Edição 446 | 16 Junho 2014

A implícita presença de Deus no pluralismo religioso

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Márcia Junges e Ricardo Machado

O mestrando em teologia Edisley Batista fala sobre a importância do trabalho de Karl Rahner na compreensão do diálogo no pluralismo religioso

O cristianismo, a partir do pensamento de Rahner é entendido como um aperfeiçoamento da religiosidade dos sujeitos. “Rahner considera o não cristão como um cristão que ainda não chegou à consciência refletida sobre si mesmo, assim, a pregação do Evangelho não se destina a uma pessoa abandonada por Deus e que não tenha nenhuma relação com Cristo, transformando-a, portanto, em um cristão”, explica Edisley Batista em entrevista por e-mail à IHU On-Line. “Karl Rahner, na sua obra Ouvinte da Palavra (Hörer des Wortes), refere-se ao homem como ser de abertura ilimitada ao ser absoluto, e como ser de transcendência, o homem está sempre aberto a Deus. Isso significa dizer que não se pode fazer teologia sem considerar a realidade humana, pois a vida do homem é o lugar da fé; no dizer de Rahner, ‘toda palavra sobre Deus é também uma palavra sobre o homem’”, complementa.

Para o teólogo alemão Karl Rahner, as outras religiões têm em comum umas com as outras mais que a simples crença em Deus, argumento defendido ainda em 1961, antes mesmo da realização do Concílio Vaticano II. “Uma tentativa de caracterização da teologia rahneriana deve necessariamente levar em consideração que não se trata de um trabalho monográfico, ou seja, não é limitada a uma única temática, por mais importante que ela seja. Rahner desde seus primeiros escritos até a sua maturidade afrontou diversas problemáticas no âmbito da antropologia, da dogmática, da eclesiologia, teologia fundamental, até mesmo da ética, da moral, etc.”, esclarece Edisley Batista. “Rahner se encontra diante de um ambiente que não correspondia mais ao mundo cristão da sua juventude, por isso, ele demonstra sua insatisfação. Isso explica todo o seu empenho em elaborar uma teologia que fosse sinal do testemunho da fé em Jesus Cristo, e que primasse por um cristianismo verdadeiramente autêntico, atento às necessidades concretas do homem”, aponta.

Edisley Batista da Silva é natural de Formoso do Araguaia e sacerdote da diocese de Porto Nacional, ambos no Tocantins e graduado em Filosofia e Teologia pelo Centro de Estudos Superiores Matter Dei, no Tocantins. Atualmente é mestrando em Teologia Dogmática na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, na Itália.

Confira a entrevista. 

 

IHU On-Line - Em que consiste a missiologia em Rahner?

Edisley Batista - Rahner considera o não cristão como um cristão que ainda não chegou à consciência refletida sobre si mesmo, assim, a pregação do Evangelho não se destina a uma pessoa abandonada por Deus e que não tenha nenhuma relação com Cristo, transformando-a, portanto, em um cristão. A ação missiológica não se confunde com proselitismo. A missão cristã, segundo Rahner, se direciona, sobretudo, ao “cristão anônimo” com o objetivo de torná-lo consciente por via refletida (consciência subjetiva) e objetiva do cristianismo que pulsa no mais profundo do seu ser tocado pela graça, em virtude da sua existência sobrenatural . Embora o homem já se encontre existencialmente em uma situação de justificação e graça, a missão se faz necessária precisamente porque esta tomada de consciência representa a própria essência do cristianismo e é a expressão mais alta do seu desenvolvimento. O cristianismo é entendido no pensamento do nosso teólogo como o aperfeiçoamento da religiosidade do indivíduo. O cristão anônimo, graças à missão, é chamado a explicitar a sua fé e fazer parte de uma comunidade de fé, a Igreja. Para o teólogo alemão, o último fundamento da atividade missionária se justifica pelo simples fato de que o cristianismo é a mais alta forma de religião, a qual todos tendem. Em 1959, Rahner publica um texto intitulado Missão e Graça, onde ele faz uma interpretação teológica da presença do cristão no mundo moderno, das suas obrigações e, sobretudo, da missão do cristão. Faz também uma análise dos problemas teológicos fundamentais da pastoral, tentando descrever que a finalidade última da pastoral é a abertura às diversas formas de vivência da fé.

