Edição 244 | 19 Novembro 2007

Invenção

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

IHU Online

Editoria de Poesia

O poeta, tradutor e ensaísta Leonardo Gandolfi nasceu em 1981, no Rio de Janeiro. Fez o curso de Letras e o mestrado em Literatura Portuguesa na Universidade Federal Fluminense (UFF). Realiza o doutorado na mesma universidade, com um projeto que relaciona as obras de Carlos de Oliveira e João Cabral de Melo Neto, e trabalha como professor de Literatura Portuguesa na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Seu livro de estréia se intitula No entanto d’água (Rio de Janeiro: 7Letras, 2006). Com alto influxo metalingüístico, seus poemas, no entanto, não caem no lugar-comum de remeter apenas à linguagem, mostrando um teor existencial interessante. Trabalha habitualmente com um verso mais longo, embora suas imagens também sejam resolvidas num verso sintético, lidando, constantemente, com elipses e uma sintaxe entrecortada por linhas de pensamento distintas. Gandolfi dialoga, com, por exemplo, as poesias de Marianne Moore e de William Carlos Williams, principalmente quando trabalha com figuras de animais, como o elefante, o cão, a tartaruga, os peixes e os pássaros, juntando a isso uma visão onírica infantil, misturada a cores. Veja-se, por exemplo, o seguinte poema, inédito em livro: “O coágulo ao fundo daquilo que fica / conforma-se à matéria do lagarto / e ao seu interior raio de ação / Como contraponto / a criança levanta-se da bicicleta / / Em jejum / o lagarto procura na respiração / a sede e o sábado com que abre a flor”. Também percebe-se uma poesia de sentido amoroso, sobretudo nas duas primeiras seções do seu livro de estréia, No entanto d’água, em que Gandolfi lida com imagens do corpo feminino. No poema “Desvão”, inédito em livro, Gandolfi escreve: “Dentro de tal nome / porque não sei como / a casa é mais que isso / Vermelho e sem cor / o abraço bem-vindo / na espera do atraso / desses passos dados / calçados em vão / Alguém te convida / - entrar é preciso / [...] / No corpo fechado / da felicidade / enquanto e por isso / a casa é aberta / Deixadas aqui / como quem espera / devagar as sílabas / tocam toda a flor - / mediatriz da mesa / em franco dispor”.
O poema a seguir, enviado especialmente à IHU On-Line, faz parte de seu novo livro, com título ainda indefinido.

 

O jogador de xadrez de Maelzel


Porque no jogo, o adversário, sempre suposto, nada mais
faz que repetir antecipadamente as nossas principais jogadas.
Muitos pensam em desistir. Uns porque não entendem
as regras, outros porque nunca acreditaram nelas.
Devagar, por favor, ainda falta um pouco, dizia.
As 16 peças, cada uma com seu próprio movimento,
digamos, seus próprios interesses. Comigo, parece,
também é assim, sempre assim. Estamos parados.
Ação. Mas é tarde. De novo, 64 casas até que. Semana
que vem a gente vê. Boa noite. Boa noite. As mesmas
jogadas, repetidas e antecipadas pelo oponente, provocam
aquilo a que um dia demos o nome de traição, de ternura,
como quiser. Pode anotar. Depois disso, só mesmo
um provérbio zen: encontrará a vida aquele que a perder.
Alguém viu minha caneta? deixei aqui. Nisso assobiamos
uma canção de anos atrás, sempre achei que um verso
ali tivesse a ver com a idéia da sombra ou, pelo menos,
com algo da própria circunstância do jogo. Traduzido,
esse verso ficou assim: o 1 é um número dividido.
Talvez. Na Pérsia, na Turquia, não me lembro, também
jogam assim, o tabuleiro e um pouco mais de discrição.
Do outro lado do mundo, no quase inverno de um Rio de
Janeiro avesso a invernos: quem sabe, imobilidade não
coincida exatamente com falta de movimento. Eu pensava
na vitória e na derrota igualmente. Noutras vezes já tinha
tentado, também sem sucesso, esse tipo de estratégia.
Porque no jogo, o adversário, sempre suposto, nada mais
faz que antecipadamente repetir as nossas principais jogadas.
Todos, os amigos sobretudo, me advertiam para jogar assim
ou jogar assado, porque a vida era uma só. Costumo escutar
muito as pessoas, as mais próximas principalmente, por isso
o jogo agora, espero, é mais franco, diegético e sincero:
o tabuleiro, o 2, o 11 e o provérbio estão aí para provar isso.
Ainda assim, talvez exista uma pequena ligação entre
as jogadas de hoje e as lágrimas de ontem, as mesmas
que evitávamos com sorriso ou com um longo e dissimulado
bocejo. Devagar, por favor, ainda falta um pouco. De novo, 64
casas até que eu reconheça no adversário as minhas hesitações, dizia.
A propósito, uma boa partida é jogada contra si ou como se.
Boa noite. E se erramos, foi por isso. Juventude, reprise, espera.

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição