Edição 244 | 19 Novembro 2007

A fineza do amor

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IHU Online

Por e-mail a revista IHU On-Line entrevistou Diana Maziero, que em 2004 defendeu, na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp),  a dissertação A “fineza do amor” no teatro sacro-retórico-exemplar do Padre Antônio Vieira. Para ela, “a noção de amor ocupa um papel central nestes sermões”. Orientada por Alcir Pécora, Maziero é mestre em Teoria Literária pela Unicamp. Confira a entrevista, exclusiva, a seguir.

IHU On-Line - Quais são as bases do seu trabalho sobre o teatro sacro-retórico-exemplar de Antônio Vieira?
Diana Maziero -
As bases teóricas mobilizadas na execução do trabalho foram de natureza retórico-literária, e neste sentido podem-se citar as obras de Aristóteles (Retórica) e o Manual de Retórica Literária, de Lausberg, bem como (e sobretudo) a obra de Gracián  (Agudeza y arte de ingenio), contemporâneo de Vieira e que desenvolve a teoria da agudeza, muito cara aos seiscentistas. Ainda utilizaram-se algumas referências sacras, como Santo Tomás de Aquino, sempre ponderando-as como móvel retórico, isto é, como um forma de mobilizar e descobrir os sinais divinos na ação mundana, ou ainda, como o  mundo divino, especialmente nestes sermões, se atualiza cotidianamente e através dos sermões, nas ações humanas. Neste sentido, a dissertação de mestrado acerca da “fineza do amor” se desenvolve no âmbito da invenção, que é um processo retórico inventivo, criador, segundo o qual o autor extrai e desenvolve as idéias compreendidas (e ocultas) na res (coisa) sobre a qual desenvolve seu discurso. A agudeza habita também este locus retórico da invenção do discurso, na medida em que é mais agudo aquele discurso que desvenda uma ligação mais intrínseca (e por que não dizê-lo) divina, ente as coisas (rei) do discurso. Estas ligações entre a coisa e o divino têm vários sentidos, tanto semânticos como retóricos e, dependendo do momento do discurso, assumem uma ou outra figura de linguagem. Neste sentido, é válido também ressaltar o conceito de nexos equívocos, em que vários sentidos confluem para uma única ocorrência (textual, no caso deste trabalho, da palavra fineza), sem prejudicar seu sentido principal, por assim dizer, mas contribuindo para que outros subsistam, ao contrário do que atualmente se prega, restringindo a implicação semântica de cada palavra, e utilizando-se equívoco como sinônimo de confusão, engano. Como, por exemplo nesta ocorrência, que aparece no intróito do “Sermão do Mandato” (1645): “Vá o amor destorcendo estes fios. E espero que todos vejam a fineza deles”. Aqui podemos tomar como sentido principal a fineza como sendo propriedade física dos fios; mas no caso, o texto literário, o sermão, está sendo considerado como algo tecido, - este termo é também aplicado ao discurso - e a “fineza dos fios” ganha, assim, um segundo significado, não apenas de parte de compõe o todo e que será desvendada, mas de algo divino, como se fineza fosse atributo das ações divinas que serão repassadas e atualizadas neste discurso; assim, fineza passa a ser também um nexo equívoco de agudeza.

