Edição 419 | 20 Maio 2013

Dante, poeta do Absoluto e das metáforas divinas

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Márcia Junges | Tradução de Vanise Dresch

A filosofia em língua italiana manteve uma dívida com Dante, que lhe deu as primeiras grandes obras, afirma Didier Ottaviani. O Poeta assinala os “sobressaltos” do medievo rumo ao seu término e anuncia o Renascimento em obras como A Divina Comédia

“Como ‘dizer’ o divino se este não pode ser apreendido a partir das categorias da linguagem? Esta questão está presente não só no pensamento de Santo Agostinho, mas também na tradição mística, que tentou apreender Deus por meio de metáforas, correndo sempre o risco de que a teologia se reduza a uma poesia e perca assim a dimensão científica que ela reivindica muito vigorosamente no fim da Idade Média, por exemplo, no pensamento de Tomás de Aquino”. A reflexão é do filósofo francês Didier Ottaviani, na entrevista que concedeu por e-mail à IHU On-Line. “As metáforas da teologia estão presentes em Dante, como, por exemplo, a assimilação de Deus a uma luz transcendente, mas adquirem para eles um sentido diferente, uma vez que é um poeta. De fato, a linguagem poética não é da mesma natureza que a dos outros homens, pois, para Dante, o poeta possui uma dimensão profética. Sua linguagem não é um simples meio de significação, mas um procedimento de revelação”. Para Ottaviani, Dante é um verdadeiro “poeta do Absoluto” não porque o entrega, “mas porque nos convida a buscá-lo com ele”. E completa: “Se a linguagem racional não pode apreender o divino por seus conceitos, que nunca são capazes de conter em seu bojo a infinidade de Deus, então outra via deve ser buscada, aquela de uma divinização do homem pela elevação de sua palavra”.

Didier Ottaviani leciona na Escola Normal Superior de Lyon, na França, e é membro do Centro de Estudos em Retórica, Filosofia e História das Ideias (CERPHI-CNRS-UMR). Sua tese aborda a filosofia de Dante, examinando o estatuto metafísico das mutações do pensamento do poeta entre o Convívio e A Divina Comédia. Suas pesquisas centram-se no pensamento da Idade Média, sobretudo na relação da Medicina com a Filosofia, bem como a influência dos filósofos árabes no pensamento latino. É autor de, entre outros, Premières leçons sur les trois Lettres d'Épicure (PUF, Paris, 1998), La philosophie de la lumière chez Dante. Du Convivio à la Divine comédie (Honoré Champion: Paris, 2004) e L'humanisme de Michel Foucault, Le Sens Figuré (Paris, 2008).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais são as particularidades da poesia de Dante?

Didier Ottaviani – A poesia de Dante  apresenta-se, antes de tudo, como uma busca de pureza marcada por uma evolução entre as obras da juventude e as da maturidade. Vita nova, as canções e sonetos de Le Rime, reunidos após a morte de Dante, são tributários da influência dos trovadores provençais, opondo à retórica pesada dos poetas anteriores uma poesia sutil, baseada na busca do ritmo e no trabalho das metáforas. Aquilo que ele chama, no Purgatório, de “doce estilo novo” (dolce stil novo) desenvolve uma poesia que permite expressar, sob o ditado do amor, sentimentos pessoais autênticos pela Dama, que pressupõem um trabalho sobre a língua e sua rítmica. Os trovadores se definiam a si mesmos como “ourives” da linguagem, inventando uma língua capaz de expressar a doçura do amor cortês. Entretanto, embora não a renegue totalmente (Dante presta homenagem ao trovador Arnaud Daniel, no Purgatório), Dante se afasta pouco a pouco dessa poesia cortês para tentar alcançar através de seus versos um nível de expressão mais elevado, dando progressivamente à Dama um novo valor. Nos versos que acompanham as reflexões de Il Convivio, cuja estrutura é inspirada na Consolação da Filosofia, de Boécio , o amor é aquele da sabedoria, numa tentativa de alcançar uma verdadeira filo-sofia, e a Dama assume então a figura da filosofia. Porém, não resta dúvida de que é na Divina Comédia que Dante alcança a sua mais inovadora dimensão poética, pois a Dama deixa de ser a figura cortês dos trovadores e aquela da filosofia para se tornar uma mediação rumo ao Amor mais elevado, dirigindo o homem para Deus, Amor verdadeiro. 

