Edição 370 | 22 Agosto 2011

Unidade, liberdade, caridade: o desafio de superar a “ignorância” em torno do ecumenismo

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Moisés Sbardelotto

A espiritualidade ecumênica nos leva a ser honestos com nós mesmos, com os irmãos e com Deus. Uma identidade sadia não se perturba ao ver a beleza da verdade presente em outros grupos, afirma o teólogo especialista em ecumenismo Paulo Homero Gozzi

Dos desafios missionários ao movimento ecumênico moderno: essa trajetória histórica será abordada pelo padre e teólogo especialista em ecumenismo Paulo Homero Gozzi, em sua palestra “Histórico do Movimento Ecumênico Mundial”, no Mutirão Ecumênico. Para Gozzi, em entrevista por e-mail à IHU On-Line, “a condição para que o mundo creia em nossa mensagem é que sejamos unidos. O anúncio evangélico apresenta eficácia quando damos testemunho comum de vivência cristã”, afirma.

Apesar do “processo de evolução na aproximação e na superação de preconceitos” das igrejas cristãs, Gozzi diz que “o grande desafio em toda a atividade ecumênica é a ignorância, o desconhecimento do que realmente significa ecumenismo”. Para ele, “a espiritualidade ecumênica nos leva a ser honestos com nós mesmos, com os irmãos e com Deus. Uma identidade sadia não se perturba ao ver a beleza da verdade presente em outros grupos”. Nesse sentido, explica, “não pode ser esquecida a famosa frase que atravessa os séculos: unidade no essencial, liberdade no secundário e caridade em tudo”.

Paulo Homero Gozzi estudou Filosofia e Teologia pela Congregação do Santíssimo Sacramento. Foi ordenado presbítero em 1970, e hoje atende a Paróquia Rainha Santa Isabel, no bairro da Casa Verde Alta, em São Paulo. Especializou-se em Ecumenismo pelo Conselho Mundial de Igrejas, em Genebra, na Suíça. Foi assessor nacional de ecumenismo da CNBB. Tem pós-graduação em Missiologia, pela Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, em São Paulo. Atualmente, é colaborador do jornal O São Paulo, da Arquidiocese de São Paulo, com matérias sobre o assunto. É professor de Liturgia, Sacramentos e Ecumenismo em várias faculdades de Teologia em São Paulo e na Escola de Teologia para Leigos da Região Episcopal Santana, em São Paulo. Dentre suas obras publicadas, destacamos: Como lidar com as seitas (Ed. Paulus, 1989) e Quando o coração celebra a vida (Ed. Palavra e Prece, 2008).

Confira a entrevista.


IHU On-Line – Em nível mundial, como o senhor analisa a caminhada ecumênica até hoje? Que avanços ocorreram e que pontos ainda precisam ser mais trabalhados?

Paulo Homero Gozzi –
Podemos estabelecer um marco na caminhada ecumênica em nível mundial exatamente em 1910, na Conferência Mundial das Missões, em Edimburgo, Escócia. Das isoladas e esporádicas iniciativas do século XIX, passou-se a um diálogo permanente entre membros de diferentes confissões cristãs envolvidos com a tarefa missionária. Foi o desafio missionário que provocou o início do movimento ecumênico moderno. Os 1.200 delegados daquele grande encontro relataram a experiência de fracasso que tiveram nas missões, atribuído às divisões históricas dos cristãos. Constataram aquilo que Jesus já havia dito em sua longa oração sacerdotal registrada no capítulo 17 do Evangelho de João: a condição para que o mundo creia em nossa mensagem é que sejamos unidos. O anúncio evangélico apresenta eficácia quando damos testemunho comum de vivência cristã.