IHU On-Line - Como foi o processo de escolha dos catorze sermões que inspiraram o trabalho e por que eles foram os escolhidos?
Diana Maziero -
Foi considerando estes aspectos peculiares da retórica seiscentista que procedi a escolha dos sermões, após uma leitura atenta da obra de Vieira (Sermões). Assim, todos os catorze sermões escolhido para se estudar o conceito de “fineza do amor”, segundo a invenção retórica mobilizada por Vieira, têm algo de especial com relação à ocorrência do termo. Na maioria deles, o termo refere-se à ação exaltada como a mais elevada daquele discurso (e até por isso aparece a ocorrência fineza do amor várias vezes naquele texto). Foi curioso observar como, ao longo de alguns sermões, o termo assume um posto elevado e depois é emulado por outra ação que assume o conceito de fineza do amor. O texto de Vieira é tão vivo que é como se os próprios argumentos se mobilizassem per si e ação começasse no mesmo momento em que se inicia a leitura. A cada vez que o lemos, pode-se perceber sentidos novos e ainda mais profundos para este conceito de fineza do amor nestes sermões. O que é comum em todos eles é que, independentemente de terem ocorrido uma ou 75 vezes (como no caso do “Sermão do Mandato” (1650), em que fineza é objeto de uma curiosa disputa retórico-divina), para todos estes sermões, esta ocorrência foi, senão central, fundamental para o rumo que os argumentos tomaram na vertiginosa maquinaria argumentativa do Padre Vieira. Assim, foram escolhidos três núcleos principais de sermões: sendo o primeiro composto por quatro dos seis “Sermões do Mandato”, identificados pelo ano de sua pregação (1645, 1650, 1655 e 1670); o segundo por três “Sermões da Primeira Sexta-Feira da Quaresma” (1644, 1649, 1651); e o terceiro por sete dos onze “Sermões à Glorificação de São Francisco Xavier”, a saber: “Segundo”; “Terceiro”; “Sétimo-Doudices”; “Oitavo-Finezas”; “Nono-Braço”; “Décimo-de sua Canonização”; “Undécimo-de seu Dia”.

IHU On-Line - Pode explicar a expressão “a fineza do amor”, utilizada para falar do teatro sacro-retórico-exemplar de Vieira? Em que consiste esse conceito?
Diana Maziero -
Nestes sermões, aparecem dois tipos de amor: o amor humano e a amor divino, sendo o primeiro classicamente descrito como eros ou e o segundo, como ágape. Em termos bem gerais, o que distingue um amor de outro é que o primeiro é sempre de um para o outro, é uma relação binária entre dois seres humanos; o segundo, por sua vez, diz respeito a um amor trinário e, por isso mesmo, aberto à participação de todos, como prega o versículo do Evangelho de João “amai-vos uns aos outros como eu vos tenho amado”, que é objeto da maioria dos “Sermões do Mandato”; aliás, este é o mandato (mandamento) do amor, sobre o qual versam os sermões. Assim, a noção de amor ocupa um papel central nestes sermões, particularmente no “Sermão do Mandato” (1645) - em que Vieira aponta as ignorâncias do amor humano e justifica, assim, por que o amor humano não é perfeito; e, em contrapartida, demonstra que Cristo amou os homens sabendo e, por isso, de forma perfeita. O amor humano assume um status bem delimitado, donde é possível reparar na atualidade das observações de Vieira acerca do amor humano. Assim, ele pondera que o amor humano é imperfeito porque ignora, desconhece (do latim nesciens) um destes quatro preceitos do amor: desconhece a si mesmo; ou desconhece o próprio amor, confundindo-o com outro sentimento; ou desconhece a quem ama, então não amaria esta pessoa se a conhecesse; e, por fim, desconhece o próprio fim em que vai parar, amando, metendo-se em empreitadas que prejudicam aquele que ama (o exemplo bíblico desta parte é o de Sansão e Dalila). E não é assim que os homens agem até hoje? Obviamente, como é um texto sacro, o objetivo é redirecionar o amor dos fiéis, mostrando como Cristo amou os homens sabendo (sciens) o que era o amor, conhecendo a si mesmo, como divino e humano ao mesmo tempo, conhecendo os homens e conhecendo o fim onde iria parar amando (a cruz). Por isso, seu amor é fino. É assim, intrinsecamente entremeada numa peça retórico-sacra, que aparece a noção de fineza do amor; se, algumas vezes, ela significa o mesmo que agudeza, em outras, significa “perfeição da coisa”, ou, ainda, significa as duas coisas, sem prejuízo de nenhum dos significados. O que é constante neste conceito é que, em primeiro lugar, está sempre aplicado ao amor divino, principalmente ao do Cristo; em segundo lugar, mas não menos importante, “fineza do amor” descreve sempre um sacrifício: seja o de morrer na cruz, seja o de ausentar-se dos homens, entre outros dos muitos elencados em todos estes catorze sermões; em terceiro lugar, mas não menos importante, ao contrário, o conceito de fineza do amor encerra um movimento retórico, uma agudeza que Vieira descobre aos olhos do público quase no último instante. Neste sentido, é exemplar o “Sermão do Mandato” (1650), em que Vieira pondera qual é a mais fina das finezas do amor de Cristo, analisando os atos de Cristo e seus sentidos de fineza entre si, argumentando que, para cada fineza mobilizada, ele diria outra maior. Desse modo, ele emula (supera) as finezas ditas por Santo Agostinho, para quem a maior fineza de Cristo foi morrer pelos homens; por Santo Tomás de Aquino, cuja opinião é a de que a maior fineza de Cristo foi deixar-se para os homens no Sacramento; e por São João Crisóstomo , que afirma que a maior fineza de Cristo foi ter lavado os pés dos discípulos. Como Vieira supera cada uma delas, deixo ao leitor mais curioso que desvende o próprio texto. Por último, faço uma citação das finezas, que exemplifica minimamente como elas aparecem nos sermões e que cada vez são proferidas segundo um lugar argumentativo, a depender de qual seja o argumento final, falando sobre o fato de Cristo ter lavado os pés dos discípulos, inclusive de Judas: “A fineza do amor mostra-se em igualar nos favores os que são desiguais nos merecimentos: não em fazer dos indignos dignos, mas em os tratar como se o fossem” (S.M. 1650 – IX; p. 357, volume IX de Sermões).

