Edição 370 | 22 Agosto 2011

500 anos depois: Recordar a Reforma, olhando para os desafios comuns da cristandade

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Moisés Sbardelotto

A celebração dos 500 anos da Reforma protestante deve ocorrer sem conotações triunfalistas ou particularistas. Ela deve ocorrer em espírito ecumênico e na noção de que a Igreja da Reforma deve ser sempre Igreja em Reforma (semper reformanda), afirma o moderador do CMI, Walter Altmann

Há quase 500 anos, católicos e luteranos passaram a percorrer caminhos quase paralelos, mas separados. Antes disso, há quase 1.000 anos, as cristandades oriental, ortodoxa e ocidental católica resolveram tomar estradas diferentes. Por isso, afirma Walter Altmann, pastor luterano e moderador do Conselho Mundial de Igrejas – CMI, a celebração da Reforma deve recordar o evento ocorrido 500 anos atrás, mas “seu olhar deve estar voltado à frente, detectando os desafios comuns que a cristandade como um todo tem diante de si e refletindo sobre a substância do testemunho evangélico diante deles”.

Nesta entrevista, concedida por e-mail à IHU On-Line, o ex-presidente da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil - IECLB - explica que, inspirado na vocação para a unidade visível da cristandade, o movimento ecumênico deve tentar “transpor para a realidade o conhecimento de que a vontade de Deus é maior do que nossas estruturas e concepções teológicas construídas ao longo da história”. E lamenta: “Com relativa facilidade, caímos, então, na tentação de nos entrincheirarmos em nossos muros confessionais estabelecidos. E isso é mais danoso para a integridade da mensagem cristã do que os antagonismos externos”.

Walter Altmann é pastor protestante luterano brasileiro, moderador do Conselho Mundial de Igrejas CMI e ex-presidente da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil. É doutor em teologia pela Universidade de Hamburgo, Alemanha, com tese sobre o Conceito de tradição em Karl Rahner. Foi professor de Teologia Sistemática da Escola Superior de Teologia – EST, de São Leopoldo, da qual foi reitor de 1981 a 1987. De 1995 a 2001, exerceu o cargo de presidente do Conselho Latino-Americano de Igrejas - CLAI, com sede em Quito. De 2003 a 2007, foi membro do Conselho da Federação Luterana Mundial - FLM, com sede em Genebra, Suíça. Entre suas obras, destacamos Lutero e libertação: Uma releitura de Lutero em perspectiva latino-americana (Editora Sinodal, 1994).

Confira a entrevista.


IHU On-Line – O que significa ser ecumênico diante do atual contexto contemporâneo?

Walter Altmann –
Ser ecumênico significa construir pontes, pontes que conduzam a encontro e crescimento, a intercâmbio, compreensão mútua e cooperação. Trata-se de viver uma identidade cristã centrada na graça divina e na liberdade evangélica, contribuindo para superar tanto esquemas rígidos e intolerantes quanto posturas de liberalismo sem responsabilidades. Leva a sério e respeita convicções divergentes, apresenta as convicções próprias com clareza sem pretender superioridade ou tentar imposições. Em suma, fomenta o encontro de pessoas livres e maduras, e assim se empenha pela unidade à qual Deus convoca a Igreja.


IHU On-Line – Em sua opinião, em que pontos podem ser encontrados os grandes pilares teológicos do ecumenismo hoje? Por outro lado, que aspectos teológicos ainda obstaculizam a unidade?

Walter Altmann –
As ênfases que deram origem ao movimento ecumênico continuam perfeitamente válidas hoje em dia, ainda que sua compreensão e seus desdobramentos tenham sofrido adaptações e aprofundamentos: missão e evangelismo; diaconia e ação social; doutrina; educação cristã. Mais especificamente, o movimento ecumênico inspira-se na vocação para a unidade visível da cristandade, no testemunho profético da mensagem cristã, no empenho decidido por paz, justiça e cuidado para com a Criação. Para tanto, recorre a suas fontes espirituais a partir da vocação em Cristo: fé, esperança e amor.
Além de obstáculos externos provenientes da fragmentação pós-moderna e de concepções militantemente anticristãs, há os obstáculos internos das dificuldades em transcendermos particularismos denominacionais, em aprofundarmos as implicações daquilo que fundamentalmente nos une. Em suma: resistimos a transpor para a realidade o conhecimento de que a vontade de Deus é maior do que nossas estruturas e concepções teológicas construídas ao longo da história. Com relativa facilidade, caímos, então, na tentação de nos entrincheirarmos em nossos muros confessionais estabelecidos. E isso é mais danoso para a integridade da mensagem cristã do que os antagonismos externos.


IHU On-Line – Como moderador do Comitê Central do CMI, quais são as prioridades dessa comunidade de igrejas hoje?

Walter Altmann –
Além das prioridades históricas e fundamentais da busca da unidade visível, da missão, do testemunho profético e da ação social, há prioridades mais específicas, tais como: estudo mais aprofundado da natureza da Igreja; reflexão sobre um testemunhar ecumênico acerca da fé cristã, superando quaisquer posturas proselitistas, como abordar questões éticas candentes no âmbito da moral pessoal; espiritualidade; educação e formação ecumênicas; exame das consequências do cenário religioso cambiante na atualidade; igualdade entre mulheres e homens; espaço para os jovens e pessoas com deficiência; superação do racismo; questões indígenas; relações econômicas internacionais calcadas na justiça; defesa dos direitos humanos; compromisso com a paz, em particular buscando mediações e encontros em situações de conflito; cuidado para com a natureza, em especial preocupação com as mudanças climáticas; prevenção do HIV/Aids e cuidado para com pessoas por ele afetadas. Desdobrando em projetos específicos, haveria muito mais a acrescentar.


IHU On-Line – Como o CMI está envolvido no diálogo inter-religioso?

Walter Altmann –
O diálogo e a cooperação inter-religiosa é uma das áreas programáticas do CMI. No dizer de Hans Küng , “não pode haver paz entre as nações se não houver paz entre as religiões”. A “paz entre as religiões” também pode se converter em uma atitude propositiva comum, em defesa da ética nos afazeres políticos e nas relações internacionais; na rejeição decidida de qualquer tipo de espírito belicista, propiciando, ao invés, a construção de uma cultura de paz; no cuidado com a nossa casa comum, a saber, o planeta Terra. Particular atenção o CMI tem dado à situação no Oriente Médio, buscando espaços de encontro e canais de comunicação para o entendimento entre os povos. Aí, também em consideração à Terra Santa, por onde Jesus Cristo peregrinou, um destaque especial é dado à busca de vias de diálogo entre as religiões abraâmicas, a saber, o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Há, nesse contexto, também uma preocupação com a crescente migração de pessoas cristãs do Oriente Médio para outros continentes, fazendo minguar a comunidade cristã naquela região, onde se encontram nossas origens históricas.


IHU On-Line – No âmbito católico, a criação, por parte de Bento XVI, dos ordinariatos especiais para comunidades anglicanas que desejam se converter ao catolicismo gerou muita polêmica no âmbito ecumênico. Nos EUA, já há comunidades luteranas solicitando a mesma “acolhida”. Como o senhor avalia o diálogo luterano-católico ao longo do papado de Bento XVI?

Walter Altmann –
De um lado, deve haver a liberdade para “conversões” de uma confissão religiosa a outra conforme a livre consciência de cada qual. E cada confissão religiosa terá suas próprias modalidades de acolhida de quem deseje aderir a ela. Nesse sentido, a criação dos ordinariatos não deixa de ser uma modalidade de reconhecimento da proveniência verdadeiramente eclesial de quem nele seja acolhido. Por outro lado, o ecumenismo não incentiva medidas que possam ser consideradas proselitistas e venham a tensionar as relações entre as confissões religiosas, mas se empenha por processos de aproximação e encontro mútuos, que venham a explorar caminhos de unidade. Quanto ao diálogo católico-luterano, nos últimos anos ele tem prosseguido ininterruptamente como reflexo do compromisso de ambas as confissões, embora não se vislumbrem, no atual momento para o futuro próximo, novos passos significativos no processo de reconhecimento mútuo.