Existem assim três figuras de Beatriz em Dante: a Dama do amor cortês em Vita nova; a Dama filosofia em Il Convivio; e a Dama mensageira de Deus na Divina Comédia. Se a rítmica reivindicada pelo Dolce stil novo e as interrogações filosóficas de Il Convivio se mantêm presentes no Poema Sagrado, elas não se limitam mais à celebração cortês ou intelectual, pois o amor sensível ou racional não é mais do que um pálido reflexo do Amor divino a ser louvado. A poesia lírica torna-se um meio de alcançar a transcendência, e a musicalidade da palavra se metamorfoseia então numa imagem do canto mais perfeito, aquele do coração dos anjos, fazendo do poeta um profeta e um vidente.

IHU On-Line – Em que consiste o poder da linguagem neste autor?

Didier Ottaviani – Compartilhando a ideia clássica, desde a Antiguidade, de que a linguagem é própria do homem, Dante lhe atribui, contudo, um papel maior, que vai além da simples função de comunicação. Por certo, o poder primordial da linguagem é traduzir e comunicar a outrem o pensamento, por exemplo, sob a forma das sentenças da língua lógica. Todavia, a reflexão sobre a diversidade das línguas que Dante faz em De vulgari eloquencia permite estabelecer a diferença entre a linguagem, capacidade de expressão possuída por todos os homens, e as línguas, que são as manifestações sensíveis, particulares e históricas da linguagem (notemos que ele será o autor de uma categorização de certas línguas romanas em função da maneira de dizer “sim” em cada uma delas, diferenciando desse modo a língua de sì (italiano), a língua de oil (francês) e a língua de oc (provençal)). O latim, enquanto língua dos antigos, estruturada de acordo com uma gramática estrita e imutável, permite forjar silogismos universais e manifesta o poder da demonstração. Mas se Dante escolheu escrever sua obra mais importante em italiano foi por considerar que o uso do latim não lhe era natural. Embora não fosse uma língua totalmente morta naquela época, o latim não estava realmente vivo, não permitia dizer o novo, a novidade, que o Poeta buscou desde suas primeiras obras. A língua e a vida – consideradas como surgimento perpétuo de novidade – mantêm relações muito estreitas, pois, para o homem, viver é falar, e a linguagem não é uma ferramenta de comunicação, mas a “causa do ser” dos indivíduos.

Parlar materno

Para Dante, evocar a “língua materna”, o falar materno, não é uma simples metáfora: os pais são certamente as causas biológicas daquilo que somos, mas a língua é outra causa, talvez ainda mais importante. Para quem quer ser poeta e filósofo, é então necessário voltar-se para a língua vernácula, o parlar materno, que ele chama de “supremamente próximo”, para poder dizer-se, expressar-se plenamente. A ideia de “expressão” deve ser aqui tomada no sentido próprio, pois se trata de “fazer sair”, de desdobrar o que está contido em nós mais profundamente, de fazer surgir na exterioridade o que é mais essencial no indivíduo. O poder da linguagem está, portanto, em última instância, no fato de permitir a autorrealização, de constituir a nossa subjetividade viva. 

IHU On-Line – Que relações podem ser estabelecidas entre a teologia e a linguagem a partir da Divina Comédia?

Didier Ottaviani – A teologia sempre se interrogou sobre o status da linguagem, na medida em que herdou a ideia, de origem plotiniana, de que o Uno é separado e inefável, e, por isso, não pode ser circunscrito por palavras, sendo estas necessariamente limitadas. Como “dizer” então o divino se este não pode ser apreendido a partir das categorias da linguagem? Esta questão está presente não só no pensamento de Santo Agostinho , mas também na tradição mística, que tentou apreender Deus por meio de metáforas, correndo sempre o risco de que a teologia se reduza a uma poesia e perca assim a dimensão científica que ela reivindica muito vigorosamente no fim da Idade Média, por exemplo, no pensamento de Tomás de Aquino . O trajeto da Divina Comédia é uma elevação progressiva do pensamento filosófico, simbolizado por Virgílio, que é o guia do Poeta nos dois primeiros reinos, à teologia, representada pela figura de Beatriz e depois por São Bernardo. 