Deixando o isolamento, as igrejas iniciaram um processo de evolução na aproximação e na superação de preconceitos. No diálogo aberto, humilde e sincero, foi-se descobrindo que as divergências são periféricas e pouco importantes, ao passo que as convergências são muito maiores e profundas. Essa caminhada firme culminou na criação do Conselho Mundial de Igrejas e atingiu todos os grandes grupos cristãos.
Outro marco que determinou um grande avanço foi a entrada oficial da Igreja Católica Apostólica Romana nesse abençoado movimento, a partir de João XXIII e do Concílio Vaticano II. A mobilização generalizada para essa caminhada em direção à plena comunhão dos discípulos de Cristo tornou-se irreversível, justamente pela decisão de manter o diálogo bilateral e multilateral entre igrejas de um modo ininterrupto, não obstante o aparecimento de novos fatos que provoquem impasses e dificuldades. É inegável o avanço alcançado pelas comissões de diálogo em todos os níveis, alcançando uma linguagem comum e um entendimento teológico sempre mais promissor. Divergências aparentemente irreconciliáveis, hoje estão superadas, seja porque são vistas como diversidades legítimas nas expressões da fé, seja porque se tratavam apenas de linguagem diferente. O acordo católico-luterano firmado pelas respectivas autoridades máximas a respeito da doutrina da justificação é a maior de todas as conquistas.

Em toda a evolução ecumênica vejo verdadeiros milagres nos acordos feitos, eliminando divergências milenares, especialmente com os irmãos do Oriente, tanto ortodoxos como os das antigas igrejas orientais. A melhor síntese de todos os avanços ecumênicos podemos encontrar na Carta de João Paulo II  dedicada à unidade dos cristãos, a Ut Unum Sint. Seu longo ministério como bispo de Roma e primaz universal deixou uma indelével marca, assegurando que essa caminhada não tem retorno. Nunca se viram, como nos últimos 50 anos, tantos encontros de líderes cristãos, tantas iniciativas de cunho popular na linha de encontros fraternos e orações em comum. Existe já uma espiritualidade bem firme em direção à unidade cristã moldando a vida de tantas pessoas que são membros dos mais diferentes grupos, todos pertencentes à única e mesma Igreja de Cristo.

É evidente que faltam vários temas a serem trabalhados a fim de se alcançar maiores avanços. É impressionante que, numa comunidade de quase dois bilhões de batizados, de todas as raças, culturas e nações, com as mais variadas tradições, existem apenas cinco assuntos essenciais a serem definidos de modo satisfatório e que sem os quais não pode haver completa comunhão: a relação entre a Sagrada Escritura e a Tradição; a Eucaristia; o serviço de Governo na Igreja; o ensino e a preservação da fé, que chamamos de Magistério; e, finalmente, o papel da Virgem Maria na história da salvação e na vida da Igreja. Nesses temas fundamentais, que já fazem parte das discussões entre peritos das diversas igrejas, vejo a beleza do diálogo feito com amor, humildade e firmeza.


IHU On-Line – Especificamente no âmbito católico, que sombras e luzes o senhor percebe na caminhada ecumênica da Igreja ao longo do papado de Bento XVI?

Paulo Homero Gozzi –
Toda a história da Igreja está recheada de avanços e retrocessos, altos e baixos, luzes e sombras... O movimento ecumênico é ainda para muitos, apesar de quase meio século de existência na Igreja Católica Apostólica Romana, uma novidade. Há os entusiastas e os que se opõem radicalmente a essa abertura, quer sejam leigos ou líderes. Ainda durante o concílio, foram identificadas duas alas entre os católicos: os conservadores e os progressistas. E ultimamente notamos o reavivamento dessas atitudes, com novos movimentos e associações em sua quase totalidade conservadoras, ressuscitando devoções e padrões de uma religiosidade ultrapassada, retrógrada e sempre antiecumênica. Esse fenômeno perpassa em geral todos os grupos cristãos numa busca exagerada de identidade e autoafirmação.

Ninguém desconhece a postura conservadora do atual bispo de Roma, por demais preocupado com a preservação de características pré-conciliares. Em seu pouco tempo como papa, todos os grupos reacionários sentem-se apoiados e incentivados em sua tarefa de ignorar e demolir os avanços e aberturas originados pelo Concílio. Porém, justiça seja feita, Bento XVI tem dado continuidade ao trabalho ecumênico e total apoio às iniciativas dos responsáveis pelo setor dentro do próprio Vaticano. Refiro-me aos conselhos pontifícios para promoção da Unidade dos cristãos, para o diálogo inter-religioso e para o diálogo com as culturas.

