Edição 419 | 20 Mai 2013

Os vínculos entre o audiovisual e os dispositivos contemporâneos

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Ricardo Machado

As relações de acolhimento e fechamento a produtos audiovisuais permitem pensar uma ética audiovisual contemporânea
Montaño: “Porque entre o audiovisual contemporâneo e o dispositivo contemporâneo (...) há um vínculo direto”

“Porque entre o audiovisual contemporâneo e o dispositivo contemporâneo, ou seja, aquele que cria dispositivos que enunciam, definem e regulam o que é ser contemporâneo, há um vínculo direto, um ambiente invisível. Há em ambos (nas plataformas e na contemporaneidade criada por dispositivos) uma compulsão por trânsito e por conectividade”, explica a professora Sonia Montaño, em entrevista por e-mail à IHU On-Line. Para ela, o espaço audiovisual se constitui apenas como uma parcela de um dispositivo maior, que transpassa por uma série de questões das gramáticas sociais, de mercado e digitais. “O fenômeno é só uma parcela de um dispositivo muito maior que permeia as relações sociais, as empresas, o capital, os fluxos migratórios, os modos de organização, o trabalho, a produção acadêmica e todas as formas de organização, produção e consumo”, complementa.

Sonia Montaño é graduada em Jornalismo, mestre e doutora em Ciências da Comunicação pela Unisinos. É professora no Curso de Comunicação Digital da Unisinos e atua como jornalista freelancer em diversos veículos de comunicação da América Latina. 

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que desencadeou a sua reflexão sobre as imagens no YouTube e em outras plataformas de vídeo, que foi objeto de sua tese de doutorado?

Sonia Montaño – Antes de começar o doutorado me chamavam muito a atenção algumas imagens de vídeo que via em diversos suportes como TV ou internet porque havia nelas uma textura diferente, algo com apelo tátil, que convidava a “tocá-las” mais do que a vê-las. Algo assim como a emergência de um novo valor nas imagens que não era mais o valor de exposição que marcou o cinema e a TV, e sim um valor de uso. Eram imagens que me olhavam com muita intensidade e deram início a uma série de constatações sobre a natureza digital das imagens que permite imitar, simular muitas outras naturezas e mixar diversas tecnologias.

IHU On-Line – Como as imagens contemporâneas nos olham? É nas plataformas de vídeo, o que esses olhares revelam?

Sonia Montaño – Com a observação fui percebendo que as plataformas como o YouTube são ambientes privilegiados para as imagens passarem, crescerem e se multiplicarem de diversas formas e, principalmente, se transformarem em imagens midiáticas, isto é, do campo da comunicação e não do campo de outras ciências. Imagens cuja finalidade é a de serem produzidas, distribuídas e exibidas – como nas mídias anteriores – e usadas, o que é próprio das novas mídias e do audiovisual da web. Nunca tantas imagens foram produzidas e postas em circulação. Esse fato, que se tornou possível pela multiplicação de dispositivos e de softwares do audiovisual, tem, nas plataformas de vídeo, sua mais expressiva dinâmica de atualização. Imagens produzidas nos confins de outros campos, como o científico, o de segurança pública ou privada, o de outras mídias, são remidiatizadas e transformadas em imagens do audiovisual da web nas plataformas de vídeo. Esses ambientes não são, então, simplesmente espaços neutros que contêm vídeos. Neles, os vídeos obedecem a certa organização e a uma espacialização, uma montagem que os enuncia de outro modo e são uma clara expressão da época que os criou. A interface se atualiza nas plataformas que estudei como encontro de diversas realidades – a do computador, a humana, a do audiovisual –, encontro este mediado por softwares em uma temporalidade u-crônica, em múltiplas direções e em tempo real, sem que necessariamente uma dessas realidades tenha domínio sobre as outras ou seja possível estabelecer exatamente os limites de cada uma. Essa é uma nova realidade, diferente da televisiva, da cinematográfica e do “real” como enunciado até agora nas telas. Não há mais a realidade da exibição que divide com a tela um dentro e um fora dela; a interface nos inclui, ou melhor, nos devora.

IHU On-Line – Em que sentido as plataformas de compartilhamento de vídeo seriam metáfora da contemporaneidade em que elas emergiram?

