Edição 363 | 30 Mai 2011

Simplicidade, funcionalidade, sobriedade, participação: por uma liturgia do século XXI

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Moisés Sbardelotto

“É espantoso o leque de retorno: tudo pode voltar a antes do Concílio em termos de liturgia, não só a celebração da Eucaristia”, afirma o teólogo. Se as gerações anteriores viveram o sagrado cristão segundo o missal de Pio V, então permanece sagrado “para eles”

“Tudo pode voltar a antes do Concílio em termos de liturgia, não só a celebração da Eucaristia”. E isso, para o teólogo e frei capuchinho Luiz Carlos Susin, “é coerente com o que nos vem chegando nos últimos tempos desde os muros do Vaticano”. “Por lá parece que rituais barrocos ainda têm importância”.

O retorno ao missal de Pio V, do século XVI, auge da Contrarreforma, é uma reaproximação duvidosa ao barroquismo e ao antimodernismo. A reforma do Concílio Vaticano II buscou justamente recuperar os três elementos que formam a genialidade da cultura romana: simplicidade, funcionalidade, sobriedade. “Isso garante uma maior transparência e eficácia do rito, dos símbolos e da celebração”, afirma. Por outro lado, “a mesa eucarística no centro da comunidade, com a comunidade ‘ao redor da mesa’ atende uma palavra chave do clamor de renovação: a ‘participação’ e o envolvimento de todos na celebração”, explica Susin.

“Mas o que virá depois?”, questiona, em entrevista por e-mail à IHU On-Line. “Há uma juventude no interior da Igreja que flutua sem solidez e sem propostas mais realistas apegando-se à estética dos rituais”. Por último, reflete Susin, “penso que seria importante que os entusiastas desses rituais passassem por uma bateria de testes psicológicos, pois nisso também Freud tem alguma coisa a explicar”. 

Luiz Carlos Susin é frei capuchinho, mestre e doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, Itália. Leciona na PUCRS e na Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana - Estef, em Porto Alegre. É também secretário-geral do Fórum Mundial de Teologia e Libertação. Dentre suas inúmeras obras, destacamos Teologia para outro mundo possível (Paulinas, 2006).

Confira a entrevista.


IHU On-Line – Como o senhor interpreta a publicação da instrução Universae Ecclesiae no atual momento da Igreja?

Luiz Carlos Susin –
Essa instrução regulamenta a reintrodução da liturgia anterior ao Vaticano II. É coerente com o que nos vem chegando nos últimos tempos desde os muros do Vaticano. Mas, para quem se ocupa com a realidade do lado de cá do oceano, a primeira lembrança que me vem à mente é de Santa Teresa D’Ávila : “No es tiempo de tratar con Dios de cosas de poca importancia!”. Mas por lá parece que rituais barrocos ainda têm importância.

No entanto, é espantoso o leque de retorno: tudo pode voltar a antes do Concílio em termos de liturgia, não só a celebração da Eucaristia. Estou inteiramente de acordo com a interpretação do teólogo e liturgista Andrea Grillo (Notícias do Dia, IHU, 17-05-2011 http://bit.ly/kLbMl7). É um abuso invocar o último retoque de João XXIII no Missal de Pio V para maquiar a justificativa com a impressão de que se trata da forma de celebração regulamentada por João XXIII. Ele apenas introduziu a memória de São José no cânone a pedido de um grupo de bispos, mas já avisando que se deveria aguardar o que o Concílio iria tratar em questão de liturgia. E como os rituais vinham caindo de mortos por toda parte, sua renovação foi a primeira urgência do Concílio.

Eu fui coroinha pré-conciliar, e depois, quando seminarista, encarregado do altar e da sacristia, estudei seis horas semanais de latim durante seis anos, e vi todo o “paradigma” cair de velho. Não foi uma “ruptura” de quem quer que seja, não houve necessidade de romper nada, já estava tudo desgastado: os missais, os manuais, os breviários, as vestes, os gestos. Ficou-se algum tempo em vacatio legis por falta de substância nova. Eu mesmo adaptava letras a melodias existentes para poder cantar algo em língua nativa. Mas, aos poucos, amadureceu a nova forma de celebração do mesmo grande mistério cristão, não somos órfãos, temos excelentes condições de celebrações cristãs da Eucaristia com o povo de Deus.

