Edição 419 | 20 Mai 2013

Semicondutores: a grande revolução das últimas décadas

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Ricardo Machado e Graziela Wolfart

“O preço dos bens de informática continuará caindo, de forma que o custo não será mais uma barreira ao acesso, mas a falta de conhecimento ou o medo do computador sim”, percebe Celso Peter

Dentro da perspectiva de pensar a contemporaneidade a partir das revoluções tecnocientíficas, o Instituto Humanitas Unisinos – IHU promove no dia 23-05-2013 a palestra “Pesquisa aplicada e o uso das engenharias em prol da sociedade”, com o professor Celso Peter, da Unisinos. A atividade ocorre na Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros, no IHU, das 19h30 às 22h. Para adiantar o tema do debate com os leitores e leitoras da IHU On-Line, Celso Peter respondeu por e-mail as questões a seguir. Para ele, “um engenheiro é o profissional que mais pode fazer algo em prol da sociedade, em algumas circunstâncias mais que um médico, (...) porque as engenharias atuam na solução e na prevenção, podem evitar doenças e catástrofes e ajudar a prover os meios de sustentação”. A palestra conterá também com a participação do professor Jefferson Gomes, gerente executivo do Senai/Brasília.

O evento integra a programação do seminário que antecede e prepara o “XIV Simpósio Internacional IHU – Revoluções Tecnocientíficas, Culturas, Indivíduos e Sociedades – A modelagem da vida, do conhecimento e dos processos produtivos na tecnociência contemporânea”, que ocorrerá de 21 a 24 de outubro de 2014, na Unisinos (mais informações em http://bit.ly/17XdPlT).

Celso Renato Peter possui graduação em Engenharia Elétrica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS. É uma das poucas pessoas que fabricou chips no Brasil vendidos em volume para o mercado. Na Unisinos, é o responsável pela construção do ITT CHIP – Instituto Tecnológico de Semicondutores Unisinos. 

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Do ponto de vista didático, como as engenharias atuam em prol da sociedade?

Celso Peter – Eu costumo dizer que um engenheiro é o profissional que mais pode fazer algo em prol da sociedade, em algumas circunstâncias mais que um médico, por exemplo, porque as engenharias atuam na solução e na prevenção, podem evitar doenças e catástrofes e ajudar a prover os meios de sustentação. A implantação de saneamento básico, com tratamento de água e esgotos pode evitar muitas doenças. A tecnologia aplicada à agricultura gera alimento em quantidade suficiente para a população crescente e a indústria cria os empregos necessários. O problema a ser resolvido é o acesso e a distribuição equânime dos benefícios gerados pela tecnologia. Os engenheiros precisam passar a se preocupar mais fortemente em como tornar as tecnologias mais acessíveis. Este é um desafio que os engenheiros não conseguirão vencer sozinhos, mas já seria um bom começo formar profissionais com esta visão. 

IHU On-Line – Como aproximar as ciências exatas – como a microinformática – de aspectos mais humanos – como a vida das pessoas, por exemplo?

Celso Peter – A microinformática é um bom exemplo de como é possível aproximar a tecnologia das pessoas. No início, os computadores eram feios para usuários especializados apenas. Era necessário conhecer linguagens de programação e saber programar. Com o desenvolvimento de interfaces gráficas, hoje praticamente qualquer pessoa pode usar um computador. Ainda há muito a ser feito, tem um vasto campo de oportunidades abertas, principalmente na área de software, para desenvolver ferramentas que facilitem a vida das pessoas. As interfaces homem/máquina ainda podem melhorar muito. O preço dos bens de informática continuará caindo, de forma que o custo não será mais uma barreira ao acesso, mas a falta de conhecimento ou o medo do computador sim. Muitas pessoas no Brasil não têm conta em banco porque não sabem ou têm medo de usar uma senha eletrônica. A tecnologia tem meios de resolver isso, por exemplo, criando interfaces que não necessitem de digitação de senhas. Outra forma de resolver isso, talvez a mais eficaz, é através da educação, aproximando a tecnologia da vida das pessoas desde cedo. Para tanto, é necessário melhorar a educação, prover o acesso à microinformática desde cedo. Ou seja, são dois caminhos: facilitar o uso e remover o medo, ou desconhecimento, através da educação.

