Edição 370 | 22 Agosto 2011

“Ser ecumênico é abrir-se à alteridade”

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Moisés Sbardelotto

Para o bispo anglicano Dom Francisco de Assis Silva, viver um ecumenismo prático significa estar consciente de nossos próprios traços (identidade) para poder interagir com o diferente e chegarmos à compreensão de que a diferença é apenas uma diferença e não erro (unidade diversa)

O consenso ecumênico “pode ser construído a partir da ação concreta diante de uma sociedade que clama por justiça e paz. Enquanto se trabalha, não há lugar para se discutir semântica”, afirma o bispo anglicano D. Francisco de Assis Silva, primeiro vice-presidente do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil – Conic. Por isso, resume, em entrevista por e-mail à IHU On-Line, “ser ecumênico é abrir-se à alteridade”. Nesse sentido, o ecumenismo prático é “estar consciente de nossos próprios traços (identidade) para poder interagir com o diferente e chegarmos à compreensão de que a diferença é apenas uma diferença e não erro (unidade diversa)”, explica.

“O fundamentalismo só tem lugar nas mentes e corações inseguros de sua própria verdade”, sintetiza. “Posso até afirmar que enquanto as hierarquias primam pelo diálogo teológico – de corte mais eclesiológico – os leigos e leigas estão se voltando mais para o embate político e aí temos uma dinâmica mais agregadora”, afirma D. Francisco, apontando para o espaço mais frutífero da caminhada ecumênica.

Por outro lado, sobre o tema do Mutirão Ecumênico Sulão VI – “Unidos em Cristo na defesa da Criação” – D. Francisco afirma: “Como formadoras de opinião e portadoras da mensagem de um Evangelho transformador, as diversas comunidades e famílias cristãs podem, à luz de uma teologia da Criação, conscientizar os fiéis a serem mais responsáveis pela integridade da Criação. Defender a Criação significa, antes de tudo, reafirmar a sacralidade do Mundo como efeito do amor e da sabedoria do Criador”.

Dom Francisco de Assis Silva é bispo da Diocese Sul-Ocidental da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, que abrange os estados do RS e SC, cuja sede localiza-se em Santa Maria, RS, e primeiro vice-presidente do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil – CONIC.

Confira a entrevista.


IHU On-Line – Em uma sociedade como a atual, marcada paradoxalmente por sincretismos e fundamentalismos de todos os tipos, o que significa ser ecumênico? Como equilibrar “identidade” com “unidade”?

Francisco de Assis Silva –
Ser ecumênico acima de tudo é abrir-se à alteridade. Partir do pressuposto de que nossas crenças não possuem a exclusividade da certeza absoluta e de que, como pessoas que vivem a fé a vivem num contexto, há aspectos que precisamos respeitar e aprender na experiência religiosa dos outros. Para tanto, viver um ecumenismo prático significa estar consciente de nossos próprios traços (identidade) para poder interagir com o diferente e chegarmos à compreensão de que a diferença é apenas uma diferença e não erro (unidade diversa). Esta postura refreia o preconceito – uma das causas mais primárias do conflito religioso – e estimula o diálogo. Ao longo da experiência que tenho tido o privilégio de viver, aprendi muito a ouvir atentamente os outros e a buscar um alicerce comum. Nenhuma casa, mesmo com paredes pintadas de cores diversas, se sustenta se não tem um fundamento sólido. O fundamentalismo só tem lugar nas mentes e corações inseguros de sua própria verdade.


IHU On-Line – Em sua opinião, quais são os grandes pilares teológicos do ecumenismo hoje? Em que pontos é possível encontrar consensos e parâmetros básicos?

Francisco de Assis Silva –
Entendo que os pilares básicos para o consenso são uma teologia da Criação que nos leva a crer que em Deus reside a fonte de toda a vida e nos convida a viver harmonicamente com a Natureza e com nossos semelhantes. Acrescente-se a isso a compreensão de que o Divino sempre quer estar em diálogo conosco. Isso nada mais é do que uma teologia da Revelação que nos desafia sempre a aprender que Ele pode se manifestar de diversas maneiras e nos ensinar a viver uma unidade com Ele. Nesse processo de Revelação, Jesus representa o ápice dessa relação de Deus conosco. Temos aí, então, dois consensos fundamentais para construir uma vivência ecumênica.

As ações ecumênicas podem ser fortalecidas na medida em que não se priorize ou se force um consenso sobre outras modalidades teológicas. Tome-se o exemplo da eclesiologia. Buscar uma eclesiologia comum pode significar apenas um debate inconsequente sobre sua natureza, sem contudo alcançar um parâmetro comum. Todos os modelos de como as igrejas se organizam são frutos de uma conjuntura histórica que surgiram exatamente em razões de dissensos. Logo, este não é o caminho desejado para fortalecer o ecumenismo. Penso que o consenso pode ser construído a partir da ação concreta diante de uma sociedade que clama por justiça e paz. Enquanto se trabalha, não há lugar para se discutir semântica.