Certamente a grande maioria dos padres que viveu a difícil transição está perplexa. João XXIII e Paulo VI devem estar colocando as mãos na cabeça, mas dá pena mesmo é dos bispos que terão que administrar essa situação que abre precedente para o exotismo. Francamente, não vejo muita diferença entre um casamento “temático” com noivo e noiva vestidos de Shrek e Fiona e um padre com manípulo e casula em forma de violão, rodeado de dalmáticas e outros panos, de costas para a comunidade, onde acólitos respondem em um latim mal sabido representando o povo que está presente assistindo sem participar ativamente, em pura estética religiosa.

Para estética, mesmo religiosa, há outros recursos, outros momentos, certamente apropriados. Pode-se ter um DVD com uma cantata de Bach no silêncio da própria residência, por exemplo. É certo que “o que foi sagrado em outros tempos resta sagrado”, mas não os gestos rituais, os panos, que são culturais e tão mortais como toda cultura humana. Além disso, o latim é tão interessante como o grego ou o hebraico, para ler Santo Agostinho, São Paulo ou ouvir Bach, mas também para ler Júlio César ou Homero, são línguas também de pagãos e de imperadores cruéis. Não tem nada de especialmente sagrado ou eclesial. Hoje é uma língua funcional para os documentos do Vaticano. Paulo VI entendeu perfeitamente. A língua da Igreja é a língua do povo cristão, que fala e se entende em muitas línguas desde Pentecostes. 


IHU On-Line – Em termos teológico-litúrgicos, o que diferencia o rito extraordinário (tridentino) e o rito ordinário (pós-Vaticano II)?

Luiz Carlos Susin –
O rito ordinário, ou seja, o rito segundo o Concílio Vaticano II e implantado a partir de 1970 por Paulo VI, na verdade recupera elementos mais antigos, se quisermos “mais veneráveis” do que o rito tridentino, de Pio V. Afastando-se do barroquismo em que se meteu a liturgia tridentina, recupera os três elementos que formam a genialidade da cultura romana: simplicidade, funcionalidade, sobriedade. Isso garante uma maior transparência e eficácia do rito, dos símbolos e da celebração. A mesa eucarística no centro da comunidade, com a comunidade “ao redor da mesa” atende uma palavra chave do clamor de renovação: a “participação” e o envolvimento de todos na celebração. A mesa da palavra deu mais visibilidade ao anúncio e à evangelização, a homilia se tornou mais bíblica, deixou de ser uma oratória barroca. A comunicação na liturgia escorre com mais naturalidade. O rito tridentino, formalizado no missal de Pio V, teve o mérito, na época, de dar mais unidade e ordem, mas não se explica sem o barroco da Contrarreforma. Contra os protestantes, exalta o aspecto sacrifical da missa, uma oferta basicamente expiatória a Deus, o que é hoje altamente problemático.


IHU On-Line – Essas medidas, segundo o cardeal Kurt Koch, o mais alto ecumenista do Vaticano, são os passos de uma “reforma da reforma” do Vaticano II, que ainda vai continuar, em busca de um rito que equilibre os extremos. O Vaticano II precisa ser relido no contexto atual? Como deveria se dar essa releitura?

Luiz Carlos Susin – Esta é uma questão bem ampla, dentro da qual está a questão da liturgia. O Vaticano II foi um acontecimento eclesial marcante: os mais de dois mil bispos ficaram quatro anos escutando conferências e debates, aprendendo o que se tinha pesquisado nas últimas décadas em termos de Bíblia, Patrística, Liturgia, Ecumenismo, Teologia, Pregação, Pastoral. Apesar de alguns conflitos e algumas confusões iniciais, criaram um grande consenso. Ao contrário do Concílio Vaticano I, terminou-se bem. Ninguém duvidava da urgência de renovação, de atualização, de reconhecimento dos valores contemporâneos etc.
Depois do Concílio, se sucederam cursos, especialmente para o clero, pelas dioceses mundo afora. Mas a interpretação, a assimilação e a prática levam um tempo de gerações, pois o Concílio, com o princípio de “volta às fontes” e de “sinais dos tempos” é de um alcance quase perpétuo. Seus documentos ainda são orientadores, embora tenhamos alguns desenvolvimentos importantes.
O que eu considero inteiramente falso, uma nuvem para distrair os desavisados, é a afirmação de que houve uma interpretação do Concílio como “ruptura” com a Tradição. Esses comentários maliciosos colocam uma antinomia que é uma armadilha entre “ruptura” e “continuidade”. Ninguém duvida que ele trouxe renovação dentro da continuidade, mas não tanto da continuidade da Contrarreforma tridentina e do movimento antimoderno da Igreja.

