Edição 370 | 22 Agosto 2011

“A abertura para a unidade com o outro/a é inerente à identidade”

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Moisés Sbardelotto

A identidade, também religiosa, só é possível na consciência de si frente a alguém. É construída a partir da não identidade, ou seja, da alteridade, afirma o teólogo Erico Hammes

“Ser alguém depende de ser alguém para alguém. A identidade só é possível na consciência de si frente a alguém”. Para o teólogo e professor da PUCRS, Erico Hammes, em entrevista por e-mail à IHU On-Line, “a consequência natural é que o outro é a possibilidade para ser o mesmo, para ter uma identidade”.

Em termos de ecumenismo, afirma, “a diversidade confessional pode ser entendida como manifestação da alteridade, a partir da qual se gera a própria identidade, e da identidade que se precisa reconstruir a partir da alteridade”.

Por isso, “parece inerente à identidade a abertura para a unidade com o outro, com a outra. Aquela e aquele de quem se origina a identidade são parceiras e parceiros naturais para a unidade. A dificuldade, porém, está em reconhecer essa condição, motivo pelo qual a tentação do fundamentalismo e do sincretismo – enquanto negação da diferença ou diversidade – acompanham a busca, aparentemente instável da unidade dinâmica”, explica.

Erico João Hammes é graduado em Filosofia pela Faculdade de Filosofia Nossa Senhora da Imaculada Conceição e em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, onde é professor dos cursos de mestrado e graduação em Teologia. É mestre e doutor em Teologia Sistemática pela Pontifícia Universidade Gregoriana – PUG, em Roma, com a tese Filii in Filio: A divindade de Jesus como evangelho da filiação no seguimento. Um estudo em Jon Sobrino (Porto Alegre: Edipucrs, 1995). Em 2011, concluiu seu estágio pós-doutoral em Cristologia e Paz na Universidade de Tübingen, Alemanha. Também integra a Comissão de Diálogo Bilateral Católico-Luterano da CNBB.

Confira a entrevista.


IHU On-Line – Em uma sociedade como a atual, marcada paradoxalmente por sincretismos e fundamentalismos de todos os tipos, o que significa ser ecumênico? Como equilibrar “identidade” com “unidade”?

Erico Hammes –
A simples observação cotidiana das relações entre os diferentes seres mostra que a identidade é construída a partir da não identidade, ou seja, da alteridade. Especialmente a Filosofia e a Teologia mostram que ser alguém depende de ser alguém para alguém. A identidade só é possível na consciência de si frente a alguém. A consequência natural é que o outro é a possibilidade para ser o mesmo, para ter uma identidade. Em palavras de Paul Ricoeur , o “si mesmo como um outro”. Desde a formação da consciência do Eu até a constituição da diversidade supõe-se sempre a presença do não eu como parte do eu. A diversidade confessional pode ser entendida como manifestação da alteridade, a partir da qual se gera a própria identidade, e da identidade que se precisa reconstruir a partir da alteridade. A pergunta que se faz, então, é se é possível ter uma identidade sem uma alteridade. Em caso afirmativo, a pergunta seguinte diz respeito à atitude em relação a esse outro.

Essencialmente, apresentam-se duas possibilidades: aniquilar ao outro ou associar-se a ele. A aniquilação teria como efeito normal também a autodestruição e tornaria absurda a busca da identidade por esse caminho. O problema, naturalmente, está em perceber esse nexo e em suportá-lo. De fato, o outro aparece imediatamente como concorrente do Eu e pode representar uma ameaça à própria estabilidade. Por isso, geralmente a estratégia consistirá em confinar, afastar a ameaça e a concorrência à insignificância de segundo plano em contraste ao primeiro plano do Si ou do Eu. Em termos hegelianos, o senhor – que aqui é o Eu – precisa do escravo – que aqui é o outro – para ser. Não assim o escravo. Essa é a ameaça à unidade – negar o outro pela servidão, sem eliminá-lo como condição de possibilidade do Eu.