As metáforas da teologia estão presentes em Dante, como, por exemplo, a assimilação de Deus a uma luz transcendente, mas adquirem para eles um sentido diferente, uma vez que é um poeta. De fato, a linguagem poética não é da mesma natureza que a dos outros homens, pois, para Dante, o poeta possui uma dimensão profética. Sua linguagem não é um simples meio de significação, mas um procedimento de revelação; ela não se apresenta num sentido literal, mas em múltiplos sentidos simbólicos que permitem o acesso a sentidos ocultos, os quais não podem ser expressos pelas palavras comuns. Nesse sentido, poderíamos dizer sem exagero que a verdadeira teologia deixa de ser, para Dante, um discurso racional como podia ser em Tomás de Aquino, mas, ao contrário, vai além da filosofia, que não pode ser suficiente para alcançar o divino: ela é poesia. 

Poesia metamorfoseada

No entanto, não se trata mais da mesma poesia de Vita nova ou de Le Rime, obras de sua juventude: trata-se de uma poesia metamorfoseada, de uma transfiguração da língua em que a musicalidade se sobrepõe ao sentido. O poeta é, para Dante, o autor verdadeiro, um criador de laços entre o terrestre e o celeste, que ele já evocava em Il Convivio, em que definia o autor verdadeiro como aquele que interliga as vogais. Estas vogais – às quais, bem mais tarde, Arthur Rimbaud, o “vidente”, dedica um poema – e seu jogo vão levar a uma musicalidade nova, e, se a linguagem pode apreender o divino, é antes de tudo por ser capaz de desenvolver um ritmo, uma musicalidade, que constitui a imagem humana da perfeição e da musicalidade paradisíaca. O termo “teologia” deixa de ter, portanto, o sentido que possuía na teologia racional de Tomás de Aquino e torna-se uma maneira de restituir um discurso sobre o divino que excede a razão lógica para entrar numa mística do ritmo.

IHU On-Line – Em que medida Dante aprendeu o divino através da linguagem?

Didier Ottaviani – Dante já está inserido no espírito do Renascimento: compreendeu que o artista não era o produtor, o artesão ao qual o pensamento medieval o havia reduzido; ele é um autêntico criador e, nesse sentido, imagem de Deus na terra. Se a linguagem racional não pode apreender o divino por seus conceitos, que nunca são capazes de conter em seu bojo a infinidade de Deus, então outra via deve ser buscada, aquela de uma divinização do homem pela elevação de sua palavra. O homem não foi criado à imagem de Deus no sentido em que teria uma estrutura intelectual que o assimila ao que se denomina, desde Aristóteles, o Intellect Agent, mas por ser capaz, graças à atividade de sua linguagem, de ser um espelho da atividade divina. A divindade do homem não é uma aquisição, um dado que qualquer homem possuiria sem fazer nada, mas, sim, uma conquista que cada indivíduo deve realizar na superação de si mesmo. A ideia de que Deus seja um Verbo não é uma simples metáfora, mas uma analogia que nos convida a compreender que o homem deve transcender seu ser elevando a linguagem sensível à sua perfeição. Seria necessário diferenciar aqui a linguagem, que é comum, simples estrutura de signos que permite a comunicação, da palavra (fala), que é a sua dimensão mais elevada e leva o indivíduo à sua própria superação. Aprender o divino é elevar-se da linguagem à palavra, aproximar-se de Deus tanto quanto possível, tentando restituir a plenitude divina nos limites da imperfeição da nossa língua. Essa busca, no entanto, não pode ser senão assimptótica: do mesmo modo que uma distância ínfima, embora infinita, separa o dedo do homem do dedo de Deus na Criação de Adão, o afresco de Michelangelo que ornamenta o teto da Capela Sistina, a mais pura palavra humana permanece na fronteira do divino, sem poder expressá-lo totalmente. No canto XXX do Paraíso, Dante percebe então que sua palavra é “vencida” pela perfeição de seu objeto, como São Paulo, incapaz de descrever as maravilhas vistas no Paraíso em seu retorno ao mundo terrestre. Dante aprendeu, assim, graças ao seu trabalho sobre a língua, não somente o fato de que a divindade do homem reside nessa linguagem, que, pela poesia, pode elevar-se a uma palavra pura, mas também que o divino permanece inacessível, inefável: um Verbo situado além de toda palavra humana.

