Edição 251 | 17 Março 2008

A literatura como um campo fértil de diálogo com a teologia

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IHU Online

Literatura e teologia podem e devem trabalhar juntas, afirma a teóloga Maria Clara Bingemer

Em entrevista concedida por e-mail para a IHU On-Line, a teóloga e professora da PUC-Rio Maria Clara Bingemer analisa de forma positiva a relação entre teologia e literatura. Para ela, o embate entre crença e ceticismo fomenta, para o futuro próximo, um fértil caminho para o diálogo teopoético ou teoliterário. “Sobretudo agora que estamos em tempo de novos ateísmos”, explica. Maria Clara acredita que a afirmação central do Cristianismo de que “Deus é amor”, presente da Primeira Carta de João, é um excelente princípio estilístico. “O que, na história da humanidade, seduziu mais a literatura como tema do que o amor em todas as suas formas?”, pergunta ela.

Maria Clara Bingemer é graduada em Jornalismo, mestre em Teologia pela PUC-RIO e doutora em Teologia Sistemática pela Pontifícia Universidade Gregoriana, Roma. Atualmente é a decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio. É autora de, entre outros, Simone Weil - A força e a fraqueza do amor (Rio de Janeiro: Rocco, 2007).

IHU On-Line – Como podemos entender as relações entre literatura e teologia, tanto no passado quanto hoje?
Maria Clara Bingemer
- Antes era impensável aproximar teologia de literatura, metodológica e conceitualmente, assim como em termos de conteúdo. Havia um fechamento das disciplinas em si mesmas e a literatura que, teoricamente, lidava com a ficção e a verossimilhança não poderia nunca pensar em aproximar-se da teologia, que lidava com a verdade e a afirmação dogmática.  Hoje, com o giro copernicano que houve no Concílio Vaticano II , com a valorização das realidades terrestres, com a colocação do humano no centro do pensar teológico, assim como com a consideração da experiência como um convite a fazer teologia, a literatura passou a ser vista como um campo fértil de diálogo com a teologia. A prova disso são os numerosos trabalhos acadêmicos envolvendo as duas áreas do saber que têm sido publicados em diversos periódicos científicos, a quantidade de pessoas que trabalham nesta área, bem como o esforço de elaborar e discutir princípios metodológicos que fazem interagir as duas disciplinas. Ou seja, hoje em dia, literatura e teologia podem sim e, mais do que isso, devem trabalhar juntas.

IHU On-Line – Em sua opinião, é tranqüila a relação entre as duas?
Maria Clara Bingemer
- Até o momento, são relações razoavelmente pacíficas, embora não deixe de haver conflitos e interações não tão bem-sucedidas entre as duas. A literatura é amiga da vida, enquanto a Teologia trabalha com a inteligência da fé que se autocompreende como experiência de vida e vida em abundância. O cristianismo, além disso, tem imensa força cultural e foi o configurador da matriz civilizatória do Ocidente, dentro da qual se inscreve a literatura ocidental e mesmo a literatura tout court. O que sai da imaginação dos escritores e se transforma em livro, em matéria literária, pode inspirar e realmente inspira os teólogos. Haja vista que vários teólogos escreveram e pensaram sobre obras e autores literários. Cito dois exemplos, um europeu, Hans Urs von Balthasar, que escreveu a memorável obra Le chrétien Bernanos, e um brasileiro, José Carlos Barcellos e todo o seu excelente trabalho sobre a obra de Julien Green .  E há muitos outros. Dostoiévski, por exemplo, é um dos mais trabalhados autores em teses de teologia na Europa hoje em dia. 

IHU On-Line – Como você vê e interpreta o distanciamento que há entre teólogos e críticos literários?
Maria Clara Bingemer
- Isto sempre houve. O crítico literário não é um criador, mas, como a palavra mesma o diz, um crítico. Ele não elabora um conteúdo, uma obra novos, mas elabora uma crítica, uma apreciação sobre a obra de outro. Assim como há distanciamento entre autores literários e críticos literários, também o há com os teólogos, que no fundo são criadores de linguagem, elaboradores de conteúdos postos em palavras. No entanto, creio que, se houvesse uma respeitosa aproximação, muito teriam a contribuir um para o trabalho do outro. Os críticos literários são conhecedores profundos e sérios dos conteúdos literários e podem contribuir com sua crítica para um maior conhecimento dos teólogos das obras literárias. Mesmo se os críticos têm um foco que não corresponde ao da teologia, o diálogo da teologia com o ateísmo, o agnosticismo e o pluralismo, tem acontecido continuamente desde o Concílio Vaticano II e deve só progredir e não voltar atrás. 

