Edição 363 | 30 Mai 2011

Os livros didáticos e a necessidade de ampliar a experiência do letramento

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Patricia Fachin e Márcia Junges

É preciso oferecer aos estudos a chance de abrirem os horizontes em seu processo de aprendizado da linguagem, pondera Carlos Faraco. Enquanto seres de linguagem, o mundo ganha sentido semioticamente, e não há conhecimento fora das linguagens

Analisando a recente polêmica sobre a escrita nos livros didáticos brasileiros, o linguista Carlos Faraco disse que a obra em questão está inteiramente voltada “para o estudo da língua padrão, seguindo o que estabelecem os Parâmetros Curriculares Nacionais. No trecho que motivou a polêmica, o livro está apresentando as regras da concordância verbal e nominal da língua padrão e compara estas regras com a forma como a concordância ocorre em variedades não padrão”. Para ele, os alunos precisam receber condições de “ampliar sua experiência de letramento. Importante dizer que a língua padrão vem com esse processo, não o precede. Os livros didáticos devem ensopar os alunos com uma abundância de textos vivos escritos no padrão”. Para Faraco, “não há conhecimento fora das linguagens”. Convenções como a ortografia facilitam o intercâmbio de conhecimento, por isso é importante que elas existam.

Carlos Alberto Faraco é graduado em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná – PUCPR, mestre em linguística pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp e doutor na mesma área pela Universidade de Salford, Inglaterra, com a tese The Imperative sentence in Portuguese: a semantic and historical analysis. É pós-doutor pela Universidade da Califórnia e professor emérito da Universidade Federal do Paraná - UFPR. De sua produção bibliográfica, citamos Linguagem & Diálogo: as ideias linguísticas do Círculo de Bakhtin (São Paulo: Parábola, 2009), Norma culta brasileira: desatando alguns nós (São Paulo: Parábola Editorial, 2008) e Português: língua e cultura (Curitiba: Base Editora, 2004).

Confira a entrevista.


IHU On-Line - Qual seu ponto de vista sobre a polêmica entre a linguagem oral e a escrita nos livros didáticos? Que há por trás desse debate?

Carlos Alberto Faraco -
A polêmica surgiu de uma leitura mal feita de um pequeno trecho de um livro didático destinado à Educação de Jovens e Adultos (EJA). O livro não faz – como disseram seus críticos apressados (continuo acreditando, talvez ingenuamente, que não houve má intenção) – a apologia do “erro”, nem sequer desvaloriza a língua padrão. Bem ao contrário: o livro está inteiramente voltado para o estudo da língua padrão, seguindo o que estabelecem os Parâmetros Curriculares Nacionais. No trecho que motivou a polêmica, o livro está apresentando as regras da concordância verbal e nominal da língua padrão e compara estas regras com a forma como a concordância ocorre em variedades não padrão. Um procedimento didático perfeitamente adequado ao assunto. O livro não está querendo ensinar as formas não padrão (que, aliás, não precisam ser ensinadas; quem as usa já as conhece). A comparação entre variedades é um recurso didático para bem situar a língua padrão no contexto da variação linguística e para encaminhar seu ensino.


IHU On-Line - Como fica o aprendizado da norma culta a partir dessa concepção de que é importante considerar a linguagem falada como adequada? Qual a função da escola nesse processo de aprendizagem?

Carlos Alberto Faraco -
Não vejo qualquer problema aqui. Todo falante domina mais de uma variedade da língua. Mesmo falantes oriundos de grupos sociais com experiência linguística e cultural distante das experiências da cultura letrada e da língua padrão têm contato com esta norma (padrão), por exemplo, pelo rádio (que alcança 100% dos lares brasileiros) e pela televisão (que alcança perto de 95% dos lares brasileiros). Uma das tarefas da escola é oferecer aos alunos as condições para conhecer e dominar a língua padrão. Para isso, é fundamental mostrar a eles os pontos críticos que distinguem a língua padrão das outras variedades. Insisto: é uma das tarefas (não a única) e é parte do processo maior de oferecer aos alunos as condições para ampliar sua experiência de letramento. Importante dizer que a língua padrão vem com esse processo, não o precede. Os livros didáticos devem ensopar os alunos com uma abundância de textos vivos escritos no padrão. E, ao abordar os fenômenos do padrão, devem sim contrastá-los com as outras variedades a fim de que as diferenças façam sentido para os alunos e a língua padrão não lhes seja apresentada como algo abstrato e estranho.
 

IHU On-Line - E quanto à polêmica em torno dos estrangeirismos, qual é a relevância em se proibir termos oriundos de outros idiomas usados no nosso? Qual é o sentido dessas proibições em tempos de internet e globalização?

Carlos Alberto Faraco -
Não há nenhuma relevância. As medidas são totalmente inócuas, como, aliás, fica patente quando se estuda com atenção a situação da França em que há uma legislação nesse sentido e as palavras de outras línguas continuam a entrar e a sair da língua como se legislação não existisse. Ou seja, os falantes não dão bola para a lei porque sabem que a própria dinâmica social resolve muito bem a questão. Sempre foi assim. Se há alguma dúvida, basta estudar a história do léxico do português. Palavras são trazidas de outras línguas, algumas poucas sobrevivem e outras muitas são simplesmente descartadas. O exemplo do vocabulário do futebol e da própria informática são gritantes exemplos disso que estou dizendo. Fazíamos melhor desenvolvendo boas políticas de promoção da língua, em especial investindo na melhoria do ensino de português.