IHU On-Line – Qual é a influência de Pseudo-Dionísio  sobre Dante?

Didier Ottaviani – Sua influência é fundamental em vários níveis. Primeiramente, porque, à época, este autor não é considerado “pseudo”, mas o verdadeiro Dionísio, ateniense, membro do Areópago, que ouviu os sermões de São Paulo. Por sua proximidade com este, Pseudo-Dionísio teria aprendido com o Apóstolo os segredos mais elevados, os quais teriam sido restituídos em suas obras, o que faz dele o autor de referência para quem deseja expressar o divino. A noção de “hierarquia” que encontramos em Dante é de inspiração dionisíaca – na Divina Comédia, ele reproduz as ordens hierárquicas dos anjos que são as mesmas de Dionísio em A hierarquia celeste – e esta é fundamental para o Poeta, pois a estrutura hierárquica das coisas é o que torna possível a viagem da terra ao céu, postulando uma quase continuidade da escala do ser. A Teologia mística e o tratado dos Nomes divinos são fundamentais para Dante na medida em que essas obras revelam que a linguagem encontra seus limites quando tenta ter acesso ao campo do divino e que somente o símbolo nos permite dizer o indizível. Isso é especialmente importante para um poeta que, desde a sua juventude, trabalha as metáforas, pois ele descobre ali a possibilidade de alcançar o divino pelo simbólico. 

Tradição dionisíaca

A influência mais marcante de Dionísio sobre Dante talvez seja a assimilação de Deus a uma luz (lux), que é o fio condutor fundamental para seguir o pensamento de Dante. Por certo, a tradição dionisíaca se mistura a um conjunto de outras tradições no que se refere a esse ponto, como, por exemplo, aquela do pensamento de São Boaventura, mas Dionísio permanece, para um cristão, a referência essencial quando se tenta pensar Deus como luz. Tomás de Aquino, que recusava a ideia de um Deus lux, procurou mostrar que as afirmações de Dionísio a esse respeito eram apenas simples metáforas, mas Dante, por sua vez, vai seguir os partidários de uma teologia e de uma metafísica luminosas, inserindo-se assim numa tradição oposta ao tomismo cuja fonte primeira deve ser buscada em Pseudo-Dionísio.

IHU On-Line – Em que aspectos é possível dizer que Dante forjou uma nova linguagem?

Didier Ottaviani – É comum afirmar que Dante é o pai da língua italiana, não por ele ter estabelecido os seus termos ou as suas regras, os quais já existiam antes dele, mas no sentido de que deu à língua uma nova dimensão pessoal. Já em sua juventude, Dante fazia parte do movimento poético do Dolce stil novo, cuja principal reivindicação era a novidade, que passava necessariamente por uma renovação da língua. Dante herdou isso do pensamento dos trovadores e dos troveiros, que ele conhecia perfeitamente e os quais se definiam como trouveurs (aqueles que encontram) da língua, conscientes de que é impossível ser um verdadeiro poeta se não se criar sua própria linguagem. Portanto, isso não é uma peculiaridade de Dante, pois, sob este aspecto, Pessoa, Verlaine, Milton, Garcìa Lorca ou Hölderlin também forjaram uma nova linguagem em suas línguas.

Dívida filosófica

No caso de Dante, a novidade de sua linguagem poética é magnificamente ilustrada pela Divina Comédia, que poderíamos considerar como uma verdadeira travessia da língua, que se metamorfoseia progressivamente. Como o Inferno é o reino do mal e do caos, suas sonoridades são rudes, enquanto o Paraíso apresenta uma língua muito mais fluída. Dante não hesita então em criar neologismos como indovare ou trashumanar, que expressam a novidade da língua, atingindo seu ponto culminante e sua perfeição. Cabe também observar que Dante foi um dos primeiros a escrever uma obra filosófica em italiano, Il Convivio, e, neste sentido, forjou uma nova linguagem filosófica, deslocando os conceitos latinos clássicos para um vocabulário italiano. Este ponto pode parecer secundário, mas é essencial na medida em que, à época, a língua da filosofia era o latim. No início de Il Convivio, Dante evoca longamente, sob a forma de uma desculpa, as razões que o levaram a escolher a língua vernácula para filosofar. A filosofia em língua italiana manterá, durante muito tempo, uma dívida com Dante, que lhe deu suas primeiras grandes obras.

