Edição 363 | 30 Mai 2011

Liturgia e pedofilia: as novas e velhas feridas abertas da Igreja

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Moisés Sbardelotto

Pensar que a missa é melhor em latim é um “declínio à magia, não à reverência ao verdadeiro mistério da Eucaristia”, afirma o jesuíta norte-americano. Por outro lado, “as vítimas de abuso sexual ficaram muito decepcionadas com a nova carta do Vaticano”, por não ser forte o bastante, aponta Thomas Reese

“O Vaticano está se focando nos 8% e ignorando os outros 92%”. Para entender o cálculo, com base em dados dos EUA, esses 8% são ex-católicos que abandonaram a Igreja por ela ter se afastado das práticas tradicionais, como a missa em latim. Os outros 92% são aqueles que abandonaram a Igreja “porque nossas liturgias são chatas e porque não abrimos a Bíblia para nossas congregações de fiéis”.

Para o jesuíta norte-americano Thomas J. Reese, em entrevista por e-mail à IHU On-Line, os descompassos na liturgia e a crise da pedofilia estão abalando as estruturas da Igreja. “Pensar que a missa é melhor em latim é um declínio à magia, não à reverência ao verdadeiro mistério da Eucaristia”, afirma. Por outro lado, “as vítimas de abuso sexual por padres ficaram muito decepcionadas com a nova carta do Vaticano, porque ela previa apenas linhas diretrizes e não era forte o bastante”. E envia um alerta aos bispos de outros países: “Há muito mais abusos lá fora do que vocês pensam. Não esperem. Lidem com isso agora”.

Thomas J. Reese é padre jesuíta norte-americano e membro sênior do Woodstock Theological Center, da Universidade de Georgetown, em Washington. É mestre em Ciências Políticas pela Universidade de St. Louis e em teologia pela Escola Jesuíta de Teologia de Berkeley. Possui doutorado em ciências políticas pela Universidade da Califórnia. Entre 1998 e 2005, foi o editor-chefe da revista America, a renomada revista católica dos jesuítas dos EUA, fundada em 1909. Em português, publicou O Vaticano por Dentro: A Política e a Organização da Igreja Católica (Edusc, 1998).

Confira a entrevista.


IHU On-Line – Como o senhor interpreta a publicação da instrução Universae Ecclesiae no atual momento da Igreja? Em sua opinião, quais foram as reais intenções do Vaticano com essa medida?

Thomas Reese –
A instrução permite o uso mais comum não apenas da missa em latim, mas também da forma de missa pré-Vaticano II.

Não há nada sagrado com relação ao latim, mas o papa, na sua solicitude pastoral pelas pessoas que odeiam a mudança, tem sido generoso em permitir que a missa em latim continue. Essas pessoas são ignorantes com relação à tradição da Igreja e da história da liturgia. O simples fato é que a liturgia mudou ao longo da história da Igreja. Ela foi adaptada às mudanças na língua, na cultura e até mesmo na teologia. Nossa tradição católica é mudança.

Eu não acho que a Universae Ecclesiae era necessária. Teria sido melhor deixar ao critério do bispo local quando a missa pré-Vaticano II deveria ser permitida em sua diocese.


IHU On-Line – Em termos teológico-litúrgicos gerais, o que diferencia os dois ritos agora aceitos pela Igreja? Que mistério e que Igreja são ressaltados em cada um deles?

Thomas Reese –
Missa é missa, não importa em que língua ela é dita – latim, grego, hebraico, espanhol, inglês ou português. Mas, para que a Eucaristia seja o mais eficaz possível, a linguagem usada deve ser compreensível pelas pessoas que participam. Nos primeiros séculos, a Eucaristia era celebrada em grego (a língua internacional daquele tempo), mas foi mudada para o latim em Roma para que as pessoas comuns pudessem entendê-la. Essa mudança ajudou a causar o primeiro cisma em Roma, liderado por Hipólito, o primeiro antipapa, que preferiu o grego e escreveu a Oração Eucarística II.
O mistério da Eucaristia é o grande amor de Deus por nós, demonstrado por meio da morte e da ressurreição do seu Filho e pela nossa incorporação a esse mistério na Eucaristia. Pensar que a missa é melhor em latim é um declínio à magia, não à reverência ao verdadeiro mistério da Eucaristia. A antiga missa em latim põe uma barreira linguística entre o povo e o verdadeiro mistério da Eucaristia, que é a razão pela qual a Igreja mudou para o vernáculo.


