Edição 251 | 17 Março 2008

A fé poética dos crentes literários

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Na opinião do doutor em Literatura Rafael Camorlinga Alcaraz, literatura e teologia podem colaborar em pé de igualdade, embora com incumbências e objetivos específicos

“Entre os escritores, assim como entre outros profissionais, há crenças de todo tipo. O que eles têm em comum, entre si e com os leitores, é a fé poética que os torna ‘crentes literários’.” A reflexão é do mexicano Rafael Camorlinga Alcaraz, que reside no Brasil desde 1985. Licenciado e mestre em Teologia pela Universidade Lateranense, de Roma, e licenciado em Lingüística pela UFPR e UFSC, é também doutor em Literatura pela UFSC e pela UNAM, do México. Atualmente, é professor na graduação e na pós-graduação da UFSC, nas disciplinas de língua espanhola e literatura latino-americana e na área de literatura comparada, tendo como linha de pesquisa a Teopoética – literatura e teologia. Na entrevista que concedeu por e-mail para a IHU On-Line, Camorlinga afirma: “ainda que a preocupação mor da teologia seja com o verum (verdadeiro), ela não pode abrir mão do pulchrum (belo), sob pena de tornar-se ‘feia’; nem a literatura, voltada para a estética, pode desdenhar da ética, pois se tornaria apenas ‘cosmética’”. 

IHU On-Line – Como o senhor descreve a relação entre literatura e teologia no passado e nos dias atuais?
Rafael Camorlinga Alcaraz
- Num passado remoto, na antiguidade, inexistia a preocupação por separar mythos e logos (mito–discurso racional). A mitologia explicava tudo, apelando para Deus ou para deuses. Porém, para dizer o “indizível” e nomear o “inominável”, as narrações tiveram que assumir formas, às vezes, altamente literárias. São emblemáticos a este respeito os textos bíblicos, do Gênese ao Apocalipse, passando pelos Evangelhos que compendiam os ditos e feitos de Jesus Cristo, poeta por excelência (Paulo Leminski).  

Durante o longo período medieval predominou, inconteste, a teologia. A própria filosofia não era mais que ancilla (serva) daquela. A linguagem cunhada então era precisa e objetiva, longe da ambigüidade e subjetividade próprias do discurso literário.

No entanto, como o ser humano “não vive só de pão”, mas também de ficções, surgiram os hinos litúrgicos, a poesia mística e os escritos hagiográficos que combinaram o arroubamento místico com a inspiração poética.
A reação contra a Idade Média, ensejada pelo Iluminismo, acarretou a desconfiança perante os escritos teológicos e inaugurou o que viria a chamar-se “secularização”. Aproximamo-nos, assim, da época atual em que as ciências teológica e literária, ambas humanas, podem colaborar em pé de igualdade, embora com incumbências e objetivos específicos. 

IHU On-Line – O senhor considera que essa relação entre literatura e teologia pode ser considerada pacífica?
Rafael Camorlinga Alcaraz
- Remetendo à questão anterior, o movimento laicista e a conseqüente secularização delimitaram os campos. Estes são teoricamente estanques, mas, na prática, ficam permeáveis às incursões recíprocas. Ainda que a preocupação mor da teologia seja com o verum (verdadeiro), ela não pode abrir mão do pulchrum (belo), sob pena de tornar-se “feia”; nem a literatura, voltada para a estética, pode desdenhar da ética, pois se tornaria apenas “cosmética”.

Tendo ambas como denominador comum o ser humano e utilizando-se do mesmo instrumento, isto é, a linguagem, para atingi-lo, as interferências tornam-se inevitáveis. Daí a possibilidade de cooperação ou o risco de conflito, “a relação tensa entre teologia e literatura” preconizada por Kuschel.

