Edição 446 | 16 Junho 2014

Karl Rahner e os desafios do cristianismo na época moderna

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Márcia Junges e Ricardo Machado

Mário de França Miranda reflete sobre a produção teórica de Rahner e sua importância no contexto eclesial da segunda metade do século XX

A síntese do homem, jesuíta e teólogo Karl Rahner está em sua extensa obra e em seu decisivo papel com relação ao contexto eclesial do pós-guerra na Europa. “A Igreja se encontrava ainda distanciada da sociedade, desconfiada e hostil à irrupção da modernidade, incentivando o neotomismo na formação de seus quadros, mas incapaz de um diálogo frutífero com os novos tempos”, explica o professor doutor Mário de França Miranda, em entrevista por e-mail à IHU On-Line. “Karl Rahner anteviu como ninguém os desafios futuros para o cristianismo e lutou para a construção de um catolicismo menos monolítico e mais participativo, de maior liberdade de expressão, de mais diálogo com a realidade”, avalia.

De acordo com o entrevistado, o teólogo alemão previu claramente o advento de uma sociedade secularizada e fechada à transcendência, de onde se origina sua preocupação em propor um fundamento antropológico às verdades cristãs. “Ele mesmo dizia que a teologia fundamental deveria estar presente em todos os tratados teológicos. Ele sabia que o tempo da cristandade estava terminando, que as pessoas não aceitavam sem mais os pronunciamentos doutrinais da Igreja e que se fazia necessária esta mediação antropológica”, aponta Mário de França Miranda. Nesse sentido, é possível estabelecer relações entre o pensamento de Rahner, o Concílio Vaticano II e algumas posturas levadas a cabo pelo Papa Francisco. “As conquistas do Concílio Vaticano II, saudadas entusiasticamente por Rahner e posteriormente (algumas delas) propositalmente esquecidas, marcam as opções eclesiais do atual bispo de Roma. Fim da centralização romana, maior espaço para as Conferências Episcopais, maior respeito aos bispos como sucessores dos apóstolos, participação do laicato dotado com o sentido da fé, valorização do existencial, do vivido, do testemunho, abertura à sociedade, preocupação com os pobres, são alguns pontos que demonstram quão feliz estaria hoje o nosso teólogo com este papa”, complementa.

Mário de França Miranda possui graduação em Filosofia pela Faculdade de Filosofia Nossa Senhora Medianeira, mestrado em Teologia pela Faculdade de Teologia da Universidade de Innsbruck e doutorado em Teologia pela Universidade Gregoriana. É professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-Rio. É autor de várias obras, entre elas A existência cristã hoje (São Paulo: Edições Loyola, 2005), A Igreja numa sociedade fragmentada. Escritos eclesiológicos (São Paulo: Edições Loyola, 2006) e Aparecida: a hora da América Latina (São Paulo: Edições Paulinas, 2006).

Confira a entrevista. 

 

IHU On-Line - Quem foi Karl Rahner?

Mário de França Miranda - Aí está uma pergunta de difícil resposta. Primeiramente porque qualquer relato sobre alguém implica também a pessoa que o expressa. Daí alguns traços do biografado receberem maior ênfase, enquanto outros podem ser transcurados ou não devidamente tratados. Reconhecemos de antemão esta insuficiência, embora defendamos também a consistência das afirmações do texto. Pergunta difícil também porque nela podemos distinguir o homem, o jesuíta e o teólogo que, entretanto, só podem ser encontrados unidos na pessoa de Karl Rahner. Comecemos por sua pessoa de tipo introvertido, pensador, resmungão como ele mesmo se considerava, de uma inteligência que buscava sempre aprofundar as questões, jamais se contentando com o que recebia de terceiros, questionando práticas tradicionais ou formulações consagradas. Avesso ao compromisso fácil ou à superficialidade, este seu jeito de ser vai marcar fortemente sua reflexão teológica. 

 

IHU On-Line - E como jesuíta, como caracterizar Karl Rahner?

