de que o cristianismo é a religião da pós-modernidade?
Gianni Vattimo -
Para ele, a religião perdeu hoje aquela sacralidade que conseguia torná-la universal! E na minha interpretação pós-moderna ele via esta fé sem metafísica.

IHU On-Line - Dada a condição multifacetada da pós-modernidade, como o cristianismo vem convivendo com a alteridade, com o outro?
Gianni Vattimo -
Finalmente pode conviver sem guerra, sem sentir-se obrigado a converter o outro. É verdade que existem guerras de religião também hoje, mas estas são causadas, sobretudo, por políticas racistas que usam a religião para os próprios fins. Obviamente, refiro-me a Bush.

IHU On-Line - Em entrevista à nossa revista, em 15-12-2003, o senhor afirmou que gostaria de uma igreja mais aberta e menos autoritária. Como o senhor vê o futuro da religião nesse sentido? O que se pode esperar do papado de Bento XVI?
Gianni Vattimo -
Você se refere aqui ao livro O futuro da religião (Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2006), aos cuidados de Santiago Zabala . Para responder a esta questão, seria preciso retomar o livro. Direi que Bento XVI é muito semelhante a João Paulo II, e que a política do Vaticano não mudou. Tereis lido que agora querem também retirar financiamentos a Amnesty . Não creio que devamos esperar muito deste Papa. Deve ser interpretado como um dos últimos esforços do seu sistema autoritário para um pensamento conservador.

IHU On-Line - Bush bombardeia os iraquianos para impor uma democracia. Essa idolatria política encontra correspondência na religião pós-moderna? Por quê?
Gianni Vattimo -
Não encontra nenhuma correspondência, porque impor a democracia pertence a um pensamento fundamentalista. Se a pós-modernidade significa o reconhecimento da pluralidade das posições, não se pode impor uma posição sobre outras.

IHU On-Line - Quais são as suas maiores críticas à contribuição do cristianismo à democracia? E em que sentido sua opinião se aproxima da opinião de Rorty, tomando em consideração o pragmatismo e a necessidade que a cultura e a política consigam se mover na multiplicidade?
Gianni Vattimo -
A democracia é o sistema político que se caracteriza pelo respeito das minorias. Somente na democracia as religiões podem conviver. Se hoje não o conseguem, é porque não estamos em democracia, como efetivamente acontece.

IHU On-Line - Numa outra entrevista para a nossa revista, aos 20 de dezembro de 2004, o senhor disse que o cristianismo deveria ser anárquico, no sentido de rejeitar a submissão aos “princípios” (a lei natural, a lei do mercado, a lei da Igreja – que são sempre máscaras do autoritarismo e da violência). Em concreto, há algum exemplo neste sentido na nossa sociedade?
Gianni Vattimo -
Sim, por certo, basta olhar ao interior da igreja. A quantidade de sacerdotes, gays, leigos, que, embora sendo religiosos, não seguem ao pé da letra... as regras impostas pelo Vaticano, é enorme. O problema é que não se fala nisso porque a mídia tem medo de ser atacada depois. Toda esta massa de sacerdotes e leigos pós-modernos, isto é, que têm fé sem serem submetidos às regras do Papa, são, na realidade, anárquicos. Importante é crer por crer, e não crer no Papa.

 

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