IHU On-Line – Como entender um certo distanciamento que acontece entre teólogos e críticos literários?
Rafael Camorlinga Alcaraz
- O distanciamento, e até desconfiança recíproca, entre os estudiosos da teologia e da literatura pode considerar-se como resultado do relacionamento entre as respectivas áreas do saber. O de se considerar “dono da verdade”, seja em nome da revelação sobrenatural, seja em virtude da inspiração artística, pode conduzir a um isolamento empobrecedor.
É possível, no entanto, haver uma sincera preocupação com a pureza teológica, por uma parte, e artística, por outra. Além do que foi dito anteriormente, cabe assinalar as exigências dos respectivos cânones e a fé que eles alicerçam: fé teológica e fé poética. Enquanto a primeira prima pela exatidão e exige acatamento onímodo, a segunda pede apenas a “suspensão da descrença”, sem mais injunções que a perda da fruição estética.
Em suma, não é de se estranhar que a tensão detectada entre teologia e literatura se reflita nos respectivos expoentes. Felizmente, as tentativas bem-sucedidas em prol do encontro “dialógico” são freqüentes. Temos R. Guardini,  do campo teológico. Já do lado oposto basta lembrar Jorge Luis Borges,  que detonou os limites entre teologia e literatura ao afirmar: “todo homem culto é teólogo, e para isso não é necessária a fé”.

IHU On-Line – Qual é o lugar da Igreja nessa complexa relação entre literatura e teologia?
Rafael Camorlinga Alcaraz
- Falar da Igreja (católica) quando o assunto envolve a teologia, é compreensível. Ela se considera a legítima herdeira da revelação bíblica, acrescida e interpretada pela Tradição e pelo Magistério. É a Igreja que, mediante o Papa e os Bispos, administra o depositum fidei (depósito da fé). E, uma vez que está em jogo nada mais nada menos que a salvação eterna do cristão, pois “fora da Igreja não há salvação” (extra Ecclesiam nulla salus), a autoridade incumbida de tamanha responsabilidade não pode falhar: é infalível. Daí a intransigência e a intolerância em questões que ela julga essenciais.
Estudiosos do fenômeno literário, a exemplo de Alceu Amoroso Lima,  Octavio Paz e Northrop Frye,  associam a inspiração literária, sobretudo a poética, ao impulso religioso. Mas esse impulso criador, segundo Paz, ultrapassa os limites impostos pelas igrejas. Estas, aliás, não têm direito de administrar ou de fiscalizar as criações do espírito, que “sopra onde quer” (João 3, 8): dentro, fora ou até contra a instituição.

IHU On-Line – Qual é a sua opinião sobre a insinuação de Karl-Joseph Kuschel, um teólogo católico, de que Deus é um péssimo princípio estilístico?
Rafael Camorlinga Alcaraz
- Ao que tudo indica, a questão visa a indagar se a literatura pode ser reduzida ao papel de meio para atingir determinado objetivo ou bandeira para lutar em prol de uma causa. A resposta do crítico alemão é contundente: não. E se a causa for divina? Idem. A obra a serviço da religião facilmente pode acabar engrossando o volume de escritos apologéticos ou parenéticos, de escasso ou nenhum valor literário. Nesse sentido, aponta G. Benn, o primeiro dos autores citado por Kuschel: “quando a gente se torna religioso, abranda a expressão... Dá-se o afrouxamento do estilo”. Análogo ponto de vista é mantido também por outros escritores: “não se faz boa literatura com bons sentimentos” (André Gide).

Entretanto, se a discussão remete ao debate em torno à literatura engajada, a resposta pode assumir diversos matizes. Surge, de um lado, “a arte pela arte”, tendo como resultado obras alheias aos avatares da Humanidade; é o caso da literatura fantástica. No outro extremo, está a “literatura engajada”, geralmente comprometida com as questões sociais. Precisamos admitir que ambas as tendências produzem obras-primas. Contra os defensores ferrenhos do “fundamentalismo estético”, costuma aduzir-se a dificuldade de se equilibrar “em cima do muro”. Afinal, o que é que realmente interessa? “Nada disso é importante”, responde Sartre. E acrescenta: “O mundo pode passar sem literatura. Mas pode passar ainda melhor sem o homem”.