IHU On-Line – Luteranos de todo o mundo estão em contagem regressiva para celebrar os 500 anos da Reforma Protestante, em 31 de outubro de 2017. Como esse acontecimento e a figura de Lutero nos inspiram a refletir sobre o ecumenismo hoje?

Walter Altmann –
A celebração dos 500 anos da Reforma Protestante  deve ocorrer sem conotações triunfalistas ou particularistas. Ela deve ocorrer em espírito ecumênico e na noção de que a Igreja da Reforma deve ser sempre Igreja em Reforma (semper reformanda). Por isso mesmo, ainda que a celebração recorde o evento ocorrido 500 anos atrás, seu olhar deve estar voltado à frente, detectando os desafios comuns que a cristandade como um todo tem diante de si e refletindo sobre a substância do testemunho evangélico diante deles. Lutero  jamais pretendeu fundar uma “nova” igreja, muito menos que um segmento da cristandade se designasse por seu nome, o que ele rechaçou com veemência, mas que, contudo, por contingência histórica, aconteceu. Assim, só será fiel ao espírito da Reforma aquela celebração que refletir a sério tanto as limitações da própria Reforma quanto a contribuição que ela pode proporcionar não a uma parte, mas ao conjunto da cristandade.


IHU On-Line – Como o senhor avalia os frutos da Declaração Conjunta Sobre a Doutrina da Justificação , assinada por luteranos e católicos? Depois de cinco séculos de separação, que outras “declarações conjuntas” luteranos e católicos poderiam fazer neste momento?

Walter Altmann –
Sem dúvida, a Declaração Conjunta é um marco histórico de extraordinária proporção não apenas nas relações católico-luteranas, mas também para o todo do diálogo ecumênico. Aliás, é significativo que também o metodismo mundial veio a oficialmente referendar essa declaração. Contudo, como em relação a todos os avanços desse tipo, seu alcance não pode consistir em ser celebrado, mas em tomá-lo a sério como impulso para novas possibilidades de entendimento e cooperação. A celebração só tem sentido quando acompanhada de compromisso para novos passos na caminhada ecumênica. Há entre o povo cristão um anseio muito grande, já bastante reprimido, de que o entendimento venha a avançar oficialmente nas áreas do reconhecimento mútuo dos ministérios e na celebração conjunta da Eucaristia, refletindo avanços do diálogo teológico nessas áreas.

Por exemplo, enquanto não se alcança a comunhão eucarística plena, poderia ser exercitada mais a chamada “hospitalidade eucarística”, em que uma confissão abre as portas de sua celebração eucarística para participação de membros de outra confissão. Realisticamente, porém, reconhecemos que não há à vista reconhecimentos oficiais nesses tópicos. Assim, sou de opinião que devemos encarar precisamente o próximo evento dos 500 anos da Reforma como ocasião para uma visão conjunta de nossa história e de nosso compromisso para com o futuro das relações entre a Igreja Católica e as igrejas da Reforma.


IHU On-Line – A partir da tradição brasileira e latino-americana, como a teologia pode estimular a caminhada ecumênica, e em que a ação ecumênica pode desafiar os debates teológicos?

Walter Altmann –
No Brasil e na América Latina, provavelmente em boa medida como reflexo de um modo peculiar de ser em consonância com nossa realidade cultural, desenvolvemos uma peculiar sensibilidade para as situações concretas e uma capacidade de respondermos a elas pastoralmente e de maneira pró-ativa. Cremos, inclusive, que esse modo de ser é não só compatível, como radicalmente apropriado, quando procuramos fazer jus ao desafio evangélico de sermos uma comunidade peregrina a serviço das pessoas mais necessitadas e mais vulneráveis. Não por acaso desenvolveram-se aqui a concepção teológica e a atitude prática de “opção preferencial pelos pobres”. Esse é também, precisamente, um terreno em que membros de diferentes confissões religiosas podem encontrar-se com grande “naturalidade” e, como decorrência, vivenciando o ser “um” na fé e na esperança. É absolutamente necessário, então, que o diálogo ecumênico reflita não apenas sobre as decorrências práticas de avanços no trato teórico de questões teológicas, como com igual intensidade sobre decorrências dos avanços pastorais e da ação profética das comunidades cristãs para o trato teórico dessas questões.