A segunda possibilidade é a associação, aqui entendida no sentido de fazer-se sócio, unir-se, tornar-se parte daquele e daquele por quem somos. É a unidade do Eu e do Si com o não-Eu e não-Mesmo. A unidade representa a superação entre a destruição servil e a mesmidade solipsista através da constituição de um espaço elíptico em que a polaridade das alteridades se sustentam reciprocamente em condições de vida.
Assim colocados os temas, parece inerente à identidade a abertura para a unidade com o outro, com a outra. Aquela e aquele de quem se origina a identidade são parceiras e parceiros naturais para a unidade. A dificuldade, porém, está em reconhecer essa condição, motivo pelo qual a tentação do fundamentalismo e do sincretismo – enquanto negação da diferença ou diversidade – acompanham a busca, aparentemente instável da unidade dinâmica.


IHU On-Line – Em sua opinião, quais são os grandes pilares teológicos do ecumenismo hoje? Em que pontos é possível encontrar consensos e parâmetros básicos?

Erico Hammes –
Os principais pilares teológicos do ecumenismo, hoje, são a profissão de fé trinitária, incluída a fé na encarnação do Filho (Palavra) divina, a Bíblia e os estudos bíblicos, a consciência de uma responsabilidade comum pelo ser humano, pelo mundo e pelo ambiente, a práxis de convivência e a atuação por um mundo diferente.

De modo geral, existe um consenso a respeito do mistério divino da triunidade divina e a respeito de Jesus de Nazaré como Filho Divino justificador ou salvador. Há um grande consenso luterano-católico, celebrado solenemente, sobre a justificação e a graça.


IHU On-Line – Que papel teve o Concílio Ecumênico Vaticano II para a ação e o serviço ecumênicos posteriores? Que pontos merecem ser ainda mais aprofundados/concretizados ou revistos/abandonados dos debates de então?

Erico Hammes –
O Concílio Vaticano II foi especialmente importante para que a Igreja Católica entrasse decisivamente no movimento ecumênico. Até aí havia uma resistência muito grande porque as demais confissões, especialmente as que surgiram em torno de Lutero e seus contemporâneos, eram vistas como oposição ao catolicismo. Ao se dispor ao diálogo livre com as demais confissões, a Igreja Católica passa a dar sua contribuição específica: abandona sua autossuficiência para reforçar o cristianismo e o testemunho de unidade. Certamente, o fato de se pesquisarem e aprofundarem as compreensões diferentes da própria confissão e das outras foi possível melhorar a cooperação e aceitação.

As maiores dificuldades, porém, estão na expressão ritual (sacramentos) e na organização institucional (ministérios) e compreensão do ser comunitário (igreja). Próximo a essas questões encontra-se o receio da perda de identidade ou mesmo de fiéis. Será preciso crescer na comunhão entre as confissões, melhorar o conhecimento e reconhecimento recíproco em vista da unidade na diferença.


IHU On-Line – Especificamente no âmbito católico, que sombras e luzes o senhor percebe na caminhada ecumênica da Igreja ao longo do papado de Bento XVI?

Erico Hammes –
Bento XVI, ainda como Prefeito da Congregação para Doutrina da Fé, foi o responsável pela Declaração Dominus Iesus em que afirma a unicidade e a universalidade salvífica de Jesus Cristo e da Igreja. O documento causou um desgosto muito grande e até agora, como Papa Ratzinger, ainda não superou os problemas causados, mesmo se na prática tenta mostrar atitudes de abertura e diálogo. Um segundo problema é a tendência a favorecer pessoas e grupos que defendem um catolicismo resistente ao Vaticano II.


IHU On-Line – Sua palestra no Mutirão Ecumênico será intitulada “Ética Social Ecumênica”. Em linhas gerais, qual será a sua mensagem aos participantes e as ideias principais em discussão?

Erico Hammes –
Em geral, as tradições religiosas trazem um conteúdo ético social. Na tradição judaico-cristã esse conteúdo está respaldado nos grandes temas bíblicos da prioridade das pessoas doentes, pobres, estrangeiras, prisioneiras, das viúvas, dos órfãos. O que o movimento ecumênico faz – e aqui é preciso lembrar o Conselho Mundial de Igrejas – é recuperar essa tradição fundante. A Igreja Católica, por sua vez, tem, desde o século XIX, um corpo doutrinário de ética social bastante bem definido. Os grandes temas que hoje convocam para uma ética social ecumênica podem ser resumidos no conceito da “Paz Justa” que requer uma superação da violência em todas as suas formas e o empenho pela construção de um mundo sempre mais adequado ao estado de graça recebido do Senhor.


