Edição 251 | 17 Março 2008

José Carlos Barcellos

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Faleceu no último dia 14 de fevereiro de 2007

Quando falamos da relação entre teologia e literatura no Brasil, é indispensável mencionar o nome do professor José Carlos Barcellos, falecido no último dia 14 de fevereiro de 2007. Considerado um dos pioneiros em estudar o diálogo entre essas duas áreas do saber, Barcellos era doutor em Letras pela USP e em Teologia pela PUC-Rio, sendo por muitos anos professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e da Universidade Federal Fluminense. A revista IHU On-Line teve o privilégio de entrevistá-lo sobre o diálogo entre as obras literárias e o pensamento teológico e sobre as questões religiosas na obra Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa. A entrevista foi publicada na edição número 178, de 02-05-2006. Entre seus livros, citamos O herói problemático em Cerromaior: subsídios para o estudo do Neo-Realismo português (Niterói: EDUFF, 1997); Literatura e espiritualidade: uma leitura de Jeunes Années, de Julien Green (Bauru: EDUSC, 2001); e Literatura e homoerotismo em questão (Rio de Janeiro: UERJ, 2006).

O coordenador do PPG em Letras da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Paulo Soethe, nos enviou o depoimento a seguir, sobre José Carlos Barcellos. Graduado em Letras Alemão-Português, pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), mestre e doutor em Letras, pela Universidade de São Paulo (USP), o Prof. Dr. Paulo Soethe cursou pós-doutorado na Universidade de Tübingen, na Alemanha. Após o testemunho de Paulo Soethe, confira uma carta elaborada pela Comissão Organizadora do Segundo Colóquio da Associação Latino-Americana de Literatura e Teologia (ALALITE), da qual Barcellos foi um dos idealizadores.

José Carlos Barcellos, primus inter pares
Paulo Soethe dá seu depoimento sobre um dos mestres da relação entre teologia e literatura, recentemente falecido

Mel silvestre tirei das plantas,
sal tirei das águas, luz tirei do céu.
Só tenho poesia para vos dar.
Abancai-vos, meus irmãos.
Jorge de Lima

Generosidade, gentileza e acuidade intelectual e metodológica raras são as marcas de José Carlos Barcellos. Seu gesto medido e sempre cordial, a aproximação discreta e a fala fluente, luminar e convicta prevalecem na memória: são indícios da vida que vence e permanece.

Uma publicação sobre literatura e teologia que vem a público pouco tempo depois de seu falecimento remete-se por si mesma a ele. Sua contribuição a essa área de reflexão e pesquisa é singular, como são também admiráveis suas publicações sobre autores portugueses, espiritualidade ou literatura e homoerotismo. José Carlos doutorou-se duplamente, em Literatura Portuguesa e em Teologia, o que de certa maneira constituiu o batismo legítimo dessa área interdisciplinar em nosso país. Seu trabalho em teologia sistemático-pastoral sobre Julien Green (PUC-Rio, junho de 2000) cumpriu em si mesmo, pela escolha do objeto, o gesto sacramental.

Padrinho amável e atencioso, José Carlos cuidou de modo especial do neófito: motivou colegas, cultivou correspondência e diálogo permanentes, organizou eventos. Deve-se em grande medida ao empenho dele e à sua sempre disposta interlocução o surgimento da Associação Latino-Americana de Literatura e Teologia (Alalite), que ele viu nascer em boa hora, há pouco menos de um ano: em meio à luta corajosa contra o adoecimento do corpo, colheu os frutos gratos da atividade intelectual e humana, para dividi-los conosco, seus pares.

A homenagem a José Carlos, permito-me fazê-la em nome de muitos, no sentido do que ele tantas vezes nos ofereceu: o convite ao diálogo amplo, consciente do drama da salvação e cioso do Amor como senda possível aos que dele participam de forma fraterna.

A carta belíssima que os Amigos de Santiago nos fizeram chegar há pouco, e que certamente nos emocionou a todos, é um presente a mais que, além deles, também José Carlos nos deixa. O diálogo que somos... e do qual José Carlos Barcellos continua participando.

**********************

Santiago de Chile, 11 de março de 2008

José Carlos Barcellos (In Memoriam)

No dia 14 de fevereiro, recebemos a notícia do falecimento de José Carlos. Ainda que alguma informação nós já tivéssemos da doença que o acometia, não deixamos de nos comover pela pressa com que se desenvolveram os acontecimentos. No entanto, mais do que isso, nos comoveu o fato de ter perdido tão rapidamente um amigo com quem contávamos há alguns anos para o desenvolvimento de nossa Associação de Literatura e Teologia (Alalite).

Com efeito, conhecemos José Carlos por ocasião da realização dos seminários de Literatura e Fé, organizados pela Universidade Católica de Chile, circunstância em que nos foi permitido desfrutar de sua qualidade intelectual, da profundidade de suas reflexões, da capacidade de estabelecer vínculos entre teologia e vida, de sua preocupação por incorporar aos estudos em literatura e teologia uma espessura acadêmica de primeiro nível, de seu conhecimento da literatura latino-americana e universal, de sua formação em diversos âmbitos, e, enfim, do carinho fraternal compartilhado.

A perda prematura de José Carlos nos permitiu refletir um pouco sobre o que foi sua vida; pelo menos no que dela se somava a nós nos diversos encontros que pudemos ter: conferências, conversações, reuniões, o belo colóquio realizado no Rio de Janeiro, em abril de 2007, do qual ele foi um importante organizador. E, desta reflexão, concluímos que José Carlos não teve a oportunidade de viver uma vida longa, mas sim contribuiu para acolher os dons que Deus lhe deu - e que ele assumiu como tal - para que ela fosse intensa e para deixar-nos um legado que se traduz em muitos esforços e projetos associados a suas preocupações intelectuais. No entanto, o testemunho mais decisivo sobre sua personalidade e seu caráter nos foi dado pela forma como aceitou sua própria dor; essa atitude tão delicada e prudente, e provavelmente quase alegre, com que assumiu os detalhes de sua enfermidade sem desejar complicar a seus amigos, com a caridade característica dos homens de fé e com a valorização pela vida que parecera não querer desperdiçar nem sequer o último momento disponível.

Como Comissão Organizadora do segundo Colóquio Internacional da Alalite, queríamos que José Carlos tivesse um lugar especial na jornada de inauguração do evento. Isso não será possível formalmente, pois ele já não está conosco. No entanto, prevemos que alguma parte de nosso encontro esteja dedicada a refletir sobre seu trabalho intelectual. Há alguns participantes que estão preparando isso. Postulamos, além disso, que o sinal fundamental de nossa fé nos faz crer que a comunhão dos santos nos permite retomar permanentemente esse dom tão precioso que nos foi dado, que é o da presença. Por isso, nesta simples homenagem, que enviamos aqui do Chile, queremos simplesmente agradecer a presença de José Carlos: sua presença entre nós é algo que o tivemos perto, e sua presença no Reino, que é a casa onde finalmente nos sentimos mais cômodos.

Comissão Organizadora do Segundo Colóquio da Alalite

 

Teologia e literatura – uma definição
Por José Carlos Barcellos

Reproduzimos, a seguir, um texto escrito pelo professor Jose Carlos Barcellos (in memoriam). Ele está disponível no site “E-Dicionário de Termos Literários”, de Carlos Ceia (www.fcsh.unl.pt/edtl/index.htm). O artigo ajuda a compreender historicamente a origem das relações entre teologia e literatura. Confira:

As relações entre a teologia e a literatura são muito complexas e diversificadas e só recentemente têm sido objeto de uma reflexão sistemática. No Ocidente, desde a consolidação da escolástica nos sécs. XII e XIII - com  teólogos do porte de Santo Alberto Magno, São Tomás de Aquino ou São Boaventura – até o séc. XX, a teologia acadêmica quase sempre ignorou completamente a existência e a importância da literatura, não obstante a evidente relevância das questões teológicas nas obras de autores como Dante, Gil Vicente, Camões, Calderón, Milton, Hopkins, Antero de Quental ou Dostoiévski, por um lado e, por outro, o freqüente recurso à linguagem poética por parte de alguns dos mais insignes místicos cristãos, como são João da Cruz ou Santa Teresa de Ávila, ou ainda a manifesta qualidade literária dos textos de oradores sacros como Vieira ou Bossuet.

