Edição 370 | 22 Agosto 2011

Criação: denominação cristã para a sinfonia do universo

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Moisés Sbardelotto

Defender a Criação é uma consequência natural do deslumbramento com o seu esplendor e também uma decorrência do conhecimento de um sem-número de ameaças à sua plena manifestação, aponta o ecologista Arno Kayser

É preciso superar a “visão atrasada” das classes política e empresarial e de grande parte da população, classes essas que “creem que somente com mais atividade econômica clássica é possível crescer”. Para o agrônomo e ecologista Arno Kayser, esse paradigma tem que ser superado e transformado em “uma visão de crescimento em parceria e obediência às leis naturais”.

Nesse contexto, o conceito cristão da Criação – a “maravilhosa sinfonia que é o universo”, no qual “acontece a aventura da vida humana e não humana” – ajuda as igrejas a assumirem seu papel de “reinterpretar uma visão teológica que compreendeu o ser humano como senhor da Criação colocando toda ela a seu dispor”, defende Kayser, em entrevista por e-mail à IHU On-Line. “Essa interpretação errônea levou a um sem-número de violências contra os fracos e justificou moralmente e destruição da natureza em prol do deleite humano”. Por isso, “defender a criação é uma consequência natural do deslumbramento com o seu esplendor e também uma decorrência do conhecimento de um sem-número de ameaças a sua plena manifestação segundo o desejo divino do Criador”.

Para isso, afirma Kayser, a espiritualidade e a mística cristãs podem contribuir com os valores do “amor universal e a comunhão dos justos”. “O amor universal nos chama para a defesa dos próximos que existem na criação e a comunhão nos coloca na condição de igual para com toda a Criação. O que é a base para toda uma prática de serviço em prol da manifestação plena de todas as formas de vida”, explica.

Arno Kayser
é agrônomo, ecologista e escritor. É membro ativo do Movimento Roessler para Defesa Ambiental, entidade ecológica de Novo Hamburgo-RS. É um dos fundadores e membro ativo do Comitesinos, primeiro comitê de bacia hidrográfica do Brasil. Trabalha na Fundação Estadual de Proteção Ambiental – Fepam, órgão ambiental do estado do Rio Grande do Sul. É autor de peças teatrais infantis e livros de poesia e crônicas, com ênfase na área ambiental. Entre suas obras, destacamos A reconciliação com a floresta (Ed. Mundo Jovem, 2010, 2. ed) e A borboleta que queria morrer (Ed. Oikos). É autor do blog www.arnokayser.wordpress.com.

Confira a entrevista.



IHU On-Line – Sua palestra no Mutirão Ecumênico será “Ecologia: Desafios e perspectivas”. Quais são os principais desafios ecológicos do nosso país hoje?

Arno Kayser –
O Brasil é um país megadiverso em franco crescimento econômico e político no mundo, mas que ainda apresenta um quadro de grande concentração de renda e uma escala muito grande de pobreza.
Apesar do crescimento econômico e projeção política do país, ainda somos uma economia dependente que se insere no mercado internacional pela exploração inadequada dos seus recursos naturais. Em particular o solo, as florestas e reservas minerais que ainda são consumidas para gerar uma pauta de exportação de produtos primários sem grande valor agregado.

De um lado, temos o desafio de preservar nossa natureza incrível da destruição para incorporação ao processo econômico e, de outro, temos que combater os problemas decorrentes de uma industrialização crescente e uma grande concentração humana em megacidades. Estes geram poluição industrial e degradação de paisagens e recursos essenciais como a água.

Outro desafio é o saneamento ambiental do lixo e esgotos nos grandes centros e também a poluição do ar, gerada pelo transportes baseado em carros e por alguns polos de indústria pesada.
Outro grande desafio vem da geração energética. Apesar de termos muitas hidroelétricas, o nosso modelo prioriza megaprojetos que inundam grandes áreas, deslocando populações humanas e alterando ecossistemas delicados. Apesar de termos uma boa produção de combustíveis renováveis, eles vêm de grandes monocultivos. O estado de São Paulo tem quase 50% da área dedicada à produção de cana. Além disto, a indústria do petróleo cresce muito no país reforçando uma modelo de produção que tem trazidos impactos poluidores e incrementado mudanças climáticas extremas no mundo todo.
Estas mudanças climáticas também são uma ameaça à produção de alimentos e à segurança de populações em áreas de risco.

Temos um potencial muito grande em energias limpas que precisa ser desenvolvido.

No campo, temos que proteger nossas paisagens naturais que, em maior ou menor grau, estão sendo alteradas e destruídas e precisamos proteger recursos como solo agrícola e água para produção de alimentos. Tanto a mata atlântica como o cerrado, o pampa, o pantanal, a caatinga e a mata amazônica sofrem, em maior ou menor grau, com uma ocupação desordenada e baseada na pura exploração econômica sem uma visão ecológica, coordenando o uso ecologicamente sustentável destas paisagens.

Outro grande desafio é retirar da miséria grandes contingentes de pessoas que, hoje, sobrevivem em ambientes insalubres ou áreas de risco e que se veem forçadas a destruir ou contaminar o ambiente em que vivem para sobreviver.

Porém, talvez o maior desafio seja superar a visão atrasada das classes política e empresarial – e de grande parte da população –, classes que creem que somente com mais atividade econômica clássica é possível crescer. Esse paradigma tem que ser superado com a sua transformação numa visão de crescimento em parceria e obediência às leis naturais. O Brasil, por seu potencial, é um dos lugares do mundo com a maior capacidade de desenvolver uma econômica limpa e em harmonia com a natureza se fizer esta evolução cultural.


IHU On-Line – Por outro lado, no âmbito das perspectivas, como as igrejas cristãs podem contribuir com o cuidado ambiental, sabendo-se que muitas decisões nesse âmbito são de nível político?

Arno Kayser –
As igrejas cristãs, em seu papel de testemunho da mensagem do Cristo – mensagem que as fundamenta –, têm um grande papel na mobilização da população para realizar esta transformação, pois ela começa no plano moral e ético em que temos que aprender a incluir como próximos a serem amados não só os irmãos humanos, mas todos os demais seres deste planeta. Debate que já vem sendo travado há algum tempo, diga-se de passagem.

Neste debate, elas podem ajudar muito na formação de visão crítica na população que questione as decisões políticas atuais e as substitua por outras que visem o bem-estar coletivo e não só o desenvolvimento da economia de grandes grupos econômicos ou a concentração de poder em alguns caciques políticos que, hoje, controlam a cena nacional.

Ao mesmo tempo, no nível de base, elas podem ser abrigo e incentivadoras de iniciativas e organizações que comecem a construir uma sociedade baseada em fundamentos ecológicos e que movimentem a economia, no sentido de atender às necessidades reais das pessoas e promover a vida em todas as formas, substituindo o modelo atual, o qual somente visa o lucro financeiro em detrimento de todo o resto.


IHU On-Line – A temática do Mutirão é “Unidos em Cristo na defesa da Criação”. Para o senhor, o que significa “defender a Criação”?

Arno Kayser –
A Criação é a denominação cristã desta maravilhosa sinfonia que é o universo no qual acontece a aventura da vida humana e não humana. Defender a criação é uma consequência natural do deslumbramento com o seu esplendor e também uma decorrência do conhecimento de um sem-número de ameaças a sua plena manifestação segundo o desejo divino do Criador. Criador que para os cristãos se manifestou em plenitude na figura do Cristo. A leitura da Bíblia nos relata que muito da evolução espiritual de Jesus se deu no contato com a natureza. Ele se retirou para o deserto a fim de enfrentar a tentação e, na hora mais dura antes da sua provação final, escolheu um jardim para orar e se fortalecer. Unir-se a Cristo na defesa da Criação é se pautar nestes gestos e se colocar ao lado dos fracos deste mundo que estão em perigo. Entre eles, os pobres, as populações tradicionais, os animais, as plantas, a água, a terra e o ar que fazem parte da Criação.


IHU On-Line – Em nossa realidade brasileira, especialmente na região Sul, que aspectos ambientais devem ser levados em conta nessa defesa?