Mário de França Miranda - Bem, a formação da Companhia de Jesus irá ajudá-lo a desenvolver seus dotes naturais. Primeiramente contribuindo para que se torne um trabalhador incansável, disciplinado, vivendo com simplicidade e austeridade sua vocação religiosa. No final de sua vida dizia, brincando, que era naturalmente preguiçoso e que aceitava os compromissos para ser estimulado ao trabalho, o que certamente reflete sua humildade, mas de modo algum a verdade. Porém, bem mais importante e decisiva em sua vida foi a experiência profunda que teve por ocasião dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio. De fato, a experiência da graça, segundo Karl Lehmann , talvez o melhor conhecedor do pensamento de Karl Rahner, constitui o núcleo de toda a sua teologia. Esta afirmação foi comprovada pelo próprio teólogo ao expressar terem sido os Exercícios Espirituais o fator mais decisivo de seu labor teológico, bem mais que seus conhecimentos filosóficos e teológicos posteriores. Não é de admirar que seus primeiros escritos fossem dedicados à questão dos “sentidos espirituais” em Orígenes , Evagrius Ponticus  e especialmente São Boaventura . De fato, a ação salvífica de Deus no ser humano experimentada pelo jovem Karl o estimulará a ulteriores questionamentos e escritos, como nos comprovam seus textos sobre a ética existencial, a experiência transcendental do Espírito Santo, a consolação sem causa, a decisão existencial, a experiência de Deus no amor fraterno, entre outros.

 

IHU On-Line - E o que dizer do teólogo Karl Rahner?

Mário de França Miranda - Naturalmente a sua entrada na Companhia de Jesus lhe proporcionará nos anos seguintes não só uma sólida espiritualidade, mas também uma profunda e séria formação filosófica e teológica. Papel decisivo desempenhou o contexto eclesial desta época do pós-guerra. A Igreja se encontrava ainda distanciada da sociedade, desconfiada e hostil à irrupção da modernidade, incentivando o neotomismo na formação de seus quadros, mas incapaz de um diálogo frutífero com os novos tempos. As recentes pesquisas na área bíblica e no setor da liturgia, os estudos patrísticos, os esforços inovadores da Ação Católica, não eram muito bem vistos pela hierarquia eclesiástica. Mas o jovem Rahner, também inconformado com a teologia dos manuais, é informado da “nova teologia” que Henri de Lubac  e outros ensinavam na França (Fourvière). E se dedica à leitura dos Santos Padres e se familiariza cada vez mais com a história dos dogmas, conhecimentos que vão se juntar a uma sólida formação na filosofia e teologia escolástica, como nos comprovam sobejamente seus textos posteriores. 

 

IHU On-Line - Então desde jovem já demonstrava uma vocação teológica?

Mário de França Miranda - De fato não foi bem assim. Pois foi enviado a Friburgo para se especializar em Filosofia, quando então teve Martin Heidegger  como professor. Entretanto sua tese doutoral sobre a metafísica do conhecimento finito em Tomás de Aquino , publicada depois como “O Espírito no mundo”, não foi aceita por seu orientador, e Rahner viu se fecharem as portas da filosofia para ele. Observo que sua tese ficou famosa, recebendo várias traduções, enquanto poucos conhecem o nome deste seu orientador. Mas como os caminhos de Deus não são os nossos, a faculdade teológica de Innsbruck onde lecionava seu irmão Hugo Rahner, também jesuíta, necessitava de um professor para a Teologia dogmática. Rahner apresenta então seu doutorado sobre “a Igreja que nasce do lado de Cristo”, sendo aprovado e podendo iniciar sua carreira como professor de Teologia em 1937. Naturalmente seu vigor especulativo e sua estadia em Friburgo irão marcar fortemente sua teologia.

 

IHU On-Line - Voltando à história: a atividade docente de Rahner se deu então em Innsbruck?

Mário de França Miranda - Não foi só nesta faculdade, pois em 1964 Rahner deixa Innsbruck para ensinar na cátedra de Romano Guardini o tema da cosmovisão cristã e da filosofia da religião, por convite da Universidade de Munique. Mas como aí não lhe permitiram ensinar na faculdade de Teologia, Rahner vai para Münster em 1967, onde desenvolve sua última atividade docente até 1971, quando então se torna professor emérito. Este fato não significou o fim de suas pesquisas e reflexões. Basta examinar seus inúmeros trabalhos e conferências depois desta data, coroando assim uma vida de dedicação total ao labor teológico e espiritual.

 

IHU On-Line - Rahner é considerado um dos maiores teólogos do século XX. Como se tornou assim famoso? 

