Por uma Ecclesia verdadeiramente Universa

Tornar impossível qualquer pastoral litúrgica: esse é um dos riscos reais que surgem a partir da publicação da instrução Universae Ecclesia, do Papa Bento XVI, pondera Andrea Grillo. Na opinião do teólogo italiano, o “efeito perigosamente desorientador” do documento paira sobre todos

Por: Moisés Sbardelotto

Tornar impossível qualquer pastoral litúrgica: esse é um dos riscos reais que surgem a partir da publicação da instrução Universae Ecclesia, do Papa Bento XVI. Na opinião do teólogo italiano Andrea Grillo, especialista em liturgia pastoral, o “efeito perigosamente desorientador” do documento paira sobre todos. Se, com uma “ficção jurídica”, tornam-se contemporâneas duas formas diferentes de celebrar a missa e, além disso, objeto de escolha opcional, “cria-se uma situação híbrida e anômala, que logo revela ser uma confusão, com a qual se introduz uma grave descontinuidade na tradição do rito romano”, afirma.

Analisando questões específicas de cada um dos ritos – o tridentino e o do pós-Concílio Vaticano II –, Grillo também compara alguns de seus pontos teológico-litúrgicos centrais. E conclui: “Surpreende que o Papa Bento XVI tenha assumido uma teoria tão inconsistente no plano jurídico e com consequências tão incontroláveis no plano litúrgico, eclesial e espiritual”. Para ele, estar em comunhão significa poder ser sincero. “Na sinceridade e no confronto, tudo é pelo melhor. Só assim a Ecclesia se mostra verdadeiramente Universa, e os pontífices parecem verdadeiramente Summi”, resume.

Andrea Grillo é filósofo e teólogo italiano, especialista em liturgia e pastoral. Doutor em teologia pelo Instituto de Liturgia Pastoral de Pádua, é professor do Pontifício Ateneu S. Anselmo, de Roma, do Instituto Teológico Marchigiano de Ancona e do Instituto de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Giustina, de Pádua. Desde 2007, leciona como professor convidado na Faculdade Teológica de Lugano, e, desde 2008, na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma. Também é membro da Associação Teológica Italiana e da Associação dos Professores de Liturgia da Itália.

Confira a entrevista.


IHU On-Line – Como o senhor interpreta a publicação da instrução Universae Ecclesiae no atual momento da Igreja? Em sua opinião, quais foram as reais intenções do Vaticano com essa medida?

Andrea Grillo –
O documento Universae Ecclesiae estende o âmbito operativo do Motu Proprio Summorum Pontificum , ou seja, a extensão pessoal e territorial de uma pretensão de paralelismo ritual que instaura uma covigência entre o rito ordinário e o rito extraordinário, o que – já à primeira vista – se revela incoerente, ineficaz e gravemente perigoso para a comunhão eclesial.
Com a pretensão de permitir uma dupla vigência de formas diferentes e não harmônicas do mesmo rito romano, determina-se progressivamente um conflito indomável entre tempos, espaços, hábitos, ritos, calendários, ministérios, códigos, competências diversas. A extensão refere-se tanto às habilitações subjetivas ao rito, ou seja, os critérios com que os sujeitos podem reivindicar direitos a respeito, quanto às finalidades objetivas do rito, que, mais explicitamente, são definidas como “pastorais”.

Na realidade, esse documento, apesar das boas intenções, corre o risco de tornar impossível qualquer pastoral litúrgica, já que tem um efeito perigosamente desorientador sobre todos: principalmente sobre os bispos, que perdem o controle das dioceses, depois sobre os padres e, enfim, também sobre os leigos, pelo fato de subtrair da Reforma a sua necessidade.


IHU On-Line – Em termos teológico-litúrgicos gerais, o que diferencia o rito extraordinário (tridentino) e o rito ordinário (pós-Vaticano II)? Que mistério e que Igreja são ressaltados em cada um deles?

Andrea Grillo –
Trata-se de duas formas do mesmo rito, das quais a mais recente (pós-Vaticano II) é mais antiga do que a tridentina. É útil ler um livro de François Cassingena-Trevedy, que se intitula Te igitur, do qual se entende bem como o rito tridentino é um rito “tipicamente moderno”, que hoje relemos de modo individualista, subjetivo e burguês.

