Edição 244 | 19 Novembro 2007

Cartas de Vieira: fonte de conhecimento sobre o Brasil colônia

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IHU Online

Criada em parceira com o Instituto Camões, em 1994, a Cátedra Pe. Antônio Vieira de Estudos Portugueses, da PUC-Rio, é um espaço interdisciplinar de estudos, pesquisas e produção de conhecimento sobre a literatura portuguesa. A professora Eneida Bomfim, do Departamento de Letras da mesma universidade, é também pesquisadora da Cátedra, responsável pelo projeto de pesquisa “Vieira e a língua portuguesa no século XVII”.  Nesta entrevista à IHU On-Line, ela fala sobre a importância das cartas deixadas pelo jesuíta, e a riqueza lingüística que elas contêm para aqueles interessados em conhecer melhor a língua portuguesa.Confira a entrevista.

IHU On-Line - A senhora desenvolve, na Cátedra Pe. Antônio Vieira de Estudos Portugueses da PUC-Rio, uma pesquisa sobre o patrono da Cátedra. Qual seria o ponto central dessa pesquisa?
Eneida Bomfim -
Esta pesquisa centra-se nos aspectos lingüísticos do texto de Vieira, sobretudo nas cartas.
 
IHU On-Line - Há algum motivo especial para a escolha das cartas?
Eneida Bomfim -
Os sermões são excelentes para a análise dos recursos retóricos e para o estudo do conceptismo barroco do século XVII. São também importantes para a investigação lingüística. Sirva como exemplo o jogo retórico e estilístico do emprego de orações reduzidas de gerúndio com valor causal em oposição a outras de valor concessivo no “Sermão do Mandato”  de 1645.
 
IHU On-Line - Seria possível dar, brevemente, mais informações sobre esse emprego?
Eneida Bomfim -
No sermão a que me referi, Vieira desenvolve o tema do amor místico, concentrando-se na fineza do amor de Cristo pelos homens. O ponto de partida são palavras do Evangelho de S. João (Jo 13,1): “Sabendo Jesus chegada a sua hora de passar deste Mundo para o Pai, como tivesse amado os seus que estavam no Mundo, até o fim os amou”. No sermão, a ciência de Cristo opõe-se à ignorância dos homens. Cristo amou sabendo (embora soubesse). Os homens foram amados ignorando (embora ignorassem). No desenvolvimento do tema, as orações reduzidas de gerúndio servem para ressaltar o contraste. Vieira joga com as duas leituras (causa e concessão). O amor dos homens precisa de motivo (causa). O amor de Cristo, não. A ausência de conectores que serviriam de pista à interpretação obriga o leitor/ouvinte a acompanhar o pensamento do orador.
 
IHU On-Line - Vamos voltar às cartas. Qual é o motivo para a escolha desse material?
Eneida Bomfim -
Do ponto de vista lingüístico, elas propiciam um campo mais amplo de investigação. As cartas apresentam diversos graus de formalidade. Embora nelas a linguagem seja elegante e cuidada, ela não se prende à rigidez do discurso oratório. Algumas são muito extensas e encerram longas narrativas e descrições, o que dá oportunidade de ocorrência a estruturas lingüísticas que dificilmente seriam encontradas nos sermões.

IHU On-Line - De que tratam as cartas de Vieira?
Eneida Bomfim -
Os temas são muito variados. Por intermédio delas, Vieira documenta relevantes fatos políticos do seu tempo, de que muitas vezes foi um agente importante em missões diplomáticas. Pelas que escreveu como missionário no Maranhão e no Pará, fica-se conhecendo a realidade que encontrou ao chegar: cobiça, guerras injustas, cativeiro dos índios para as lavouras de tabaco, má administração, corrupção, sem falar no desamparo espiritual que atingia índios e portugueses.

IHU On-Line - Essas cartas trazem alguma contribuição para o conhecimento do Brasil colonial?
Eneida Bomfim -
Sem dúvida. Há relatos curiosos sobre a terra, aspectos da flora e da fauna, descrição de costumes e rituais dos índios. É um material que pode servir de base a estudos históricos, geográficos e antropológicos.
 
IHU On-Line - Seria possível dar uma amostra desses relatos?
Eneida Bomfim -
Há uma longa narrativa sobre uma viagem pelo Rio Tocantins em carta dirigida ao Provincial do Brasil, em 1654. Fica-se sabendo sobre as praias de viração, a reprodução das tartarugas, os métodos de pesca desses animais, sobre os jabutis, considerados peixes por terem o sangue frio e que, por esse motivo, apesar de divergências, eram comidos em dias de abstinência. Fala, ainda, dos crocodilos, chamados “jacarés” na região, que, segundo relatos de pessoas locais, chocam os ovos com o olhar. De fato, esses animais depositam os ovos à beira d’água, expostos ao sol e fitam-nos fixamente até que os filhotes saiam, afastando-se apenas para comer.

IHU On-Line - A senhora falou em costumes e rituais dos índios. Pode dizer algo sobre o assunto?
Eneida Bomfim -
Há informações curiosas. Por exemplo, as velas das canoas não são de algodão, material desconhecido dos índios. São de uma madeirinha leve, cortada em tiras finas com ajuda de um cordel e amarradas com cordas de embira, formando uma espécie de esteiras. Para Vieira, essas velas tomam tanto ou mais vento do que as comuns. As canoas são calafetadas e toldadas com recursos da natureza. Os toldos, feitos de um tipo de vime e cobertos com folhas largas de palma, são muito leves e tão bem tecidos que não deixam passar os aguaceiros. Também protegem completamente do sol.
 
