Edição 363 | 30 Maio 2011

Paul Ricoeur e o desejo de viver

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Roberto Lauxen

Conservadora dos Arquivos de Paul Ricoeur, Catherine Goldenstein revela memórias da convivência com o amigo filósofo e sua esposa, Simone. Imensa fé no homem era um de seus pontos fortes, assinala

Um filósofo cuja vida e obra eram inserparáveis. Assim era Paul Ricoeur. Uma de suas características mais impressionantes era o “potente desejo de viver”, recorda a conservadora dos Arquivos de Paul Ricoeur, Catherine Goldenstein. Em entrevista concedida pessoalmente a Roberto Lauxen, que nos enviou o material que segue, ela conta aspectos sobre a convivência com o amigo filósofo e sua esposa Simone Ricoeur. “Se falássemos de um problema, ele dizia muito rapidamente: ‘não podemos permanecer no lamento, é necessário ir mais adiante: propor uma reflexão que permita avançar. Não se trata de lamentar, mas avançar para o futuro’”. E completa: “Velar sobre o movimento que se apaga, mas sobretudo sobre o movimento que se constrói: este foi meu papel desde a morte deste amigo que era para mim Paul Ricoeur”.

Roberto Roque Lauxen é licenciado e mestre em Filosofia. É doutorando do programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade do Vale Rio dos Sinos - Unisinos e faz seu estágio de doutorado na École Pratique de Hautes Études – EPHE/Sorbonne com Bolsa da Capes. Tem vasta experiência de docência em nível de graduação e pós-graduação em Filosofia e vários trabalhos publicados na área de Filosofia. É pesquisador da filosofia de Paul Ricoeur.

Madame Catherine Goldenstein foi a colaboradora mais próxima dos últimos anos de Paul Ricoeur, e a quem ele confiou seus arquivos, daí a origem do título de Conservadora dos Arquivos Ricoeur. É a grande impulsionadora e articuladora das atividades do Fundo Ricoeur. Acolhe e auxilia pesquisadores de diferentes partes do mundo que vem aí realizar suas pesquisas. Publicou, junto com Olivier Abel, a obra póstuma Vivant jusqu’a la mort (2007), que são as últimas anotações em vida de Paul Ricoeur, e junto com Jean-Louis Schlegel organizou a coletânea de artigos de Paul Ricoeur Écrits et conférences 1: autour de la psychanalyse (2008).

Confira a entrevista.


Roberto Lauxen - Como você conheceu Paul Ricoeur?

Catherine Goldenstein -
Fiz estudos de inglês em Nanterre nos anos 1966-1970. Portanto, ao menos conhecia o nome de Paul Ricoeur. Ele me disse rindo depois de nos conhecermos melhor: “Então, você também lançou-me pedras!”. Já tinha lido e estudado alguns de seus livros. Recordo-me, por exemplo, particularmente do estudo de Virginia Woolf  em Tempo e narrativa. Mas quando conheci Paul e Simone Ricoeur num domingo de 1996, na paróquia protestante de Châtenay-Malabry, onde minha família e eu acabávamos de nos instalar, encontrei-os como qualquer dos outros paroquianos: acolhendo e reencontrando uns e outros, cantando, partilhando o pão e o vinho na ceia. Estávamos imediatamente próximos: Simone tinha envelhecido mais rapidamente que o seu marido, e parecia já uma pessoa idosa que tinha manifestamente necessidade de cuidados. Propus ir vê-la e de passear com ela quando estivesse sozinha. Paul Ricoeur estava em muito boa forma; continuava as suas viagens, suas conferências e estava feliz de saber, quando estava distante, que alguém dava assistência à sua esposa. É, portanto, a amizade com Simone que veio em primeiro lugar, apesar da nossa diferença de idade: eu tinha a idade de seus filhos.


Fragilidade

Fiquei imediatamente comovida ao ver Paul Ricoeur tão atento e terno, desamparado também, frente à sua esposa e seus problemas de saúde. Nunca fiquei intimidada, porque sentia demasiado nele não o homem público, mas o homem inquieto, que tinha necessidade de ajuda e da presença amigável, afetiva, para fazer face à doença da sua esposa, e me dizia: “Se apaga como uma pequena vela”. Eu ajudei sem dúvida a diminuir a angústia e a penalidade de um ou outro destes seus momentos. Eu prometi a Simone, que me pedia, de cuidar dele quando estivesse sozinho. E, com efeito, eu acompanhei Paul no luto da sua mulher em 1998 (luto particularmente cruel, pois eram casados desde mais de 60 anos!), e até ao fim da sua vida, em 2005. Habitavam na mesma casa há 50 anos; organizamo-nos para que ele pudesse terminar seus dias ai. Adormeceu para sempre na sua cama, pacificamente, sem tubos em todas as direções acima de sua cabeça, como se vê no hospital.


Roberto Lauxen - François Dosse nos ofereceu uma excelente biografia de Paul Ricoeur, delimitada pelo distanciamento do historiador, mas você viveu junto à família Ricoeur, com Paul e sua esposa Simone. A partir de seu testemunho e memória, o que destacaria como traços característicos do homem Ricoeur?