A passagem dessa primeira forma moderna do rito romano à segunda forma, pós-conciliar, comunitária, relacional, simbólico-ritual, aconteceu por meio de um concílio e de uma longa fase de reforma, que foi causada pelos limites, pelas lacunas, pelas unilateralidades do rito tridentino, dos quais a Igreja havia se dado conta progressivamente a partir do século XIX.

A passagem que a Reforma quer promover refere-se ao sujeito que celebra (do padre individual à relação assembleia/ministros), ao rito (que não é mais só para ser observado por um indivíduo, mas deve ser celebrado por uma comunidade), à relação com Deus (que, de monológica, se torna dialógica), à palavra de Deus (que agora tem espaço, visibilidade sacramental e riqueza muito mais significativa), ao papel da comunhão (que agora é feita por todos como uma ação ritual da missa e não mais como devoção privada).

Todas essas passagens representam os diversos estágios de um mesmo rito romano. É preciso notar que as duas formas estão em continuidade (e garantem continuidade) na sua sucessão diacrônica. Se, com uma ficção jurídica, tornam-se essas formas diferentes contemporâneas e objeto de escolha opcional, cria-se uma situação híbrida e anômala, isenta de certezas e de orientação, que logo revela ser uma confusão, com a qual se introduz uma grave descontinuidade na tradição do rito romano.

A continuidade é garantida pela sucessão de formas diferentes do mesmo rito, enquanto o fato de tornar contemporaneamente acessíveis formas diferentes desse desenvolvimento histórico do mesmo rito significa introduzir uma ruptura inédita e uma descontinuidade estrutural na tradição eclesial.

Parece-me que a afirmação que, sobre este plano, se torna mais paradoxal e mais grave é a “absoluta liberdade” reconhecida ao padre individual, ou ao bispo, na sua celebração “sem povo”, de poder escolher a forma ordinária ou extraordinária, sem ter que prestar contas a ninguém: a Reforma Litúrgica se torna, assim, um mero “opcional” da própria identidade ministerial. Isso também é um monstruum inédito com relação à tradição da Igreja.

Era-me perguntado também sobre o “mistério” e a “Igreja”: parece-me ser inegável como uma forma ritual descreve e propõe, ao mesmo tempo, um modelo de objeto (o mistério de Cristo) e de sujeito (o mistério da Igreja). O mistério e a Igreja tomam forma no rito celebrado.

Agora, é evidente que o rito tridentino confia grande parte da mediação exclusivamente ao ministro ordenado, com um desvio perigosamente clerical da identidade, dos estilos retóricos, das formas do exercício da autoridade. É o padre que tem a ver com o mistério e com a Igreja. Por outro lado, é o padre que é competente pelo rito, e não a assembleia, que se limita a assistir e – entretanto – exercita sua própria devoção sobre outros textos e com outros ritos. Os ritos e as orações não são comuns.

O rito pós-conciliar, ao contrário, tenta mostrar melhor uma “presença de Cristo” mediada de muitos modos, articulando melhor carismas, ministérios, sujeitos, funções, tempos, espaços etc. E faz isso aspirando a que o rito se torne “linguagem comum de toda a Igreja”.

Por isso, como dizia no início, o rito que brotou da Reforma Litúrgica é “mais antigo” do que o tridentino, porque tenta se encaminhar para a superação do individualismo – tanto clerical quanto laical – que caracteriza tão fortemente aquela versão moderna do rito romano que é o rito tridentino.


IHU On-Line – A Universae Ecclesiae se manifesta como uma resposta aos fiéis que “expressaram o ardente desejo de conservar a antiga tradição”. No fundo, o que significa e que sentido tem a Tradição para a vida da Igreja, especialmente na questão litúrgica?

Andrea Grillo –
Conservar a tradição antiga é o grande objetivo do cuidado pastoral para a liturgia, que o último século e meio teve dificuldade para manter viva e que agora é garantido pelo rito de Paulo VI . No período que preparou o Concílio, havíamos nos dado conta que o desenvolvimento pós-tridentino da tradição havia cada vez mais ofuscado o seu sentido e a sua raiz, enrijecendo-se em uma infinidade de normas e de formas insustentáveis.

