Edição 419 | 20 Mai 2013

A invenção de um mundo pelas imagens sintéticas

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Ricardo Machado

Para o pesquisador Erick Felinto de Oliveira, o contexto sociotecnológico permitiu a criação de espaços digitais que ampliaram a possibilidade do olhar
Erick Felinto: “A imagem ainda é um interessante instrumento de análise cultural”

“Vivemos num contexto em que as imagens sintéticas produzem mundos que já não precisam mais corresponder ao olhar humano. Por outro lado, nossa fisiologia e mecanismos de percepção se desenvolveram em relação com os processos tecnológicos. O interessante é dissolver separações radicais entre o humano e o tecnológico, entendendo que temos com a tecnologia uma relação de codeterminação”, explica o professor e pesquisador Erick Felinto, em entrevista concedia por e-mail à IHU On-Line. Segundo ele, é difícil deslocar o olhar sobre o mundo de uma posição antropocêntrica. Mas há algum tempo que existe um movimento de deslocar o pensamento deste eixo. “Pensadores como Walter Benjamin, Gabriel Tarde, Gilbert Simondon e, mais recentemente, Bruno Latour fazem parte dessa tradição, assim como boa parte da chamada ‘filosofia da técnica’”, sustenta.

Erick Felinto de Oliveira é doutor em Literatura Comparada pela UERJ/UCLA e tem pós-doutorado em Comunicação pela Universität der Künste, Berlim. É pesquisador do CNPq e professor adjunto na Universidade Estadual do Rio de Janeiro – UERJ, instituição em que realiza pesquisas sobre cinema e cibercultura. É autor de, entre outros, A religião das máquinas: ensaios sobre o imaginário da cibercultura (Porto Alegre: Sulina, 2005); Avatar: o futuro do cinema e a ecologia das imagens digitais (com Ivana Bentes. Porto Alegre: Sulina, 2010); A imagem espectral: cinema e fantasmagoria tecnológica (São Paulo: Ateliê Editorial, 2008); Silêncio de Deus, Silêncio dos Homens: Babel e a Sobrevivência do Sagrado na Literatura Moderna (Porto Alegre: Sulina, 2008); e O Explorador de Abismos: Vilém Flusser e o Pós-Humanismo (com Lucia Santaella. São Paulo: Paulus, 2012). 

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como deslocar o olhar do antropocentrismo e qual a importância deste movimento?

Erick Felinto de Oliveira – Esse é um exercício difícil e, em certa medida, experimental, pois nossa posição natural é antropocêntrica. Todavia, já há algum tempo vem se formando uma tradição de pensamento que busca escapar dessa armadilha, oferecendo ontologias e formas de pensamento não (ou não inteiramente) antropocêntricas. Pensadores como Walter Benjamin , Gabriel Tarde , Gilbert Simondon e, mais recentemente, Bruno Latour , fazem parte dessa tradição, assim como boa parte da chamada “filosofia da técnica”. Ela é importante de modo a perspectivar a própria ideia do humano, que se reconfigura historicamente de forma contínua, de modo que não existe apenas “um” modelo possível do humano, mas vários. Por outro lado, também pode nos auxiliar na busca de novas formas de relacionamento com os seres não humanos que habitam nosso entorno (os animais, os objetos, os aparatos técnicos). 

Uma forma de deslocar esse olhar é professar uma visão de mundo fundada na teoria ator-rede, por exemplo, na qual os acontecimentos não são única e principalmente determinados por atores humanos, mas se efetivam num “imbróglio” de relações complexas onde nem sempre é possível identificar quem (ou o quê) é o principal agente. Vilém Flusser  sugeria um outro método, bem menos ortodoxo e, digamos, “acadêmico”, ao defender a ideia de ficções filosóficas nas quais, por meio de exercícios imaginativos filosoficamente embasados, poderíamos imaginar outros modelos do humano ou outras formas de enxergar o não humano.

IHU On-Line – Em que medida uma mudança de visada, se colocando no lugar das tecnologias, nos permite compreender melhor a multiplicidade de imagens no contemporâneo?

