Edição 251 | 17 Março 2008

Marcos Paulo Guerin

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Alessandra Barros

“O jaleco branco representa um desafio. Ao mesmo tempo em que inspira orgulho por chegar até aqui e ser um profissional da saúde e futuro enfermeiro, é preciso cuidar para não passar essa sensação de poder. É importante saber usar esse poder, com ética e profissionalismo.” O IHU Repórter desta edição conta a história de Marcos Paulo Guerin, 32 anos, estudante do sétimo semestre de enfermagem, que trabalha há seis anos na Unisinos. Nos últimos dois anos e meio, Guerin dedica oito horas do seu dia ao ambulatório da universidade, onde expressa seu amor pela profissão e demonstra o talento para cuidar das pessoas. Trata-se de um sonho realizado com muito esforço e dedicação, hoje reconhecido pelos colegas de trabalho e de sala de aula. Confira a entrevista.

Origens – Nasci em São Leopoldo, numa família humilde, mas com valores. Tenho um irmão e duas irmãs e sou o único a cursar universidade. Meus pais sempre me apoiaram nos estudos e também me deram muita responsabilidade por ser o mais velho dos filhos.

Infância – Tive uma infância bastante tranqüila. Gostava de jogar bolita com os amigos, mas nunca fui do futebol. Como sou o mais velho dos meus irmãos, fui o filho mais exigido. Cedo assumi a função de “cuidador” dos pequenos. Meus pais trabalhavam fora e eu ficava cuidando dos irmãos, até eles retornarem do trabalho. Foi assim que descobri o talento de ser atencioso com o próximo. Percebi que esse papel, até então das mulheres, também era possível para os homens.

Família – A família é meu porto seguro e gosto de estar entre eles. Em casa, também sou visto como um enfermeiro. Costumo ser solicitado e consultado, quando alguém aparece doente na família ou na vizinhança. Gosto disso e permito essa atenção, pois sou acessível.

Valores - O jaleco branco representa um desafio. Ao mesmo tempo em que inspira orgulho por chegar até aqui e ser um profissional da saúde e futuro enfermeiro, é preciso cuidar para não passar essa sensação de poder. É importante saber usar esse poder, com ética e profissionalismo.

Estudos – Fiz o Ensino Fundamental e o Ensino Médio em escola pública. Quando comecei a pensar no que queria ser quando crescesse, minha primeira opção era ser químico. Tinha a fantasia das poções, das experiências em laboratório, que me causavam fascínio.

Trabalho – Mudei de opção quando tive a oportunidade de trabalhar no almoxarifado de uma clínica, em São Leopoldo, e cuidava da distribuição de medicamentos. Um dia, quando estava levando material para o pronto-atendimento, fiquei surpreso com uma menina doente, que havia sofrido queimaduras e chorava muito. Observei a forma como ela foi atendida pela equipe de enfermagem e aquilo me marcou muito. Imaginei o quanto a atenção especial com a criança poderia fazer muita diferença naquele momento.

Profissão – Desde então, essa cena está cristalizada na minha memória e me inspirou no que me tornei hoje, como profissional e futuro enfermeiro. Passei a desejar ser enfermeiro, de atuar na área da saúde e cuidar diretamente das pessoas, ou seja, gostaria de tentar fazer desse atendimento algo diferente, com um olhar atencioso e dedicado.

Sonho - O primeiro passo foi estudar no curso de técnico de enfermagem, na Escola de Enfermagem da Paz, de São Leopoldo. Na mesma clínica, houve a possibilidade de continuar na área da enfermagem. Acabei por trabalhar como auxiliar de enfermagem no mesmo local onde havia assistido a cena da menina, pois queria ser enfermeiro.

Graduação – Na Unisinos, foi onde o sonho tornou-se realidade. Em 2001, entrei na universidade para trabalhar como técnico de enfermagem no Programa de Unidades Móveis de Saúde Coletiva (Prumo) - Comecei atuando na comunidade pobre na zona Norte, de São Leopoldo. O trabalho social me encantou. Passava orientações para a população sobre saúde, realizava exame de glicose, media a pressão arterial, entre outras atividades. O foco do programa era a prevenção e envolvia associações de bairro, além de outras áreas, como nutrição, serviço social e biologia. Como morava próximo ao local onde a equipe atuou, criei um vínculo muito forte com a comunidade e com os colegas. Foi uma experiência de vida, pois ali percebi o profissional que queria ser, observando a atuação admirável dos professores, em particular da coordenadora do projeto, a professora Ângela Tramontini. Constatei, ao mesmo tempo, a importância da questão social e humana. Em 2002, prestei vestibular e obtive aprovação. Logo surgiu vaga no ambulatório, onde estou há dois anos e meio. Foi o que me proporcionou pagar o curso e realizar o sonho de me tornar enfermeiro e freqüentar uma universidade.