IHU On-Line - E os rituais?
Eneida Bomfim -
Vou falar de um nada pacífico, até bem cruel. Um informante relatou o ritual sangrento em que foram mortos um padre e seus doze companheiros. Em dias diferentes, cada um foi amarrado num pau, no meio de um terreiro, cercado pelos índios que cantavam e dançavam com grande algazarra até começarem o ataque a pauladas, mirando a cabeça do prisioneiro. Este ritual decorria de ser costume dessas nações indígenas que os indivíduos só poderiam ter nome se quebrassem a cabeça de um inimigo. Quanto mais alta fosse a dignidade do inimigo, mais honroso seria o nome. Como não era preciso matar o adversário com as próprias mãos, havia incursões a aldeias inimigas para desenterrar os mortos e roubar-lhes as cabeças.
 
IHU On-Line - A sua pesquisa diz respeito a aspectos lingüísticos do texto de Vieira. Pode adiantar alguma coisa sobre isso?
Eneida Bomfim -
Posso. Creio ter passado a idéia de que o conteúdo das cartas de Vieira é riquíssimo e nem sequer cheguei a mencionar os assuntos politicamente delicados referentes às missões diplomáticas. A expressão lingüística de todo esse material fornece dados importantes para o conhecimento do vocabulário e das estruturas gramaticais mais correntes no texto. Não esqueçamos que Vieira viveu no século XVII, e que a língua deste período apresenta algumas construções em fase final do processo de mudança. É comum a variação entre estruturas novas e outras em vias de desaparecimento.
 
IHU On-Line - A senhora pode esclarecer mais sobre essa variação?
Eneida Bomfim -
Certas estruturas verbais são um bom exemplo disso. Veja-se o caso de construções que a tradição gramatical denomina “tempos compostos”. Essas perífrases são sistemáticas na conjugação verbal e estão ligadas mais ao aspecto do que ao tempo. “Tenho lido”, pretérito perfeito composto, não é o mesmo que “li”, pretérito perfeito. Ambas as formas pertencem ao passado. A primeira expressa um fato não acabado, durativo. A segunda, um fato acabado. Os tempos compostos são recentes no português. Formam-se atualmente, de preferência com o auxiliar “ter”, antigamente com “ter” ou “haver”. Em estágios mais antigos da língua, existiam perífrases com os verbos “ter” ou “haver” com sentido possessivo, seguidos de verbos transitivos no particípio passado. Nesse caso, fazia-se a concordância do particípio passado com o objeto direto. Um exemplo possível seria “enumerou as conquistas que os romanos haviam feitas”. Nas cartas, entre muitas outras ocorrências, pode-se citar: “[...]  chegaram trinta e três ou trinta e quatro velas holandesas, em socorro  dos que já se tinham entregues”. Em outro ponto, na mesma carta, a Ânua da Província do Brasil, de 30 de setembro de 1626, lê-se: “[...] tendo eles tomado já uma barcaça.”, um perfeito exemplo de tempo composto.

IHU On-Line - Poderia citar algum outro tipo de variação?
Eneida Bomfim -
O caso do pronome “lhe” (correspondente a “a ele/ela”). Os clássicos do século XVI (Camões e João de Barros , por exemplo) não flexionavam esta forma no plural, como hoje acontece. Em Vieira, as duas situações estão em variação. No singular: “Os nossos lhe [aos holandeses] foram dando até a praia (...).” No plural: “os de S. Miguel (...) foram restituídos à antiga posse e se lhes concedeu com grande alegria residência dos nossos como dantes”.
 
IHU On-Line - Que outros fatos lingüísticos chamam a atenção no texto de Vieira?
Eneida Bomfim -
Posso enumerar alguns que venho estudando. O verbo ‘ser’ com valor de ‘estar’;  a combinação de ‘per’ + ‘o’ (pronome); a sinonímia entre ‘onde’, ‘aonde’ e ‘donde’,  a ponto de numa carta encontrar-se a construção ‘de donde’; a oposição entre os modos indicativo e subjuntivo em orações concessivas; casos particulares de concordância verbal, entre os quais existe a concordância do verbo com o elemento mais próximo, quando o sujeito é múltiplo e muitos outros.
 
IHU On-Line - A senhora teria exemplos desse último caso?
Eneida Bomfim -
Nas fichas de dados que trouxe comigo, posso escolher uma ou outra construção que causariam estranheza aos falantes de hoje. “Deus e o mundo verá [...] se é melhor espírito o dos que deixaram esta conquista ou o dos que agora a tomam.” O sujeito está preposto ao verbo, na posição mais habitual, é composto, mas a concordância se faz com o singular. Em outro exemplo, o sujeito múltiplo com seis componentes, dois dos quais no plural, vem posposto e o verbo fica no singular. Logo, a posição não interfere na concordância. “Na mesma tarde, [...] deu o capitão-mor princípio a uma junta na mesma matriz, em que entrou o Sindicante, os prelados das religiões, a Câmara, o Vigário geral, e todas as mais pessoas assim de guerra como da república, e grande multidão de povo, que sem ser chamado entrou e se não pôde estorvar que estivesse presente.”
 
IHU On-Line - Essa pesquisa vem sendo divulgada?
Eneida Bomfim -
Alguns destes assuntos foram tratados parcialmente em comunicações e artigos publicados na revista Semear, da Cátedra Pe. Antônio Vieira. Estou organizando os originais de um livro, que, se não houver imprevistos, deverá sair em 2008, como uma homenagem ao Padre Antônio Vieira.

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