 

IHU On-Line - Qual é a sua atualidade e importância na teologia dos nossos dias?

Edisley Batista - Falar da atualidade e da importância de Rahner para os nossos dias é sempre uma questão aparentemente simples, mas que é preciso estar atento. Ele é um teólogo do século XX, portanto, um contexto diferente do nosso, com problemáticas peculiares. Podemos ver a atualidade da sua obra no fato de que o seu pensamento perdura em seus seguidores, inúmeras teses são ainda feitas e temas bastante explorados da sua teologia. O arcabouço teológico de Rahner oferece ainda hoje uma possibilidade enorme de investigação e de confronto, bem como indicações relevantes no âmbito da antropologia, eclesiologia, missiologia, etc. 

Porém, o legado fundamental de toda a teologia rahneriana talvez seja o de conceber a “experiência de Deus” como categoria fundamental do ato de teologizar, de tal forma que leve em consideração antes de qualquer coisa a relação existente entre o homem e Deus, através de Jesus Cristo. Existe, com isso, uma perspectiva ou acentuação mística  na teologia deste teólogo. Outro ponto que se pode referir como herança para a teologia hodierna é sem dúvidas a relevância antropológica no pensamento teológico. Karl Rahner, na sua obra Ouvinte da Palavra (Hörer des Wortes), refere-se ao homem como ser de abertura ilimitada ao ser absoluto, e, como ser de transcendência, o homem está sempre aberto a Deus. Isso significa dizer que não se pode fazer teologia sem considerar a realidade humana, pois a vida do homem é o lugar da fé; no dizer de Rahner, “toda palavra sobre Deus é também uma palavra sobre o homem”. A sua antropologia transcendental nos permite confrontar com o pensamento pós-moderno, salvaguardando a essência mais profunda do ser humano, sua realidade espiritual mais profunda e, como consequência, sua abertura ao mistério de Deus. Ainda podemos dizer da sua relevância para o atual contexto religioso. Rahner é, necessariamente, referência no contexto do pluralismo religioso, pois sempre defendeu e sempre escreveu sobre a necessidade e importância de reconhecer a real presença de Deus mesmo onde a fé não é vivida explicitamente.

 

IHU On-Line - Qual é a contribuição desse teólogo para a redação do documento Ad gentes ?

Edisley Batista - Karl Rahner, juntamente com outros grandes teólogos, contribuiu sobremaneira para a nova visão eclesiológica oriunda do Vaticano II . Em muitos documentos se notam resquícios, ou mesmo influências, da sua teologia. O decreto Ad gentes faz emergir na Igreja a sua mais alta vocação, que é a sua ação missionária universal. O documento representa um salto em relação às concepções antigas quando admite a existência de verdade e de graça nas demais religiões, ainda que tenha necessidade de uma “purificação” através da missão. É justamente neste ponto que aparece a contribuição fundamental do teólogo alemão, pois em 1961 Rahner já defendia a ideia de que as outras religiões possuem muito mais do que uma mera crença natural em Deus, e afirma efetivamente que existem “substanciais traços sobrenaturais da graça” . Esta concepção e reconhecimento das demais religiões que Rahner antevira influenciou profundamente a nova relação e abertura da Igreja e do cristianismo com as religiões não cristãs, pois a atividade missionária consiste propriamente nisto, em abrir-se a todas as realidades e fazer vir à tona a fé que já é vivida ‘atematicamente’ em todas as religiões.

 

IHU On-Line - O que Metz  quer dizer com a “capacidade em relação à humanidade imediata” de Rahner? 