Ao longo do séc. XX, registra-se um paulatino e crescente interesse pelo estudo das relações entre teologia e literatura, tanto por parte de teólogos, quanto por parte de críticos literários. Para os primeiros, a razão fundamental pela qual começam a se interessar profissionalmente pela literatura (e também por outras artes) parece decorrer da desintegração da linguagem tradicional da fé e da teologia, na esteira da assim chamada crise da metafísica ocidental. Efetivamente, a crise do racionalismo idealista – desencadeada pela obra daqueles pensadores a quem Paul Ricoeur chamou de “mestres da suspeita”  (Marx, Nietzsche e Freud) e posteriormente aprofundada por influência de Heidegger e do existencialismo – constituiu um sério golpe na tradição do pensamento metafísico, sobre o qual a teologia se veio apoiando sistematicamente, pelo menos desde a Idade Média. Eis por que a teologia atual se vê obrigada a recorrer a “linguagens de empréstimo”, como as das ciências humanas, da política, da arte ou da literatura, para elaborar sua própria linguagem, fenômeno este analisado por Michel de Certeau (1969) e Henrique Cláudio de Lima Vaz (1986).

Para críticos e teóricos da literatura, por sua vez, o interesse pelas relações entre esta e a teologia decorre do esgotamento das metodologias excessivamente formalistas de abordagem do fenômeno literário e da conseqüente necessidade de se reintroduzir no âmbito dos estudos literários a preocupação com a comunicação de uma mensagem, com uma particular percepção das experiências humanas, como núcleo irredutível de toda e qualquer obra literária. Tratar-se-ia, pois, nessa perspectiva, de um aspecto daquilo que António Blanch (1995) chama de recuperação do “valor homem” em literatura.
Historicamente, três obras foram muito importantes na abertura e consolidação desse campo interdisciplinar de estudos: Religiöse Gestalten in Dostojewskijs Werk, de Romano Guardini (1933), Histoire littéraire du sentiment religieux en France, de Henri Bremond (1915ss) e La religion de Péguy, de Pie Duployé (1965). A primeira delas é fruto dos cursos que o grande teólogo ítalo-alemão ministrou, a partir de 1923, na universidade de Berlim, na cadeira de Weltanschauung (“visão de mundo”) católica. Sua opção por lecionar essa disciplina a partir da literatura – num ambiente universitário predominantemente protestante ou secularizado – é profundamente sintomática da busca de uma nova linguagem que assegurasse a inteligibilidade e comunicabilidade dos conteúdos propriamente teológicos. A obra do padre Bremond, por sua vez, é um monumento de pesquisa e erudição, que muito contribuiu para dar visibilidade e respeitabilidade intelectual, nos meios acadêmicos do séc. XX, aos autores espirituais do passado, abrindo caminhos, assim, para o trabalho de outros estudiosos, como foi o caso, em Portugal, de José Sebastião da Silva Dias (1960), por exemplo. A tese de doutoramento de Pie Duployé, apresentada em Estrasburgo, teve entre outros méritos o de levantar pioneiramente a questão do estatuto epistemológico da literatura para a teologia, a ratio humaniorum litterarum theologica, nas palavras do autor.

Em 1969, o grande teólogo e historiador da teologia Marie-Dominique Chenu retomou a questão formulada por Duployé e propôs que se considerasse literatura como “lugar teológico”, isto é, como uma fonte de elementos para o trabalho teológico (“lugares teológicos” são, entre outros, a Bíblia, os concílios, a Patrística e também a razão natural, o pensamento de filósofos e juristas etc.). Essa posição encontrou recepção favorável em Hervé Rousseau (1976), por exemplo, mas também suscitou a oposição de um Jean-Pierre Jossua (1985), que aponta para o risco de se considerar a literatura, nesse caso, simplesmente como uma fonte a mais de dados previamente disponíveis alhures para a teologia e de não se atentar para aquilo que somente a literatura é capaz de dizer, ou pelo menos, é capaz de dizer melhor que outros discursos. Quanto a esse particular, observa-se em todo o debate a preocupação constante com o problema do mal. De fato, essa questão parece polarizar a atenção de muitos teólogos, quando estes falam da importância da literatura para a teologia ou daquilo que só a literatura seria capaz de dizer. Diante da presença avassaladora do mal, tal qual experienciada ao longo do séc. XX, eles se dão conta  da insuficiência e irrelevância da linguagem teológica tradicional e, inversamente, da profundidade e comunicabilidade dos grandes painéis literários sobre o mal (entre outros citem-se os nomes de Edgar Allan Poe, Emily Brontë, Julien Green, Albert Camus, Georges Bernanos, Franz Kafka e, sobretudo, Dostoiévski).