IHU On-Line – Nos últimos dias, além da instrução, outros dois documentos-chave foram divulgados: a Carta Circular do Vaticano sobre a pedofilia e o relatório do John Jay College, analisando essa questão nos EUA. As diretrizes apontadas na carta “entendem proteger os menores e ajudar as vítimas para encontrar assistência e reconciliação”. O senhor avalia que os pontos indicados no texto são suficientes para esses objetivos?

Thomas Reese –
As vítimas de abuso sexual por padres ficaram muito decepcionadas com a nova carta do Vaticano, porque ela previa apenas linhas diretrizes e não era forte o bastante. Elas queriam as regras que exigissem a denúncia das acusações à polícia, a suspensão dos padres acusados enquanto estivessem sendo investigados, a remoção permanente dos padres culpados do sacerdócio e a punição dos bispos que não seguissem as regras.

Os defensores da instrução notam que ela exige que todas as conferências episcopais do mundo elaborem procedimentos dentro de um ano para lidar com os abusos sexuais. Isso permite que os bispos adotem procedimentos que atendam às suas culturas e sistemas jurídicos locais. O que é mais importante é que isso força os bispos a manter uma ampla discussão sobre o problema e sobre como lidar com ele. Ao fazer com que as conferências abordem os procedimentos, o Vaticano faz com que elas se apropriem do problema em vez de simplesmente receber regras enviadas por Roma que poderiam ser simplesmente arquivadas.


IHU On-Line – E qual a sua avaliação do relatório do John Jay College? A partir dele, onde a Igreja errou internamente com relação à pedofilia? Por outro lado, que influências externas – sociais, culturais – foram mais fortes?

Thomas Reese –
Em 1985, os bispos norte-americanos sabiam que havia um problema de abuso sexual, mas não sabiam qual era a sua extensão, porque apenas 6% dos casos anteriores a 1985 haviam sido notificados. Isso deveria ser um aviso para os outros bispos do mundo – há muito mais abusos lá fora do que vocês pensam. Não esperem. Lidem com isso agora.
Um outro erro dos bispos foi lidar com os padres, mas não ir ao encontro das vítimas. Todo bispo deveria se encontrar com as vítimas. Só quando eles ouvem as vítimas é que os bispos tomam consciência dos danos devastadores e permanentes provocados pelo abuso. Finalmente, os bispos precisam incluir os leigos e as leigas (não apenas os padres) na avaliação das acusações e no tratamento do abuso. Deve haver pessoas à mesa que perguntem: “Como eu me sentiria se fosse o meu filho?”. Ao não ter filhos, os sacerdotes tendem a se focar sobre o padre abusador e em ajudá-lo, em vez de se focar sobre a vítima.
Os pesquisadores do John Jay revelam que não há nenhum teste psicológico que vá conseguir detectar e filtrar com sucesso os 4% de padres que abusam. Mas é possível reduzir o abuso respondendo rapidamente quando ele acontece e educando os padres, os pais e os filhos sobre como reconhecer e evitar o abuso. Embora atrasados na resposta, os bispos norte-americanos têm agora procedimentos e programas em vigor. O relatório do John Jay também descobriu que o aumento dos abusos por padres nos anos 1960 e 1970 se equiparava ao aumento dos abusos e de outros comportamentos desviantes na sociedade norte-americana durante o mesmo período. Os padres que abusaram eram como outros homens abusivos.


IHU On-Line – Tanto a Carta Circular quanto a instrução Universae Ecclesiae apontam alguns elementos centrais da pessoa do sacerdote (“sacerdote idôneo”, candidatos ao sacerdócio que “apreciem a castidade, o celibato e a paternidade espiritual do clérigo”). A que tipo de sacerdócio Bento XVI espera chegar? Como esse “novo” sacerdote pode dialogar com os leigos e com a Igreja em geral?