IHU On-Line – Em que aspectos a pesquisa aplicada contribui para melhorar a vida das pessoas e não somente os negócios do mercado?

Celso Peter – A pesquisa aplicada, ou os seus resultados, sempre contribuem para melhorar a vida das pessoas. O problema é saber quem terá o acesso a esses resultados. Pesquisa tem custo, então se não houver retorno se torna inviável. Nesse sentido, as grandes empresas investem em pesquisas que darão maior retorno, sem se preocupar necessariamente em melhorar a vida das pessoas. Neste caso, cabe ao poder regulador do Estado e às entidades representativas da sociedade, como as universidades e instituições de pesquisa sem fins lucrativos, o papel de disponibilizar o conhecimento para a maioria da sociedade, principalmente naqueles setores onde o mercado não propicia retorno suficiente para se autofinanciar. Isso ocorre em alguns setores, como o da saúde, por exemplo, em que o mercado para algumas soluções de diagnóstico ou cura não é suficientemente grande para repor os investimentos. Ocorre também nas fronteiras tecnológicas, onde as tecnologias ainda não estão suficientemente maduras, possuindo alto grau de risco. A solução é o Estado definir prioridades e reduzir os riscos através de financiamentos e incentivos fiscais, por exemplo.

IHU On-Line – Os semicondutores promoveram grandes mudanças em nossa sociedade? Quais?

Celso Peter – Os semicondutores provocaram a grande revolução das últimas décadas. São os responsáveis diretos por estarmos na era da informação. Sem os semicondutores não haveria satélites, computares e internet. Os semicondutores estão em toda a parte. Nem percebemos, mas utilizamos, em média, 50 microprocessadores diferentes por dia. Os semicondutores também são responsáveis por um grande aumento na produtividade em praticamente todos os setores da indústria através da automação e melhorias na capacidade de controle dos processos fabris. Os semicondutores permitem a automação, que permitem o aumento de volume, de escala de produção, que reduzem os custos e permitem o acesso de um número maior de consumidores a bens mais sofisticados como, por exemplo, automóveis, televisores e celulares.

IHU On-Line – Como podemos pensar o futuro a partir da microeletrônica?

Celso Peter – A presença da microeletrônica em nossas vidas será cada vez maior, mas não necessariamente perceberemos isso. Estamos chegando à era da “internet das coisas ” em que os objetos trocarão informações entre si sem a nossa intervenção. Isso tornará os equipamentos e sistemas mais inteligentes, mais práticos, econômicos e eficazes também. Por exemplo, se a máquina de lavar roupas se comunicar com o medidor de energia ela poderá ligar apenas no momento em que a energia for mais barata. Se os automóveis em uma rodovia se comunicarem com os automóveis vizinhos eles não colidirão, mesmo que os motoristas cometam erros.

IHU On-Line – Em sua avaliação, as tecnologias tornaram nossa vida melhor em qual sentido?

Celso Peter – Nos últimos 100 anos a expectativa de vida praticamente dobrou, de 45 anos para 75 anos. Isso ocorreu graças ao avanço tecnológico em todas as áreas. Saúde, saneamento, alimentação e educação melhoraram e se tornaram acessíveis devido a avanços tecnológicos como os antibióticos, o aumento da produtividade através das máquinas e da automação e a tecnologia da informação, computadores e internet. Vivemos mais e com menos sofrimento graças à tecnologia. 

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo? 

Celso Peter – Existe tecnologia já desenvolvida para enfrentar os grandes problemas da humanidade, como o aquecimento global e o fim dos combustíveis fósseis. Os desafios que precisam ser vencidos ainda são o custo destas tecnologias em alguns casos e o acesso universal a elas em outros. Ou seja, são barreiras políticas e econômicas que precisam ser removidas.

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição