Edição 446 | 16 Junho 2014

A monstruosidade de Cristo. Paradoxo ou dialética

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Márcia Junges e Luciano Gallas / Tradução: Walter Schlupp

O teólogo Adam Kotsko analisa o livro de Slavoj Žižek e John Milbank, em que a morte de Jesus na cruz serve de eixo central para o diálogo entre os dois autores sobre as condições humana e divina de Cristo

O diálogo travado entre o filósofo Slavoj Žižek   e o teólogo John Milbank  no livro A monstruosidade de Cristo. Paradoxo ou dialética (São Paulo: Três Estrelas, 2014) (original inglês: The Monstrosity of Christ: Paradox or Dialectic (2009) é o tema central desta entrevista de Adam Kotsko, concedida por e-mail à IHU On-Line. “A teologia da morte de Deus é um lembrete de que a modernidade secular é uma consequência do cristianismo, não uma rejeição do mesmo. Milbank toma isso como prova de que precisamos voltar para o ‘real’ cristianismo dos tempos pré-modernos, porque a modernidade seria uma visão herética do cristianismo, enquanto Žižek afirma, com Hegel, que a modernidade é fruto autêntico do cristianismo, e não uma espécie de bastarda ou órfã”, afirma Kotsko, em referência a um dos tantos pontos em que há importante divergência entre os paradigmas teóricos dos autores da obra.

Adam Kotsko é teólogo, professor assistente de Ciências Humanas no Shimer College, em Chicago, Estados Unidos. É autor de Politics of Redemption: The Social Logic of Salvation (Cambridge, James Clarke and Co, 2010); Awkwardness (Ropley: Zero Books, 2010) e Why We Love Sociopaths: A Guide to Late Capitalist Television (Ropley: Zero Books, 2012).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual é o confronto “provocador” que Žižek e Milbank estabelecem ao debater filosofia, teologia e política em A monstruosidade de Cristo (São Paulo: Três Estrelas, 2014)?
Adam Kotsko -
Para mim, o aspecto mais importante do livro é que um grande filósofo como Žižek está em diálogo com um teólogo contemporâneo, não só com a Bíblia ou alguma figura importante como Agostinho  ou Tomás de Aquino , mas com alguém que está fazendo teologia agora. Muitas vezes, em discussões filosóficas sobre teologia, fica parecendo que a teologia está morta há centenas de anos.

O que talvez seja mais provocativo, porém, é que ele é o filósofo que está fazendo o trabalho teológico mais criativo e desafiador. Žižek está trabalhando ativamente a partir da sua posição no diálogo crítico com a tradição, muitas vezes tomando direções inesperadas, enquanto Milbank, para mim, parece estar repetindo, essencialmente, os mesmos pontos de vista que ele sempre apresentou. Até certo ponto, eu acho que o livro é uma oportunidade perdida por causa dessa incompatibilidade: as posições de Žižek e de Milbank são simplesmente diferentes demais para um diálogo produtivo. Um debate entre Žižek e Catherine Keller  ou Enrique Dussel  teria sido muito mais interessante, na minha opinião.

IHU On-Line – Como essa “monstruosidade” de Cristo pode ser compreendida adequadamente a partir do referencial de Hegel ?
Adam Kotsko -
Žižek adota uma visão hegeliana do cristianismo. Nessa visão, que foi retomada por teólogos da "morte de Deus" do século XX, como Thomas Altizer , Deus se encarna em Cristo irrestritamente, tudo que significa ser Deus é despejado em Cristo, sem Pai transcendente deixado para trás no céu. Quando Cristo morre, essa divindade é despejada para o Espírito Santo, entendido como vínculo social singular da comunidade cristã.

IHU On-Line – Como a “cristologia” de Hegel se apresenta na argumentação sustentada por Žižek?
Adam Kotsko -
No meu ponto de vista, Hegel domestica o poder transformador do novo vínculo social representado pelo Espírito Santo. Ele passa rápido demais para a estrutura institucional-burocrática da Igreja oficial, enquanto Žižek vê a possibilidade de uma estrutura social fundamentalmente não institucional ou não ideológica a surgir com a morte de Deus em Cristo. Por isso eu acho que Žižek aponta para um caminho em que a "monstruosidade de Cristo" empurra o pensamento de Hegel para além dos seus próprios limites.