Erick Felinto de Oliveira – Vivemos num contexto em que as imagens sintéticas produzem mundos que já não precisam mais corresponder ao olhar humano. Por outro lado, nossa fisiologia e mecanismos de percepção se desenvolveram em relação com os processos tecnológicos. O interessante é dissolver separações radicais entre o humano e o tecnológico, entendendo que temos com a tecnologia uma relação de codeterminação. O digital reconfigurou radicalmente nossa relação com a imagem, dado que ampliou nossas possibilidades de reprodução e manipulação. Ao mesmo tempo, reuniu imagens, sons, textos em uma base digital única (os bits, pixels etc.). Segundo Friedrich Kittler , isso significa que toda a significação passou a atravessar um gargalo único e isso traz para nossa sociedade uma centralidade do tecnológico que só agora conseguimos enxergar com maior clareza.

IHU On-Line – Na perspectiva da XI Semana da Imagem – Para entender as imagens: como ver o que nos olha – que pistas indicam um caminho mais livre para “desaprisionar” a subjetividade?

Erick Felinto de Oliveira – Existem muitos caminhos. Um caminho que me atrai é pensar a dimensão não semântica das imagens. Isso não quer dizer desprezar a capacidade de significação da imagem, mas complementá-la com uma atenção àquilo que as imagens produzem que é de ordem não hermenêutica: afetos, sensorialidades, sensações. Hoje, mais do que nunca, se discute o tema da “hapticidade” da imagem no cinema, na arte digital, etc. Exemplos de pesquisas que tentam explorar essa dimensão – que para mim tem tudo a ver com uma cultura do entretenimento – encontramos nas propostas de autores como Gumbrecht , Laura Marks , Mark Hansen  e o próprio Flusser, entre outros. 

IHU On-Line – O que as imagens podem dizer sobre nossa identidade cultural?

Erick Felinto de Oliveira – Elas sempre dizem muito, mas hoje, especialmente no âmbito da internet, podem dizer ainda mais sobre a dimensão transcultural de um mundo inteiramente interligado. Veja-se o exemplo do destino de uma imagem banal (do Bert, da rua Sésamo) que é traçado através de vários cenários interculturais na obra de Henry Jenkins , A Cultura da Convergência (Editora Aleph, 2008. 432 p.).

Claro, a imagem ainda é um interessante instrumento de análise cultural, e nesse sentido o trabalho de alguns artistas do “oriente” me interessa profundamente. No cinema, a obra de Nacer Khemir  trabalha a dimensão cultural da imagem sem criar exotismos ou produzir estereótipos. A beleza do seu cinema é desenvolver, digamos, “ambiências orientais” que tocam nosso diapasão afetivo de uma forma na qual as fronteiras entre o local e o universal se dissipam. “Paisagens transculturais” é um termo que tem sido usado recentemente para falar de certo comércio de imagens onde as fronteiras tendem a ser relativizadas, mas onde o outro também nunca é domesticado ou reduzido ao idêntico. Aprecio as imagens com as quais consigo me identificar, mas que ao mesmo tempo me provocam estranheza e, assim, me permitem desenvolver um outro olhar sobre o mundo. Daí vem minha apreciação por tudo aquilo que é da ordem do esquisito, do estranho, como, por exemplo, o cinema de fantasia ou de horror.

IHU On-Line – Que contribuição a filosofia pode nos dar no sentido de “desnaturalizarmos” o pensamento e conseguirmos compreender o que nos olha?

Erick Felinto de Oliveira – Ela é enorme, sem dúvida, e é uma pena ver que em áreas como a comunicação a filosofia ainda seja encarada com alguma desconfiança. Despida de ranços classicistas ou metafísicos, a filosofia é um exercício do pensamento que muito poderia colaborar para precisar conceitos que, na comunicação, são usados como autoevidentes (a noção de “meio”, por exemplo).

Poucos filósofos, aliás, colaboraram mais para o aprofundamento do tema da imagem que Walter Benjamin. O “Trabalho das passagens”, por exemplo, é uma verdadeira aula de método investigativo no qual a “fisiognomia” da modernidade é esboçado por meio das imagens (mesmo as mais triviais) que produziu, como uma espécie de “leitura” das ruínas e dos materiais descartados, aos quais muitas vezes não damos a devida atenção. De fato, penso que existem dois grandes pensadores das imagens aos quais devemos retornar para compreender bem a problemática da imagem técnica e da nossa relação com a arte: Walter Benjamin e Aby Warburg , cujo projeto “Atlas” também implica uma tentativa de produzir um método verdadeiramente “visual” de “leitura” das imagens produzidas pela cultura.