Sonia Montaño – Porque entre o audiovisual contemporâneo e o dispositivo contemporâneo, ou seja, aquele que cria dispositivos que enunciam, definem e regulam o que é ser contemporâneo, há um vínculo direto, um ambiente invisível. Há em ambos (nas plataformas e na contemporaneidade criada por dispositivos) uma compulsão por trânsito e por conectividade. Como diz Bauman, você não iria a nenhum lugar sem o celular (nenhum lugar é, afinal, o espaço sem um celular, com o celular fora de área, ou sem bateria). Estando com o seu celular, você nunca está fora ou longe. Encontra-se sempre dentro – mas jamais trancado em um lugar. O audiovisual das plataformas é também um claro espaço de trânsito e de conectividade, e com ele as plataformas de vídeo, a web e toda a incessante produção de dispositivos de imagens tornam-se cada vez mais móveis, leves e com baterias mais duradouras. O fenômeno é só uma parcela de um dispositivo muito maior que permeia as relações sociais, as empresas, o capital, os fluxos migratórios, os modos de organização, o trabalho, a produção acadêmica e todas as formas de organização, produção e consumo. O dispositivo positiva o trânsito e a conectividade de todas as coisas no audiovisual, na imagem técnica, no modo de existir na comunidade global. Contudo, entre essa enorme produção de dispositivos e seus usos, emergem valores, acontecimentos, usos não previstos e que tendem a tensionar os valores do próprio dispositivo. 

IHU On-Line – Como você interpreta os memes, esse fenômeno de apropriação de vídeos na internet?

Sonia Montaño – Eles enfatizam os usos, destacam o componente tátil do vídeo e da cultura. Eles têm a repetição, o elemento que permanece e, de outro lado, eles contêm também o acaso e o acontecimento que possibilita um remix de imagens e imaginários com uma apropriação do software. Estou lembrando entre tantos memes o modo como os usuários se apropriaram audiovisualmente de um fato: o fechamento do site Megaupload. No dia em que isso aconteceu houve desde um desenho animado de pássaros produzido na Pixar onde – pela apropriação de um usuário, claro – os pássaros conversavam nas legendas sobre o fechamento do site até um remix do filme A queda. Neste último um usuário traduzia em legendas as falas em alemão onde supostamente Hitler pedia um descanso e sugeria baixar um filme do Megaupload e se enfurecia quando avisado de que o site tinha sido fechado. O que é isso tudo? A web se mostra dinâmica para alguns usos e ainda é rígida para outros. Embora seja a interface que molda os usos, a apropriação das imagens leva a modos imprevistos de montagens audiovisuais e constrói telas virtuais nas quais emerge uma nova imaginação: trans-histórica, transmidiática, um grande caleidoscópio audiovisual que conecta profissionais e amadores. Cria-se um novo ambiente que muda a visão de nós mesmos e do mundo e nosso modo de agir sobre ele. O ambiente da plataforma constrói conectividades com todo um arquivo audiovisual virtual que está no ambiente fora da plataforma, estabelecendo também novos enunciadores audiovisuais, como a webcam e seus gêneros, o celular e suas estéticas, suas montagens, seus novos enquadramentos sem gravidade, tremidos, alternativos a um enquadramento televisivo que tinha domesticado nosso olhar.

IHU On-Line – Que tendências essa generalização do vídeo aponta?

Sonia Montaño – Pode ser que, em um futuro próximo, tenhamos muitas outras formas de capturar e compartilhar ou transmitir vídeos ao alcance de todos, por meio de óculos, da roupa e de dispositivos que atravessem cenários mais íntimos e difíceis de aceder, como as tempestades neuronais, que já fazem parte de vídeos produzidos por altas tecnologias na neuromedicina. Entretanto, a interface envolvendo tecnologia, humano e audiovisual parece ser o que, em todas essas mudanças velozes e provavelmente insuspeitadas, dure. O fazer avançar as técnicas, como Benjamin o entendia, está no modo como se criam espaços, ambientes e ressonâncias entre esses três atores. A criação de dispositivos por parte do dispositivo contemporâneo encontra, nas plataformas de vídeo, certo enunciado “apaziguador”: nós, nossos vídeos e o que seja que nos permita fazê-los e distribuí-los estaremos sempre ali com uma interface “amigável”, “simples”, “divertida”. De alguma maneira, as plataformas enunciam que o mundo que conhecemos ainda permanece, que haverá sempre uma barra de navegação que nos ajude a pensar assim e um conjunto de links e tags que traduzam o caos para trânsito e para a conectividade. As plataformas de vídeo são ambientes onde ao mesmo tempo o audiovisual continua (pelo menos, em algumas de suas atualizações) sendo o que conhecemos e, simultaneamente, começa a ser outra coisa: banco de dados, interface, emergência do valor de uso. A web e particularmente essas plataformas se enunciam como lugar de passagem de toda a produção audiovisual na cultura (a anterior e a atual, a midiática e a extramidiática) e assim enuncia-se o audiovisual como o modo de vida contemporâneo: o que chamo de audiovisualização da cultura. 

