Edição 244 | 19 Novembro 2007

Ócio ou negócio? Uma conversa/entrevista entre Oswald de Andrade e Antônio Vieira

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IHU Online

Beatriz Helena Domingues é professora do Departamento de História da UFJF, onde atua nos mestrados de Historia e Ciência da Religião. Escreveu vários artigos sobre pensamento jesuítico no mundo luso e hispânico nos últimos dez anos. Acaba de publicar Tão longe, tão perto: a Ibero-América e a Europa ilustrada (Rio de Janeiro: Museu da República, 2007). Em 2006, Beatriz participou na PUC-Rio do Seminário Internacional A Globalização e os Jesuítas – Origens, Histórias e Impactos, onde apresentou a comunicação de título “Modernismo e religião: um estudo da avaliação de Oswald de Andrade”, cuja pesquisa originou e motivou a conversa fictícia entre o modernista e o jesuíta, que a IHU On-Line apresenta a seguir.

Introdução

Forte crítico da tradição ibérica e da Igreja Católica nos anos 20, em especial daqueles que no seu interior vestiam as “roupetas de Loiola”, Oswald de Andrade, nos anos 1940, e, em especial nos anos 50, reavaliou, positivamente, o papel da tradição contra-reformista ibérica na formação cultural brasileira. Tendo-lhe sido oferecida uma oportunidade de uma breve conversa com um dos maiores expoentes desta tradição contra-reformista no século XVII, o Padre Antônio Vieira, ele aceitou com prazer e curiosidade.

Oswald de Andrade – Para mim é muito interessante poder voltar no tempo e conversar com alguém como o senhor, que constitui parte de minhas reflexões sobre atuação da Contra-Reforma no Brasil. Como não disponho de muito tempo, gostaria de orientar nossa conversa para sua experiência em um dos episódios que, a meu ver, melhor ilustram o embate entre a concepção de mundo da Reforma e da Contra-Reforma no século XVII: a “Guerra Holandesa”, ou seja, a reação luso-brasileira à ocupação de Pernambuco pelos protestantes holandeses . A “Guerra Holandesa” teria confrontado, face a face, duas concepções de vida – a da Reforma e a da Contra-Reforma -, o ócio e o negócio: uma compreensão lúdica e amável da vida, em face de um conceito utilitário e comerciante. 

Antônio Vieira - Sua tese me parece interessante, embora eu não tenha pensado e/ou explicado o episódio nestes termos nem no calor dos acontecimentos, nem nas décadas que se seguiram. Na qualidade de testemunha ocular da ocupação do nordeste brasileiro pelos batavos por 24 anos, eu já considerava a região perdida, e estampada nos mapas com o nome de “Nova Holanda”. Tanto que cheguei a profetizar a vitória neerlandesa. A  recuperação de tais terras, naquelas circunstâncias, só me parecia explicável por um “milagre da Providência”: nossos exércitos eram mais fracos e despreparados e tínhamos acabado de nos libertar de 8 anos de subjugação ao rei da Espanha. Ainda assim, em algumas de minhas cartas ânuas eu explicitamente reconheci a superioridade da guerrilha indígena, cujas armas eram mais eficientes que as dos portugueses (e/ou holandeses) no sertão nordestino.

Oswald de Andrade - Ainda bem, Vieira, que suas profecias sobre a vitória do protestantismo e a destruição da Igreja Católica no Brasil não se confirmaram! Se estivessem corretas, ao invés da “vitória do ócio sobre o negócio”, teríamos tido a “vitória do negócio sobre o ócio”. Mas não: uma massa órfica, híbrida e mulata, a quem a roupeta jesuítica dera as procissões feitichistas, as litanias doces como o açúcar pernambucano e os milagres prometidos bateram o Deus bíblico, cioso, branco e exclusivista. Pois claramente não se tratava somente de uma guerra entre dois modelos econômicos ou entre interesses dinásticos ou políticos. “Tratava-se apenas da primeira luta titânica no mundo moderno, entre o ócio e o negócio”. E o ócio venceu, embora a luta prossiga até os nossos dias sob dissimulações, transferências e disfarces. A rigor, ela constitui a espinha dorsal de todo um sistema histórico e filosófico.