Mário de França Miranda - Bem, Rahner sempre foi alguém que não se satisfazia com explicações superficiais ou formulações tradicionais. Daí seu afã em buscar compreender profundamente, de fundamentar solidamente, de expressar diversamente o que outros recebiam sem questionar. Seus primeiros textos, sejam de espiritualidade, sejam de teologia, deixam já transparecer esta sua preocupação básica. Textos de espiritualidade que tratam da oração, da mística, da ascese, da ação de Deus nas pessoas, das visões, da experiência da graça. Textos de pastoral que englobam temas diversos como princípio paroquial ou missa na televisão, ou ainda textos teológicos como o indivíduo na Igreja, a Igreja pecadora, a concupiscência, a relação entre natureza e graça, Deus no Novo Testamento, as muitas missas e o único sacrifício, o dogma da assunção de Maria. Embora refletissem originalidade e profundidade só se tornaram realmente conhecidos quando a editora Benzinger, da Suíça, resolveu publicá-los sob o título “Escritos de Teologia”, que não só alcançaram um enorme sucesso, mas atraíram também o olhar dos teólogos para este colega ainda pouco conhecido. Sabemos que os 16 volumes dos Escritos de Teologia experimentaram muitas edições, sendo traduzidos em diversas línguas. Graças ao empenho de missionários, Rahner foi o autor alemão traduzido no maior número de línguas, ultrapassando nomes como Kant  e Goethe .

 

IHU On-Line - E como pôde ele conseguir esta façanha já que dizem ser seu estilo difícil e rebuscado, de frases longas com abundância de adjetivos e advérbios?

Mário de França Miranda - Naturalmente a língua alemã é de enorme riqueza, oferecendo matizes e expressões que nem sempre se encontram nas línguas neolatinas. A luta de Rahner para ser fiel ao seu pensamento o levou a longas frases para abrigarem em si todas as matizes e riquezas do que ele queria expressar. Mas desde que o leitor se acostume com seu modo de escrever e que se familiarize com as constantes fundamentais de sua teologia, então ele se torna mais claro e direto. Em seus escritos espirituais, não tendo que “lutar com o conceito”, Rahner pode ser compreendido por qualquer um, como comprova seu livrinho “Palavras ao silêncio” que foi um sucesso mundial para um público não especializado. Aliás, tenho a impressão de que este teólogo escreveu muito mais textos espirituais do que se pensa. Para citar alguns: sobre a necessidade da oração, sobre a Hora Santa, sobre os votos religiosos, sobre as realidades cotidianas, sobre a devoção ao Coração de Jesus, sobre as visitas ao Santíssimo, sobre a fé do sacerdote, e muitos outros.

 

IHU On-Line - E como se explica este fato?

Mário de França Miranda - Na minha opinião, ele brota da própria pessoa de Rahner. As questões relacionadas com a fé cristã não eram para ele questões teóricas, acadêmicas, doutrinais. Como um cristão de profunda fé, tais questões o atingiam existencialmente e seus escritos refletem bem o envolvimento de sua pessoa nos temas doutrinais. Por exemplo, sua cristologia não se resume a uma sistematização de cunho teológico, mas indaga realmente pelo acesso e pelo relacionamento pessoal com Jesus Cristo. Sua pneumatologia não se limita a uma reflexão sobre o Espírito Santo, mas busca como realmente sua ação é experimentada, captada e expressa pelo ser humano. Sua eclesiologia se ocupa também do nosso relacionamento com a Igreja concreta, com suas falhas e imperfeições. Talvez o segredo da repercussão enorme de sua teologia esteja aqui: ela reflete a postura existencial de seu autor e por isso toca profundamente as pessoas.

 

IHU On-Line - Poderíamos caracterizá-lo como um cristão inquieto?

Mário de França Miranda - Sem dúvida, se entendemos nesta expressão alguém que se sente também atingido em sua fé pelas transformações socioculturais de seu tempo. Karl Rahner anteviu como ninguém os desafios futuros para o cristianismo e lutou para a construção de um catolicismo menos monolítico e mais participativo, de maior liberdade de expressão, de mais diálogo com a realidade. Ele previu claramente o advento de uma sociedade secularizada e fechada à Transcendência. Daí sua preocupação em oferecer um fundamento antropológico às verdades cristãs como a revelação, a graça de Deus, os sacramentos, a pessoa de Jesus Cristo, a própria Igreja, até o dogma da Santíssima Trindade. Ele mesmo dizia que a teologia fundamental deveria estar presente em todos os tratados teológicos. Ele sabia que o tempo da cristandade estava terminando, que as pessoas não aceitavam sem mais os pronunciamentos doutrinais da Igreja e que se fazia necessária esta mediação antropológica.

