Edição 363 | 30 Mai 2011

Um questionamento sobre as normas popular e culta

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Anelise Zanoni

A polêmica em relação ao livro com erros de português lançado pelo MEC coloca em questão a responsabilidade do professor em estar atento aos conteúdos dos livros e em denunciar o problema, afirmam as educadoras Conceição Paludo e Rita de Cássia Machado

Associar a linguagem falada diariamente com aquela que é transcrita por meio das palavras é talvez a primeira (e mais fácil) atitude dos estudantes. Para escrever de modo considerado correto, é preciso ter consciência de que o oral é diferenciado do escrito, explicam as educadoras Conceição Paludo e Rita de Cássia Machado. “[O educando] necessita, inicialmente, fazer um esforço prático e consciente na direção da busca pela escrita considerada correta e esse esforço sempre vai existir”, dizem as especialistas em entrevista conjunta à IHU On-Line.

Por e-mail, elas explicam que a polêmica atual em relação ao livro lançado pelo Ministério da Educação - MEC possibilita o questionamento sobre a norma popular e a norma culta. Por outro lado, para elas, a situação também “viabiliza a discussão sobre o direito das classes populares, ou dos trabalhadores sem condições, de reproduzirem a sua vida com dignidade, terem acesso ao conhecimento reconhecido como científico e também a norma considerada culta”. Nessa esfera, a questão é admitir que as classes populares, pelas condições de produção e reprodução da existência, estão mais distantes do conhecimento historicamente acumulado, do conhecimento científico e das normas cultas para a escrita.

Educadora popular e professora do Departamento de Fundamentos da Educação e do PPGE da Faculdade Federal de Pelotas, Conceição Paludo é doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS. Mestre em Educação pela UFRGS e doutoranda na mesma área e instituição, Rita de Cássia Machado é professora substituta na faculdade de educação da UFRGS.

Confira a entrevista.


IHU On-Line - Em sua opinião, quais os reflexos da linguagem oral na escrita?

Conceição Paludo e Rita de Cássia Machado -
Nossa experiência no trabalho educativo com diferentes classes sociais e níveis de ensino, inclusive graduação e, em algumas situações, até na pós-graduação, indica que, para escrever como academicamente (cientificamente) se entende por correto, o estudante precisa ter consciência de que a linguagem oral é diferenciada da linguagem escrita. Ele necessita, inicialmente, fazer um esforço prático e consciente na direção da busca pela escrita considerada correta e esse esforço sempre vai existir. Isso significa que a tendência predominante é a de escrever como se fala. A consciência, articulada ao esforço prático possibilita que gradativamente seja feito o exercício de análise do próprio texto e que exista a preocupação em escrever corretamente: ortografia, sintaxe, pontuação, emprego de termos – precisão conceitual e ampliação do vocabulário. Com o tempo, e dependendo da profissão, nada se escreve sem que seja revisto. Até doutores submetem seus textos a leitura de algum colega e a correção. Estudantes não entregam versões finais de dissertações e teses sem a famosa correção de português. É aí que entra o papel do professor e da escola, desde cedo. Diversas pesquisas também demonstram que a relação entre falar, ler e escrever é imbricada. Na medida do aprendizado da escrita há a qualificação da fala (e da leitura) e a possibilidade de expressão oral, assim como a prática da leitura, são importantes para a organização do pensamento e para a escrita. A qualificação da linguagem falada, da leitura e da escrita é permanente. Esse aprendizado é processo e dura a vida inteira, independentemente do nível de ensino que a pessoa tenha. Assim como, por mais escolarização que tenha a pessoa, a fala sempre é mais despreocupada, livre das normas e mais coloquial. Outro elemento importante é o de que, necessariamente, a consciência política e social, assim como a quebra de pré-conceitos, não tem relação direta com falar como o considerado correto, tão pouco com escrever como dita a “norma culta” ou em ser um exímio leitor. A polêmica atual em relação ao livro lançado pelo MEC, por exemplo, possibilita, de um lado, um questionamento de fundo, que diz respeito à explicitação da razão por que há, em nossa sociedade, a existência da nomeada “norma popular” e da “norma culta” e, de outro, viabiliza a discussão sobre o direito das classes populares, ou dos trabalhadores sem condições de reproduzirem a sua vida com dignidade, terem acesso ao conhecimento reconhecido como científico e também à norma considerada culta.


IHU On-Line - Você acredita que o uso da linguagem oral em livros pode ajudar no desempenho educacional de alguns grupos sociais? Como?