IHU On-Line – Você acredita que a Igreja é lembrada de forma positiva ou negativa quando o assunto é a relação entre literatura e teologia?
Maria Clara Bingemer
- Muito positivo não é, já que a Igreja criou o Syllabus,  onde colocou obras literárias de grande valor. Ou seja, a Igreja freqüentemente é lembrada como tutela, obstáculo, patrulhamento que impede a liberdade da criação literária. Há que lembrar, no entanto, que o Magistério da Igreja é a instância definidora das verdades de fé que constituem o credo dos fiéis católicos (estamos falando de Igreja Católica), mas é uma das instâncias que formam o tecido da tradição. Ao lado dela, estão o sentir comum dos fiéis, a Patrística, a liturgia, a teologia. Portanto, ao haver essa rejeição à Igreja como um todo, é preciso esclarecer de que segmento da Igreja se fala. A Igreja é o povo de Deus, e não só o Magistério. E, se em algum momento da história o Magistério agiu de uma determinada maneira por acreditar que aquela era a atitude correta a tomar para proteger a fé dos católicos, em muitas outras ocasiões pediu perdão e reviu posições, como no caso de Galileu, Darwin, Lutero etc. Isso nunca é lembrado e me parece injusto. 

IHU On-Line - Karl-Josef Kuschel insinua que Deus é um péssimo principio estilístico. Você concorda?
Maria Clara Bingemer
- Não sei o que o respeitadíssimo professor Kuschel entende por isso.  Creio que deve ir na linha do que diz sobre a teopoética, no sentido de que não é “outra” teologia, ou a substituição do Deus de Jesus Cristo pelo dos diferentes escritores e poetas, mas a questão da estilística de um discurso sobre Deus que seja atual e adequado (cf. As escrituras e os escritores, 1999). De minha parte, creio que a afirmação central do cristianismo de que “Deus é amor” da Primeira carta de João, é um excelente princípio estilístico. O que, na história da humanidade, seduziu mais a literatura como tema do que o amor em todas as suas formas?  Por isso, creio que nesse sentido, sim, Deus é um excelente princípio estilístico. No entanto, reconheço que deveria conhecer melhor a obra de Kuschel para responder mais adequadamente. 

IHU On-Line – A universidade abre espaço para o diálogo entre literatura e teologia? Como está a pesquisa nessa área, pensando no caso da América Latina e do Brasil?
Maria Clara Bingemer
- Sim, enfaticamente sim. Creio que mais do que nunca na América Latina e no Brasil essa área está crescendo. Haja vista a fundação da Alalite, que é uma associação de pesquisadores que trabalham nessa linha e nessa interação. Volta e meia sou convidada para participar em bancas de teses que versam sobre Teologia e Literatura, a partir das obras de escritores do porte de Saramago, Machado de Assis, Lezama Lima  etc. Creio que cresce a olhos vistos esse diálogo. Pessoalmente dou cada ano, com a professora Eliana Yunes , de literatura, da PUC-Rio, um curso de pós-graduação para estudantes de teologia e literatura. Já demos um sobre Adélia Prado e Manuel Bandeira,  outro sobre Guimarães Rosa, outro sobre Clarice Lispector,  outro sobre os contos de fadas e, neste último ano, 2007, sobre Machado de Assis. Publicamos Adélia e Bandeira. Está para sair Guimarães e se Deus quiser, sai esse ano, para aproveitar o centenário, o de Machado de Assis. Isso é apenas um exemplo do que se pode fazer. Seguramente há muito mais sendo feito e essa parceria só tende a crescer. 

IHU On-Line – O ceticismo também aparece no diálogo entre literatura e teologia?
Maria Clara Bingemer
- Após trabalhar Machado de Assis, eu diria que sim. E muitas vezes há o embate entre crença e ceticismo, como se poderia ver em Camus,  Dostoiévski  e Saramago inclusive. Creio que aí reside, para o futuro próximo, um fértil caminho para o diálogo teopoético ou teoliterário. Sobretudo agora que estamos em tempo de novos ateísmos,  com as obras de Richard Dawkins, André Comte Sponville,  entre outros.

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