 

IHU On-Line - Reside neste ponto certa dificuldade que experimentam seus leitores em compreendê-lo?

Mário de França Miranda - Certamente, mas lembro que todo grande teólogo reflete sempre a partir de uma base filosófica, mesmo que não explicitamente mencionada. Penso em Henri de Lubac, Hans Urs von Balthasar , Bernard Lonergan , ou Juan Luis Segundo . Ter conhecimento da matriz filosófica destes teólogos é imprescindível para se compreender suas sistematizações. No caso de Rahner, mesmo temas avulsos como a noção de concupiscência, da unidade de espírito e matéria, da evolução humana, dos símbolos cristãos, para citar alguns. Sabemos que a matriz filosófica rahneriana, como toda produção humana, não escapou de certas críticas. J.B. Metz , seu discípulo e amigo, criticou seu enfoque que apenas se limitava ao ser humano diante de Deus, sendo que todo homem é sempre homem com outros homens e este fato não pode ser ignorado na reflexão teológica. Rahner procurou corrigir esta lacuna com um texto famoso sobre a unidade do amor a Deus e o amor ao próximo. Para mim, pessoalmente, a relação transcendência e história permanece sempre um ponto ainda pouco equilibrado, com repercussões em sua teologia.

 

IHU On-Line - Embora abrindo novas trilhas no pensamento teológico, este teólogo conseguiu se tornar um dos grandes colaboradores do Concílio Vaticano II. Como se explica este fato?

Mário de França Miranda - De fato não foi assim tão fácil. Rahner esteve sob suspeita das autoridades que exigiam serem seus escritos submetidos a uma censura prévia, em parte devido a sua tese sobre a Igreja pecadora, que seria mais tarde tranquilamente acolhida. Entretanto os bispos da Alemanha, reconhecendo seu valor, conseguiram levá-lo como perito para Roma, onde trabalhou intensamente na preparação dos textos conciliares. Textos sobre a colegialidade, as Conferências episcopais, o próprio Concílio, a Igreja no mundo de hoje, a maioridade do cristão, a vocação do laicato nasceram neste contexto eclesial. 

 

IHU On-Line - É incrível a quantidade de artigos e livros deste teólogo. Como conseguia ele encontrar tempo para tão rica produção?

Mário de França Miranda - Realmente Rahner foi um trabalhador infatigável, disciplinado, movido por um enorme zelo sacerdotal. Tudo fazia para transmitir suas convicções íntimas, sua fé cristã, a salvação de Jesus Cristo, a seus contemporâneos. Sempre que era solicitado enviava suas colaborações ou pronunciava suas conferências. Graças ao seu empenho (juntamente com outros), temos obras como o Lexikon für Theologie und Kirche, o Sacramentum Mundi, o Handbuch der Pastoraltheologie, a coleção Quaestiones Disputatae, a revista Concilium. Quando estive com ele em 1974 ainda trabalhava a cristologia do seu Curso Fundamental da Fé, embora me confessasse estar “demasiado velho, doente e burro” (palavras suas) para ainda escrever algo. Mas, como sabemos, publicou esta obra e ainda outros textos. 

 

IHU On-Line - Embora tenha vivido na Europa, condicionado por este contexto sociocultural, teve Karl Rahner alguma influência na teologia latino-americana, mais concretamente nas teologias da libertação?

Mário de França Miranda - Eu diria que uma enorme influência. Em sua obra programática Teologia da Libertação, Gustavo Gutierrez reconhece num capítulo a importância da concepção unitária de natureza e graça para a teologia latino-americana. Só foi possível uma teologia do social, da história, das realidades terrestres, depois de vencido certo supranaturalismo da graça de Deus, fortemente criticada por nosso teólogo juntamente com Lubac e Balthasar, entre outros. Também sua preocupação em confrontar a fé cristã com as diversas realidades da vida, da cultura e da sociedade, introduzindo-as na reflexão teológica, foi fundamental para uma teologia que leva a sério a situação dos marginalizados latino-americanos. Sabemos que ele tomou a defesa da teologia da libertação numa colaboração parcial a uma obra sobre a mesma, reconhecendo-a legítima e mesmo necessária para a dolorosa situação social de tantos na América Latina. Ele lamentava mesmo, em seus últimos anos, não ter conhecido este subcontinente, que certamente teria ampliado seu horizonte teológico. Por outro lado, os expoentes das teologias da libertação estudaram bem a teologia rahneriana e demonstram sobejamente esta verdade em seus escritos.