Conceição Paludo e Rita de Cássia Machado -
Como se disse, existe diferença entre a linguagem oral e escrita. O que significa entendermos que há diferença no seu uso. O que queremos dizer com isso é que a fala é diferente da escrita e que ambas devem ser respeitadas e entendidas socioculturalmente. Entender que a língua é viva e que muda conforme muda a sociedade - tempos, espaços, organização econômica e política - é importante. Vejamos a palavra ideia, hoje sem acento, até poucos dias ela possuía acento. Então, podemos dizer que até poucos dias ela era escrita de forma “errada”, ou que hoje está “errada,” conforme normas anteriores? Outro exemplo, seria a pronuncia da palavra leite, “o correto” seria pronunciarmos [e] no final da palavra. No entanto, em algumas regiões, inclusive a nossa, falamos [leiti]. Neste caso, quando falamos assim, estamos errados?

Enfim, respeitar a forma coloquial, ou mesmo a “norma popular” de fala, assim como os saberes populares, é fundamental se queremos aproximar ou mesmo possibilitar a socialização do conhecimento elaborado, e também a norma culta, aos estudantes. Deste modo, pensamos que a Educação Popular contribui para este processo, porque seu método é exatamente esse: partir da norma popular e dos saberes populares para ir ao encontro do conhecimento elaborado e da norma culta. Esse seria a forma de partida do processo pedagógico: do saber das classes populares, sem pré-conceitos, chegar ao conhecimento científico. Nesse sentido, exemplos e discussão sobre as diferenças entre a linguagem oral e a linguagem escrita não necessariamente é uma estratégia pedagógica equivocada e nem a ser usada em “alguns grupos sociais”, dado que o uso da linguagem falada da sociedade como um todo é diferenciado da forma de escrita. Abrimos o jornal e rapidamente encontramos problemas de concordância, por exemplo. O que está em questão, então, é admitir que as classes populares, pelas condições de produção e reprodução da existência estão mais distantes do conhecimento historicamente acumulado, do conhecimento científico e das normas cultas para a escrita. Assim como, na linguagem falada, está longe do que a sociedade aceita como sendo coloquial. Encarar esse fato é primordial para o rumo da discussão e para tratar com a seriedade merecida a educação desses grupos sociais.


IHU On-Line - Qual crítica vocês fazem em relação à divulgação dos livros com erros de português?

Conceição Paludo e Rita de Cássia Machado -
Não é aceitável que livros de português contenham erros de português. Esse, entretanto, não parece ser o problema do livro atual lançado pelo MEC, que se destina a Educação de Jovens e Adultos dos anos iniciais. A forma de escrita do primeiro capítulo do livro contribui para a tomada de consciência dos estudantes de que há diferentes formas de escrita – variedades linguísticas – e que há uma que é considerada a norma popular. O que o livro não explicitou e deveria ter explicitado é que o não reconhecimento da norma popular e a hegemonia da norma culta são socialmente construídos. Também não explicitou que para as classes populares, na direção da reprodução da vida material e também espiritual, é fundamental a apropriação da norma culta. Isso é o que garante, para além das oportunidades, as condições para a disputa de empregos, por exemplo, que possibilitem qualidade na produção e reprodução da vida. Os autores deveriam ter ido fundo na exploração da existência da norma popular e da norma culta e nas contradições sociais que as engendram. Essa discussão só se coloca porque a divisão da sociedade em classes sociais também divide no que diz respeito ao contato, relação, usufruto e apropriação do conhecimento historicamente acumulado pela sociedade e não possibilita a vivência cotidiana com as criações humanas produzidas e corretamente valorizadas pela sociedade: teatro, obras de arte, cinema, tecnologias, contato amplo com livros, entre outros. A apropriação do conhecimento legitimado pela sociedade é condição fundamental para as classes populares saírem da condição indigna de produção e reprodução da vida, tanto pela via da disputa de emprego quanto da organização política para a busca de direitos e disputa de hegemonia – visão social de mundo, de ser humano e de sociedade - na sociedade. Assim, é muito pouco dizer, como em alguns comentários sobre a polêmica, que é preciso não ter pré-conceito com a norma popular porque isso não é democrático. A não democracia se expressa também na existência de setores que não usufruem dos bens culturais, que são resultantes das obras humanas e pertencem a todos. O que a sociedade tem que discutir é como irá criar as condições para que todos possam acessar a esse conhecimento.


IHU On-Line - Como professoras, vocês consideram aceitável que uma pessoa escreva uma palavra do jeito que ela é pronunciada ou escreva uma frase com a concordância usada oralmente?