Thomas Reese –
Em gerações anteriores, o padre era a pessoa mais instruída no vilarejo e, portanto, era um líder natural. Não é mais esse o caso. Hoje, as pessoas não vão aceitar o que o padre diz simplesmente porque ele o diz. Ao contrário, ele deve conquistar as pessoas pela sua vida (compaixão, simpatia, gentileza, amor) e pelas suas razões. Ele vai ter que ouvir as pessoas, assim como falar. Ele deve ser um servidor que ajuda as pessoas a responder ao Espírito e as leva a Jesus e ao seu Evangelho.


IHU On-Line – Na carta enviada aos bispos em 2007 acompanhando o motu proprio, Bento XVI diz: “Na história da Liturgia, há crescimento e progresso, mas nenhuma ruptura. Aquilo que para as gerações anteriores era sagrado, permanece sagrado”. Como interpretar essa afirmação em um novo período histórico como o de hoje?

Thomas Reese –
Atualmente, somos muito mais conscientes de como a liturgia mudou ao longo do tempo para responder às mudanças na cultura e às necessidades dos tempos. Em vez de canonizar exemplos históricos específicos do passado, devemos imitar as gerações anteriores e tentar descobrir como adaptar a liturgia aos nossos tempos. Isso exigirá experimentação e tentativa e erro, tal como aconteceu no passado.


IHU On-Line – O cardeal Kurt Koch disse recentemente que está em curso uma “reforma da reforma” do Vaticano II, que ainda vai continuar, em busca de uma liturgia comum que equilibre os extremos. E, não explicitamente, o Vaticano II também é posto em xeque a partir das atitudes pedófilas de alguns padres ordenados no período pós-Concílio. Como o Vaticano II poderia ser relido no contexto atual? Que pontos merecem ser revisitados ou ultrapassados hoje?

Thomas Reese –
Embora ninguém diga que todas as mudanças litúrgicas depois do Vaticano II foram perfeitas, não há dúvida de que foram um sucesso estrondoso que foi aceito com entusiasmo pelo povo. A maioria dos especialistas norte-americanos em liturgia teme que a “reforma da Reforma” seja um passo atrás. Por exemplo, no primeiro domingo do Advento, uma nova tradução [do missal] em inglês será implementada e que é pior do que a tradução atual. Uma tradução antiga e melhor revisada foi rejeitada pelo Vaticano, porque não era uma tradução “palavra por palavra” do latim. Esse é um trágico passo atrás, que os padres norte-americanos não estão esperando para explicar ao seu povo. Eu prevejo que a maioria dos padres vai dizer ao seu povo: “Eu não sei por que estamos fazendo isso, mas o bispo diz que temos que fazer”. Eu não acho que essas mudanças serão bem recebidas.


IHU On-Line – A instrução garante aos fiéis interessados a “faculdade” de retomar a missa tridentina, faculdade essa que deve ser concedida “generosamente” pelos bispos. Em que outros aspectos a “generosidade” papal e episcopal deveria se manifestar mais, em sua opinião?

Thomas Reese –
Ao invés de tentar a ressurreição de um cavalo morto – a Missa Tridentina –, o Vaticano deveria ser mais generoso em permitir que a conferência dos bispos experimente novas orações eucarísticas e outras partes da liturgia. Idealmente, isso seria feito em seminários, escolas e paróquias, onde a experimentação é dirigida por especialistas e artistas litúrgicos. As congregações saberiam quais liturgias são experimentais e poderiam evitá-las se não quisessem observá-las. Esses experimentos descobririam o que funciona e o que não funciona, e as inovações bem sucedidas poderiam ser disseminadas por toda a Igreja.


IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Thomas Reese –
Nos EUA, uma em cada três pessoas que cresceram católicas deixou a Igreja, e aquelas que ficaram não estão indo à missa aos domingos nas mesmas taxas que faziam no passado. Aquelas que estão se tornando protestantes dizem que abandonaram porque suas necessidades espirituais não estavam sendo correspondidas na Igreja Católica e porque gostam mais do serviço de culto da sua nova Igreja. Apenas 8% dos que abandonaram dizem que a Igreja “se afastou das práticas tradicionais, como a missa em latim”. O Vaticano está se focando nos 8% e ignorando os outros 92%. Além disso, aqueles que se tornam evangélicos dizem que gostam da ênfase sobre a Bíblia da nova Igreja. Em resumo, estamos perdendo católicos porque nossas liturgias são chatas e porque não abrimos a Bíblia para nossas congregações de fiéis.

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