Edição 363 | 30 Mai 2011

Os livros didáticos não têm que esgotar os assuntos estudados

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Anelise Zanoni e Márcia Junges

Livros didáticos que apresentam “erros” estão demonstrando os diferentes tipos de linguagem, pondera Cátia Fronza, e não fazendo-lhes uma apologia. Não existe um inconveniente em apresentar essas variações da língua

Uma interpretação exagerada. É o que está ocorrendo em torno da questão dos erros apresentados nos livros didáticos. Para a linguista Cátia Fronza, professora na Unisinos, “não se deve entender que o livro trabalhará esse tipo de linguagem”. De acordo com a pesquisadora, cabe à escola ensinar a língua padrão, mas isso não exclui que se considerem e reflitam sobre outras modalidades do idioma. Além disso, é preciso repensar a concepção de que os livros didáticos devam esgotar os assuntos a serem trabalhados em sala de aula, como se fossem a única fonte de informação disponível. Outro tema da entrevista concedida pessoalmente à IHU On-Line é a influência da internet sobre a escrita.

Cátia Fronza é doutora em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS e atualmente leciona na Unisinos.

Confira a entrevista.


IHU On-Line - Que avaliação você faz dos livros distribuídos pelo MEC que contêm erros de português? Eles defendem o uso da linguagem oral sobre a linguagem escrita?

Cátia Fronza –
O que eu percebo é que o livro está trazendo um registro de uso da língua. Portanto, não vejo problema nesta apropriação. Além do registro por meio de exemplos, como “os livro”, a obra está exemplificando um dado de fala. Não há inconveniente por haver este espaço sobre o dado de variação da língua. Poderíamos ver exemplos como “caxa” e “bejo”, palavras da linguagem coloquial. O conteúdo do livro do MEC traz exemplos que os professores podem usar para fazer comparações e comentários com os alunos. Em nenhum momento há a informação de que os docentes ensinarão de forma errada, até porque não teria finalidade. Quando vão à escola, os estudantes já dominam essa forma coloquial. Os professores precisam ensinar formas que ainda são desconhecidas, fazer questionamentos sobre o certo e o errado, a língua e a linguagem. Em minha opinião, está havendo uma interpretação equivocada. Não se deve entender que o livro trabalhará este tipo de linguagem. O que pode ser trabalhado é a questão dos diferentes usos da língua em diferentes ocasiões e finalidades. Junto a isso, vale conhecer quais são outros usos que a comunidade escolar já domina e já conhece e qual efeito que isso tem.


IHU On-Line – Os professores da rede pública têm a qualificação suficiente para saber lidar com esse tipo de livro didático?

Cátia Fronza –
O professor deve conhecer a variação linguística e os usos da língua. Ele precisa estar qualificado, porque entendemos que, quando chegar em determinada página do livro, aproveitará o conteúdo para fazer reflexões sobre a variação da língua. Esse é o papel do professor. Ele não pode ter o livro didático como única fonte de informação. O livro oferecido pelo MEC dá um exemplo de um dado real de fala, não está dizendo “professor, agora você ensinará o aluno dessa forma”.

Um exemplo importante de citar, e que já era usado em sala de aula, é a tirinha do Chico Bento . Nunca vi críticas sobre o uso do discurso do personagem de Maurício de Souza . Existe na fala dele uma característica de variação, e ninguém relacionou esse conteúdo ao direcionamento do ensino da língua portuguesa pelo professor. Ninguém questionou que o professor ensinaria os alunos a escreverem como o Chico Bento. Nem o personagem, nem a inserção de variação estão determinando o que deve, ou não deve ser ensinado. São apenas características da fala e precisam servir de reflexão. Então, por que não conversar com os alunos sobre as formas coloquiais da fala e as diferenças da escrita? Eles precisam perceber que, quando fazem um bilhete ou quando respondem a uma questão de sala de aula, escrevem de maneira diferente da fala. Por isso, também é importante fazer com que os alunos questionem, observem diferentes formas de escrita e percebam quais as regras usadas para cada uma.


IHU On-Line – Como são hoje as práticas de sala de aula e de avaliação da língua portuguesa?

Cátia Fronza –
O papel da escola é ensinar a norma culta. Se isso não ocorrer na escola, muitos alunos não terão acesso a essa forma. O alvo deve ser esse, mas não significa que não vamos considerar outras modalidades e refletir sobre isso. É preciso verificar a validade de cada processo. Dentro das atividades escolares, algumas avaliações também precisam de ser consideradas de formas diversas. Se existe avaliação por meio de debate, certamente haverá diferenças entre o seu registro oral/escrito. Uma mesma intenção pode render diversas representações na fala e na escrita. O alvo da escola, portanto, é a norma culta. Mas deve-se verificar a capacidade do aluno de utilizar recursos da língua de forma coerente, eficiente, adequada e comunicativa. O que ele fala ou escreve tem de atingir o interlocutor, fazer sentido, comunicar - seja na modalidade oral ou escrita, e a escola precisa ensinar isso. É preciso compreender que às vezes teremos formas mais próximas daquela padrão, às vezes não teremos.


IHU On-Line – A internet já modifica bastante a linguagem de crianças e adolescentes. Esta relação pode ser comparada aos exemplos aplicados nos livros didáticos?