 

IHU On-Line - Você defendeu uma tese doutoral sobre a teologia trinitária de Karl Rahner e, portanto, teve que dedicar anos ao estudo deste teólogo. Que influência teve ele em seu labor teológico?

Mário de França Miranda - Primeiramente eu diria que fui impactado por seu modo mais existencial de pensar a teologia, no qual o teólogo e o cristão estão intimamente unidos, de tal modo que nossa realidade humana, com suas luzes e sombras, não fica de fora dos enunciados doutrinais. Desde meus primeiros estudos filosóficos senti grande empatia por Rahner ao ler seus textos espirituais, nos quais a profundidade temática caminha ao lado da vivência pessoal. Devo também a este teólogo ter me ensinado a pensar. Confesso que segui-lo em suas incursões intelectuais nem sempre me foi muito fácil, exigindo de mim, às vezes, várias leituras para uma adequada compreensão do texto. Mas deste modo, guiado por este estilo de pensar em profundidade, de questionar o demasiado óbvio, de não se contentar com a literalidade das formulações tradicionais, muito aprendi deste mestre. Sempre me impressionou também a liberdade demonstrada por este jesuíta em sua reflexão teológica. Formado por uma pedagogia da liberdade, própria dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola, Rahner sempre lhe foi fiel, mantendo-se imune aos diversos grupos na Igreja que buscavam atraí-lo, e sabendo denunciar os abusos das autoridades quando se fazia necessário. Não se importava, como se expressava, se o colocassem à esquerda ou à direita, ou se recebesse aplausos ou apupos. Outro ponto que muito me ajudou foi a amplitude dos temas por ele estudados, que proporciona a seu conhecedor um rico horizonte teológico capaz de situar qualquer tema na totalidade da teologia e relacioná-lo com os demais. Também sua insistência na dimensão analógica, simbólica dos enunciados da fé, que apontam para o Mistério de Deus, sem poder aprisioná-lo no conceito, sempre me impressionou muito.

 

IHU On-Line - Você vê alguma relação entre o pensamento de Karl Rahner e a renovação eclesial empreendida pelo papa Francisco?

Mário de França Miranda - Certamente! Pois as conquistas do Concílio Vaticano II, saudadas entusiasticamente por Rahner e posteriormente (algumas delas) propositalmente esquecidas, marcam as opções eclesiais do atual bispo de Roma. Fim da centralização romana, maior espaço para as Conferências Episcopais, maior respeito aos bispos como sucessores dos apóstolos, participação do laicato dotado com o sentido da fé, valorização do existencial, do vivido, do testemunho, abertura à sociedade, preocupação com os pobres, são alguns pontos que demonstram quão feliz estaria hoje o nosso teólogo com este papa. É bastante improvável que Jorge Mario Bergoglio  não tenha lido os textos de espiritualidade de seu irmão jesuíta. Basta retomar sua programática Exortação Apostólica A Alegria do Evangelho para constatar a afinidade de várias de suas páginas não só com a teologia rahneriana, mas, sobretudo, com a postura existencial, autêntica, transparente, de se viver a fé e de ser cristão. Daí o esforço de renovação e de verdade levado a cabo por ambos.

 

Leia mais...

- “A Igreja não dispõe nem de poder nem de solução mágica para resolver a questão da maioria de seus fiéis, que são pobres”. Entrevista com Mário de França Miranda na edição 219 da IHU On-Line, de 14-05-2007;

- Um teólogo da modernidade. Entrevista com Mário de França Miranda na edição 297 da IHU On-LIne, de 15-06-2009;

- “A Igreja muda para poder continuar sendo Igreja”. Entrevista com Mário de França Miranda na edição 403 da IHU On-LIne, de 24-09-2012;

- Leia também o artigo “Rumo a uma nova configuração eclesial”, de Mário de França Miranda, publicado em Cadernos Teologia Pública nº 71.  

 

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