A partir dessa dificuldade de quase dois séculos, surgiu o desejo de “adaptar” e de “atualizar” as práticas rituais, a fim de recuperar o seu valor como fonte para a identidade cristã. A tradição, de fato, para ter continuidade, deve saber mudar. Se, ao contrário, colocamos ao lado da tradição renovada uma tradição velha, permitimos que uma nostalgia de curto respiro ameace a própria tradição, interrompa suas principais vias de comunicação e de transformação. A tradição muda ao longo do tempo, mas torna-se tradicionalismo quando não aceita essa mudança estrutural e se fixa rigidamente, com pretensões de perenidade. Desse modo, morre a tradição: em nome de ataques pessoais e de sensibilidades nostálgicas.


IHU On-Line – O chamado missal de João XXIII, de 1962, remonta ao Papa Pio V , do século XVI. O que significa, nesse sentido, a retomada hoje de um missal da Contrarreforma?

Andrea Grillo –
O missal de 1962 não é apenas a última versão do missal de Pio V, mas é também um ato profético com que João XXIII deu à Igreja um texto provisório – e sublinho “provisório”, porque assim o próprio Papa João o considera explicitamente –, à espera da reforma que seria feita à luz dos altiora principia que seriam expressados pelo Concílio Vaticano II, que, em 1962, já havia sido lançado.

Nos últimos anos, uma parte minoritária e extremista da Cúria Romana havia ousado chamar essa pequena e marginal edição do Missal tridentino de “a grande Reforma de João XXIII”: trata-se de uma mistificação sem verdade e sem pudor. O missal de 1962 é um texto de trânsito, de passagem, contingente e provisório, segundo o que o próprio Papa João disse dele, ainda em 1960, no Motu Proprio Rubricarum Instructum.

Portanto, é ainda mais objetivamente difícil “retomar” ou “ressuscitar” o missal de 1962, seja porque o papa posterior, Paulo VI, queria que ele fosse superado e substituído, seja porque João XXIII, o mesmo papa que o havia aprovado, considerava-o estruturalmente provisório. Considerar vigente o Missal de 1962 é uma ficção jurídica que não se sustenta nem diante de Paulo VI, nem diante de João XXIII. E é uma ficção jurídica ainda mais grave por ter sido conjecturada pela primeira vez por parte dos círculos tradicionalistas, no início da Reforma Litúrgica, para fazer resistência à própria Reforma.

Surpreende que o Papa Bento XVI tenha assumido uma teoria tão inconsistente no plano jurídico e com consequências tão incontroláveis no plano litúrgico, eclesial e espiritual.


IHU On-Line – A instrução diz que a celebração da missa tridentina deve ser feita por um “sacerdote idôneo”, que tenha um conhecimento do latim “que permita pronunciar as palavras de modo correto e de entender o seu significado”. Como fica a participação litúrgica dos fiéis com o uso de uma língua morta? Que significação a pessoa do sacerdote adquire?

Andrea Grillo –
Ao lado das ficções jurídicas que recém ilustrei, o documento pressupõe muitos, muitos fatos inexistentes. O latim não é mais uma língua em uso, nem na Igreja. Uma coisa é traduzir algumas linhas do De bello gallico de César, outra é celebrar um rito. Essa não é só a condição dos padres que não estudam: essa é uma condição comum a todos os homens e as mulheres de hoje: nem os papas têm o latim como língua de uso. Eles não pensam em latim. Escrevem as encíclicas em italiano, em polonês, em alemão...

Pressupor que um DVD possa dar o uso sensato da língua ritual é um sonho de visionários e uma mistificação grave e ilusória. Isso vale até para os padres. Sem falar dos leigos. Com o latim, eles voltariam rapidamente a “assistir”, como diz explicitamente a recente instrução Universae Ecclesia.