Mais recentemente, Adolphe Gesché (1995), professor de Lovaina, também se ocupou das relações entre teologia e literatura. Gesché defende a tese de que, para cumprir eficazmente seu papel, a teologia deveria eleger a antropologia cultural como interlocutora privilegiada, pois “torna-se impossível, de fato e de direito, falar corretamente de Deus se não se conhece o homem”. A antropologia seria, assim, a epistemologia da teologia, o lugar de sua verificabilidade. Nessa perspectiva, Gesché – para quem a teologia é a ciência dos limites do humano ou do seu excesso – postula a constituição de uma antropologia literária, entendida como a compreensão do homem construída pela literatura, como disciplina com a qual a teologia precisaria dialogar, pois é na literatura que se encontra a verdade mais profunda do ser humano
Dos grandes teólogos do séc. XX, aquele cuja obra dá maior relevo às questões literárias é, sem dúvida, o suíço Hans Urs von Balthasar. Reconhecendo que a tradição teológica ocidental privilegiou as idéias de verdade e de bem, mas ignorou ou negligenciou gravemente a de beleza, von Balthasar procurou elaborar uma teologia que reequilibrasse os três transcendentais da filosofia clássica, devolvendo à estética o lugar que lhe cabe ao lado da ética e da lógica. Por isso mesmo, sua opera magna é uma densa e erudita trilogia, que se propõe a apresentar a teologia católica pensada à luz do belo (a estética teológica), do bom (a dramática teológica), e do verdadeiro (a lógica teológica). Para tanto, o autor recorre inúmeras vezes, entre outras fontes, à literatura ocidental, desde os gregos até nossos dias, literatura esta que ele conhecia em profundidade e freqüentemente nas línguas originais. Para von Balthasar, o belo é a maneira segundo a qual o bem é percebido pelo homem como verdadeiro (observe-se que, em alemão, percepção é Wahrnehmung, isto é, “apreensão do verdadeiro”). Caberia, portanto, ao teólogo, buscar investigar como a literatura – e também a música e as artes plásticas – apreende esteticamente a verdade do cristianismo. É esse o projeto que ele desenvolve ao longo de vários volumes e que vem alcançando, nos últimos anos, grande ressonância nos meios teológicos de diversos países, à medida que sua obra vai sendo traduzida e estudada.
No campo da crítica literária propriamente dita, merece especial relevo a extensa obra do belga Charles Moeller, Littérature du XXe siècle et christianisme (1953ss). Nela, estudam-se muitos dos principais escritores do século, cristãos e não-cristãos, na perspectiva das relações de suas vidas e obras com o cristianismo. Ainda que a metodologia empregada tenha envelhecido muito diante dos notáveis desenvolvimentos da teoria e da crítica literárias das últimas décadas, continua a ser uma obra de referência obrigatória e muitas de suas conclusões permanecem válidas.

Em Portugal e no Brasil, têm vindo a lume recentemente algumas obras importantes que estudam destacados nomes das literaturas de língua portuguesa em relação com a teologia. Podem-se citar, entre outros, os trabalhos de Antonio Manzatto (1994), sobre Jorge Amado; de Heloísa Vilhena de Araújo (1996) e Paulo César Carneiro Lopes (1997), sobre Guimarães Rosa; de Waldecy Tenório (1996), sobre João Cabral de Melo Neto: de Alcir Pécora (1994), sobre Antônio Vieira, e de Maria Joaquina Nobre Júlio (1997), sobre Vergílio Ferreira.

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