IHU On-Line – A partir desse debate, que pistas são dadas por ambos os autores do livro para uma resistência ao niilismo capitalista?
Adam Kotsko -
A visão de Milbank é consistente em todos os seus escritos: precisamos voltar a uma versão idealizada de estruturas sociais medievais, caracterizadas por uma hierarquia social com justiça ordenada, em que todos pertencem a vários grupos ou instituições que se sobrepõem, sem uma pretensão dominante como a do Estado-nação moderno. Isso criaria espaço para uma economia de doação mais autêntica, que nos permitiria afastar-nos dos piores efeitos do capitalismo, etc.

A meu ver, a solução proposta por Milbank é pura fantasia; na verdade, eu concordo com Žižek de que se trata basicamente de "fascismo soft". No entanto, Žižek não oferece uma alternativa totalmente desenvolvida, de forma alguma. Ele sempre diz que o que precisamos é deixar de lado as exigências de uma ação imediata e nos concentrar no desenvolvimento de nossa teoria tão rigorosamente quanto possível. Isso é o que ele faz em suas respostas no livro.

IHU On-Line – Que reflexões “a monstruosidade de Cristo” enseja a partir de um contexto secular que fala sobre a morte de Deus?
Adam Kotsko -
A teologia da morte de Deus é um lembrete de que a modernidade secular é uma consequência do cristianismo, e não uma rejeição dele. Milbank toma isso como prova de que precisamos voltar para o "real" cristianismo dos tempos pré-modernos, porque a modernidade seria uma visão herética do cristianismo, enquanto Žižek afirma, com Hegel, que a modernidade é fruto autêntico do cristianismo, e não uma espécie de bastarda ou órfã.

IHU On-Line – Qual é o significado do cristianismo e de Jesus para a história e futuro da humanidade?
Adam Kotsko -
Isso ainda vamos ver. As visões dominantes de Jesus e do cristianismo, parece-me, não oferecem muita esperança para o futuro. Na melhor das hipóteses, são visões nostálgicas; na pior das hipóteses, são profundamente reacionárias. Se é que o cristianismo tem futuro, ele será encontrado no trabalho de teólogos heterodoxos que trabalham à margem da Igreja (como teólogos feministas, teólogos homossexuais, da libertação) ou totalmente fora dela (como Žižek ou Agamben).

IHU On-Line – Em que sentido o Deus que se fez homem na pessoa de Cristo enseja debates sobre uma transcendência que se faz imanente, com todos os paradoxos que isso pode significar?
Adam Kotsko -
Debates sobre transcendência e imanência muitas vezes me parecem estéreis. Cada um dos lados pressupõe que a sua abordagem é intelectualmente mais rigorosa e moralmente mais adequada, de modo que qualquer tipo de discussão é praticamente inútil. Embora eu simpatize mais com os adeptos da imanência, prefiro evitar a questão por completo, para me concentrar em outras preocupações.

IHU On-Line – Quais são os traços fundamentais da crítica de Milbank à modernidade e como esta se entrelaça no debate estabelecido com Žižek?
Adam Kotsko -
Milbank acredita que a modernidade é essencialmente uma heresia cristã e que todas as suas falhas óbvias apontam para a necessidade de voltar para o cristianismo autêntico, ortodoxo. Para Milbank, a modernidade secular se baseia numa ontologia da violência e da luta, ao passo que o cristianismo nos fornece uma ontologia da paz. Milbank afirma esses pontos de vista ao longo de sua resposta a Žižek, em um caso, usando uma elaborada metáfora de dirigir por uma estrada do interior no meio do nevoeiro. Mas eu não tenho certeza de chamar isso parte de um "debate" com Žižek. Esse livro simplesmente deu a Milbank uma oportunidade de reafirmar seus pontos de vista de uma forma um pouco diferente.

IHU On-Line – Como podemos compreender o posicionamento de Žižek, para quem seu ateísmo é “mais cristão” do que a fé de Milbank, e a posição de Milbank a respeito de um “Žižek católico”?
Adam Kotsko -
Eu acho que a visão ateísta de Žižek do cristianismo é mais interessante e radical do que a posição ortodoxa de Milbank. Pode não ser "mais cristã" segundo todos os critérios, mas certamente é mais produtiva e promissora. A visão de Milbank de um "Žižek católico" é uma forma de tentar assimilar Žižek à posição do próprio Milbank. Acho que é forçado e pouco convincente.

Leia mais...
Agamben e o repensar da teologia a partir de seus fundamentos. Entrevista com Adam Kotsko e Colby Dickinson publicada no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em 15-09-2013.
Žižek e a tentativa radical de repensar a tradição cristã. Entrevista com Adam Kotsko publicada na edição 431 da IHU On-Line, de 04-11-2013.

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