Mas isso é precisamente aquilo que o Concílio, em 1963, deseja que não aconteça nunca mais na Igreja e busca superar justamente com a Reforma Litúrgica. O Concílio promove uma Reforma para que todos possam sentir o ritual como linguagem “própria”. Por isso, é muito difícil defender que o recente documento Universae Ecclesia não é contra a Reforma Litúrgica, visto que ele encoraja uma participação que inevitavelmente é a de “espectadores mudos”.


IHU On-Line – Na carta enviada aos bispos em 2007 acompanhando o motu proprio, Bento XVI diz: “Não existe qualquer contradição entre uma edição e outra do Missale Romanum. Na história da Liturgia, há crescimento e progresso, mas nenhuma ruptura. Aquilo que para as gerações anteriores era sagrado, permanece sagrado”. Nesse sentido, é possível conjugar o “sagrado” e a “liturgia” sem “nenhuma ruptura”?

Andrea Grillo –
O papa tem razão se nos pede para permanecer bem plantados na dinâmica de uma história que se articula no espaço e no tempo: na sucessão histórica das duas formas, não há nenhuma contradição entre rito velho e rito novo. Mas, exatamente, só na sucessão temporal de duas formas diferentes!

Se, ao contrário, pretende-se que essas duas formas convivam na mesma unidade de espaço e tempo, sem subordinar uma à outra de modo claro e definido, perde-se imediatamente a orientação e, assim, também o sentido da tradição. A Reforma Litúrgica – devemos lembrá-lo a muitas mentes que se esqueceram disso – foi um ato necessário, uma passagem que a Igreja advertiu e julgou, em seu mais alto nível, conciliarmente, um evento decisivo da sua própria identidade, enquanto hoje a Universae Ecclesia e, antes ainda, a Summorum Pontificum a reduzem a um fato simplesmente possível, quase a um opcional.
Aqui está uma diferença delicadíssima, sutil como um fio de cabelo, mas decisiva. Se verdadeiramente se reconhece a necessidade histórica da Reforma, não pode justamente colocá-la novamente ao lado daquele rito que ela quis e teve que superar intencionalmente. Quando se faz isso, altera-se irremediavelmente todo o sentido e o impacto do ato de reforma.

Por outro lado, é preciso dizer que, se hoje nos preocupamos em evitar que a tradição sofra “rupturas”, é preciso evitar procurar outras piores: se a polêmica sobre a “hermenêutica do Concílio” é remetida à sua verdadeira intenção, é fácil ver como não se trata de contrapor continuidade e descontinuidade, mas sim de contrapor duas acepções diferentes de descontinuidade (ou seja, a Reforma e a descontinuidade tout court!). Toda Reforma introduz um certo grau de descontinuidade para poder garantir uma continuidade mais profunda e autêntica.

Seja-me permitido dar um exemplo, não litúrgico, mas disciplinar. Pensemos no que foi a Reforma tridentina do episcopado, marcada pela introdução da obrigação de “residência”. Certamente, é uma grande descontinuidade com relação às práxis dos séculos anteriores. Justamente essa descontinuidade, defendida e promovida por décadas e por séculos, produziu lentamente uma visão diferente do episcopado, menos administrativa e mais pastoral, menos imperial e mais paterna, menos prefeitícia e mais litúrgica.

O que aconteceria se, com um Motu Proprio, um papa da segunda metade do século XVI afirmasse que a “não residencialidade” jamais havia sido revogada e que, portanto, à sua escolha, os bispos poderiam residir ou não residir na sua diocese, de acordo com seus afetos, apegos ou pertenças?

É só um exemplo para mostrar a contradição de uma assunção contemporânea de perspectivas compatíveis entre si no devir da história, mas que são totalmente incompatíveis se assumidas contemporaneamente.


IHU On-Line – Na mesma linha, como interpretar essa afirmação do papa em nossa era (“pós-contemporânea”, “pós-metafísica”, “pós-revolução tecnológica”), enfim, em um novo período histórico? As respostas anteriores – sejam elas litúrgicas ou teológicas – ainda respondem ao momento atual?