Catherine Goldenstein -
A biografia escrita por François Dosse é notável, foi e permanece para mim um instrumento capital desde que organizo e trabalho sobre os arquivos de Paul Ricoeur. Tudo está lá! Quando penso que Paul Ricoeur nunca tinha visto nem confiado nenhum arquivo pessoal a François Dosse! Foi uma conquista e tanto! E de resto, aí está um detalhe revelador de Paul Ricoeur: ele não iria atender à pessoa que escrevia uma biografia sobre ele, nem lhe confiar arquivos para, sobretudo, não lhe influenciar, tanto mais que ele tinha muito cuidado em não misturar vida privada e vida pública. François Dosse foi muito respeitoso sobre este ponto.

Quanto a mim, é claro, sempre senti a obrigação de uma grande discrição; quero respeitar a confiança que eles depositaram em mim ao me aceitarem na sua intimidade: falar pouco, sempre encontrando o tom certo para falar sobre o que eu testemunhei. É porque estes anos passados preferi testemunhar esta afeição compartilhada não pelo discurso, mas pela ação: trabalhei muito para organizar os Arquivos, colaborei na preparação da biblioteca para a qual se construía uma magnífica concha, na constituição e animação da rede de investigadores e correspondentes - tudo isso que hoje chamamos “o Fundo Ricoeur”. Este investimento no trabalho tem por conseguinte uma motivação profunda, uma necessidade interior.


Retrato de um filósofo

Mas sinto que ainda tenho de dar um testemunho: acrescentar pouco a pouco alguns traços ao retrato do filósofo. Quero dizer, há a filosofia de Ricoeur, acessível nas suas obras publicadas, e há as atitudes fundamentais que se revelam no cotidiano; aquelas que entram em jogo quando se fala de ética. De resto, dizia-me às vezes: “não me faça dizer o que eu não disse! Você vigiará, não é?”; “Se alguém vos interrogardes, vos direis…”; “Trata-se de um testemunho.” Mas veja, fixo-me um caminho estreito entre tudo isso que se pode dizer sem estar a cair nem na futilidade psicológica, nem na narração hagiográfica, que Paul Ricoeur detestava. Dou-vos aqui, muito rapidamente, as pistas que me vêm à mente sobre o que observei.


Uma imensa fé no homem

Ele procurou incessantemente dar a cada um o sentido da sua capacidade/capabilidade (capabilité), através da qual ele encontrou a coragem e a força para agir. Era talvez o que o animava a aceitar ainda, com mais de 85 anos, a participar de múltiplos encontros organizados por grupos de todos os tipos: sindicalistas, políticos, profissionais (assistentes sociais, por exemplo), pesquisadores, religiosos, escolares, universitários. Dirigia-se a cada grupo após ter preparado com cuidado o que conviria à sua necessidade específica, mas sempre a um elevado nível de exigência intelectual para, dizia, “honrar a sua audiência”. Tinha mais de 90 anos quando o vi toda uma manhã de domingo a preparar cuidadosamente o que diria aos habitantes de uma cidade da região parisiense que tinha sido palco de violências comunitárias; uma reunião tinha sido organizada na catedral desta nova cidade. Um bispo, um imã, um rabino e Paul Ricoeur tinham sido convidados para animar esta reflexão. Este domingo após o meio-dia lá, um dia de novembro cinzento e congelado, ele falou longamente na frente de um público bem heterogêneo de cidadãos desta nova cidade, e quando retornou ele confiou-me, incrédulo e ligeiramente chocado: “Era o único que tinha preparado algo! Você percebe! Eu sempre preparo, por respeito com àqueles a quem sou chamado a falar.”

Eu nunca o ouvi relatar conversas indiscretas, fofocas, nunca ouvi tampouco falar mal de alguém. Eu creio que ele teria sido incapaz disso; na pior das hipóteses, ele poderia dizer: “Estou decepcionado com ‘X’...”. Na maior parte do tempo, a conversação seguia ao nível da marcha do mundo.


Avançar para o futuro

Se falássemos de um problema ele dizia muito rapidamente: “Não podemos permanecer no lamento, é necessário ir mais adiante: propor uma reflexão que permita avançar. Não se trata de lamentar, mas avançar para o futuro”; de onde a sua reserva em assinar apenas petições. Denunciar, sim, para propor ir mais adiante. Nunca deixar uma ideia sem conduzi-la até o limiar do que ela pode oferecer.
Não revolver sobre o passado: este revolver não potencializa ... “Não nos lamentemos sobre o que não é mais”, diz ele: “Congratulemo-nos com o que temos”, e era realmente sua atitude básica.
Destaco, ainda, seu potente desejo de viver, e viver com intensidade, sensível até ao fim. Este estado de comunicação permanente no qual ele estava. Os encontros, constantemente renovados, eram um dos motores da sua extraordinária vitalidade.