IHU On-Line – Dante pode ser considerado um poeta do Absoluto? Por quê?

Didier Ottaviani – Esta resposta será mais breve, pois, de certa maneira, as perguntas anteriores e as seguintes já respondem. O Absoluto é o verdadeiro objeto de Dante em toda a sua obra, pois ele sempre procura ultrapassar o nível do homem na direção de uma “transumanização”, que é o Absoluto do humano, sua mais perfeita expressão. A busca amorosa, em Dante, sempre se orienta para um absoluto: o absoluto do amor cortês, o absoluto filosófico e, por fim, o Absoluto divino, que contém os dois anteriores, elevando-os, ao mesmo tempo, a uma nova significação, numa poesia que reivindica o alcance de uma palavra por si mesma absoluta. Para plagiar o que Rabelais dirá mais tarde, toda a obra de Dante deve ser lida “em sentido mais elevado”, ou seja, é necessário atravessar o texto para elevar-se à perfeição ocultada detrás dos versos e das rimas. Observemos, contudo, que, como o Absoluto não pode ser alcançado nesta vida por causa da nossa fraqueza humana, o objetivo é o próprio caminho: Dante é então um “poeta do Absoluto” não por nos entregá-lo, mas porque nos convida a buscá-lo com ele.

IHU On-Line – De que forma a Divina Comédia retrata o mundo medieval e os costumes daquela época?

Didier Ottaviani – Esta questão é muito complexa, porque, apesar da novidade de sua arte e de seu pensamento, Dante permanece um autor totalmente imerso em sua época, a qual ele retrata, poder-se-ia dizer, de maneira anacrônica, “impressionista”. O retrato do mundo medieval em que ele vive revela-se assim progressivamente, verso após verso, por pequenos indícios que podem compor o tema de obras inteiras e não podem ser explicados brevemente. São muitas, na verdade, as indicações sobre as instituições ou a sociedade, suas ordens e suas corporações, os modos de vida, o lugar central que a família ocupa ou mesmo as diversões e as festas. Ele nos dá a ver um mundo em que a Igreja sempre ocupa um lugar central, mas sem privar realmente os indivíduos de certa liberdade de expressão. Dante, na verdade, não é brando com os religiosos de sua época, denunciando Papas hereges e corruptos que ele não hesita em colocar no Inferno, ou fustigando o desvio das grandes ordens monásticas: no canto XXII do Paraíso, por exemplo, ele denuncia as abadias que se tornaram “cavernas”, pois, para ele, essas ordens traíram em sua época os preceitos de seus fundadores, como São Bento ou São Domingos. Essa crítica da Igreja permite também descobrir a emergência de um pensamento laico, do qual Dante é um dos grandes representantes, possibilitando a compreensão de que, à época, surge uma nova classe social, aquela dos “intelectuais”, dos letrados, que não são os clérigos, principalmente graças ao surgimento de grandes centros universitários na Europa, como Bolonha ou Paris. 

Sobressaltos do mundo medieval

O encontro de Dante com seu antepassado Cacciaguida, nos cantos XV e XVII do Purgatório, é muito instrutivo sobre a evolução do mundo medieval da sua época. Seu antepassado faz um retrato nostálgico da Florença do século XII que permite identificar o que mudou: as mulheres não ficam mais confinadas nos afazeres domésticos e começam a trabalhar, os costumes se dissolveram e o orgulho reina por toda parte, levando à degenerescência das grandes famílias que ainda reinam nas cidades. O Poeta descreve também cidades italianas onde as instituições comerciais e financeiras conquistam um lugar cada vez mais importante, denunciando várias vezes o reinado do dinheiro, que corrompeu os costumes. 

Dante nos dá também muitas indicações sobre o pensamento da época, que, desde o século XII, se modifica consideravelmente em decorrência das traduções, feitas a partir do árabe, de textos científicos e filosóficos da Antiguidade, e sobre a manutenção de superstições e práticas mágicas que ele condena. Em suma, Dante descreve um mundo em rápida mutação, uma sociedade medieval latina que se manteve estagnada durante muito tempo e que sofre mudanças rápidas, parecendo às vezes apavorar o Poeta. Se, por um lado, a decadência moral o aflige, a qual ele exagera provavelmente, por outro lado, ele se deslumbra com o progresso das ciências e das artes, como, por exemplo, a medicina, que alcança nessa época seu apogeu, ou a construção das grandes catedrais. Desse modo, Dante nos permite ver os últimos sobressaltos de um mundo medieval que chega ao fim e já anuncia os primeiros sinais do Renascimento.

IHU On-Line – Quais são os grandes temas dessa obra que se mantêm atuais?

Didier Ottaviani – Esta questão, da qual quero me ocupar um pouco demoradamente, é muito importante e diz respeito a todos os grandes textos da cultura humana, aplicando-se também à Odisseia, de Homero, a Eneida, de Virgílio, a Dom Quixote, de Cervantes, ou aos Ensaios, de Montaigne. Pode parecer paradoxal que a Divina Comédia, embora sendo uma obra profundamente inserida em sua época, seja também uma grande modernidade. Não tanto pelo que essa obra nos ensina no plano filosófico ou científico quanto pelo que ela nos permite compreender sobre o destino do homem. É, na verdade, uma obra que trata do sujeito humano em toda a sua profundidade e do sentido que cada um deve dar à sua vida. Para um cristão, é certamente uma obra central ainda hoje, uma vez que ela defende valores morais, apresenta os elementos fundamentais de uma atitude mística, convida à humildade perante Deus e incentiva a buscar em nós mesmos a Luz divina. Mas é importante destacar que o ensinamento de Dante vai muito além dos limites do cristianismo e nos dá verdadeiras lições de vida, seja qual for a nossa religião, até para aqueles que não creem, e, sem dúvida, este aspecto é o menos evidente. Somente uma leitura superficial veria nesse poema o texto de um católico para católicos, mesmo que possa também ser em parte compreendido desta maneira. Se a Divina Comédia fala para todos os homens, os de ontem como os de hoje, é porque transmite uma mensagem humanista que é importante defender. Eu li aqui e ali críticas que chegaram a afirmar, por vezes, a necessidade de proibir a leitura desse texto (!), sob a alegação de que ele seria islamofóbico, machista ou conservador demais. Essas reações marcam simplesmente a incapacidade de seus autores de compreenderem verdadeiramente um texto em profundidade e de lerem nas entrelinhas o que constitui sua modernidade. Certamente, escandalizaria a um muçulmano ver Maomé no Inferno, a uma feminista ouvir dizer que o lugar da mulher é em casa ou a um homossexual ler a condenação infernal dos sodomitas – e podemos compreendê-los. Mas Dante é um cristão do fim da Idade Média, sendo, portanto, necessário situá-lo em sua época para entender por que ele dizia essas coisas. Recriminá-lo por isso seria tão absurdo quanto criticar Aristóteles por justificar a escravidão. Sua modernidade está em outro plano, na maneira de considerar o indivíduo, o sujeito humano, como uma potência de expressão que deve cumprir seu destino procurando superar a si mesmo. Devemos ouvi-lo atentamente quando Dante nos diz para seguirmos seu “barco que navega cantando” para compreender exatamente o que ele pede. Seu texto não deve ser lido ao pé da letra; é o espírito deste texto que deve ser antes captado, isto é, a injunção feita ao homem para que ele se “transumanize”, para que saia de sua vida cotidiana e se abra à perfeição de si. 