Andrea Grillo –
É preciso observar que aqui estamos diante de um efeito modernista do tradicionalismo e de um efeito tradicionalista do modernismo. Explico. A nostalgia com relação ao rito não mais vigente deve ser transformada em direito subjetivo à celebração segundo aquela ordem ritual, eclesial, espiritual. Por outro lado, a insistência no tema da liberdade e da acolhida gera uma Igreja sem mais pastoral.
Por isso, não é equivocado chamar de “monstruum” essa aparente solução, que revela, ao mesmo tempo, dois defeitos de esperança: há, nesses atos, como que um excesso de presunção junto a um excesso de desespero. A presunção consiste na pretensão de poder pular por cima não só da pastoral ordinária das dioceses e paróquias, mas também das soluções que, ao problema da “gestão das opções”, haviam sido dadas pelos papas do Concílio e do pós-Concílio.

Mas há também desespero, porque não se tem mais confiança no fato de que a Reforma Litúrgica, apesar de todas as suas dificuldades, possa ser a escolha irrevogável da tradição católico-romana. Presunção e desespero minam a esperança, que a Reforma havia reaberto e continua sustentando, e da qual ainda precisa, contanto que não seja minada na base da “legítima” coexistência da sua negação.
O papa pode apoiar a Reforma Litúrgica, ou pode contradizê-la. Ele não pode fazer uma coisa e outra ao mesmo tempo, porque isso desorientaria progressivamente o corpo eclesial.


IHU On-Line – O cardeal Kurt Koch disse recentemente que essas medidas são os passos de uma “reforma da reforma” do Vaticano II, que ainda vai continuar, em busca de um rito que equilibre os extremos. Como a liturgia do Vaticano II poderia ser relida no contexto atual?

Andrea Grillo –
Certamente sem querer, o cardeal Koch  afirmou aquilo que o papa – pelo menos enquanto papa – tem repetidamente negado. O fato de que a Summorum Pontificum e a Universae Ecclesia querem introduzir uma reforma da Reforma não pode ser deduzido a partir do texto dos documentos. Neles, de fato, pretende-se reafirmar todo o valor da Reforma Litúrgica. Por outro lado, não só alguns observadores, mas também a quase totalidade dos bispos e do povo de Deus, se não vivem fechados em um museu diocesano, já haviam advertido a estranha contradição entre as palavras e os fatos.

Com o discurso do cardeal Koch, parece ter se desvendado o mistério: se é a intenção do papa fazer uma reforma da Reforma, então têm razão todos aqueles que veem uma grave ameaça para a Reforma Litúrgica nesses dois atos do magistério. A fábula de final feliz resulta ser, então, pouco confiável, como quando o próprio Koch diz que “justamente os teólogos que haviam se comprometido com o movimento litúrgico, ou que haviam participado dos trabalhos do Concílio logo se tornaram sérios críticos dos desdobramentos litúrgicos pós-conciliares”. Não acho, de fato, que seja assim.

Não conheço nenhum teólogo que antes fosse favorável e que depois tenha se tornado contrário. Entre aqueles que hoje escrevem contra a Reforma não há um único teólogo que dela tenha participado. Escreve contra, normalmente, quem a conhece pouco. Essas opiniões em liberdade – se provêm da parte de quem deveria pesar o que diz a partir de sua própria responsabilidade – projetam sobre a realidade os desejos de quem as pronuncia, enquanto os fatos acorrem pontualmente para lhes desmentir.


IHU On-Line – A instrução do Vaticano, por meio da retomada do usus antiquior da liturgia, visa a “favorecer a reconciliação ao interno da Igreja”. Esse fim justifica o meio escolhido?

Andrea Grillo –
Repito que não é legítimo falar de usus antiquior. Chamaria de uso mais velho, ou, melhor ainda, “uso fora de uso”, que, se introduzido em um contexto pastoral harmônico e de crescimento eclesial, só traz desequilíbrios, conflitos, ilusões e frustrações. É a negação de 50 anos de escolhas árduas, corajosas e cheias de benefícios para a vida das comunidades. A intenção e o efeito não podem coincidir. Ou melhor, se contradizem, visto que a conformidade do meio ao fim é justamente a questão central que causa perplexidade nesses procedimentos.

A meu ver, a lógica do indulto é a única capaz de salvaguardar as escolhas pastorais e as competências episcopais. Enquanto a “liberalização”, na forma que assumiu agora com a Universae Ecclesia, desorienta e impede qualquer pastoral unitária e harmônica. Estão bem conscientes disso todos os bispos que têm uma real experiência pastoral. Os poucos que podem compartilhar essa escolha são aqueles que não têm um povo ao qual responder.

Se estamos sempre fechados no escritório, ou talvez até se aspiramos entrar em algum escritório, é muito fácil pensar e dizer enfaticamente que esse documento só traz paz e reconciliação. Se só colocamos um pé fora de casa e se aceitamos olhar na cara a realidade, entendemos que obtemos só o efeito contrário. Acho que isso demonstra um certo provincianismo típico daquela mentalidade curial, que abre muito pouco as janelas para deixar entrar um pouco de ar fresco. E que reduz o mundo à ideia que dele se fez.


IHU On-Line – Alguns comentaristas apontam que, por trás da instrução, colocam-se em questão as diferenças litúrgicas entre o “altar do sacrifício” e a “mesa da ceia”. É possível resolver essa tensão?

Andrea Grillo –
A tensão já foi resolvida pela Reforma Litúrgica. A mesa é altar. Isso comporta, porém, um efeito muito importante em termos de espaço litúrgico. A Reforma, como se sabe, envolve uma adequação das igrejas. Com esses novos documentos, que introduzem um paralelismo entre formas rituais não coerentes, se criará imediatamente uma espécie de impedimento à adequação por parte do uso velho.
No novo rito, mesa e altar podem conviver; no velho, não. Por isso, a aparente tolerância da Summorum Pontificum e da Universae Ecclesia introduzem um fator de intolerância que pode dilacerar todas as comunidades eclesiais, o que se consegue impedir com o simples obséquio formal ao novo rito. Por outro lado, como já disse, são os próprios documentos que prosseguem com a mesma lógica: formal obséquio à Reforma e subtração progressiva das razões da sua necessidade prosseguem neles lado a lado.


IHU On-Line – A instrução garante aos fiéis interessados a “faculdade” de retomar a missa tridentina, faculdade essa que deve ser concedida “generosamente” pelos bispos. Em que outros aspectos a “generosidade” papal e episcopal deveria se manifestar mais, em sua opinião?

Andrea Grillo –
Por si só, a generosidade é sempre uma coisa boa. Mas a generosidade desses documentos sofre de uma limitação estrutural pelo fato de que os destinatários parecem muito próximos – para não dizer idênticos – aos sujeitos que promovem os próprios atos. É verdade que a generosidade para consigo mesmos não é só um limite, mas, quando é tão insistente, tão reiterada, proposta com argumentos tão frágeis e tão pessoais e sentimentais, também deixa a impressão de que o que está em jogo, sobretudo, é uma relação consigo mesmos, não com os outros. A generosidade para com expressões muito diferentes das afeições e das fixações rituais de um certo estilo de vida curial e clerical certamente teria uma força profética muito superior. Mas isso, talvez, seja pedir demais.


IHU On-Line – Em sua opinião, quais foram o sentido e o significado da Reforma Litúrgica do Concílio Vaticano II, analisada a partir dos esforços de Paulo VI na sua aplicação e os movimentos recentes de Bento XVI?

Andrea Grillo –
A resposta a essa questão deve ser necessariamente bastante ampla e deve restabelecer, em primeiro lugar, uma correta memória do que aconteceu nos últimos dois séculos, substituindo os fatos à mitologia ilusória que os substituiu. Sobretudo, deve-se recordar que a condição da liturgia antes do Concílio Vaticano II versava em uma grave crise. Tal crise já havia sido reconhecida nas primeiras décadas do século XIX por homens como Antonio Rosmini , na Itália, ou Prosper Guéranger , na França. Cerca de um século depois, nos primeiros anos do século XX, nasceu o Movimento Litúrgico oficial com Pio X , Beauduin, Festugière, Guardini , Casel ... É verdade que todos esses escritores trabalhavam e pensavam no ambiente do rito tridentino. Porém, preparavam um profundo repensamento, que, com Pio XII, chegou a uma primeira reviravolta e começou a projetar a Reforma Litúrgica, a qual começou com o fim dos anos 1940 e não com o Concílio.

