Edição 244 | 19 Novembro 2007

“Vieira é a grande referência da eloqüência sacra da Igreja em lí¬ngua portuguesa”

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IHU Online

Na entrevista que segue, concedida exclusivamente à IHU On-Line por e-mail, Pécora fala sobre as características dos sermões de Vieira, nos quais ele identifica um “modelo sacramental”. Além disso, afirma que, para Vieira, “o humano é a ocasião divina para efetuação da economia salví¬fica que deu origem à criação. Tornar o homem co-autor da providência é a chave de sua leitura das escrituras”.

Alcir Pécora é professor livre-docente de literatura na Unicamp, onde leciona desde 1977. Autor de estudos a propósito de literatura colonial brasileira, e, em particular, do sermonário do Padre Vieira, é crítico e colaborador de jornais e periódicos científicos, no Brasil e no exterior. Entre suas publicações, destacam-se Teatro do sacramento (São Paulo: Edusp; Campinas: Editora da Unicamp, 1994); Máquina de gêneros (São Paulo: Edusp, 2001); As excelências do governador (São Paulo: Companhia das Letras, 2002); e Rudimentos da vida coletiva (São Paulo: Ateliê Editorial, 2003). Organizou dois volumes dos Sermões (São Paulo: Hedra, 2000-2001), além das antologias A arte de morrer (Rio de Janeiro: Nova Alexandria, 1994) e Escritos históricos e políticos (São Paulo: Martins Fontes, 1995), todos a propósito da obra do Padre Antônio Vieira.

IHU On-Line – Qual é a influência de Vieira e seus sermões para a fé cristã nos dias de hoje?
Alcir Pécora -
Para a fé cristã, em qualquer tempo, Vieira é apenas um pequeno gesto em meio a todo o esforço jesuí¬tico e da Igreja Católica para sustentar a sua existência institucional e mí¬stica. Os sermões de Vieira são decisivos e únicos apenas para o âmbito erudito da oratória e da literatura cristãs, bem como para a história da lí¬ngua portuguesa.
 
IHU On-Line - Que tipo de moral aparece nos sermões de Vieira? De que modo ele transparecia o pensamento dos jesuítas?
Alcir Pécora -
Em matéria moral, não havia nada de diferente em Vieira em relação a seus irmãos de ordem, em seu tempo. Trata-se de uma moral articulada de modo ineludí¬vel à  polí¬tica cristã. Como dizia, “não há fim sem meios”, isto é, os fins providenciais fornecem igualmente os meios de ação polí¬tica dos cristãos na história, e estes por sua vez existem exclusivamente para conduzir os homens ao seu destino transcendental. Em termos de vida prática, tal articulação se traduzia numa moral casuí¬stica, em sentido técnico, isto é, a virtude ou defeito das ações só poderiam ser identificadas e avaliadas em função das circunstâncias concretas das escolhas dadas ao arbí¬trio do homem.

IHU On-Line - Como entender os sermões de Vieira, tendo em vista o contexto histórico de sua época e o papel dos sermões na Igreja Católica? 
Alcir Pécora -
Os sermões de Vieira, convém lembrar, existem da forma e no número que existem, graças à ordem que lhe deu para revisá-los e publicá-los o geral dos jesuí¬tas, Gian Paolo Oliva , um dos homens mais cultos da corte papal em Roma. Desde o iní¬cio, portanto, a sua grande qualidade letrada esteve implicada no cuidado com que os jesuí¬tas e outros grandes da época (Rainha Cristina da Suécia , sobretudo) tiveram em proteger os seus sermões - por vezes do próprio Vieira, mais interessado em continuar os seus escritos proféticos, os quais não se comparam em qualidade retórica ou poética aos sermões. Mas evidentemente as letras não se separam da fé ou da polí¬tica da fé. Os sermões de Vieira faziam parte, basicamente, do melhor arsenal da reforma católica, que cuidava de orquestrar imagens espetaculares - grande arte, portanto - contra a iconoclastia reformada.  

IHU On-Line – Qual é a caracterí¬stica mais marcante e os temas mais recorrentes dos sermões de Vieira?
Alcir Pécora -
A caracterí¬stica mais marcante, para mim, é o uso engenhoso do discurso que jamais autonomiza a elocução do sermão do comentário teológico agudo e da política mais agressiva, em termos de tentativa de fornecer uma polí¬tica cristã global para o Estado português. Os temas mais recorrentes são as alternativas da geopolí¬tica cristã do Estado português; a defesa da polí¬tica jesuítica das missões indí¬genas; a reforma dos estilos da Inquisição portuguesa; a conciliação e conversão do judaí¬smo ao catolicismo.
 
IHU On-Line - Em que sentido os sermões de Vieira podem ser vistos como um modelo sacramental ou como um modelo da literatura barroca?
Alcir Pécora –
Percebo, com alegria, que você leu meu Teatro do sacramento ou alguns de meus textos. Com efeito, a idéia de que os sermões são regidos por um modelo sacramental é a principal tese que propus para eles. Significa que Vieira os entendia como um meio discursivo, isto é, retórico, para atualizar a presença verdadeira de Deus entre os fiéis. O sermão, desse ponto de vista, é um análogo da comunhão eucarí¬stica. Acho mais preciso falar nesses termos do que em termos de literatura barroca, pois aqui os lugares comuns se acumulam, e o pior: usualmente se separa a matéria retórica da poé¬tica e da teologia, o que seria impensável para Vieira.
 
IHU On-Line – Qual seria a herança dos sermões de Vieira para a oratória sacra da Igreja?
Alcir Pécora -
Vieira é a grande referência da eloqüência sacra da Igreja em lí¬ngua portuguesa, em todos os tempos. No século XVII, supera os melhores oradores do tempo: Bossuet , Donne , Segneri , Pallavicino , para citar um pregador de cada grande língua européia de cultura. 
 
IHU On-Line - Como era a maneira de Vieira “transformar” os fatos históricos em planos de Deus para os homens?
Alcir Pécora -
É o que ele chamava de fazer doutrina da ocasião, isto é, ver os acontecimentos como parte de um plano de Deus para efetuar uma destinação cristã da História. Na prática, tratava-se de operar de forma a conciliar um crescimento da Monarquia portuguesa sem produzir contradição entre a razão polí¬tica (“razão de Estado”), a Igreja católica e a moral cristã.
 
IHU On-Line – Qual é a principal riqueza dos sermões do ponto de vista literário e da língua portuguesa? Há um sentido poético neles?
Alcir Pécora -
Reduzindo a resposta ao mí¬nimo, trata-se da capacidade de conjugar domí¬nio de lí¬ngua, retórica aguda ou engenhosa, erudição teológica e ocasião polí¬tica.
 
IHU On-Line - Como aparece nos sermões de Vieira a relação entre o divino e o humano no mundo?
Alcir Pécora -
Tornamos à  questão sacramental: para Vieira, o humano é a ocasião divina para efetuação da economia salví¬fica que deu origem à criação. Tornar o homem co-autor da providência é a chave de sua leitura das escrituras. Isto significa dizer também que Deus existe como presença em toda ação humana que o confirma.

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