Arno Kayser –
Ecologicamente, a região Sul do Brasil está na faixa subtropical. O que faz dela uma zona de fronteira onde ocorrem vários ecossistemas de transição como a mata subtropical dos grandes rios e da costa atlântica, a mata de araucária e o pampa. Estes são relativamente pequenos em relação a outros ecossistemas e estão expostos a um sistema de produção agrícola baseado em monoculturas. Em especial, da soja e do eucalipto. Também no Sul temos os mesmos problemas de grandes concentrações urbanas de poluição dos recursos naturais e degradação humana. Os desafios são similares aos do resto do país.


IHU On-Line – Em sua opinião, quais são as principais contribuições da espiritualidade e da mística cristãs para a defesa da Criação?

Arno Kayser –
O amor universal e a comunhão dos justos. O amor universal nos chama para a defesa dos próximos que existem na Criação e a comunhão nos coloca na condição de igual para com toda a Criação. O que é a base para toda uma prática de serviço em prol da manifestação plena de todas as formas de vida.


IHU On-Line – Há visões antropológicas ou cosmológicas que as igrejas precisam mudar para que a defesa da Criação seja mais bem compreendida e posta em prática?

Arno Kayser –
Talvez o principal desafio seja reinterpretar uma visão teológica que compreendeu o ser humano como senhor da Criação colocando toda ela a seu dispor. Esta interpretação errônea levou a um sem-número de violências contra os fracos e justificou moralmente e destruição da natureza em prol do deleite humano.

Creio que a reinterpretação deva colocar o ser humano como parte integrante da Criação e não como seu senhor. Mas uma parte com responsabilidades maiores decorrentes das potencialidades humanas de compreender os fundamentos científicos da Criação e da capacidade de amor universal que é latente em todos os humanos. Talentos que nos delegam tarefas maiores na gestão da criação.


IHU On-Line – Muito se fala hoje em sustentabilidade ou desenvolvimento sustentável. É possível equilibrar o desenvolvimento humano e social com a defesa da Criação?

Arno Kayser –
Creio que sim. Mas para isso devemos buscar um desenvolvimento ecologicamente sustentável. O conceito de desenvolvimento sustentável dominante ainda tem muito da visão economicista. Quem o defende ainda acredita que precisamos de mais desenvolvimento econômico ignorando o fato de que já temos muita atividade econômica, mas ela está mal distribuída.
O desenvolvimento ecologicamente sustentável prega a garantia das necessidades das gerações atuais sem prejudicar as necessidades das populações futuras. Mas amplia este conceito para todas as formas de vida e não somente para as necessidades humanas.

Ele também questiona o tipo de necessidades a serem garantidas: as de sobrevivência ou as de um consumo de luxo? O exemplo das demais formas vivas nos mostra que, de um modo geral, as criaturas querem ter garantidas as necessidades de sobrevivência. Não há luxos entre elas. E nem por isto elas não deixam de ter uma vida rica e interessante.

Os seres humanos têm muito a aprender no sentido de preencherem sua existência com práticas e preceitos que elevem sua condição para uma vida de maior gozo espiritual e de relação fraterna com os semelhantes em substituição a uma busca por uma felicidade baseada em objetos e sensações de consumo.

Neste sentido, também há uma grande contribuição que pode vir das igrejas cristãs a partir do próprio exemplo de Cristo, que viveu uma vida simples no convívio com os amigos sem abrir mão de momentos de festa e regozijo com seus próximos, praticando o bem e se colocando ao lado dos necessitados de toda ordem no enfrentando das dificuldades e opressões de seu tempo.


IHU On-Line – Um de seus livros mais recentes aborda a reconciliação com a floresta. O que significa essa reconciliação?