É claro que a caminhada ecumênica prossegue, talvez mais lentamente, e suas conquistas não podem ser anuladas por quem quer que seja. Quando a obra vem de Deus, ela pode ser testada e provada, retardada e combatida, mas não será destruída. Tenho notado a ação clara do Espírito Santo em todos esses anos em que atuo diretamente no movimento. Sempre pautei minha vida pelo conselho de Gamaliel: se a obra vem dos homens, não é necessário combater... Morrerá por si mesma. Mas se vem Deus, não pode ser desfeita e corremos o risco de lutar contra o próprio Deus (At 5, 38-39).


IHU On-Line – Quais são os desafios para se gestar e organizar processos ecumênicos nas diversas igrejas locais?

Paulo Homero Gozzi –
Para mim, o grande desafio em toda a atividade ecumênica é a ignorância, o desconhecimento do que realmente significa ecumenismo. É urgente investir na formação dos leigos e daqueles que se preparam para exercer ministérios de liderança dentro da Igreja.


IHU On-Line – Em sua opinião, qual é a principal inspiração da temática do Mutirão Ecumênico deste ano, “Unidos em Cristo na defesa da Criação”? Que papel tem o ecumenismo perante a questão ambiental?

Paulo Homero Gozzi –
Embora não faça parte da organização e não tenha auxiliado na escolha do tema, creio que a inspiração foi a Campanha da Fraternidade deste ano. A questão ambiental tem tudo a ver com o ecumenismo. A grande obra de Deus é a criação do mundo, e todos os cristãos encontram em seus escritos sagrados a base para defender a vida como um todo e continuar a história da Criação ainda inacabada. Somente unidos poderemos ajudar nesse verdadeiro parto e alcançar a redenção da Natureza.


IHU On-Line – Um dos eixos específicos do Mutirão aborda o incentivo à “unidade, o testemunho e a diaconia”. Como esses três aspectos podem ser compreendidos nos dias de hoje?

Paulo Homero Gozzi –
Há um profundo entrelaçamento dos três aspectos da vida cristã: unidade, testemunho e diaconia. Já dissemos que o serviço prestado pelos cristãos à sociedade e seu testemunho de vida evangélica dependem da manifestação clara de unidade para que tenham sentido e eficácia. Quando as pessoas que executam a mesma missão estão divididas entre si, tal fato torna-se um escândalo para a sociedade e uma vergonha para elas mesmas, constituindo-se num contratestemunho e num desserviço à causa do Evangelho.


IHU On-Line – Na formação e prática de sacerdotes, pastores/as ou ministros/as eclesiais, como se inserem o serviço ecumênico e a defesa da Criação? Ainda são desafios periféricos?

Paulo Homero Gozzi –
O serviço ecumênico deveria ser uma prática normal de todos os ministros que exercem liderança eclesial. O Concílio Vaticano II recomendou que os futuros pastores fossem “bem instruídos numa teologia perfeitamente organizada e preparada dentro do espírito ecumênico” (Decreto sobre o Ecumenismo, n. 10). A indiferença e o descaso que observo na maioria esmagadora dos nossos pastores comprovam que essa recomendação dada há quase 50 anos não foi levada a sério! A falta de formação teológica e pastoral de padres e bispos católicos é ainda o grande desafio.

Por serem os agentes ecumênicos tão poucos, tendo formação bastante limitada, fico admirado com o avanço do movimento com tantas conquistas alcançadas. Imagino como seria o ecumenismo hoje se todos os agentes de pastoral, padres e leigos, muito bem formados de acordo com a recomendação conciliar, estivessem atuando nessa área em todas as comunidades, paróquias e dioceses sem exceção... Realmente, Deus consegue tirar muito de tão pouco e manifesta sua vontade e sua força em tanta fraqueza humana.


IHU On-Line – O que se espera do Mutirão Ecumênico neste ano? Quais serão seus principais diferenciais?

Paulo Homero Gozzi –
Estou participando pela primeira vez do Mutirão. Minha atuação tem sido sempre em nível da cidade e do estado de São Paulo. Acredito que a iniciativa de abranger vários estados é muito promissora. No tocante à colaboração específica que estarei prestando a esse grande encontro dos três estados brasileiros do Sul mais São Paulo, espero que a visão histórica do movimento ecumênico possa ajudar os participantes a terem consciência de como funcionam os complexos mecanismos históricos de uma instituição que conta com forças que superam infinitamente as mais altas conjeturas humanas.


IHU On-Line – Em uma sociedade como a atual, marcada paradoxalmente por sincretismos e fundamentalismos de todos os tipos, o que significa ser ecumênico? Como equilibrar “identidade” com “unidade”?

Paulo Homero Gozzi –
Para analisar uma sociedade complexa como a atual, não basta recorrer somente a aspectos sociais, econômicos e culturais; é preciso recorrer, sobretudo, a aspectos psicológicos. Não vejo paradoxos numa sociedade que é, ao mesmo tempo, sincretista e fundamentalista. A sociedade é pluralista. Nela tem de tudo. Pessoas e grupos assumem posturas de todo tipo. Ninguém é, ao mesmo tempo, radical e liberal, fanático e ecumênico... Cada pessoa passa por um processo de transformação, assumindo uma determinada atitude, de acordo com seu histórico familiar, seus problemas psíquicos e afetivos, suas buscas e seus ideais. A maioria das pessoas fanáticas e radicais ao extremo, segundo minha opinião, possui desvios mentais graves.

Testemunhei alguns casos de jovens que foram se tornando gradativamente tradicionalistas fanáticos a partir da necessidade de se autoafirmar, de ter uma identidade, de fugir de ou encobrir um problema afetivo etc. Jovens excêntricos que se identificaram com um grupo que atendia aos seus anseios. Hoje, sentem-se felizes em seu exibicionismo ridículo, arrogante e prepotente. Conhecendo bem a família e a psicologia desses jovens, consigo compreender como chegaram a isso. Não há diálogo possível, pois não há abertura para tal. Tenho alguns amigos assim, que não são tão radicais, dispondo de certa dose de humildade para colocar a amizade acima de suas convicções. Certo diálogo é possível, desde que não sejam questionadas as suas ideias. Falo de relações dentro da Igreja Católica. Um amigo de longa data, com ideias e atitudes totalmente opostas às minhas, chegou a dizer-me uma vez: “Nós agradecemos às autoridades eclesiásticas por sermos tolerados dentro da Igreja. Se estivéssemos nós no governo da Igreja, vocês não seriam tolerados”... Isso nos faz pensar na fragilidade das instituições que se abrem ou se fecham, dependendo das cabeças de quem as dirige.

Temos um caso bem recente de Igreja que se fechou ao diálogo. Substituindo-se as pessoas que a dirigem, voltar-se-á a se abrir. A história da Igreja está recheada de líderes ditadores, megalomaníacos, fanáticos, corruptos, aproveitadores, devassos, assassinos e outras coisas mais... E a Igreja está aí, não graças a esses traidores do Evangelho, mas graças ao Espírito Santo que a conduz e, assim, “o poder da morte nunca poderá vencê-la” (Mateus 16,18), segundo a promessa de Jesus.

E como é ser ecumênico no meio disso tudo? A busca da Unidade jamais abala a identificação com esta ou aquela Igreja. A espiritualidade ecumênica nos leva a ser honestos conosco mesmos, com os irmãos e com Deus. Uma identidade sadia não se perturba ao ver a beleza da verdade presente em outros grupos. Em reuniões ecumênicas vemos as muitas identidades se harmonizarem perfeitamente na busca de uma Unidade futura, mais completa e perfeita. A identidade é feita de particularidades características de um povo, uma cultura, uma tradição de onde somos originados. São pequenas identidades que se abrigam na única e grande identidade que é sermos todos discípulos de Cristo. Todos devem estar conscientes de que unidade não é uniformidade, e pluralismo não é fragmentação e pulverização de ideais. Não pode ser esquecida a famosa frase que atravessa os séculos: unidade no essencial, liberdade no secundário e caridade em tudo...


IHU On-Line – Em sua opinião, sobre que bases teológicas o ecumenismo pode ser fortalecido dentro da sociedade contemporânea? Em que pontos é possível encontrar consensos e parâmetros básicos entre as igrejas cristãs?

Paulo Homero Gozzi –
Creio que as escolas teológicas tradicionais, ocidentais e orientais, não são aptas para fornecer bases ao ecumenismo. É a experiência que todas as comissões de diálogo teológico entre igrejas estão vivendo. As teologias em elaboração na Ásia, África e, especialmente, América Latina, têm mais condições de oferecer tais subsídios. A Teologia da Libertação, por exemplo, está totalmente impregnada do espírito ecumênico, mostrando a realidade desagregadora do nosso povo, que ainda sofre tanta opressão, e apontando para uma luz no fim do túnel. Não é uma sistematização de lógica cartesiana, tão presente no pensamento europeu, mas um relato da vivência de um povo que busca a superação de seus problemas, confiando nas promessas de Deus. E Deus se comunica com esse povo tão somente a partir de sua realidade cultural, que não pode ser destruída e substituída pela cultura europeia. Foi isso que os missionários “cristãos” tentaram fazer nos últimos 500 anos. O sincretismo saudável entre os valores da cultura e a proposta do Evangelho que anuncia o Reino de Deus será o resultado final de toda uma vivência ecumênica.

Baseados na Teologia da Libertação, os cristãos latino-americanos serão uma Igreja de Cristo verdadeiramente nova e não dependente de divisões históricas. A Igreja encontra sua unidade justamente na rica diversidade de culturas que ajudam a expressar a mesma e única fé. Vejo no grande parâmetro do Credo Apostólico um instrumento de superação do divisionismo doentio do passado. Nele, os cristãos aprendem a olhar para o futuro centrando sua preocupação na missão que Cristo deu à sua Igreja e não na legítima diversidade de expressões da mesma fé no Pai que nos criou, no Filho que nos libertou em seu sangue e no Espírito que nos congrega e santifica.


IHU On-Line – Em sua opinião, quais são os principais desafios ou obstáculos eclesiais, sociais e culturais ao ecumenismo no contexto brasileiro? Por outro lado, que avanços ainda são necessários por parte das igrejas na caminhada ecumênica?

Paulo Homero Gozzi –
Olhando o povo brasileiro em geral sob os aspectos sociais e culturais, vejo uma aceitação tranquila da atividade ecumênica. Pessoas religiosas, praticantes ou não, não só toleram, mas acolhem com bastante interesse qualquer iniciativa de cunho ecumênico, mesmo que não tenham ideias muito claras sobre o tema.

Nosso povo tem culturalmente uma índole de tolerância passiva e de acolhimento benevolente. Há, claro, em pequeno número de pessoas e grupos radicais. Como no futebol e na política, existem sempre no campo religioso pessoas fanatizadas, que dizem estar com a verdade, na “luz”. Só que essa luz as cegou. Aqui já entramos na área da psicopatologia. No âmbito eclesial existe aquela sensação de inutilidade, de falta de urgência ou necessidade da pastoral do ecumenismo. Isto, é claro, é causado pelo desconhecimento de que a busca da unidade está na raiz e no centro da vida em igreja.

Para João Paulo II, o ecumenismo não pode ser considerado apenas “uma espécie de ‘apêndice’, que se vem juntar à atividade tradicional da Igreja. Pelo contrário, pertence organicamente à sua vida e ação, devendo, por conseguinte, permeá-la no seu todo e ser como que o fruto de uma árvore que cresce sadia e viçosa até alcançar o seu pleno desenvolvimento” (Carta Ut Unum Sint, n. 20). Não sinto oposição dos agentes de pastoral, padres e leigos, apenas indiferença. Para eles há outras coisas mais importantes. É o que mais me dói. Outras dificuldades são mais facilmente superáveis. Por enquanto, o movimento ecumênico é preocupação de um seleto e ínfimo número de cristãos em todas as igrejas. Seria um grande avanço se a consciência e o interesse pelo ecumenismo chegassem até as bases e atingissem todos os fiéis nas mais distantes e pequenas comunidades. É o que mais espero, e trabalho para isso. “E a esperança não engana, pois o amor de Cristo foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,5).

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