Filosofia da esperança

Já em sua época, Dante era sulfúreo: com que direito, por que movimento de orgulho ele pode ter a pretensão de alcançar o Paraíso, justo ele que, como ele mesmo diz, não é “nem Enéas nem Paulo”? Dante não tinha a pretensão de ir realmente ao Paraíso, mas desejava mostrar que o homem deve livrar-se de sua condição cotidiana, aprender a se questionar quando se afasta da “via reta” – afastamento esse que leva Dante ao Inferno bem no início da Divina Comédia – buscar incessantemente a perfeição. Atravessar o Inferno é assumir a nossa negatividade, as nossas imperfeições e os nossos defeitos, não para aceitá-los, mas para conhecê-los e assim combatê-los a fim de avançar rumo à perfeição. Para continuar respondendo a uma pergunta anterior, Dante nos convida a buscar o absoluto que está em nós, que às vezes perdemos de vista porque a vida humana nos conduz ao nível mais baixo, com seus sofrimentos e suas angústias. Mas, mesmo nas profundezas do Inferno, a luz da esperança não deixa de brilhar totalmente, e precisamos segui-la se quisermos alcançar a felicidade.

Um episódio é especialmente esclarecedor a respeito disso: quando encontra no Inferno seu antigo mestre, Brunetto Latini, Dante quer sentar-se para conversar com o homem, mas Brunetto o dissuade de fazê-lo: se parar de caminhar, ele também se tornará prisioneiro nesse lugar durante cem anos. Este trecho deve ser lido num paralelo com as injunções de Virgílio, que pede a Dante para não olhar para trás no caminho: o homem deve avançar, e não estagnar, nunca parar diante das provações, sempre progredir, ir em frente e se manter confiante no futuro. Ser um sujeito humano é nunca abandonar a esperança e sempre vencer as vicissitudes da vida, em vez de confinar-se nelas, pois nestas vitórias é que nos tornamos verdadeiramente humanos. Resumindo, a atualidade de Dante para nós está no fato de propor uma filosofia da esperança.

IHU On-Line – O senhor gostaria de acrescentar outro aspecto que não tenha sido mencionado?

Didier Ottaviani – Eu gostaria apenas de ressaltar brevemente a dimensão política do pensamento de Dante, amplamente desenvolvido em Monarquia, mas que também tem reflexos na Divina Comédia. O poeta, para ele, é um homem que não deve se retirar do terreno público, deve, ao contrário, engajar-se na vida da comunidade; e a vida de Dante revela uma intensa atividade política. O Poema Sagrado revela, assim, nas entrelinhas, as grandes querelas da época entre o poder temporal, representado pelo Imperador, e o poder espiritual do Papa, que reivindica a autoridade política. Dante se posiciona do lado dos partidários do Imperador, escolhendo o partido dos Guelfos “brancos”, próximos, na verdade, da facção adversa, dos Gibelinos, em oposição aos Guelfos “negros”, próximos do Papa. Ele considera, de fato, que o governo político não deve caber ao Soberano Pontífice – na época, Bonifácio VIII, com quem Dante está em conflito aberto –, pois o papel deste é ocupar-se da conduta moral dos indivíduos, e não de suas ações civis. As críticas violentas à Igreja que podemos ler na Divina Comédia devem ser aclaradas por esse contexto político particular, que obrigou Dante a exilar-se fora de Florença, onde foi condenado à fogueira. Esta condenação não será desprovida de consequências sobre a escrita do Poema Sagrado, pois quem melhor que um exilado errante no norte da Itália podia pensar simbolicamente a vida como uma viagem eterna? 

Leia mais...

A revista IHU On-Line já publicou outras entrevistas sobre Dante Alighieri. Confira:

* A Cocanha como utopia e Dante como poeta do Absoluto. Entrevista Hilário Franco. Edição 198 da revista IHU On-Line, de 02-10-2006, disponível em http://bit.ly/11He5GQ

* Dante: um poeta extremamente autobiográfico. Entrevista com Eduardo Sterzi. Edição 264 da revista IHU On-Line, de 30-06-2008, disponível em http://bit.ly/14siydb 

* Divina Comédia. A relação entre poesia e Deus. Entrevista com Massimo Pampaloni. Edição 301 da revista IHU On-Line, de 20-07-2009, disponível em http://bit.ly/LHKaXb 

* O livro de Deus na obra de Dante, de Marco Lucchesi. Edição 65 dos Cadernos Teologia Pública, disponível em http://bit.ly/16kw4nP 

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