IHU On-Line - Como aparece a influência política de Vieira em seus sermões?
Diana Maziero -
Como vimos, até aqui, que há vários nexos coexistindo no texto de Vieira, a dimensão política não deixa de estar presente também nestes sermões, embora não tão explicitamente como em outros (por exemplo os compilados sob o título de Escritos políticos e históricos por Alcir Pécora), em que Vieira aconselhava reis a tomarem decisões. Ainda que Vieira não seja explícito sobre ações políticas, todos estes sermões dirigem-se a um público pelo menos mais seleto, no sentido tanto de erudição quanto de poder, sendo alguns mesmo proferidos, na Capela Real, para o rei D. João IV de Portugal, no período áureo de influência de Vieira, que vai da sua chegada na corte em 1641 até a morte do rei em 1656. No entanto, este aspecto da oratória de Vieira não foi abordado neste trabalho e merecia ser mais bem estudado para que a resposta a este questionamento fosse mais precisa.

IHU On-Line - Como podemos classificar os sermões de Vieira do ponto de vista literário? Ele buscava ser claro e não obscuro, mas lidava, antes de tudo, com a construção barroca, através de uma apurada retórica e uma sofisticada construção lingüística. Como seus ouvintes recebiam esse alto nível de erudição? Hoje, Vieira continua a ser influente?
Diana Maziero - Enfim, invertendo a ordem dos esclarecimentos, cabe ainda acrescentar que Vieira opera um sermão sempre a partir da consideração bíblica em latim, explicando-o e discutindo-o às vezes até palavra por palavra, de modo que todo seu público apreenda o sentido geral de sua pregação. Ainda que mais uns que outros entendam esse sermão, ainda que um sentido ou outro fique mais claro ou menos para determinado ouvinte, a pregação de Vieira é universal, pelo menos para aqueles que o ouvem ou lêem. Desse modo, depende do ouvinte/leitor relevar a retórica, a argumentação sacra, o aspecto político ou prosaico em cada excerto. De fato, todos eles estão presentes, ainda que em diferentes proporções em cada peça retórica, formando uma peça única, cujos diversos significados até hoje tentamos apreender, valorizando este ou aquele aspecto em detrimento dos demais. Mas quem faz isso é o próprio leitor, pois eles aparecem todos no mesmo texto, tecido de finos fios. A propósito, em relação à classificação literária dos autores deste período, é mais usual o adjetivo seiscentista porque descreve o modus operandi deste período; enquanto o termo barroco foi pejorativamente utilizado pelos autores do período subseqüente, a partir da descrição que se dava às pérolas imperfeitas, ou barrocas.

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