IHU On-Line – Como aparece na academia o diálogo entre literatura e teologia, principalmente na América Latina e no Brasil?
Rafael Camorlinga Alcaraz
- Entre as vozes que inauguraram o diálogo, abrangendo a literatura ocidental, estão R. Guardini, antes mencionado, e Ch. Möller. Ambos são teólogos e homens da Igreja, mas com sólidos conhecimentos e rara sensibilidade perante o universo literário. Como interlocutores do mundo laico temos, entre outros, os autores que abordam a Bíblia “como literatura”; merece especial destaque o crítico N. Frye. Cabe também mencionar Deus, um delírio, de Richard Dawkins.  É um livro assaz polêmico, mas contribuirá certamente para o diálogo, e até mesmo o debate, ao confrontar a religião com a ciência.
No que se refere à América Latina, constata-se que ainda não há um “verdadeiro diálogo entre literatura e teologia” (A.Magalhães). “Matéria-prima”? A abundante produção literária tratando assuntos direta ou indiretamente relacionados com a religião. O interesse das instituições religiosas nesse “garimpo” literário é ainda pouco expressivo.

Como eventos significativos, podemos citar o encontro regional promovido pelo Celam (Consejo Episcopal Latinoamericano) no fim do século passado: “Agoniza Dios? – La problemática de Dios en la novela latinoamericana” e “Diálogos entre literatura, estética y teología”, tema de “Terceras Jornadas”, celebradas na UCA (Universidade Católica Argentina), em 2007.
No Brasil, cabe assinalar os escritos: “Literatura e Espiritualidade”, de José C. Barcellos;  “Teologia e Literatura”, de Antonio Manzatto;  e “Deus no espelho das palavras”, de Antonio Magalhães. Como evento de importância está o “Primeiro Colóquio Latino-americano de Literatura e Teologia”, celebrado no Rio de Janeiro em abril de 2007, com a participação de representantes de outras nações de América do Sul. Na ocasião foi fundada a Alalite (Associação Latino-americana de Literatura e Teologia). 

A teologia não tem o status de disciplina nas universidades públicas brasileiras. Na UFSC, ela entra no bojo dos estudos filosóficos e literários do curso de Pós-Graduação. Além disso, a partir de 2006, funciona nela o Nutel (Núcleo de teologia e literatura), voltado para a pesquisa da produção literária na vertente metafísica.

IHU On-Line – Para o senhor, a relação entre literatura e teologia dá lugar também à questão do ceticismo?
Rafael Camorlinga Alcaraz
– Geralmente, os temas abordados pelos estudos teo-literários lidam com a crença e seu reverso: a descrença ou a “anti-crença”. As obras que se ocupam destes temas são as que atraem o interesse de estudiosos e leitores em geral. Já se olharmos para o credo dos escritores poderemos nos deparar com algumas surpresas. Não é raro constatar que a descrença ou agnosticismo assumidos teoricamente pelos escritores são negados pelo que eles expressam “literariamente”. Bipolaridades desse tipo constatam-se em escritores como Rulfo  e Borges. A indiferença religiosa ou o ceticismo professado por eles contrasta com o que dizem e fazem os personagens dos seus escritos. Nada demais se lembramos que, com alguma freqüência, o autor torna-se marionete de seus personagens.
Não é incomum que os escritores se assumam como gnósticos ou agnósticos, portanto, aproximando-se ao ceticismo. Segundo Harold Bloom,  “a religião da literatura, na prática, é o gnosticismo”, definido como “conhecimento que libera a mente criativa dos ditames da teologia, do historicismo e de qualquer divindade que se anteponha àquilo que existe de mais criativo no eu”. Em suma, entre os escritores, assim como entre outros profissionais, há crenças de todo tipo. O que eles têm em comum, entre si e com os leitores, é a fé poética que os torna “crentes literários”.

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