Trata-se, ao invés, no Concílio Vaticano II, de continuidade com os tempos patrísticos e do Novo Testamento, da Igreja dos primeiros séculos. Se há uma releitura a ser feita, ela deve ser feita de novo com os sinais dos tempos atuais – século XXI – e de novo com as fontes. Essas fontes, além de serem as Escrituras, são, como dizia Congar , a grande Tradição, com letra maiúscula, e não as pequenas tradições. Recuperar o missal de Pio V ou os breviários pré-conciliares é recuperar pequenas tradições que acarretam mais problemas do que soluções.


IHU On-Line – A instrução do Vaticano, por meio da retomada do Usus Antiquior da liturgia, visa a “favorecer a reconciliação ao interno da Igreja”. Esse fim justifica o meio escolhido?

Luiz Carlos Susin –
É difícil entender e crer nisso. A comissão que emanou a instrução, evidentemente também assinada por Bento XVI, era a comissão encarregada de tratar com os tradicionalistas de Marcel Lebfevre. Eles têm outros pontos importantes de discordância com o Magistério conciliar, como a liberdade religiosa e o valor das outras religiões. A resposta dos tradicionalistas às concessões foi que eles endureceram ainda mais, querem mais. Agora, essa comissão passou para a Congregação para a Doutrina da Fé, e não para a do Culto Divino. E normatiza para toda Igreja o que era originalmente para os tradicionalistas, evidentemente supondo que haja tradicionalistas por todo lado.

Mas o que virá depois? O catecismo de Pio X, o juramento antimodernista? Os muros do Vaticano são muito grossos. O mais intrigante é que ao mesmo tempo se incentiva a que jovens se preparem para celebrar no missal de Pio V, que aprendam latim para isso. Tudo muito exótico. No Brasil servirá para minorias nostálgicas, sem futuro. Mas há uma juventude no interior da Igreja que flutua sem solidez e sem propostas mais realistas apegando-se à estética dos rituais. Há um sintoma pós-moderno de performances, de ritualismo que confunde o ser cristão com práticas rituais. A vida cristã é o evangelho, a memória e o seguimento de Jesus em todas as circunstâncias. O resto é cultura.

Além disso, essa preocupação com o “sagrado” precisa ser aclarada: o sagrado não é característica do ser cristão, mas do ser religioso e do ser humano em geral. E, finalmente, penso que seria importante que os entusiastas desses rituais passassem por uma bateria de testes psicológicos, pois nisso também Freud tem alguma coisa a explicar. 


IHU On-Line – Por trás da instrução, estariam em questão as diferenças litúrgicas entre o “altar do sacrifício” e a “mesa da ceia”. Como resolver essa tensão?

Luiz Carlos Susin –
De fato, este é o ponto teologicamente central. Sem rodeios: o altar do sacrifício é “pré-cristão”, sobretudo nessa plasticidade que se quer dar ao padre de costas para o povo e de frente para o retábulo. É adulterar o sentido da Eucaristia colocando no centro dela uma oferta de sacrifício a Deus. No centro está o fato que, em Cristo, Deus se tornou oferta a nós, mas oferta de pão e vinho, portanto de mesa, de celebração pascal, dom a ser fracionado e comungado em comunidade.

O problema da Igreja que não assimilou bem o Concílio Vaticano II é o medo de nos reduzirmos ao protestantismo, a “ceia”. Ora, é justamente a ceia o que mais faz memória do que Jesus fez e nos deixou como memorial. Ou seria um ato falho que tenhamos justamente na celebração da Quinta-Feira Santa, justamente no dia da memória da instituição da Eucaristia, em todo e qualquer missal – e para dizer em latim tridentino – a celebração “In Coena Domini” (Na Ceia do Senhor)? Mas até o novo missal, de Paulo VI, não tem página em que não a repita.