IHU On-Line – Em sites como o YouTube encontramos numa mesma imagem um filme clássico com uma publicidade para perder peso e um comentário de um usuário. Estaríamos nos habituando a um tipo de imagem diferente, que une realidades que costumavam se excluir?

Sonia Montaño – Sim, mais do que imagens, alguns autores as chamam de entre-imagens, imagens que arrancam contextos, pedaços de mundo, com pedaços da história, com pedaços de sonho, e dão a ver a “potência do falso” de que falava Deleuze como alternativa ao paradigma do “real”, da “verdade única”, cortando, colando, compondo fábulas. Entretanto, ainda há molduras que hierarquizam essas imagens. É o caso da moldura player, onde geralmente é visto um vídeo. Ela parece aprisionar o vídeo e estabelecer dentro da web um lugar onde ele deve permanecer e ser reconhecido como tal. Os players, as telas e suas materialidades são, no conjunto do audiovisual da web, o elemento mais resistente às temporalidades do audiovisual, que avança em todas as direções. Contudo, são eles, nas interfaces criadas pelas plataformas, que servem como delimitadores dos espaços-vídeo, plataforma e usuário, até porque é o espaço o que é comprado e vendido, comercializado, inclusive dentro do player. No momento, os players e a distribuição espacial dos elementos em torno dele funcionam como espaços de poder que contribuem para a positivação do vídeo no dispositivo contemporâneo e para estabelecer, com ele e em função dele, trânsitos e conectividades. Isso tudo, embora players e telas bem delimitados resistam na produção de sentido sobre o que é vídeo. O audiovisual, nas plataformas de vídeo, acontece na interface, não no vídeo isoladamente. O audiovisual de interface inclui o usuário como parte de uma rede heterogênea de elementos, incluindo aquilo que costumamos chamar de vídeo, mas vê o vídeo como processo, não como produto. O audiovisual de interface põe em conexão novos tipos de montagem e leva a compreender o mundo e a história como uma imagem interativa que sempre pode ser remixada. 

IHU On-Line – Essas questões problematizam de alguma maneira a questão da alteridade, do outro, nem que seja um outro audiovisual?

Sonia Montaño – Com certeza. Um novo ambiente com uma certa ontologia de banco de dados, como é o das plataformas de vídeo, dá lugar ao encontro do “totalmente outro”, a “alteridade absoluta” de que fala Derrida. O recém-chegado (arrivant) que chega e acontece sem aviso simplesmente chega, e acolhê-lo sem limites é o imperativo da hospitalidade incondicional. Uma hospitalidade que exige a exposição incondicional e incalculável (não é possível prever) ao que acontece: quem quer que seja, o que quer que seja. Esse “o que quer que seja” é o acontecimento singular, surpreendente, excepcional, excessivo e inapropriável do que chega ou acontece. “O que quer que seja” não marca, por conseguinte, a indiferença do que vem, mas é, pelo contrário, a marca da singularidade absoluta e excessiva do que chega ou acontece. A natureza do audiovisual – banco de dados, do audiovisual permeado de valor de uso – predispõe as imagens ao acontecimento. O acolhimento ou fechamento a essa hospitalidade primeira, a abertura audiovisual ao totalmente outro ou a xenofobia das imagens audiovisuais, e as expressões que imagens, sejam elas vídeos, interfaces, usos ou ambientes, tomam nos processos audiovisuais são um tema de extrema atualidade e levariam a formular, em novas pesquisas, uma ética do audiovisual contemporâneo.

Leia mais...

>> Sonia Montaño já concedeu outras entrevistas à IHU On-Line. Confira.

* O impacto ambiental do consumo de carne. Entrevista especial com Sérgio Greif e depoimento de Sonia Montaño. Publicada nas Notícias IHU On-Line, de 05-11-2007, disponível em http://migre.me/4dQpr 

* Ecologia da mídia e a percepção do mundo. Publicada na IHU On-Line número 357, de 11-04-2011, disponível em http://bit.ly/hwsnhr 

 

>> Confira também outros textos de Sonia publicados pelo IHU: 

* O programa Linha Direita: a sociedade segundo a TV Globo. Edição nº 3 dos Cadernos IHU Ideias, disponível em http://migre.me/4dQjJ 

* A Construção da Telerrealidade: O Caso Linha Direta, Edição número 4 dos Cadernos IHU, disponível em http://bit.ly/114tPlM 

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