IHU On-Line – Qual a sua avaliação da caminhada ecumênica no Brasil? Que avanços ocorreram nos últimos anos e onde ainda é necessário um maior comprometimento por parte das igrejas?

Francisco de Assis Silva –
Na minha visão, o ecumenismo tem avançado na razão direta da capacidade de articulação entre as bases das igrejas. Não se pode desconhecer o crescimento de movimentos e de organismos não governamentais de caráter ecumênico que estão imprimindo uma pauta no diálogo ecumênico na direção de uma incidência pública. Isso necessariamente não tem tido a adesão de algumas das hierarquias das igrejas. Posso até afirmar que, enquanto as hierarquias primam pelo diálogo teológico – de corte mais eclesiológico –, os leigos e leigas estão se voltando mais para o embate político e aí temos uma dinâmica mais agregadora.

Por exemplo, cito o fenômeno do Fórum Social Mundial, em que a articulação da militância de base das diversas igrejas se faz em torno de pautas comuns e elege a luta por direitos, a questão do meio ambiente, o fortalecimento da sociedade civil, entre outras pautas como um “lugar” de comunhão. Muitas vezes, as próprias lideranças de suas igrejas nem se preocupam em oferecer a chancela oficial para essas ações. A meu ver, o que é necessário, tomando em conta o exemplo do Fórum Social Mundial, é uma maior aproximação entre as hierarquias e suas bases. Em outras palavras, uma aproximação entre a teoria e a prática.


IHU On-Line – O senhor é vice-moderador da ACT Alliance (Acting by Churches Together), uma aliança que reúne mais de 100 agências cristãs que trabalham em ajuda humanitária e desenvolvimento social. Como vê o papel do Brasil nesta área, em especial das igrejas e organizações ecumênicas, neste momento de relativo progresso econômico?

Francisco de Assis Silva –
O Brasil tem um enorme acúmulo de experiência na capacidade que as igrejas – e aqui repito o papel dos leigos e leigas – desenvolveram no embate pela democracia e pela inclusão social. Esse acúmulo pode ajudar, em muito, no trabalho de ACT Alliance. É claro que a própria Aliança precisa se apropriar de processos conceituais que ainda dividem o Norte e o Sul; mais isso vai se conseguir na medida em que a Aliança também se fortalecer aqui no Brasil e na América Latina. Quando falo em Norte e Sul, quero ressaltar que ainda existe uma estrutura cultural onde o Norte tem capital e o Sul tem trabalho. Às vezes é preciso aproximar estas duas áreas para que se estabeleçam conceitos comuns acerca do que é desenvolvimento, emergência, direitos, etc. O caminhar da Aliança me parece apontar para isso, e aí teremos mesmo um ator capaz de interagir mais eficazmente na transformação do mapa das desigualdades no mundo.


IHU On-Line – No âmbito católico, a criação, por parte de Bento XVI, dos ordinariatos especiais para comunidades anglicanas que desejam se converter ao catolicismo gerou muita polêmica no âmbito ecumênico. Como o senhor avalia o diálogo anglicano-católico ao longo do papado de Bento XVI?

Francisco de Assis Silva –
Certamente o ordinariato criou uma espécie de constrangimento entre os anglicanos e também entre os representantes da ICAR [Igreja Católica Apostólica Romana] que fazem parte do grupo de diálogo internacional entre as duas igrejas. Eles não foram ouvidos sobre tão importante questão. Vozes importantes do catolicismo romano também ficaram constrangidas com a iniciativa unilateral do papa. No entanto, para nós, anglicanos, os efeitos dessa possível migração não nos afetam tanto. O mais importante é não abandonar a mesa do diálogo. Aliás, isso é o que nós, anglicanos, mais temos feito nos últimos anos com a discussão sobre as questões de sexualidade humana. Tenho certeza de que o diálogo continuará e, quem sabe, sairá um pouco do campo das elaborações documentais teológicas para ações mais concretas no campo da incidência política com uma agenda pautada pelo combate à pobreza, pelo respeito ao meio ambiente e outras pautas em que o consenso seja mais fácil. O ordinariato só será eficaz junto àqueles grupos mais tradicionalistas entre os anglicanos que já não comungam das teses principais da Comunhão. Se eles se sentem bem em buscar um abrigo especial dentro da ICAR, que sejam abençoados em seus propósitos.


IHU On-Line – Ainda sobre a relação anglicano-católica, dois pontos-chave estiveram em “pauta” nos últimos tempos: o papel das mulheres e dos homossexuais na vida eclesial. Por que esses temas desafiam tanto as igrejas? É possível encontrar consensos teologicamente fundamentados acerca deles?