Se quisermos dar outro sentido à palavra “Sacrifício”, como de fato, o missal busca dar, trata-se de sacrifício de “louvor” e “ação de graças”. Mas nossa oferta de louvor e de agradecimento se faz em comunidade, justamente ao redor da mesa em que ele se oferece em ceia de pão e vinho. Há hoje uma imensa literatura mostrando o quanto é problemático e perigoso alimentar a mentalidade e até a palavra “sacrifício”. Portanto, a melhor coisa a fazer, embora não seja simples nem fácil, é dar-lhe um significado novo, não mais o que prevaleceu na cristologia e na liturgia de “satisfação vicária”.
Há diversos problemas que decorrem desse “acerto com Deus” por dentro da satisfação vicária: Deus não precisa de satisfação, segundo o ensinamento de Jesus, e se torna até uma blasfêmia contra a pureza do seu amor e da sua graça. O esquema de sacrifício como satisfação é também de expiação e de punição, o que leva a justificar esses métodos com muita facilidade também na sociedade. Evidentemente o criminoso deve ser chamado à expiação, donde decorre a punição. Mas o drama histórico é que se colocam inocentes como vítimas expiatórias quando se justifica a satisfação vicária. Foi isso que impediu de ver monstruosidades justificadas no passado, como as fogueiras “in nomine Christi”, as “guerras justas” e tanto sofrimento impingido com boa consciência a pessoas inocentes e a verdadeiros profetas cristãos.


IHU On-Line – Segundo Bento XVI, em carta enviada aos bispos, “não existe qualquer contradição entre uma edição e outra do Missale Romanum. Na história da Liturgia, há crescimento e progresso, mas nenhuma ruptura. Aquilo que para as gerações anteriores era sagrado, permanece sagrado”. Que significado essa afirmação adquire em nossa era (“pós-contemporânea”, “pós-metafísica”, “pós-revolução tecnológica” etc.)?

Luiz Carlos Susin –
Bem, se as gerações anteriores viveram o sagrado cristão na forma da missa rezada segundo o missal de Pio V, então permanece sagrado “para eles”. E devem ser respeitados. Não são muitos e estão com muita idade – e olha que eu vivi aqueles tempos, foi algo sagrado para mim também! Mas hoje eu viveria um teatro, uma mise en scène.  Enzo Bianchi , um monge que leva muito a sério a liturgia e tem liderança internacional reconhecida nesse campo, afirma que talvez o refúgio nesses rituais de um passado barroco seja falta de coragem para encarar de frente o que a Igreja precisa para se situar e atuar na complexidade da sociedade atual. É uma bela distração. 


IHU On-Line – A instrução garante aos fiéis interessados a “faculdade” de retomar a missa tridentina, faculdade essa que deve ser concedida “generosamente” pelos bispos. Em que outros aspectos a “generosidade” papal e episcopal deveria se manifestar mais, em sua opinião?

Luiz Carlos Susin –
Por que não estimular a criação de expressões e até um verdadeiro rito “africano” para a África negra tanto no Continente como na Diáspora? Os africanos, ao toque do atabaque que arranca o sagrado das profundezas da terra, gestualizam com o corpo inteiro, com pés descalços e com um sotaque inconfundível de voz a beleza e a comunhão com o sagrado. O próprio Bento XVI ficou impressionado com a mística forte das comunidades cristãs em celebração na África. No entanto, o rito que tinha começado no Congo (rito zairense) foi truncado por Roma.

Ainda não aprendemos a amarga lição do cancelamento dos esforços de inculturação litúrgica na China em tempos de Contrarreforma, quando se perdeu a oportunidade de uma China cristã. Hoje, na África cristã, vicejam igrejas pentecostais independentes. O Diretório da CNBB para celebrações com grupos populares poderia merecer mais atenção. A inculturação da liturgia é uma das urgências dentro do âmbito mais global da inculturação, que supõe também descentralização, diversidade de ministérios, mais Igreja Local. Aqui é que se ganharia muito e valeria a pena investir energias.


Leia mais...

Luiz Carlos Susin já concedeu outras entrevistas à IHU On-Line. Confira.

* O método do mestre José Comblin. Publicada na IHU On-Line número 356, de 04-04-2011

* “Uma Igreja tradicionalista nunca será criativa”. Publicada na IHU On-Line número 320, de 21-12-2009

* “A mudança de eixo da humanidade. O III Fórum Mundial Teologia e Libertação”. Publicada em 28-1-2009

* “Teologia da Libertação após Aparecida volta ao fundamento?” Publicada em 8-6-2008

* “Alteridade: um a priori de carne e osso”. Publica na IHU On-Line número 277, de 14-10-2008

* “Segundo Fórum Mundial de Teologia e Libertação”. Publicada em 9-2-2007

* “Jon Sobrino e a Notificação do Vaticano. Depoimento de Luiz Carlos Susin”, publicado em 15-03-2007

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