Edisley Batista - No capítulo 10 da sua obra Hörer des Wortes (Ouvinte da Palavra), Rahner fala sobre o homem como ser material, evidenciando que “o homem só realiza um retorno sobre si mesmo (este é o princípio transcendental baseado na metafísica de Tomás de Aquino ) saindo no mundo diverso de si”. Segundo Rahner esta abertura do homem ao mundo através do qual ele realiza a sua transcendentalidade é o que favorece a capacidade autorreflexiva do ser, precisamente no possuir o ser próprio do homem. Esta relação, sempre transcendental, mesmo que histórica, ou melhor, justamente a causa disso, se transforma por si na possibilidade de o homem ter junto de si um outro como “primeiro conhecido” (no sentido gnosiológico). Este outro é, na verdade, a “possibilidade subjetiva” da posse do ser, que é necessariamente real, que condivide o elemento substancial e imediato . Metz, ao fazer um comentário sobre esta passagem da obra de Rahner, ressalta que a realidade desta “possibilidade subjetiva” não pode ser entendida como se pertencesse a si mesmo absolutamente, independentemente do ser ao qual ela é atribuída. A realidade dessa capacidade imediata de possuir o ser deve ser entendida sempre em relação ao homem, como sua realidade imediata, como componente da sua transcendentalidade. Segundo Metz, ainda na interpretação de “Ouvintes da Palavra”, esta materialidade conduz o homem por si ao espaço determinado do outro, onde se realiza o seu ser. Assim, no simples fato de apresentar-se “a uma alteridade vazia, o homem estaria em si ainda inseparável de si (não mediato)”. Por isso, ele realiza esta sua capacidade em relação precisamente a uma humanidade concreta, em direção da qual ele transcende. Vale recordar que Metz não entende transcendência em termos de categorias espaciais, como aquilo que é “ultramundano”, mas a entende segundo categorias históricas, isto é, o aperfeiçoamento no interior mesmo da história , por isso, esta relação imediata se concretiza historicamente. 

 

IHU On-Line - Por que teólogos como Metz consideram a teologia de Rahner uma “teologia voltada para a antropologia”?

Edisley Batista - Esta é uma das maiores críticas ao pensamento de Rahner. Metz, que foi um dos seus mais eminentes discípulos, em sua obra O antropocentrismo cristão (1961), faz uma análise antropológica da teologia, partindo, assim como Rahner, da interpretação da forma mentis de Tomás de Aquino. Para Metz é evidente que o pensamento de Aquino é, no que se refere ao seu conteúdo, fundamentalmente teocêntrico, mas do ponto de vista formal, isto é, ontologicamente, é antropológico . E é precisamente deste ponto do pensamento de Tomás de Aquino que Rahner parte para elaborar sua teologia transcendental, que considera fundamental falar do homem em teologia. Para Rahner, não existe uma palavra sobre Deus que não seja simultaneamente e necessariamente uma palavra também sobre o ser humano. Ele coloca no centro da sua teologia a questão antropológica, pois para fazer teologia é necessário antes de tudo considerar aquela realidade na qual Deus mesmo se tornou. É voltada para a antropologia porque no plano ontológico e antropológico Rahner procurou analisar profundamente as condições de possibilidade, para o homem, de experimentar no íntimo da sua própria existência uma abertura ao mistério sacro e absoluto de Deus. Nas suas grandes obras Espírito no Mundo e Ouvintes da Palavra, bem como em seus inúmeros ensaios, Rahner tenta demonstrar a necessidade da análise sobre o homem como ponto de partida para a teologia, pois se trata sempre de refletir sobre a possibilidade de estabelecer uma relação entre Deus e o homem. Para Rahner, o homem é sempre um “ouvinte da palavra”, está invariavelmente aberto à escuta da palavra de Deus (que é um evento) que acontece através da sua revelação; por isso, segundo este teólogo, é imprescindível uma reflexão antropológica ao considerar a autocomunicação de Deus. 

H. U. Von Balthasar  foi um dos grandes críticos do pensamento rahneriano, pois, conforme o teólogo suíço, trata-se de um reducionismo antropológico, ou seja, Rahner teria reduzido a teologia a uma antropologia, invertendo o polo da reflexão. Também W. Kasper se mantém um pouco distante da teologia de Rahner, considerando-a como uma incompleta reflexão teológica, restrita ao campo antropológico.  

