Literatura e teologia em Adélia Prado

Para José Augusto Mourão, Adélia Prado não faz teologia, mas literatura, na arte de embaralhar o divino e o humano

Por: André Dick e Graziela Wolfart

“Não são as crenças o estrume a partir do qual Adélia escreve, mas o íntimo, a experiência, a íntima convicção de que Deus é justo, por exemplo, o que escapa a catecismos, a silogismos e à própria teologia.” A fala é do professor do Departamento de Ciências da Comunicação da Universidade Nova de Lisboa José Augusto Mourão. Na entrevista que concedeu por e-mail para a IHU On-Line, ele analisa a relação entre literatura e teologia na obra de Adélia Prado. Mourão é presidente do Centro de Estudos de Comunicação e Linguagens (CECL), diretor do Instituto de S. Tomás de Aquino (ISTA) e dos Cadernos ISTA. Entre seus livros publicados, citamos Paixão, discurso e sujeito (1996), Semiótica e Bíblia (1999) e A palavra e o espelho (2000). Confira a entrevista:

IHU On-Line - Existe, na obra de Adélia Prado, um vínculo direto com a religião católica e com a teologia, ou ela independe de crenças? De que modo você percebe esse traço em sua obra? Há poemas que representem melhor esse caminho e que fariam o que se chama de "teologia poética"?
José Augusto Mourão
- Não são as crenças o estrume a partir do qual Adélia escreve, mas o íntimo, a experiência, a íntima convicção de que Deus é justo, por exemplo, o que escapa a catecismos, a silogismos e à própria teologia. Se há uma “teologia poética” que atravessa a sua obra, essa teologia é feita do casamento da carne e de palavra. Terra de Santa Cruz e O pelicano são livros em que essa aliança claramente se divisa. O cotidiano abre-se ao divino como a flor na árvore. Com um bemol: Adélia é a catecúmena admitida com reservas pelos doutores da lei, o que diz desde logo a sua marginalidade relativamente ao corpo de uma doutrina estabelecida e aos doutores.

IHU On-Line - Num de seus poemas, “Antes do nome”, Adélia escreve que “Quem entender a linguagem entende Deus”. Acredita que Adélia visualiza uma espécie de transubstanciação e de sublime teológico por meio da poesia?
José Augusto Mourão
- “Quem entender a linguagem entende Deus.” É evidente: Deus é a palavra do começo, o Verbo criador e o verbo feito carne. A palavra é de si, messiânica: promete a salvação, o reino das bem-aventuranças. Por outro lado, o que melhor define o humano é a estrutura de interlocução: somos carne habitada pela palavra. Como chegaríamos a Deus se não fosse pela escada da linguagem, que não é propriedade privada, mas lugar de encontro, partilhável, universal, infinitamente traduzível, em que se espaçam o desejo e a visita de Deus?

IHU On-Line - Uma das influências, na poesia de Adélia, é a de Drummond, poeta conhecido por seu afastamento da religião. Como se combinaria essa busca de uma linguagem com sentido mais religioso com a observação de um cotidiano, vivido numa pequena cidade, tendo em torno a rotina, a partir de seu comentário de que o Deus que habita a linguagem “não é um deus tácito, como o são os deuses do paganismo, mas um Deus que se fez Palavra no tempo”?
José Augusto Mourão
- Todos fazem um poema a Carlos Drumond de Andrade, mesmo se as placas de trânsito nos indicam que vamos a contramão… Mas é o vínculo ao cotidiano, ao rasteiro, à rotina que liga o familiar e o estranho. Não há salvação fora do corpo e da palavra. O Deus a que fala Adélia não é de facto o deus pagão, onipresente nas forças da natureza, mas o Deus omnisensível que comparece na carne do mundo e do nosso horizonte de expectativa. Adélia não atraiçoa a carne para falar de Deus: a sua fidelidade é encarnada, não é feita de princípios e categorias.

IHU On-Line - Muitos temas percorrem a poesia de Adélia, inclusive a tensão entre corpo e alma, por meio de uma linguagem amorosa. Ela procuraria, por meio dos versos, sintetizar uma busca pessoal pelo amor de Deus em relação às pessoas?
José Augusto Mourão
- A noção de pessoa é tipicamente cristã. O cristão não vive soterrado na caverna, contorcendo-se para sair à luz. A gnose não é o seu reino. Viver é viver-com. Não se vai a Deus sozinho, mas a partir das ligações (muito eróticas, na obra de Adélia) humanas, pequenos fios a que a linguagem poética dá o seu brilho inigualável.

IHU On-Line – Na realização da poesia, Adélia Prado combate uma espécie de massificação, de estado de barbárie, adotando, às vezes, uma reclusão. A religião está sendo abandonada, como a poesia, em muitos casos, principalmente quando o sujeito não encontrar espaço para se pronunciar, mostrar a sua voz e sua angústia contemporânea?
José Augusto Mourão
- Adélia não se desterrou do mundo, não se refugiou numa clausura, como o fazem as seitas ou a gnose: o real é o seu assento. A justiça é a sua divisa. Por isso não negoceia com o mundo (injusto), por isso querela com os seus fantasmas e com Deus mesmo, como teria feito Job.

IHU On-Line - No ensaio “Literatura e teologia: aproximações”, José Carlos Barcellos lembra que “uma coisa é o poder criador de linguagem religiosa por parte da literatura, outra é a capacidade teológica dessa mesma literatura. Só se pode falar em teologia, na medida em que, a partir de um horizonte de fé, se instaurar o exercício da crítica sobre a linguagem religiosa, tanto em relação à forma quanto ao conteúdo. O discernimento crítico é um elemento absolutamente necessário do fazer teológico”. Como avalia, em relação à obra de Adélia Prado, esse pensamento?
José Augusto Mourão
- Contra o monologismo da teologia, ou ao lado, Adélia apropria-se do tesouro plurilingue da Bíblia e da polifonia das linguagens de que testemunham os salmos, as narrativas, as crónicas, as leis – traduzindo-o em linguagem poética. A teologia nem sempre é crítica. A doxa (a opinião comum, o dogma) sobrepõe-se com frequência à procura da verdade, que é comunitária e intersubjectiva. Adélia não faz teologia, faz literatura. Essa é a sua arte maior: jungir o divino e o humano.
 
IHU On-Line - Como percebe a declaração de Adélia Prado, numa entrevista, de que “todo fenômeno de experiência da unidade é de natureza religiosa”?
José Augusto Mourão
- “Todo fenômeno da experiência da unidade é de natureza religiosa.” A religião associa, une, sem confusão ou fusão alucinatória. Fazer corpo é a sua função. Diziam os Padres que a Igreja era um corpo a caminho. Ora, todo o corpo exige uma “república”, como se dizia em quinhentos, uma distribuição de energia, de afectos e perceptos. A experiência da unidade liga o corpo que somos ao corpo da humanidade.

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