Antes, revisou-se a Vigília Pascal, depois a Semana Santa e, depois, pouco a pouco, todos os ritos cristãos. Esse período, que durou cerca de 40 anos – de 1948 a 1988 – realizou uma grande reforma do rito romano, que, na nova forma, substitui a velha forma, por causa das carências desta. A Reforma, no entanto, não era o fim, mas sim o instrumento para gerar, no corpo eclesial, uma forma diferente de participação, corpórea e simbólica, comunitária e dialógica. Os ritos são a linguagem comum a toda a Igreja. Voltar ao uso do rito prevalece agora sobre o temor do abuso.

Nesse espaço, tornado possível pelo novo modo de se referir ao rito – não só mais ritus servandus, mas ritus celebrandus, não mais só individual, mas comunitário, não mais preocupado com o mínimo necessário, mas sim com o máximo gratuito –, nesse mare magno, porém, começa-se a perder a memória desse caminho de muitas gerações. Encontramo-nos novamente no deserto da lenta transformação e diante das novas dificuldades que exigem que se assuma a participação de todos na única ação como lógica do culto eclesial. Em ambientes totalmente minoritários, com alguns laços com o tradicionalismo cismático lefebvriano, a ideia de que a crise foi causada pela Reforma abriu caminho. E de que, voltando para antes dela, haveria alguma esperança a mais. Toma-se por esperança uma mistura verdadeiramente tóxica de presunção e de desespero.
Há autores, como Messori ou Bux, ou outros jornalistas, que nos últimos anos têm repetido esse paralogismo até o cansaço, pensando que a crise litúrgica começa com o Concílio: e isso só é possível dizer ignorando totalmente do que se fala. O engano é surpreendente e pode-se confirmar só se for cuidadosamente evitado qualquer contato com a realidade. Mas, justamente, quanto mais nos confirmamos nessa distância de qualquer pastoral concreta, mais nos tornamos incompreensíveis e diria quase escandalosos para toda forma de sério compromisso pastoral. Hoje, estamos nesse cume delicado, que, com muita paciência e grande decisão, deve ser enfrentado e superado. Mas podemos enfrentá-lo só naquele Espírito que, graças ao Concílio Vaticano II, “vimos claramente passar entre nós (e quem agora o nega, e há quem o faça, infelizmente sabe bem o que faz: a sua verborragia o trai)”, como escreveu Pierangelo Sequeri  pungentemente.


IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Andrea Grillo –
Gostaria de salientar apenas um último ponto, que me parece, no entanto, decisivo para a superação do cume do qual falava há pouco, e é a função dos pastores e dos teólogos em todo este assunto. De um lado, pode-se entender a grande cautela com a qual se toma a palavra sobre esses temas litúrgicos, dadas as sensibilidades que se manifestam dentro das “cúpulas”. Gostaria, porém, de lembrar a todos que é uma forma de imprudência não só uma palavra mal proferida, mas também um silêncio não justificado.

Hoje, eu acredito que a melhor maneira de prudência eclesial consiste em falar sinceramente, em manifestar os problemas abertos e os riscos pouco considerados, com respeito crítico e com crítica respeitosa. Mas quase todos calam. O papa não deve ser deixado sozinho com os seus colaboradores mais diretos, que muitas vezes demonstram uma grande desorientação em questões de liturgia. É preciso que os irmãos no episcopado e os teólogos com alguma competência falem entre si, com o povo de Deus e com o papa, para ajudá-lo a considerar a questão da liturgia de modo mais integral e menos abstrato. Caso contrário, a comunhão eclesial sofrerá muito, alimentar-se-á ainda mais de inúteis murmurações e se esquecerá da graça da parresia. Estar em comunhão significa poder ser sincero. Na sinceridade e no confronto, tudo é pelo melhor. Só assim a Ecclesia se mostra verdadeiramente Universa, e os pontífices parecem verdadeiramente Summi.


Baú da IHU On-Line

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