Arno Kayser –
Significa superar o medo da selva que acompanha o ser humano desde priscas eras. Medo baseado em um desconhecimento da verdadeira natureza da selva que levou o ser humano a uma relação de enfrentamento e de dominação da natureza. Se reconciliar é superar uma relação baseada no medo e se reintegrar com a parte selvagem que há dentro e fora de nós nos, percebendo-nos como uma parte de um todo em permanente relação de interdependência. A ciência já nos demonstra que todas as criaturas vivas cooperam para fazer do planeta um lugar aprazível para se viver. Nós temos que perceber que temos uma tarefa nessa missão e nos reconciliarmos como todos os demais seres para melhor cumpri-la.


IHU On-Line – Como analisa a educação, a formação e o conhecimento ecológicos da população em geral, especialmente da nossa região? Que avanços precisam ser feitos nesse processo educativo ambiental?

Arno Kayser –
A maior parte da população foi educada dentro do paradigma do ser humano como rei da Criação e, como tal, ainda não percebe com clareza seu papel na construção de uma sociedade ecologicamente sustentável. Na verdade, estão em grande parte mergulhados na busca do consumo como fórmula de felicidade sem perguntar bem dos custos disto para a vida do planeta.
Mas felizmente uma parcela significativa das pessoas, em particular os jovens, vem se educando dentro de uma nova visão de parceria com a natureza. Esta visão se iniciou no Sul com o trabalho de educação informal de grandes lideranças como Henrique Roessler,  José Lutzenberger  e Magda Renner,  entre outros. A continuidade dele se deu com o trabalho de toda uma geração do qual faço parte, organizados em entidades ecológicas em várias regiões do país e que tem se desenvolvido muito em escolas e comunidades através de projetos pedagógicos formais e informais de várias espécies. Este processo vem num crescendo deste a Eco-92  e vem formando toda uma nova geração que aos poucos vai se impondo.

O desafio atual é não permitir que este processo generoso se perca num mar de falsas promessas de um consumo verde. Vale lembrar o que ocorreu no passado com grande parte da geração hippie, que se perdeu nas drogas ou num mundo de trabalho yuppie, esvaziando ou cooptando seus esforços transformadores.

É preciso aprofundar o processo de educação ambiental coletiva para que todos nós juntos aprendamos a construir um mundo em harmonia com a natureza. Uma tarefa que ninguém sabe exatamente o que venha a ser, mas que muitos já têm certeza do que não o é.


IHU On-Line – Junto com as igrejas, diversos são os movimentos da sociedade civil preocupados com as questões ecológicas. Como o senhor analisa a caminhada desses movimentos hoje? É possível estreitar as relações entre elas e esses atores sociais?

Arno Kayser –
Acho que, a partir do Fórum Social Mundial, temos assistido a um processo de convergência e diálogo entre vários movimentos da sociedade civil que são potencializados pelos sinais cada vez mais urgentes que a degradação ambiental tem nos dados diariamente. A tarefa de proteger a natureza tem um apelo muito forte semelhante ao do combate à fome, à miséria, à construção da paz e ao enfrentamento das injustiças. É uma tarefa agregadora e inquestionavelmente urgente. As igrejas também têm atuado neste contexto trazendo para o diálogo a questão do desenvolvimento de uma espiritualidade que dê conta do vazio da sociedade de consumo excludente em que estamos inseridos. É uma contribuição que se soma à base científica que gerou o movimento ecológico e contribui na formação de uma transformação cultural profunda que resulte em atitudes e novas técnicas para superar os desafios decorrentes da devastação do meio ambiente.

Neste contexto a aproximação é inevitável e necessária, pois ela nos fortalece e nos une sem que cada segmento precise abrir mão de sua individualidade, mas que disponibilize seus potenciais na gestação de um ecossistema reequilibrado, tal como ocorre com os demais seres deste planeta.


IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Arno Kayser –
Como diz Douglas Adams  no livro O guia do mochileiro das galáxias: “Não entre em pânico”. Mesmo que a catástrofe ambiental pareça inevitável, a vida sempre encontrou um jeito de sobreviver se adaptando e se transformando. A consciência dos problemas ambientais não deve nos paralisar, mas ser um fator de motivação para a ação junto ao seu grupo ou comunidade. As tarefas são muitas e há espaço para todo tipo de habilidade ou conhecimento. Só pondo a mão na massa é que a gente descobre qual é o nosso papel no processo.

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