Antônio Vieira: Você tem sobre mim, Oswald, a vantagem que eu tinha sobre os antigos, medievais e mesmo sobre os renascentistas: um pigmeu no ombro de um gigante vê melhor que o gigante. O tempo é o melhor decifrador das profecias. Mas, em 1648, quando escrevi uma carta ao rei argumentando que, sendo-nos impossível manter Pernambuco, era preferível negociar com os holandeses a sua venda, não era absolutamente clara a nossa vitória. Embora eu tenha argumentado, em meu “Papel Forte”, que os holandeses em Pernambuco não ameaçavam a religião cristã, até porque não existiam (ou existiam muito poucos) casos de conversão nesta província, isso foi mais um recurso de retórica para convencer o rei de Portugal a ser mais realista em suas negociações com a Holanda. Pois, especialmente no que concerne aos índios, eu alertava constantemente para os efeitos nocivos que os hereges protestantes tinham sobre os gentios tobajaras de Pernambuco, e, em seguida, sobre muitos outros índios, quando se fizeram senhores da fortaleza do Ceará.
Ainda que, antes de 1630, não houvesse ainda nesses índios a verdadeira fé, “tinham contudo o conhecimento e estima dela, a qual em seguida não só perderam, como em seu lugar foram bebendo com a heresia um grande desprezo e aborrecimento das verdades e ritos católicos, e louvando e abraçando em tudo a largueza da vida dos holandeses, tão semelhante à sua”, a ponto de não mais se distinguir quem era herege de quem era gentio.

Portanto, eu certamente tinha em mente que naquele período estavam em choque duas visões de mundo – a protestante e a católica – e me empenhava em lutar pela causa da Contra-Reforma onde ela precisasse. Embora, pragmaticamente falando, considerasse irracional que se colocasse um projeto muito mais amplo em perigo para conservar uma parte tão duvidosa que nos resta em Pernambuco, meu lado missionário sempre me alertava exatamente para semelhanças entre os costumes dos índios e dos hereges. Temia que  Ibiapaba   estivesse se transformando na “Genebra de todos os sertões do Brasil”.
Parece que eu temia que os protestantes fizessem o que você celebra terem feito os católicos: se aproximado do modo de vida indígena, a ponto de se misturarem com ela.

Oswald de Andrade - Seu argumento é sem dúvida interessante, especialmente se levamos em conta que, ainda assim, ou precisamente por isso, o senhor continuou a adotar uma política evangélica bastante flexível, ao mesmo tempo missionária e pragmática, bem conforme ao “nosso modo de proceder” jesuítico...

Antônio Vieira – Pois claro. Que outra atitude poderia eu ter em um Recife então transformado em corte e empório de toda aquela nova Holanda, onde havia judeus de Amsterdã, protestantes da Inglaterra, calvinistas da França, luteranos da Alemanha e Suécia, e todas as outras seitas do norte? Conforme então diagnostiquei, era “desta Babel de erros particulares”, que “se compunha um ateísmo geral e declarado, em que não se conhecia outro Deus mais que o interesse, nem outra lei mais que o apetite; e o que tinham aprendido nesta escola do inferno é o que os fugitivos de Pernambuco trouxeram e vieram ensinar à serra”.
Uma lição que extraí da guerra contra os hereges protestantes no Brasil foi que os fins justificam os meios. Em meu “Sermão de São Roque”, preconizava que “tirar as armas do inimigo e convertê-las contra ele, é fazer de um mal dois bens: um bem, porque se diminui o poder contrário: outro bem, porque se acrescenta o poder próprio”. Ou seja, “aos príncipes católicos é lícito entregar praças e vassalos a seus inimigos, ainda que sejam hereges, quando o fazem por necessidade, e por evitar maiores danos”.

Foi frente a esta constatação do poderio batavo em Pernambuco que aconselhei ao rei ser menos mal darmos por vontade própria o que já vinham tirando à força. Estrategicamente falando, seria talvez o caso de vender a região à Holanda e recuperá-la assim que estivermos fortes e estáveis economicamente e espiritualmente.