IHU On-Line – A partir da tradição brasileira e latino-americana, como a teologia pode estimular a caminhada ecumênica, e em que a ação ecumênica pode desafiar os debates teológicos?

Erico Hammes –
Provavelmente o fato mais novo da América Latina, em termos de cristianismo, seja a força do pentecostalismo. Certamente, o apelo ao Espírito Santo, uma reflexão correspondente e uma abertura das tradições históricas para as demandas das pessoas, é um dos grandes desafios a ser encarado. Na medida em que em vários lugares fica evidente a diminuição das comunidades e congregações, os poucos cristãos restantes poderão aceitar mais facilmente a cooperação, desde que abdiquem de suas pretensões exclusivistas e excludentes. A opção pelos pobres e a consciência das grandes transformações no pensamento e na consciência atuais podem servir para reforçar a unidade.


IHU On-Line – O Mutirão Ecumênico se propõe a debater a temática “Unidos em Cristo na defesa da Criação”. Para o senhor, qual o papel das igrejas diante da questão ambiental?

Erico Hammes –
O papel das igrejas está, antes de tudo, em testemunhar a presença divina junto à criação. Em seguida, está em anunciar explicitamente essa boa notícia, com as suas consequências, a todo mundo. Cabe às igrejas mostrarem que a Criação é um sujeito interlocutor – Francisco de Assis a chamava de irmã e irmão – do ser humano e do Senhor. Superar a relação de posse e exploração, que faz de tudo apenas um fetiche econômico, viola o sentido essencial da natureza.


IHU On-Line – “A Criação espera com impaciência a manifestação dos filhos de Deus”. Esse trecho da carta de Paulo aos cristãos de Roma serve de motivação ao Mutirão Ecumênico. Como podemos compreender hoje o significado mais profundo dessa frase?

Erico Hammes –
De fato, o texto do versículo é continuação ou aplicação dos anteriores (15-18) em que se afirma a filiação divina pelo Espírito Santo e a consequente glorificação. De certo modo, a Criação está em tensão para essa transformação porque, de uma outra maneira, lhe diz respeito. Na luz do que hoje vivemos, fica ainda mais claro que a filiação divina no Espírito nos faz servidores e criadores, no sentido de realizarmos a leitura e interpretação do livro da natureza e vivermos a aliança divinizadora com o que é o presente recebido.


IHU On-Line – Há visões antropológicas ou cosmológicas que as igrejas precisam mudar para que a defesa da Criação seja mais bem compreendida e posta em prática?

Erico Hammes –
Talvez, o maior não seja a visão antropológica ou cosmológica das igrejas, mas as visões que assumiram acriticamente. De fato, uma leitura atenta da grande Tradição bíblica já mostra que o ser humano é, antes de tudo, humus, terra. Sua vocação é a de aprender a louvar ao Senhor pelos benefícios recebidos, viver, portanto em ação de graças e exercer um domínio que biblicamente se traduz em servir.


IHU On-Line – Quais são, a seu ver, os principais desafios ou obstáculos eclesiais, sociais e culturais ao ecumenismo no contexto brasileiro?

Erico Hammes –
Os principais obstáculos ao ecumenismo podem ser os da pergunta inicial: a indiferenciação e o fundamentalismo, no âmbito religioso. Ignorar quem se é leva a uma forma sincrética de vida e pensamento, sem orientação e sem personalidade. O fundamentalismo, assim como o integrismo católico, infantilizam a fé e impedem o respeito recíproco. No âmbito social e cultural os maiores problemas se situam na ausência do cristianismo histórico junto aos mais pobres e a incompetência para lidar com os ambientes tecnológicos, científicos e empresariais, fazendo com que justamente nesses ambientes reine o sectarismo competitivo ou a ignorância generalizada da convivência construtiva recíproca. Uma dificuldade adicional pode ser considerada a falta geral de boa informação e conhecimento da própria fé, quanto mais a dos outros.



Leia Mais...

Erico Hammes já concedeu outras entrevistas à IHU On-Line.

* Comblin e a reinvenção da igreja. Edição 356 da Revista IHU On-Line, de 04-04-2011

* Conceito e missão da Teologia em Karl Rahner. Edição 5 dos Cadernos Teologia Pública, de 01-05-2004

* Fórum Mundial de Teologia e Libertação, uma conquista a ser potencializada. Edição 357 da Revista IHU On-Line, de 11-04-2011

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