IHU On-Line – O que são imagens meméticas e que relação elas têm com o que é considerado habitualmente como banalidade?

Erick Felinto de Oliveira – O termo “meme”, que pretendo criticar na minha apresentação , deriva da biologia e é decalcado da genética. O meme é aquilo que se reproduz e passa adiante na cultura, em gestos de imitação que supõem a sobrevivência do mais apto (por exemplo, das imagens ou narrativas mais “aptas”). Não obstante os problemas dessa terminologia, ela é uma forma conveniente de nomear, por exemplo, aquelas imagens da cultura da internet que se propagam ao longo do tempo e que podem dar origem a inúmeras “subespécies” ou variantes. Na minha fala, pretendo discutir as imagens de “Grumpy Cat”, um meme que ficou tão famoso que transbordou o domínio do digital, gerando um personagem que é célebre hoje na televisão e que se tornou até objeto de interesse de artistas.

IHU On-Line – Como pensar a construção de novas metodologias e conceitos em um contexto pós-moderno?

Erick Felinto de Oliveira – Pergunta impossível de ser respondida numa entrevista. Algumas pistas foram dadas anteriormente. Digo apenas que a própria noção de “metodologia” deveria ser repensada em muitas de suas bases. Claro, não se trata de abandonar ou minimizar a ideia de metodologia, mas de repensar suas implicações totalitárias nas ideias, por exemplo, de uma ciência que produz “verdade” ou de um conhecimento livre de interesse. Gumbrecht apresenta uma interessante (apesar de breve) crítica da metodologia – especialmente no domínio das ciências humanas – em seu penúltimo livro Stimmungen Lesen (Über eine verdeckte Wirklichkeit der Literatur. München, 2011), que traduzo como “Ler ambiências”, mas infelizmente não seria possível reproduzir o argumento aqui nesse espaço. Recomendo, todavia, a leitura do livro aos que se interessam pelo tema. Agora existe já tradução em inglês.

IHU On-Line – Qual a importância de compreender as imagens em nossa sociedade?

Erick Felinto de Oliveira – Bom, vivemos numa cultura profundamente imagética, não? Todos deveríamos aprender a “ler” as imagens, e penso que o cinema é uma dimensão das experiências tecnológicas onde poderíamos desenvolver belamente essas habilidades. É curioso também perceber que a mesma resistência que certos setores da comunicação têm com relação à filosofia se reproduzem no caso do cinema ou mesmo da cibercultura – entendida por alguns como algo que não é da ordem da “comunicação”. Mas, afinal, quem sabe o que é comunicação? Estou ainda à espera de alguém que me esclareça quanto a isso. 

Eu digo com enorme convicção: o cinema é uma das mais importantes ferramentas para entender circuitos e práticas comunicacionais da contemporaneidade, bem como as relações entre estética e comunicação. A ausência de uma cultura cinematográfica é um dado deplorável entre muitos pesquisadores de comunicação. Enquanto na França se aprende a ler e investigar o cinema em nível de segundo grau, aqui não temos o costume de oferecer uma educação dos cidadãos para a mídia. Precisamos ensinar as pessoas não apenas a pensar criticamente sobre os meios, mas também a se apropriar deles, de modo a criar um cenário comunicativo mais polivalente e múltiplo. E entender alguns modos de “funcionamento” das imagens é fundamental para isso.

Leia mais...

>> Erick Felinto já concedeu outras entrevistas à IHU On-Line. Confira: 

– Um teórico barroco? Publicada na edição número 399, de 20-08-2012, disponível em http://bit.ly/SJYrjc  

 – Um futuro complexo, híbrido, incerto e heterogêneo. Publicada na edição número 375, de 03-10-2011, disponível em http://bit.ly/orp7tJ

 – A era da memória total e do esquecimento contínuo. Publicada na edição número 368, de 04-07-2011, disponível em http://bit.ly/mGxCcU 

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