IHU On-Line - Poderia explicar a relação entre linguagem e ideologia, entendida como visão de mundo?

Carlos Alberto Faraco -
A língua dá materialidade semiótica a todas as visões de mundo. Nesse sentido, a mesma língua serve a muitos senhores ou senhoras (já que visão de mundo é expressão feminina). O eixo que organiza verbalmente as visões de mundo são posicionamentos axiológicos. Por isso, o filósofo russo Mikhail Bakhtin , que é um dos que se dedicaram a essa complexa relação, dizia que enunciar é posicionar-se valorativamente, é situar-se no universo das línguas sociais, entendidas cada uma delas como um complexo verbo-axiológico.


IHU On-Line - Para o senhor, é possível termos algum conhecimento do mundo sem que seja mediado pela linguagem? Há conhecimento fora da linguagem?

Carlos Alberto Faraco -
No fundo, não sei responder a esta pergunta. Nesta área, tenho trabalhado com um axioma que, até agora, tem se mostrado muito produtivo para meus estudos, elucubrações e ações de ensino e pesquisa. O axioma diz: somos seres de linguagens (a linguagem verbal é uma de outras muitas); damos sentido ao mundo semioticamente. Assim, acredito que não há conhecimento fora das linguagens. Ouvi, certa vez, um filósofo dizendo uma coisa que fez muito sentido para mim: para saber se há conhecimento fora das linguagens, teríamos de sair das linguagens. Como isso é uma impossibilidade, é impossível demonstrar a existência de conhecimento fora das linguagens. Mas estou aberto a contra-argumentos.
 

IHU On-Line - Qual a importância de se ter um idioma unificado, de se obedecer a uma convenção linguística?

Carlos Alberto Faraco -
Algumas convenções – como a ortografia – são como pesos e medidas padronizados: a unificação facilita o intercâmbio. O raciocínio pelo absurdo pode nos auxiliar aqui. Se cada um dos milhões de falantes de português grafasse as palavras como bem quisesse, certamente não teríamos condições de trocar mensagens por escrito. Poderíamos estender o raciocínio para outras faces da língua. Por exemplo, ter uma certa padronização sintática para a escrita formal pode ser útil para facilitar o intercâmbio de mensagens para além dos limites do tempo e do espaço. No entanto, fora do aspecto gráfico, a língua é, em geral, fluida e suas condições de uso são sempre heterogêneas de tal modo que o alcance dessas convenções é sempre muito restrito. A diversidade interna, embora haja quem acredite contrariamente, não perturba necessariamente a interação.


IHU On-Line - Em que medida o idioma expressa o espírito e a identidade de um povo?

Carlos Alberto Faraco -
Acho difícil falar em “espírito e identidade” de um povo assim no singular. Essa perspectiva é um tanto quanto datada. Foi elaborada no século XVIII e tinha como pano de fundo a luta pela unificação dos reinos alemães. Depois, essa concepção se alastrou (sob o lema “Um povo, uma língua, uma cultura, um estado”) e, desde então, tem feito mais mal do que bem à humanidade, principalmente considerando que não há país moderno que seja integralmente monolíngue. (Até há alguns anos se dava sempre o exemplo da Islândia como o único país monolíngue do mundo. Hoje, em face das levas de imigrantes que lá estão chegando, nem a Islândia serve mais de exemplo.) Não há sociedade que seja homogênea culturalmente. Portanto, é preciso nuançar muito essas questões. Eu diria que, se considerarmos o caráter ubíquo da língua, penso que ela é o elemento mais diretamente perceptível de uma determinada identidade. Basta abrir a boca para o outro me perceber como igual. Ou seja, há uma discriminação que poderíamos classificar de positiva (de identificação, portanto). No entanto, é preciso lembrar que nenhuma língua é homogênea e, nesse sentido, ela também funciona como elemento discriminador negativo: o outro fala a mesma língua, mas fala de modo diferente e isso acaba, em muitas situações, como no caso do chamado português popular brasileiro, redundando em exclusão (em não identificação, portanto). O discurso eufórico sobre língua e identidade costuma não perceber este fato.


IHU On-Line - Como ele ajuda a moldar a própria cultura de uma fronteira geográfica?

Carlos Alberto Faraco -
A dialética igual/diferente na fronteira geográfica é certamente um fator que participa da definição do “nós” em contraste com o “eles”. Mas a fronteira é também o espaço do encontro e pode ser um interessante espaço de trocas e de hibridizações culturais, portas para a renovação mútua dos sentidos culturais. A proximidade geográfica, porém, pode funcionar em sentido inverso. Note, por exemplo, os históricos conflitos políticos, culturais, linguísticos entre Portugal e Castela/Espanha para ter um exemplo simples de que a proximidade geográfica não garante necessariamente que os grupos humanos se entendam melhor. Ou um caso ainda mais dramático: as relações entre croatas, sérvios e bósnios: são vizinhos, falam a mesma língua e não se entendem: no mesmo espaço geográfico convivem diferentes experiências e axiologias socioculturais que se entendem melhor, muitas vezes, com quem está distante. Um capitalista de São Paulo se entende certamente melhor com um capitalista de Tóquio ou Moscou do que com sua empregada doméstica. Um professor universitário estoniano se entende melhor com um professor universitário brasileiro do que com um seu vizinho de rua russo (30% da população da Estônia são russos).

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