Oswald de Andrade – O senhor certamente consegue, mesmo enquanto participante do evento que discutimos, ter uma visão bem mais pragmática que a minha, que tenho a meu favor a passagem do tempo. Sua fala reforça em mim a concordância com inúmeros intérpretes de seus escritos nos séculos que lhe seguiram, que o consideram um visionário pragmático: sem jamais perder um forte senso político, jurídico-institucional, teve sempre como seu referencial básico as concepções da teologia tomista e a neotomista.

Gostaria, então, de finalizar esta infelizmente tão curta conversa, perguntando-lhe o que pensa de minha tese, formulada em meados do século XX, sobre o papel dos árabes na modelação da Contra-Reforma. Explico-me melhor: para mim, a prevalência de uma sociedade regida pelo ócio era a realidade das pessoas que viviam em Pindorama desde muito antes da “invasão portuguesa” em 1500. Também entre os gregos antigos era reconhecida a importância do ócio, neste caso proporcionada pela exclusão e trabalho forçado de muitos. Foi esta concepção que chegou à Ibéria moderna sob a “roupeta da Contra-Reforma”. A meu ver, existiram duas linhas “evolutivas” para explicar o advento das duas concepções de vida associadas à Reforma e à Contra-Reforma. A concepção judaica de povo eleito, marcado por um extremo racismo, desembocou na Reforma de Lutero e Calvino. Por outro lado, a concepção árabe de povo exógeno, aberto à miscigenação, culminou na Contra-Reforma, particularmente nos jesuítas. A Contra-Reforma teria sido uma remodelação da herança árabe aos novos tempos pelos inacianos. Os “seguidores de Loiola” representavam, no século XVI, “a plasticidade política, filha da miscigenação da cultura”. Cheguei a escrever, em uma de minhas obras, que, “com a colonização, fomos modelados por uma cultura de larga visão – a jesuítica –, que infelizmente foi cortada pela incompreensão romanista quando estava levando aos limites pagãos dos ritos malabares o seu afã de ecletismo e de comunicação humana e religiosa”.

Nos seus escritos contudo, nunca vi referências aos árabes, mas apenas aos judeus, que a meu ver estão do lado do negócio....Para o senhor, eles compunham a “Babel do Sertão”, inaugurada pelos batavos e que se aproximou dos costumes indígenas!!!! Para mim a caracterização dos jesuítas como os “Maometanos de Cristo”, e não aos filhos da Reforma, é um elogio: pois encontro neles uma atitude mais flexível frente às culturas nativas, não só da América como de outras partes do mundo.

Antônio Vieira - Nunca havia pensado em nós desta forma!!! O que o tempo não pode permitir vir à tona!!! Tenho certeza de que meus contemporâneos, e eu mesmo, ficaríamos chocados e lisonjeados com tal afirmativa. O “nosso modo de proceder” tem de fato o caráter exógeno e flexível que o senhor atribui aos árabes. Talvez nos fosse muito difícil perceber tal conexão por serem eles mais uma forte presença no Portugal dos seiscentos, enquanto a questão judaica era uma “Espada de Dâmocles” sobre nossas cabeças. Parece-me, contudo que, ainda que concordemos que nosso pragmatismo e flexibilidade – ou o “nosso modo de proceder” – seguiu uma linha evolutiva iniciada pelos árabes, eles eram perfeitamente compatíveis com uma política de tolerância em relação aos judeus que o senhor considera “intolerantes e racistas” judeus: até porque esta era a atitude que mais convinha ao nosso Portugal. Mas certamente me deixaste intrigado com a cunha “Maometanos de Cristo”.
 
Oswald de Andrade – É realmente uma pena que não tenhamos mais tempo de prosseguir nesta conversa. Pois, se como o senhor diz, o tempo é o melhor decifrador das profecias, um diálogo com o passado ajuda-nos sobremaneira e matizarmos nossas interpretações sobre os tempos idos, presentes e futuros.

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