A sua preocupação de educador: sempre preparar o futuro, passar adiante o que aprendeu, leu, pensou; por seus livros e seus escritos “semear outras almas” de acordo com a expressão de Platão.
Seu temor visceral da violência: a convicção que a humilhação gera o desejo de vingança, que o ciclo da violência não pode então ser parado. Isto na marcha do mundo. A situação na Irlanda incomodava-o muito num certo momento, e evidentemente até a sua morte a situação de Israel; na sequência do 11 de setembro etc. Nas relações interpessoais, o que tornava-o em geral bastante vulnerável é que, ao invés de recusar algo que era-lhe pedido - entrevista, utilização de um dos seus textos, participação numa reunião etc. -, dizia sempre sim, mesmo ainda muito idoso ou sobrecarregado de trabalho, para não ferir ou ofender…
A fidelidade como modo de vida: fidelidade nos compromissos profundos, nas suas escolhas de vida. Sei que é um dos temas importantes da sua filosofia, mas o que eu posso atestar é que era realmente vivida.
Um último ponto a acrescentar - ou quem sabe o primeiro: a obra e a vida eram nele inseparáveis. Ele tinha necessidade de participar até mesmo na sua existência da justa afirmação do seu pensamento. Encontrei sob a sua pluma em 1965 esta observação: “Fazer da filosofia uma espécie de vida”. E isso resume efetivamente o que eu pude sentir junto dele.


Roberto Lauxen - Como Paul Ricoeur procurou conciliar sua vida profissional com sua vida familiar e qual a importância de Simone Ricoeur para a realização de sua imensa obra?

Catherine Goldenstein -
Nunca direi o bastante quanto ao papel de Simone Ricoeur. Sua esposa foi capital. Ela era uma das pessoas que, parecendo se ocupar apenas da vida comum, trazia muito mais, trazia um pedestal de solidez sem o qual nada teria podido ser construído. Compreendo que desde que se uniram - tinham sem dúvida 20 anos um e outro –, ela desempenhou um papel fundamental no sistema de vida de Paul. Ela não era filósofa, nem uma intelectual, mas compartilhou toda sua vida e o progresso da sua carreira, os seus compromissos, os seus entusiasmos. Tiveram juntos cinco filhos, uma vintena de netos e bisnetos. Esta vitalidade da sua família congratulava Paul. Mas foi Simone quem assegurou a vida familiar, ouvi um de seus filhos comentar. O único rival que Simone pôde ter em sua vida foi a filosofia! Sei que os filhos sentiram com penalidade também esta rivalidade…

Fazemos em francês a diferença entre “familiar” (familier) e “familial” (familial). As minhas relações com Paul e Simone Ricoeur eram familiais, e permaneceram até a morte de Paul: havia entre nós toda a simplicidade da vida, a divisão de todas as preocupações, os desejos, as esperanças. A vida familiar de Paul existia, mas os seus filhos moravam longe, eram eles mesmos já avós, e não tinham adquirido o hábito da relação familiar com o seu pai: eu sentia certa intimidação recíproca entre eles.


Roberto Lauxen - Nós conhecemos através de muitas entrevistas, artigos e dedicatória de livros de Paul Ricoeur, a referência que ele faz a seus “amigos”, os presentes e aqueles que partiram ao longo de seus 92 anos de vida. Sabemos ainda que ele fez da amizade uma das expressões teóricas de sua ética. Há alguma diferença de sentido na referência que Ricoeur faz a seus amigos?

Catherine Goldenstein –
Sim, certamente! Paul Ricoeur era um homem da amizade: é isso que eu entendi nos meus contatos pessoais com ele, as minhas conversas com os seus amigos, de antigos estudantes, e o que encontrei nos arquivos que ele conservou. Falou de maneira filosófica, como você recordou, mas na sua vida, a qualquer idade, isso foi algo de fundamental. Entre o “próximo” - aquele com quem era vinculado por uma vida compartilhada, “aquele que pôde congratular-se do meu nascimento e será afetado pela minha morte” -, e a massa inúmera de homens e de mulheres que não tem rosto, mas que é tocada pela sua obra, há toda uma gama de relações. Primeiro, os seus amigos próximos eram numerosos. E entre a relação interpessoal e a instituição, as inumeráveis ligações contavam para ele: tinha o sentido da comunidade, pensar juntos, mas sem nunca estar a se fechar numa relação ou numa única pertença.


Roberto Lauxen - Como você tornou-se a Conservadora dos Arquivos de Paul Ricoeur e como se constituiu o Fondo Ricoeur? Quais são as particularidades desses Arquivos e o que eles ainda podem nos revelar?

Catherine Goldenstein -
Velar sobre o movimento que se apaga, mas sobretudo sobre o movimento que se constrói: este foi meu papel desde a morte deste amigo que era para mim Paul Ricoeur. Eu vejo gradualmente esta existência que começa a se desdobrar como numa história literária: evitar que ela seja parcializada; conservar a unidade: vida-obra, vida-encarnada; mas também, me importo muito com a coesão dos grupos de amigos, de parentes: Estados Unidos, França, Europa, América Latina, Japão. Por toda a parte Paul tinha amigos. Conheci-o ao redor deles quando vinham vê-lo em Paris ou o recebiam. Ele gostava de apresentar-lhes a mim. Por conseguinte, tentei manter estas relações através e em torno do Fundo Ricoeur.

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