Francisco de Assis Silva –
Os diálogos têm servido para ajudar as duas igrejas a avançar na compreensão mútua do ministério e da autoridade. No entanto, isso ainda não tem conseguido transpor o conflito entre tradição e razão. Para nós anglicanos, a tradição é um dos pilares do nosso ser igreja. A razão, inspirada pelo Espírito Santo, tem essa capacidade de interpelar a tradição quando ela tolhe os direitos das pessoas. É o que está acontecendo com a questão das mulheres e das pessoas homoafetivas. Hoje, salvo raras exceções, a questão das mulheres sacerdotes e bispas é comumente aceita dentro da Comunhão Anglicana. O que ainda persiste como um tema a se discutir na busca de um consenso é a questão de pessoas homoafetivas terem o direito de também serem sacerdotes. A discussão sobre o ministério feminino levou quase duas décadas para se resolver. A questão do ministério das pessoas homoafetivas pode levar também esse tempo, mas não quero ser categórico nesse prognóstico. As tomadas de decisão dentro da Comunhão Anglicana sempre procuram conciliar magistério com as interpelações de nosso tempo.


IHU On-Line – Segundo o Mons. Mark Langham, do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, “antes do Concílio Vaticano II , o ecumenismo era dizer aos anglicanos que se convertessem, e há quem diga que esse também é o 'novo' ecumenismo”. Em que aspectos é preciso voltar ao “espírito” do Concílio e em que outros é necessário superá-lo na questão do ecumenismo?

Francisco de Assis Silva –
Em minha opinião, o Concílio Vaticano II foi a grande oportunidade de se superar a história de mútuas incompreensões entre as famílias cristãs. Penso que as declarações e resoluções daquela assembleia ainda falam às mentes de muitas pessoas, católicas na acepção original do termo, e as fazem acreditar que é possível ser diferente sem abdicar do propósito de se viver uma igreja que vive aberta para os novos tempos. Uma vez que o magistério da Igreja é construído gradativamente pela justaposição de “leituras” cada vez mais contemporâneas, o Concílio foi um grande avanço que gerou esperanças para o movimento ecumênico. Talvez se fizesse necessário retomar aquele espírito e avaliá-lo à luz da atual conjuntura, quase 50 anos depois. Quem sabe, no jubileu do Concílio, a ICAR não pudesse aproveitar para reler aquela experiência tão animadora.


IHU On-Line – A temática do Mutirão Ecumênico deste ano é “Unidos em Cristo na defesa da Criação”. Para o senhor, qual o papel das igrejas diante da questão ambiental? Por outro lado, o que significa “defender a Criação”?

Francisco de Assis Silva –
As igrejas têm uma enorme responsabilidade sobre este tema. Como formadoras de opinião e portadoras da mensagem de um Evangelho transformador, as diversas comunidades e famílias cristãs podem, à luz de uma teologia da Criação, conscientizar os fiéis a serem mais responsáveis pela integridade da Criação. Defender a Criação significa, antes de tudo, reafirmar a sacralidade do Mundo como efeito do amor e da sabedoria do Criador. Em segundo lugar, significa deslocar o eixo hermenêutico de um antropocentrismo para um ecocentrismo. E, finalmente, à luz desse novo eixo, refletir sobre a necessidade de se preservar a natureza para as gerações futuras, como gesto de solidariedade e responsabilidade.


IHU On-Line – Em âmbito brasileiro, que aspectos teológicos, sociais ou culturais, segundo o senhor, são os maiores impedimentos à unidade cristã? É possível superá-los?

Francisco de Assis Silva –
Na dimensão do teológico, eu diria que um impedimento à unidade cristã é uma tendência que se tem visto em algumas famílias confessionais de mergulhar para dentro de si mesmas e recuar para uma postura proselitista ou doutrinária que acaba gerando estremecimentos políticos dentro delas próprias (o velho embate entre conservadores e liberais) e com outras confissões. Culturalmente, o grande desafio é ainda um certo preconceito religioso e disfarçadamente ideológico para com certas denominações ou religiões. Nessa mesma direção, costuma existir um apriorismo de rejeição a certas posturas éticas mais contextualizadas.


IHU On-Line – Em 2012, o CONIC completará 30 anos. Como 1º vice-presidente, como o senhor avalia o papel do Conselho hoje na promoção do ecumenismo no Brasil?

Francisco de Assis Silva –
O CONIC é um grande promotor da unidade entre as igrejas no Brasil e seu papel tem sido cada vez mais relevante na busca de uma incidência pública relevante. Para além de um ecumenismo meramente celebrativo ou de cúpulas das igrejas, o CONIC tem sido um espaço de reflexão e de ação na busca de uma sociedade democrática, justa e comprometida com uma cultura de paz. Numa realidade de muita propaganda sobre progresso, bem-estar e prosperidade, o CONIC não pode perder a dimensão profética de apontar a realidade que não é tão glamorosa assim e liderar as igrejas na direção de um testemunho de fortalecimento da justiça em nosso país. Aspiro o CONIC com essa cara, juntando-se a outras redes na defesa de um Brasil melhor. E com lentes bem especiais: as lentes de uma teologia cristocêntrica!



Leia mais...

Francisco de Assis Silva
já concedeu outra entrevista à IHU On-Line.

As relações das Igrejas Anglicana e Católica Romana. Notícias do Dia, de 12-12-2009

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