IHU On-Line – Como as igrejas podem se comprometer de forma mais eficaz com os sujeitos contemporâneos mais vulneráveis no contexto brasileiro, como as mulheres, os negros, os índios e os homossexuais?

Walter Altmann –
Cada um dos grupos mencionados na pergunta tem as suas especificidades e merece uma abordagem adequada a cada um deles, seja do ponto de visto sociológico ou do teológico. Devem ser considerados aspectos culturais e condicionamentos históricos, explorados os modernos conhecimentos científicos e observadas as dimensões pastorais. As respostas, portanto, sejam de concepção teórica quanto de abordagem prática, não serão simples, mas diversificadas, e é inevitável, inclusive, que venham acompanhadas de controvérsias, como a experiência tem demonstrado. Mas o que todos esses grupos têm em comum, ainda que em modalidades e intensidades diferentes, é a dolorosa experiência de opressão e discriminação. Todos eles seguem sofrendo odiosa violência. Portanto, o ponto de partida do posicionamento teórico e prático das igrejas, seguindo os preceitos do evangelho, é a sua aceitação incondicional como pessoas criadas à imagem de Deus. Ou seja, qualquer violência, injustiça ou exclusão deve ser entendida como cometida contra o próprio Deus. No posicionamento das igrejas, reflete-se, então, até que ponto elas levam realmente a sério a concepção teológica de que a justificação das pessoas se dá por graça e fé.


IHU On-Line – Em âmbito brasileiro, que aspectos teológicos, sociais ou culturais, segundo o senhor, são os maiores impedimentos à unidade cristã? É possível superá-los?

Walter Altmann –
Em parte, a diversidade religiosa reflete não apenas o desenvolvimento histórico de cada uma das confissões, mas também diferentes estratificações sociais em sua membresia. Sem entrar em detalhes dessa ordem, mas adotando uma visão “panorâmica”, podemos registrar na realidade brasileira, de um lado, uma postura “sincrética” que contém uma boa dose de tolerância e aceitação do diferente, inclusive com mecanismos de assimilação para dentro de novas concepções e práticas, mas que, também pode implicar em indiferença e relativização de convicções e crenças. De outro lado, vemos igualmente exacerbação de convicções próprias levando à competição desenfreada entre confissões religiosas, até o ponto de levar à exclusão e à condenação de quem é diferente. Nesse cenário, não há outro caminho do que o empenho perseverante na caminhada ecumênica. É possível? Quem é cristão crê que “em Deus, tudo é possível”. Portanto, não temos razão para esmorecer.


IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Walter Altmann –
O ecumenismo é um projeto apaixonante. Séculos de divisão (se pensamos na Reforma na cristandade ocidental) ou, mesmo, um milênio de divisão (se pensarmos na divisão entre cristandade oriental, ortodoxa, e ocidental católica), com todas as estruturas e tradições humanas arraigadas, convicções doutrinárias e morais estabelecidas e muitas vezes divergentes, uma história acompanhada de conflitos profundos, até mesmo guerras entre confissões (ainda que sempre tenha havido um pano de fundo político e econômico nos conflitos) – buscar a superação de tudo isso em nome de uma vocação divina comum, um empenho conjunto no anúncio do amor divino e em prol da paz, da justiça e de respeito pleno à criação de Deus, não haveria de ser um empreendimento simples, mas é tanto mais fascinante. E, assim como responde a uma vocação de Deus, encontra-se também sob a sua misericordiosa promessa. É belo ser ecumênico.

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