Cátia Fronza –
Estamos, pela nossa inserção no mundo virtual, nos valendo de recursos que são apresentados para facilitar nossa comunicação. Essas mudanças já estão na escola no momento em que o estudante está se comunicando por meio do Twitter ou do Orkut, porque esse é o ambiente em que essa linguagem diferenciada faz mais sentido. Entretanto, para os textos escritos, esse tipo de linguagem não vale, a não ser que o professor utilize as redes sociais para fazer atividades. Na verdade, o professor deve refletir com os alunos sobre a adaptação da língua para o meio virtual. Percebemos, por exemplo, que quem não está por dentro dessas regras de escrita virtual pode não compreender a mensagem. Logo, o processo de comunicação não é completo. Precisamos conhecer como funciona essa linguagem para nos inserirmos melhor no contexto. A internet é um outro espaço para refletir sobre o uso da língua. Hoje, falamos de “internetês” porque temos este registro. Algumas pessoas falam em economia de tempo, mas, se analisarmos os dados, perceberemos que a rede usa outras regras linguísticas que também merecem estudo. Não tenho receio de que esta forma de escrita vá para os textos e para o cotidiano escolar. O aluno deve saber em que momento usar o “intenetês” e a língua portuguesa alvo. Por isso, os professores podem fazer atividades para ver como está o aproveitamento da língua em seus espaços diversos.


IHU On-Line – Qual a sua opinião sobre a incorporação dos estrangeirismos?

Cátia Fronza –
A relação da língua portuguesa com outros idiomas é normal. Isso mostra que, como falantes que somos, nos valemos dos recursos que são mais adequados para lidar com a comunicação do dia a dia. Se pararmos para pensar, todas as línguas têm relação umas com as outras, inclusive na sua origem. Penso que a relação entre os diferentes idiomas é natural, saudável e mostra mais uma vez que a língua não é estanque e está a serviço do povo. Além disso, não é a todo momento usamos estrangeirismos. Não é à toa que isso acontece, eles não vêm do nada. Sempre nos valemos dessas palavras por alguma razão. Não estou preocupada com a presença de palavras como os neologismos, pois não vejo como prejudiciais ao idioma. Se eles não fossem produtivos, ninguém os usaria. Alguns acabam sendo incorporados à língua, e outros são ignorados, porque não têm o mesmo efeito que esse mais produtivo ou frequente tem. Os neologismos e estrangeirismos não são privilégio apenas da língua portuguesa – eles fazem parte de usos e realidades concretas de todas as línguas do mundo.


IHU On-Line – Qual a sua opinião sobre a qualidade do livro didático? O que poderia ser modificado neles?

Cátia Fronza –
Apesar de não ter envolvimento na seleção dos livros didáticos, posso dizer que aqueles que são escolhidos foram avaliados pelos próprios professores que irão usá-los. As pessoas pensam que os livros didáticos devem trazer todas as informações necessárias para trabalhar na escola e atribuem a eles o papel de único recurso possível. Mas o livro didático não pode ser o único recurso do professor para trabalhar com determinado tópico ou tema. Trata-se de um suporte para o professor se valer daquilo que mais lhe convier. A partir disso, além disso e muito mais do que isso, o professor deve dar continuidade ao seu trabalho. Evidentemente, não se consegue agradar a todos, e, por isso, um livro pode ser bem aceito para alguns, mas por outros não. Penso que precisamos tirar do livro didático a responsabilidade sobre todo o conteúdo que o aluno deve aprender. Isso é um equívoco, não é possível colocar num livro tudo o que precisa ser estudado e consultado. Claro que há necessidade de cuidados: os livros precisam trazer as informações adequadas, desenvolvendo um mínimo de informações.


IHU On-Line – A ideia de que a língua portuguesa e a matemática são dificílimas de aprender ainda perdura?

Cátia Fronza –
Sim. Vemos que a força da avaliação consiste nessas duas áreas, das letras e dos números. Existe uma perspectiva do que se almeja. Falo pela Língua Portuguesa. O que se quer é corresponder a um uso de língua ideal. Se pararmos para pensar, poucas pessoas, ou quase ninguém, têm esse uso ideal. O fato é que esse uso é colocado como o único possível. Por isso existe a impressão de que não sabemos falar ou escrever direito. Na verdade, temos diferentes normas e parâmetros dentro do idioma. Não se pode dizer que alguém não sabe a língua, mas pode não saber usá-la em determinadas situações. Será que esse parâmetro considerado ideal realmente é o melhor em todos os momentos? Talvez isso tenha a ver com a avaliação. Essa forma de pensar a língua precisa ser trabalhada diferentemente. Devemos trabalhar com a língua padrão, mas isso nunca em detrimento de todo o resto.

A partir do momento em que pudermos juntar o que o aluno não sabe com o que ele sabe e tirarmos proveito do que ele sabe para aprender mais, ficará muito melhor. Também deveríamos aproveitar melhor o que nosso aluno já sabe: parece que partimos do pressuposto de que o aluno não sabe. Acontece que ele sabe muito mais do que imaginamos. Por que não podemos chamar a atenção das crianças, desde pequenas, que há formas diferentes para a escrita, para a fala? É preciso apontar, ainda no início da escolarização, que a escrita e a fala têm suas especificidades e todos somos usuários de ambas as modalidades.

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