 

IHU On-Line - Qual é a peculiaridade do projeto teológico de Rahner como um todo? Quais são suas principais intuições?

Edisley Batista - Uma tentativa de caracterização da teologia rahneriana deve necessariamente levar em consideração que não se trata de um trabalho monográfico, ou seja, não é limitada a uma única temática, por mais importante que ela seja. Rahner, desde seus primeiros escritos até a sua maturidade, afrontou diversas problemáticas no âmbito da antropologia, da dogmática, da eclesiologia, teologia fundamental, até mesmo da ética, da moral, etc. Ignazio Sanna  diz que a teologia de Rahner poderia ser chamada de “kairológica” no sentido de que ele faz uma leitura dos diversos momentos de kairós da vida humana à luz da Palavra de Deus. Toda produção teológica, bem como filosófica de Rahner, é no intuito de responder às questões mais fundamentais da vida humana, questões profundamente existenciais e bem concretas, de forma a oferecer elementos teóricos para que, do momento em que Deus se revela a todo homem sem distinção, cada pessoa seja capaz de compreender e interpretar esta revelação, levando em consideração sua própria existência. 

Porém, Rahner dedicou bastante atenção a temas como método transcendental, onde procura justificar a necessidade de verificar no próprio homem as suas condições de possibilidade para acolher a autocomunicação de Deus. De fundamental importância também é a sua reflexão sobre o Existencial Sobrenatural, onde o homem se encontra permanentemente aberto ao mistério absoluto, Deus, não devido à sua natureza, mas como pura e unicamente oferta da graça de Deus. Por consequência, toda pessoa é já envolvida pela graça salvífica de Cristo, temática ou atematicamente. Daqui Rahner elabora sua controversa doutrina dos “cristãos anônimos”. Não menos importante, e sobretudo hoje num contexto de pluralismo religioso, é a atenção que este teólogo dá às religiões não cristãs, sempre defendendo a originalidade e presença salvífica de Deus nestes homens e mulheres que vivem a radicalidade da vida, e que por isso mesmo estão em relação com a graça salvífica e universal de Deus.

 

IHU On-Line - Como a teologia de Rahner repercute em documentos conciliares como a Gaudium et spes?

Edisley Batista - Mesmo que o contexto do Vaticano II seja o período em que Rahner começa a despontar no cenário teológico, e embora ele tenha participado do evento conciliar, não foi, contudo, o teólogo ou perito mais notável do Concílio. Rahner foi convidado a participar do Concílio pelo então Arcebispo de Viena, cardeal König , como seu perito particular. Trabalhou ao lado de grandes teólogos da época e de agora como Yves Congar , H. de Lubac  e o ainda jovem teólogo J. Ratzinger .  É possível, porém, reconhecer aspectos da sua contribuição teológica em vários temas conciliares, tais como o dever da descentralização eclesial, abertura para o diálogo ecumênico , e, em virtude de ter sido nomeado para a Comissão dos sacramentos, a sua contribuição para a renovação do diaconato. Empenhou-se também em colaborar com a reflexão de documentos como Lumen Gentium, Dei Verbum e Gaudium et Spes . No que se refere a esta última, a contribuição do teólogo alemão é relevante para a compreensão da categoria de “mundo”, pois, para ele, um documento que ressalte a relação entre Igreja e mundo deve necessariamente partir de problemáticas tipicamente humanas.

 

Referências

RAHNER, K.  Saggi di antropologia sopranaturale, Ed. Poline- Roma, 1969. 

RAHNER, K. Uditori della parola, Borla- Roma, 1967.

COCCOLINI, G. Johann Baptist Metz, Morceliana, Brescia, 2007.

KLINGER, E. L`assoluto nel quotidiano. La teologia spirituale di Karl Rahner, Ed. Messagero Padova Padova, 1994.

METZ, J.B. Sulla teologia del mondo,Queriniana, Brescia, 1969.

RAFFELT. A.; VERWEYEN, H. Leggere Karl Rahner, Queriniana, 2004.

Teologia del Vaticano II, a cura della Scuola del Seminario di Bergamo, San Paolo, Milano, 2012.

 

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