Conceição Paludo e Rita de Cássia Machado -
Não. Como já dissemos anteriormente, há diferenças na linguagem oral e escrita. Nossa tarefa como professoras é exatamente orientar para o uso culto da língua. Isso é extremamente importante em se tratando das classes populares. A divisão entre popular e não popular se expressa na educação para além da norma popular e da norma culta: temos a escola pública e a privada, por exemplo, que consagra essa divisão e que é aceita pela sociedade. As transformações no mundo do trabalho e o avanço tecnológico colocam a educação/conhecimento como fator central, principalmente para essas classes, na direção da mobilidade social. Sem emprego, com salários baixíssimos ou com subempregos e políticas públicas insuficientes e compensatórias, é difícil viver com dignidade e exercer a tão falada cidadania. Se a educação falha também, o que sobra? O que queremos destacar com isso é que os professores, assim como a escola, têm função social absolutamente fundamental na atual conjuntura: a de possibilitar o acesso ao conhecimento de qualidade também para as classes populares. Mas é importante refletir de que conhecimento se fala: não é do conhecimento que nos torna mais submissos e nem o que distancia das raízes. É do conhecimento que ajuda na leitura da realidade, que compromete socialmente, que contribui para a organização social em busca dos direitos, para a luta pela democracia substantiva, como diz Chauí, da sociedade. É nessa perspectiva humana e politicamente comprometida que o trabalho educativo com as classes populares deve contribuir para que se apropriem, conforme diz Paulo Freire, de modo rigoroso, do conhecimento.


IHU On-Line - Qual o desafio do professor ao encontrar um livro didático com erros de português?

Conceição Paludo e Rita de Cássia Machado -
Dependendo do tipo e quantidade de erros, o professor deve se preocupar em analisar com maior acuidade o conteúdo do livro e as possibilidades pedagógicas que oferece. O professor também precisa fazer a denúncia, isto é, tornar público o problema, porque isso é uma forma de fazer com que escritores, editoras e gestores educacionais levam a sério a educação. Se a análise indicar que o livro deve ser utilizado, o desafio parece ser relativamente simples e o aprofundamento da discussão com os estudantes depende do nível de ensino. É preciso falar que há erros, discutir com os estudantes quais são, porque são considerados erros, porque eles acontecem e corrigir o livro. No caso dos estudantes que ainda não são alfabetizados cabe ao professor a correção e dizer aos estudantes porque foi corrigido. Outro desafio é o de fazer o controle público sobre os recursos que se é utilizado para elaboração destes materiais, ou seja, os livros são produzidos com recursos públicos e é importante que este seja bem aplicado. Não é possível admitir gastos enormes para elaboração destes materiais, para que eles fiquem “mal feitos”. Assim chamamos a atenção para isso: o de saber também como estes processos se dão. Isso nos remete à reflexão de que a fiscalização pela sociedade, neste caso pelos professores, alunos e pais, dos recursos públicos constitui fator preponderante na construção de uma sociedade democrática. Aqui não se trata, apenas, de verificar a exatidão das contas e a legalidade dos atos, mas do controle “dos jeitos” que os convênios, as licitações ou mesmo a compra direta de tais materiais são realizados. Acreditamos que se os professores pudessem elaborar seus materiais seria uma forma de controle direto, fundamental para a sociedade democrática e possibilitaria, por exemplo, a proximidade com os contextos dos estudantes e a formação dos professores, porque exigiria a pesquisa.


IHU On-Line - Como a linguagem pode ser ensinada em uma escola popular, sem que os alunos sejam prejudicados?

Conceição Paludo e Rita de Cássia Machado -
Na atualidade não existe escola popular. O que existe é escola pública e escola privada. Na escola pública é onde se concentram os estudantes das classes populares. A concepção de Educação Popular nos ajuda responder a esta pergunta. Frente a um Estado autoritário, dominante e excludente, era preciso “dar as costas” e fazer surgir uma alternativa de mudança. Foi então que a partir de 1960 é construída a Educação Popular, como resultado da organização popular em busca, naquele período, das reformas de base. Paulo Freire  teve papel muito importante na formulação teórica da concepção de Educação Popular, decorrente do seu engajamento, compromisso político e das iniciativas de conscientização política do povo buscando a emancipação social, cultural e política. Assim, a Educação Popular se dirige às classes populares. Vale salientar que esta concepção de educação dá conta do que tentamos explicar e responder quando dizemos que é preciso respeitar o saber popular e as formas de expressão, no sentido de valorizá-lo. No entanto, é preciso problematizar. Não é possível aceitarmos “nóis vai”, mas é possível respeitar, e problematizando se chegar ao saber científico e a norma culta. Construir uma escola pública popular é ampliar as aspirações educacionais populares, é adotar para a educação escolar um currículo pensado a partir da população, é ajudar a construir a disciplina para a leitura e estudo. É fazer uma escola que para Paulo Freire, e para nós, “estimula o aluno a perguntar, a criticar, a criar, onde se propõe a construção do conhecimento coletivo, articulando o saber popular e o saber crítico, científico, mediado pelas experiências no/do mundo”. É nesse contexto, que é sempre atual, que algumas questões sobre política social, diferenças sociais e práticas nas escolas (ensino da língua) vêm à tona e nos convidam a novas reflexões. Uma delas, por exemplo, de extrema importância, é a que estamos fazendo.

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