Unisinos - A universidade é acolhedora. A equipe do ambulatório é como uma segunda família para mim, pois fico muito mais tempo aqui do que em casa, com a família. Na universidade, as pessoas reconhecem o profissional. Muitas, que são atendidas, voltam para tomar chimarrão. Aqui, criamos esse vínculo de amizade, pois a universidade propicia essa integração entre as pessoas e a troca de conhecimentos. Quero dar continuidade aos estudos e dividir o que aprendi com as pessoas que nos procuram em busca de atendimento qualificado.

Projetos – Quero me formar, e tentar trabalhar na área da oncologia. É mais um desafio de cuidar de alguém que está frágil e corre risco de vida, numa situação em que, a todo momento, estamos desafiando a morte. Na oncologia, é preciso dar atenção, exige carinho e apoio para que a paciente supere esse momento. Gosto de trabalhar com adultos e idosos. Já no projeto de pesquisa, pretendo tratar do vínculo entre profissional e paciente. Faço licenciatura plena e quero poder dar aulas. Já trabalho com isso há dois anos em um curso de qualificação na área de atendimento pré-hospitalar. Gosto de passar em frente o conhecimento.

Desafios – A sociedade precisa reconhecer a importância do enfermeiro como profissional. É importante que ele deixe de ser um mero secretário do médico. Trata-se de um profissional com autonomia e atribuições bem definidas, que tem o direito de exercê-las. Também considero importante trabalhar numa perspectiva mais holística, não fragmentada. Não tratar a doença e sim do ser humano como um todo. Muitas vezes, o profissional da saúde transmite um ar frio, pois usa mecanismos de defesa para dar conta do trabalho, que é difícil. Mas é importante criar vínculo entre o profissional e o paciente para uma melhor recuperação a partir dessa interação, dessa relação interpessoal.

Preconceito – Acredito que o homem pode assumir a função de “cuidador” e demonstrar sensibilidade. Uma tendência que está mudando. Na história, a mulher sempre teve esse papel de zelar e cabia ao homem de prover a família. Já hoje, a mulher está no mercado de trabalho e o homem participa das tarefas da casa, tem mais liberdade para expressar seus sentimentos.

Política brasileira – Infelizmente, é muito difícil falar da nossa política. Hoje em dia, parece que a política vem para nos prejudicar, não nos favorece e atende aos interesses daqueles que comandam nosso país. Como grande parte das pessoas, estou desgostoso e decepcionado. Sei que muitos até evitam falar de política e recusam-se a participar de atividades sociais que possam ter finalidade política, mas é preciso agir. Acredito que ficar alheio às decisões que não nos agrada faz com que deixemos as coisas como estão. É necessário fazer nossa parte. A apatia social é uma forma passiva de fazer política.

Instituto Humanitas Unisinos – É um espaço que propicia o debate. A revista aborda, com muita propriedade, assuntos atuais, temas relacionados com o cotidiano, com foco na realidade. Permite fazermos uma melhor reflexão acerca dos assuntos abordados superficialmente na mídia. Passei a ler a revista a partir das entrevistas com os colegas da Unisinos, pois desta forma conseguimos nos conhecer melhor e compartilhar da história de vida dos nossos colegas.

Leitura - Além dos livros técnicos, acabo de ler Por um fio, do Dr. Drauzio Varella, que trata da relação entre paciente e profissional da saúde. Mostra o olhar que cada indivíduo tem sobre a sua doença e o que a morte representa para cada um. São várias histórias sobre essa temática. Também gosto de livros que me levem para outra realidade, para o mágico, como As crônicas de Nárnia, do escritor irlandês C.S. Lewis, que também virou filme. Esse tipo de leitura ajuda a aliviar a tensão.

Lazer – Adoro música, desde clássicos até MPB. Também priorizo o convívio em família e costumo participar de jantares de confraternização com amigos e colegas de trabalho.

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